O mundo viciado em apostas, por Bianca Santana

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Precisamos deixar de tratar as bets como fonte de receita ou entretenimento

Bianca Santana, Doutora em ciência da informação, mestra em educação e jornalista. Autora de “Quando me Descobri Negra”.

Folha de São Paulo, 02/06/2025

É nos Estados Unidos que o fenômeno das apostas esportivas online alcança mais pessoas. Desde que a Suprema Corte autorizou, em 2018, que cada estado decidisse sobre a legalização da prática, 38 estados permitem apostas online. A projeção a é de que o mercado alcance US$ 45 bilhões por ano.

O entusiasmo econômico dos grandes números, no entanto, não mitiga os danos as pessoas que apostam. Pesquisadores da Universidade da Califórnia analisaram dados de 7 milhões de americanos e constataram que, nos estados onde as apostas são legalizadas, houve piora significativa da saúde financeira da população. A pontuação de crédito caiu, os índices de inadimplência cresceram, o acesso a crédito diminuiu. Os impactos foram mais intensos entre jovens do sexo masculino, moradores de regiões de menor renda. Algoritmos, marketing e falta de perspectiva combinados para atingir quem já vive sob pressão.

Na Alemanha, uma coalizão de centros de pesquisa e universidades também alerta para os riscos das bets. O Atlas dos Jogos de Azar mostrou que 29,7% dos apostadores apresentaram algum grau de dependência. Ainda assim, 17 dos 18 clubes de futebol da Bundesliga foram patrocinados por casas de apostas. A discussão sobre restringir a publicidade avança, acompanhada da constatação de que os mais afetados são, mais uma vez, homens jovens e pessoas com histórico de migração.

Na Argentina, uma pesquisa realizada com mais de 7.000 adolescentes e jovens de 15 a 29 anos revelou que 22% já apostaram online. Entre esses, 25% disseram ter usado dinheiro que deveria ter outro destino —alimentação, transporte, estudos. O vício em apostas entre jovens pobres, que veem nos jogos não só um caminho de ganho financeiro, mas também de pertencimento, reconhecimento e desejo, se alastra como sintoma da ausência de perspectivas individuais e utopias coletivas.

Sem a regulamentação dos Estados, não há saúde nem física nem financeira possível quando, de um lado, há empresas com tecnologia sofisticada, campanhas multimilionárias e acesso irrestrito aos dispositivos móveis, e do outro, jovens em situação de instabilidade afetiva, econômica ou psíquica expostos a promessas de sucesso imediato.

Bélgica, Itália, Espanha e Reino Unido vêm adotando medidas desde a proibição completa da publicidade e do patrocínio esportivo até restrições de horário e proibição do uso de cartão de crédito para apostas.

O Brasil, que também legalizou as apostas em 2018, e regulamentou condições em 2025, já é o terceiro maior mercado do mundo. A recente suspensão de empresas que têm descumprido as normas é muito importante, assim como a recente aprovação no Senado da restrição de propagandas de bets.

Preocupante é a tributação das bets ter sido citada por membros do governo brasileiro como possível medida para equilibrar as contas públicas —alternativa para o provável recuo no aumento do IOF.

Precisamos deixar de tratar as apostas como fonte de receita ou entretenimento e reconhecê-las como um desafio internacional, que exige regulação rigorosa e políticas públicas de proteção a quem mais tem a perder.

 

Lula na presidência dos BRICS, por Paulo Nogueira Batista Júnior

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Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 30/05/2025

Os BRICS configuram o único grupo de países capaz de se contrapor ao G7 e de oferecer alternativas concretas à desordem patrocinada pelo Ocidente

Posso voltar a falar de BRICS? Já escrevi muito a respeito, provavelmente demais. É que sou talvez o único brasileiro a ter participado das atividades do grupo, continuamente, desde o seu início em 2008 até 2017, o que justifica manter vivo o meu envolvimento no assunto.

Em 2025, há uma razão muito mais forte para voltar ao tema – a presidência brasileira dos BRICS. Temos agora uma oportunidade única, que não voltará tão cedo. Com a ampliação dos membros do grupo – de 5 para 10 países – só daqui a 10 anos o Brasil voltará a exercer a presidência. Não podemos desperdiçá-la.

Infelizmente, não parece que a presidência brasileira vá produzir grandes resultados. Posso estar errado, espero que esteja, e talvez seja cedo para dizer.

Mas a verdade é que governo brasileiro não está politicamente forte. Entre outros motivos, porque se vê infestado de quadros que têm ou pouca ou nenhuma identificação com os BRICS e mantêm ligações prioritárias com EUA e Europa (a famosa quinta-coluna). O Itamaraty, por exemplo, com algumas exceções, vem sendo dominado pela burocracia e pelo carreirismo.

A Fazenda se omite, com o ministro Fernando Haddad se ausentando frequentemente do assunto. O Banco Central sempre foi um obstáculo para os BRICS. Gabriel Galípolo pode mudar isso, mas uma coisa é o novo presidente da instituição, outra a máquina pesada e inflexível do Banco Central. Do Planejamento, nem preciso falar – com exceção de Márcio Pochmann, no IBGE, o que temos lá é uma coleção de neoliberais, todos referenciados à agenda Ocidental.

Há outras exceções, claro, tanto na Fazenda como no Itamaraty (e mais na primeiro do que no segundo ministério). Há exceções, também, na assessoria do Presidente da República. Na Fazenda, uma nova geração de brasileiros faz o possível para vencer as barreiras internas ao avanço do grupo. Porém, essa nova geração não ocupa postos de muito destaque no Ministério e fica, portanto, limitada em sua capacidade de influir.

Erro na fixação da data da cúpula e como corrigir

Um problema foi a decisão clamorosamente equivocada de fazer a cúpula dos BRICS no início de julho, o que arrisca reduzir a presidência brasileira a apenas seis meses – tempo insuficiente para fazer avanços significativos. O motivo foi a percepção do governo brasileiro de que o Brasil não conseguiria organizar duas grandes reuniões no final de 2025 – a COP 30 e a cúpula dos BRICS…

Meu Deus do céu! Lamentável, por pelo menos duas razões. Primeira: subestima a capacidade do País – por que admitir que duas reuniões nos deixariam sobrecarregados? Segunda razão: a COP 30, salvo melhor juízo, terá pouca utilidade prática – será provavelmente mais uma oportunidade para repetir chavões sobre a crise climática, sem repercussão prática. Lula e outros líderes farão os discursos e os apelos de praxe que passarão imediatamente ao esquecimento.

Já os BRICS são a principal força de contestação do status quo internacional. É o único grupo de países capaz de se contrapor ao G7 e de oferecer alternativas concretas à desordem patrocinada pelo Ocidente.

O que fazer então?

Duas coisas. Primeira: deixar claro na cúpula de julho de 2025, no Rio de Janeiro, que ela é uma etapa intermediária da presidência brasileira, que continua no segundo semestre com reuniões ministeriais, de xerpas e de assessores – aproveitando inclusive as diversas ocasiões em que representantes dos 10 países dos BRICS se encontram por outros motivos (reuniões do FMI e do Banco Mundial ou da ONU, por exemplo).

Deveria haver um outro encontro dos líderes dos BRICS em 2025!

Segunda coisa, e mais importante: deixar claro, desde logo, que o Brasil pretende presidir um segundo encontro de líderes do grupo em novembro, em paralelo à cúpula do G20 na África do Sul. Isso permitiria completar a presidência brasileira e, em seguida, passar o bastão à Índia, o próximo país a exercer a presidência dos BRICS.

A maioria dos países dos BRICS são também membros do G20 (caso do Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e Indonésia). Os demais (Egito, Etiópia, Emirados Árabes e Irã) poderiam ser convidados a comparecer como parte do outreach que sempre se faz nas presidências do G20.

Burocratas no Itamaraty ou na Fazenda podem levantar objeções, alegando por exemplo que seria algo inusitado e complicado. Não é verdade. Foi o próprio Brasil, graças à presidente Dilma Rousseff, que criou a tradição de realizar encontros dos líderes dos BRICS à margem da cúpula do G20.

O primeiro foi em Cannes, em 2011, por ocasião da cúpula na França. Na ocasião, eu estava lá e dou testemunho de que havia dificuldades aparentemente insuperáveis. A ideia fora lançada pelo Brasil, mas a China e a Índia não se entendiam sobre quem deveria convocar a reunião. Diplomatas brasileiros, entre eles o então ministro Antônio Patriota, me explicaram que não seria mais possível fazer a reunião. Eu respondi: “mas então o Brasil convoca”. Ninguém aceitou a ideia.

Logo em seguida, eis que chega a Cannes a presidente Dilma Rousseff (os líderes sempre chegam na última hora nas cúpulas). Confrontada com o “impasse”, disse imediatamente: “então eu convoco a reunião”. E assim foi. A primeira reunião desse tipo ocorreu sob a presidência brasileira e correu muito bem. Fiquei com fama de ter grande influência sobre a presidente Dilma Rousseff, eu que mal tinha contato com ela.

No ano seguinte, em 2012, tivemos novo encontro desse tipo em Los Cabos, por ocasião da cúpula do G20 no México. Dessa vez, houve inclusive um comunicado dos líderes dos BRICS. Aí a dificuldade era com a Índia que não queria colocar na mesa a ideia da criação de um fundo monetário dos BRICS. Graças a uma explosão da presidente brasileira, a Índia cedeu e foi lançada a negociação do Arranjo Contingente de Reservas, uma ideia a que ela se afeiçoara. (Dilma Rousseff exagera, mas sabe fazer certas coisas…)

Depois tivemos reuniões do mesmo tipo em várias ocasiões, por exemplo: em São Petersburgo, Rússia (2013), em Brisbane, Austrália (2014), em Antália, Turquia (2015), em Hangzhou, China (2016), em Hamburgo, Alemanha (2017), em Buenos Aires, Argentina (2018) e em Osaka, Japão (2019) – sempre à margem das cúpulas do G20.

Repare, leitor ou leitora, que essas reuniões ocorreram mesmo nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, menos inclinados a atribuir importância aos BRICS. Em 2019, o Brasil exercia inclusive a presidência dos BRICS em pleno governo de Jair Bolsonaro.

O governo Lula ficará aquém?

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de Estilhaços (Contracorrente)

O código do capital, por Eleutério F. S. Prado

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 Eleutério F. S. Prado – A Terra é Redonda – 26/05/2025

Comentário sobre o livro de Katharina Pistor

O objetivo desse escrito é fazer uma resenha do livro O código do capital: como a lei cria riqueza e desigualdade, de Katharina Pistor, professora de direito da Universidade de Columbia. Mesmo tendo a pretensão de fazer leitura amigável do escrito, não é possível superar uma dificuldade: ela aborda essa potência que move a sociedade moderna não apenas como economista – o que seria normal dada a sua especialização –, mas também sem ter em conta o que a tradição de economia política pensa sobre ela.

Como o título já mostra bem, a sua preocupação central é a elevação da desigualdade de renda e riqueza que vem ocorrendo desde os anos 1980; eis o dado que ela mesma apresenta logo no início do livro, o qual foi retirado do World Inequality Report de 2018: entre 1980 e 2017, 50 por cento população mundial recebeu apenas 12 por cento da riqueza criada nesse período; por outro lado, um por cento capturou 27 %. Para explicar essa tendência recente, ela menciona que as explicações dos economistas são bem insuficientes.

Para encontrar uma explicação melhor, ela parte da seguinte pergunta: “como a riqueza é criada em primeiro lugar?”. Curiosamente, para dar uma resposta para essa questão, ela não se fia em qualquer teoria da produção, como faria um economista clássico, marxista, neoclássico, austríaco etc. Questionando a sua suposta resiliência do capital, ela completa assim essa primeira indagação: “como o capital frequentemente sobrevive aos ciclos econômicos e aos choques que deixam muitos à deriva, privados dos ganhos que antes obtinham?”

E aqui é preciso fazer uma citação mais longa: “A resposta a essas perguntas, sugiro, está no código legal do capital. Fundamentalmente, o capital é feito de dois ingredientes: um ativo e o seu código legal. Eu uso o termo “ativo” amplamente para denotar qualquer objeto, reivindicação, habilidade ou ideia, independentemente de sua forma. Em sua aparência não adulterada, esses ativos simples são apenas isso: um pedaço de terra, um edifício, uma promessa de receber pagamento em uma data futura, uma ideia para um novo medicamento ou uma sequência de código digital. Com a codificação legal correta, qualquer um desses ativos pode ser transformado em capital e, assim, aumentar sua propensão a criar riqueza para seu(s) detentor(es)”.

2.

Uma análise crítica dessa resposta mostra o seguinte: ela separa mal, por meio de uma abstração do entendimento, a forma social (um momento do capital propriamente dito que é, então, reduzido a um direito garantido pelo Estado) de seu suporte material (uma máquina, uma tecnologia, um título etc.); em sequência, usando um termo corrente da contabilidade financeira, designa genericamente esse suporte de ativo. Ao fazê-lo, confunde a forma social com o suporte dessa forma, caindo assim no fetichismo da mercadoria.

Ora, ativo é forma contábil de certas mercadorias que aparecem no balanço das empresas. Trata-se, pois, de uma noção que pressupõe já a realidade social criada pelo próprio sistema capitalista; como se sabe, ele é assim definido: “Em contabilidade financeira, um ativo é qualquer recurso de propriedade ou controlado por uma empresa ou entidade econômica. É qualquer coisa que pode ser usada para obter rendimento. Os ativos representam o valor de propriedade que pode ser convertido em dinheiro”. Ativo, portanto, é já sempre um modo de existência de capital.

O capital, como se sabe ou se deveria saber, aparece sob múltiplas formas porque é um “sujeito” social, ou seja, existe sempre como um processo de autoconstituição, ou seja, como valor que se valoriza. Como tal, ele é expressão de relações sociais entre partes em que uma delas ganha mais-valor e a outra entrega esse valor.

Como foi dito, ao construir uma nova teoria do capital, Katharina Pistor assimila a forma social capital ao código legal que supostamente garante o direito à valorização possível e valorização efetiva a medida que ela acontece. Fechando o argumento, ela chega a atribuir ao próprio código a capacidade de criar (sic!) riqueza, quando deveria ter dito que o direito intitula o seu possuidor a obter uma parte da riqueza que é criada na economia capitalista e que, como já foi dito, está constituída por uma coleção imensa de mercadorias, as quais, como se sabe, são ao mesmo tempo valores de uso e valores de troca.

E se registre neste momento da exposição que há dois tipos mercadorias: as comuns cujo suporte material consiste de valores de uso que atendem alguma necessidade humana e social nas esferas do consumo e da produção como tal e as promissórias (ou financeiras) cujo suporte material consiste de um “papel” ou registro contábil (escriturado de algum modo), os quais atendem necessidades do próprio capital; neste segundo caso, o valor de uso do suporte consiste em ser mero suporte da forma social que ele sustenta.

O que é importante apreender é que as mercadorias em geral, em ambos os casos portanto, são formas aparentes da relação de capital. Como essa relação existe em processo, ela se manifesta por meio de formas aparentes e transitórias – mercadorias comuns, mercadoria dinheiro e mercadorias promissórias – que costumam ser apreendidas erroneamente como capital por excelência.

A teoria aventada por Katharina Pistor, que peca pela falta de rigor na apreensão do seu objeto, tem, contudo, uma finalidade bem especifica. Ela quer encontrar a fonte da enorme concentração da renda e da riqueza na sociedade contemporânea para poder encontrar os meios de melhor contrariá-la. Ao situá-la na forma jurídica, ou seja, na produção de códigos que supostamente transformam os ativos em capital e os protegem, ela propõe um ativismo jurídico que os cerceie e que, ademais, dê suporte aos códigos que forjam os direitos sociais e humanitários.

Tem esperança de que esse ativismo torne possível instituir na sociedade uma contraposição eficiente e eficaz à predominância dos direitos que constituem o capital e que estariam conspirando contra a democracia e a boa sociedade.

Eis pois, em suas palavras, o seu projeto teórico e político: “Por meio deste livro, espero lançar luz sobre como a lei ajuda a criar riqueza e, ao mesmo tempo, desigualdade. Rastrear as causas raízes da desigualdade se tornou extremamente importante não apenas porque os níveis crescentes de desigualdade ameaçam o tecido social de nossos sistemas democráticos, mas também porque as formas convencionais de redistribuição por meio de impostos se tornaram amplamente ineficazes”.

Bem, é verdade que as transformações sociais passam e se consolidam por meio de uma nova superestrutura jurídica. Mas elas não se se originam aí; como bem se sabe, elas provêm de mudanças substantivas das próprias relações sociais, algo que não acontece sem os movimentos sociais, sem a ação política das classes sociais, sem que se abalada a hegemonia das frações mais poderosas da sociedade.

Eis que as classes em associação e em confronto – dominantes e subordinadas – passam da potência à existência efetiva no próprio processo pelo qual ocorrem as lutas políticas, configurando-se como tais.

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Da lógica da crítica da economia política (Lutas Anticapital).

 

Declínio e retomada do financismo nos EUA, por Spencer Brown.

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Livro oferece inspirado resumo das profundas transformações no sistema financeiro norte-americano. Explica, desde a crise de 2008, o poder total às “três grandes” gestoras de ativos, que fundem controle financeiro e industrial. E como a esquerda pode reagir

Spencer Brown – OUTRAS PALAVRAS – 30/05/2025

Em The Fall and Rise of American Finance, Stephen Maher e Scott Aquanno argumentam que a crise financeira global de 2008 (doravante: CFG), e a subsequente reestruturação do setor financeiro dos EUA, ultimaram uma mudança fundamental no capitalismo americano. O que antes era um sistema financeiro centrado nos bancos agora se transformou – por meio da própria crise e da resposta regulatória do Estado dos EUA – em um sistema dominado por grandes empresas de gestão de ativos, como as “três grandes”: Blackrock, State Street e Vanguard.

Essas grandes empresas, com trilhões de dólares em ativos sob gestão, possuem agora imensas quantidades de patrimônio corporativo dos EUA e exercem um excessivo poder de investidor nas cúpulas corporativas. De acordo com os autores, essa mudança que põe as empresas gestoras de ativos como “proprietárias universais” do capital social total dos Estados Unidos é uma nova forma de “capital financeiro” tal como conceituado por Rudolf Hilferding.

Em outras palavras, trata-se de uma fusão de finanças e indústria que rompeu de modo fundamental com a estrutura institucional do New Deal para gerenciar o relacionamento entre corporações financeiras e não financeiras. Esta é uma tese provocativa, com sérias implicações não apenas para a compreensão da trajetória do capitalismo americano, mas também sobre a estratégia que a esquerda deve adotar na formação de uma política da classe trabalhadora na era dos grandes gestores de ativos.

Para Maher e Aquanno, o surgimento pós-2008 das gestoras de ativos como um novo capital financeiro deve ser apresentado num contexto histórico adequado. Para esse fim, eles separam o capitalismo americano dos séculos XX e XXI em quatro fases distintas: capital financeiro clássico (1880-1929), gerencialismo (1929-1979), neoliberalismo (1980-2008) e novo capital financeiro (2008-presente). De acordo com os autores, cada um desses períodos forma um ciclo distinto de declínio e crescimento, com cada fase correspondendo a uma forma organizada específica de poder corporativo, estatal e de classe.

Eles usam essa periodização para combater vários argumentos políticos da esquerda que acreditam serem baseados em raciocínios históricos defeituosos. Significativamente, os autores criticam a alegação comum de que a “financeirização” capitalista começou durante a era neoliberal. Em vez disso, eles colocam suas origens diretamente na era do gerencialismo imediatamente pós-Segunda Guerra Mundial. Eles argumentam que já nesse período as corporações não financeiras começaram a financeirizar internamente suas operações, desenvolvendo assim mercados de capitais internos dentro da própria corporação industrial.

Essa atenção histórica aos detalhes surge como um dos pontos fortes do livro. Maher e Aquanno oferecem um poderoso resumo das profundas mudanças e continuidade dentro do sistema financeiro americano ao longo do século XX. Trata-se de um relato que também pode ser contado através das lentes do que Hyman Minsky chamou de “estrutura de passivos” do capitalismo avançado (Minsky, 1992). Essa estrutura pode assumir a forma de dívidas ou ações – um complexo de compromissos financeiros que são simultaneamente mantidos como ativos nos balanços de diferentes unidades econômicas.

O conceito de Minsky de uma estrutura de passivos fornece uma maneira útil de complementar e expandir a periodização histórica de Maher e Aquanno, que começa com a era do capital financeiro clássico de Hilferding (1880-1929). Nesse período de formação, a economia dos Estados Unidos se consolidou e começou a ser cada vez mais definida por uma fusão estrutural de instituições financeiras e grandes corporações industriais, tudo sob o olhar auspicioso do estado burocrático emergente.

O que Maher e Aquanno querem mostrar – de fato mostram – é que as finanças foram fundamentais para o desenvolvimento econômico americano do século XX. Os autores procuram aproveitar as lições livro III de O Capital e do Capital Financeiro de Hilferding na análise das finanças para investigar como essa fusão americana de finanças e indústria foi organizada em torno de uma rede de acumulação centrada em bancos. Essa fusão se refletiu na estrutura de passivos do período, já que o capital financeiro clássico envolvia a transformação contínua do capital bancário em capital industrial, especificamente por meio de bancos de investimento que detinham grandes quantidades de ações corporativas em seus próprios balanços.

Bancos de investimento como o J.P Morgan & Co. assumiram esse papel hegemônico alavancando sua posição única como geradores de dinheiro de crédito e subscritores nos mercados de capitais. Crucialmente, os autores argumentam que esse entrelaçamento de bancos e propriedade acionária leva a “uma interconexão distintamente de longo prazo entre o capital bancário e industrial que constituía o capital financeiro. […] A fusão industrial-financeira e a visão de longo prazo eram, em outras palavras, dois lados da mesma moeda” (Maher e Aquanno, 2024, 41).

Os autores mapeiam como essa fusão industrial-financeira, que acabou com a mudança regulatória da Grande Depressão, renasceu posteriormente após a CFG na forma das grandes gestoras de ativos. Eles destacam as principais transformações na estrutura de comando do capitalismo americano ao longo dos períodos gerencial (1930-1979) e neoliberal (1979-2008) que levaram a esse momento crucial. As imensas mudanças provocadas pela Grande Depressão deram a sentença de morte do capital financeiro clássico, à medida que o estado regulador do New Deal afastou os bancos da governança das corporações industriais.

O principal exemplo desse novo marco regulatório foram as leis bancárias de 1933 e 1935, que separaram as funções dos bancos comerciais e de investimento, limitando assim a conversibilidade do capital bancário em ações. Os bancos comerciais não podiam mais subscrever ou ser formadores de mercado nos mercados de capitais privados; os bancos de investimento, por sua vez, não podiam mais atuar como instituições de recebimento de depósitos. Os autores argumentam que tais mudanças regulatórias ao longo do que eles chamam de período gerencialista levaram a uma “fragmentação das participações acionárias”, concedendo assim aos gerentes industriais autonomia dos ditames do sistema bancário (2024, 71).

Essa autonomia, contudo, chegou também ao fim com a transição para o período neoliberal, quando o capitalismo americano adotou o que os autores chamam de estratégia de “acumulação baseada em ativos”. Essa mudança estava ligada ao surgimento de grandes investidores institucionais e à integração de fundos de pensão no ecossistema financeiro maior de bancos comerciais e de investimento. Sob a acumulação baseada em ativos, a propriedade de ativos financeiros como tal torna-se o objetivo; assim, o sistema financeiro é reorganizado em torno da negociação contínua de ativos no mercado.

Os autores argumentam que essa estratégia de acumulação produziu uma característica fundamental do período neoliberal, qual seja ela, a concentração simultânea da participação acionária nos balanços patrimoniais dos investidores institucionais, juntamente com a fragmentação do sistema financeiro geral em diferentes mercados especializados. Além disso, o processo de “securitização” transformou cada etapa do processo de concessão de empréstimos em uma atividade de mercado distinta realizada por empresas financeiras com fins lucrativos. Essa foi a nova estrutura de responsabilidade do capitalismo neoliberal que evoluiria até a crise financeira de 2008.

Tudo isso leva à tese principal do livro de Maher e Aquanno: a resposta gerencial dada à crise de 2008 produziu a CFG, o que redundou na ascensão das três grandes gestoras de ativos já citadas, inaugurando assim a era do Novo Capital Financeiro (2008-Presente). Os autores mostram como as intervenções estatais durante a crise não apenas estabilizaram o sistema financeiro, mas também o consolidaram em torno de um novo “estado de risco” – uma extensão do poder do Estado que sustenta certas classes de ativos específicas e as põem à prova de risco. Isso sustenta uma infraestrutura abrangente das finanças baseadas no mercado.

Como escrevem os autores, “o novo ‘estado de risco’ formado neste período criou uma capacidade do Estado de mitigar e absorver o risco financeiro para manter as taxas de juros baixas; ora, isso também levou a um período prolongado de inflação dos preços dos ativos e alimentou a virada para fundos de investimento ‘passivos’ administrados pelos “três grandes”. Isso, concluem, equivaleu a uma “reestruturação histórica do poder corporativo” (2024, 147).

Assim, a concentração sem precedentes de patrimônio nos balanços patrimoniais da Vanguard, BlackRock e State Street constitui a estrutura de passivos do novo capital financeiro. Assim como na época de Hilferding, instituições financeiras imensamente poderosas detêm diretamente o patrimônio das corporações industriais, uma fusão nova de finanças e indústria para o século XXI.

Maher e Aquanno fazem várias afirmações importantes sobre esses novos gestores de ativos, algumas mais controversas do que outras. Primeiro, os autores argumentam que os gestores de ativos organizam dois circuitos de capital-dinheiro, um que conecta as famílias às corporações e outro que conecta as corporações a outros atores do sistema financeiro, como fundos de cobertura (hedge funds). No circuito das empresas familiares, os gestores de ativos compram ações/obrigações e gerem ativos em nome de grandes investidores institucionais, direcionando assim o capital para as empresas e os retornos para as famílias.

No circuito de financiamento corporativo, as gestoras de ativos ajudam a redistribuir dinheiro dentro do sistema financeiro por meio de fundos mútuos do mercado monetário e seu papel de fornecimento de liquidez nos mercados de recompra tripartites. Para os autores, ambos os circuitos destacam o papel funcional que as grandes gestoras de ativos desempenham nesta era, o que significa que não podem ser descartados como meros apêndices parasitários de setores mais produtivos.

Mais controverso, os autores argumentam que a ascensão de grandes gestores de ativos aumentou a competitividade geral do capitalismo. Eles afirmam que “a competitividade está embutida na estrutura da forma atual de capital financeiro”. Argumentam que as empresas de gestão de ativos intervêm na governança das empresas mantidas em seu portfólio com o objetivo de aumentar a competitividade no nível da empresa. Isso contrasta fortemente com os escritos de Benjamin Braun sobre o “capitalismo de gestão de ativos”, onde se argumenta que a concentração da propriedade de ativos suprimiu a competição capitalista (Braun, 2021).

Maher e Aquanno criticam ainda Braun por argumentar que os gestores de ativos não têm interesse direto no desempenho das empresas individuais em seu portfólio. No entanto, essas duas críticas a Braun, embora importantes para enquadrar futuros debates sobre a economia política das finanças, permanecem inconclusivas. As evidências fornecidas por Maher e Aquanno (a hipótese de que divergências nas carteiras das gestoras de ativos incentivam a intervenção para aumentar os retornos competitivos) não refutam definitivamente o argumento de Braun, o que significa que pesquisas futuras serão necessárias para esclarecer a relação precisa entre os gestores de ativos e a concorrência corporativa.

A partir da tese de que surgiu um novo capital financeiro, os autores tiram várias conclusões políticas sobre o futuro da política da classe trabalhadora. Mais importante ainda, os autores argumentam que o novo capital financeiro não constitui um “bloco financeiro liberal” que permite um compromisso de classe com os interesses políticos da classe trabalhadora. Maher e Aquanno estão convencidos de que os trabalhadores não podem se aliar à alta finança para atingir metas como expansão fiscal, programas sociais robustos e atenção às questões ecológicas.

Ao mesmo tempo, os autores também argumentam que os trabalhadores não podem se aliar ao capital industrial contra um setor financeiro supostamente “parasitário”. Isso ocorre porque a globalização capitalista entrelaçou profundamente os interesses das finanças e da indústria. Ora, isso significa que uma parte da classe capitalista não pode ser jogada contra um outra parte. Em vez disso, os autores postulam a necessidade de controles de capital para disciplinar o capital como um todo e criar espaço para ganhos políticos da classe trabalhadora.

A mensagem final do livro de Maher e Aquanno é que a esquerda não deve apenas entender as finanças, mas também democratizá-las. Este slogan de uma “democratização das finanças” é sua visão política para a política socialista dentro do atual período do Novo Capital Financeiro. Com esse slogan, Maher e Aquanno não querem dizer que a esquerda deva simplesmente pedir que as três grandes gestoras de ativos sejam nacionalizadas e colocadas sob propriedade pública.

Em vez disso, eles argumentam que a democratização das finanças requer que o controle social seja estabelecido sobre um conjunto maior de instituições, incluindo essas gestoras e o sistema bancário tradicional. Além disso, a democratização das finanças requer uma transformação maior do próprio Estado, uma vez que Maher e Aquanno acreditam que esta é a única instituição capaz de realizar uma transição para uma economia democraticamente planejada. O fato de que a democratização das finanças permanece inseparável das lutas pelas instituições estatais serve como um poderoso lembrete de que o sistema financeiro pós-2008 não pode ser analisado isoladamente dos órgãos reguladores do governo dos EUA.

No geral, A queda e ascensão das finanças americanas é uma intervenção muito necessária nos debates sobre a estrutura das finanças contemporâneas. A combinação de amplitude histórica e atenção cuidadosa à conjuntura atual constante do livro o torna uma adição bem-vinda aos campos da crítica da macro finança e da economia política marxista. Em suas páginas, os leitores encontrarão uma narrativa envolvente que esclarece onde o capitalismo americano esteve e para onde está indo atualmente. Maher e Aquanno escreveram um livro sofisticado sobre finanças para um público popular, um feito raro e que merece ser lido e discutido por economistas e ativistas de esquerda.

Spencer Brown é doutorando no Departamento de Economia da New School for Social Research

Referências

Braun, Benjamin2021. “Asset Manager Capitalism as a Corporate Governance Regime.” In The American Political Economy: Politics, Markets, and Power, ed. Jacob Hacker, Alex Hertel-Fernandez, Paul Pierson and Kathleen Thelen. Cambridge University Press.

Maher, Stephen, and Scott Aquanno.2024. The Fall and Rise of American Finance. Verso.

Minsky, Hyman.1992. “The Financial Instability Hypothesis.” Levy Economics Institute Working Paper No.74.

 

Desafios nacionais

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Vivemos momentos interessantes, preocupantes e cheios de desafios, marcados por transformações econômicas, alterações políticas, novos modelos produtivos, exigências constantes de atualizações e capacitações cotidianas, incremento de tecnologias que alteram os comportamentos humanos, valores e relações sociais, impactando sobre empresas e todas as organizações sociais, além de posicionamentos variados enquanto Estados Nacionais.

Vivemos numa sociedade que estimula o crescimento das inovações tecnológicas, seus ganhos são substanciais, aumentando a eficiência do sistema econômico e produtivo, fortalecimento das áreas médicas com a cura de doenças anteriormente vistas como incuráveis, uma verdadeira revolução na medicina e na prevenção dentre outras variadas vantagens que trazem ganhos substanciais para a comunidade internacional.

De outro lado, percebemos desafios que exigem uma unidade e consenso entre os grupos sociais, para isso precisamos nos debruçarmos sobre o crescimento das desigualdades, o incremento da exclusão social, a devastação do meio ambiente, o aumento dos conflitos militares e seus gastos estratosféricos, somente no ano passado, a indústria bélica mundial gastou mais de US$ 2,3 trilhões  em armamentos, gastos militares, beneficiando poucos grupos em detrimento de uma pobreza crescente e exclusão social em ascensão, impactando não apenas países pobres e subdesenvolvidos, mas cidadãos de nações ricas e desenvolvidas, gerando uma verdadeira degradação da sociedade global, tão tecnológica, dotada de riquezas inimagináveis e, ao mesmo tempo, dominada por pobrezas e exclusões crescentes.

Neste cenário de grandes transformações mundiais encontramos o Brasil, um exemplo de variadas contradições que perduram durante séculos, um país notadamente rico, dotado de inúmeros recursos, clima propício, vasta vegetação, riquezas minerais, população marcada por dinamismo e grande flexibilidade, além de um grande espaço geográfico. Em contrapartida, percebemos ainda, grandes desafios políticos para que consigamos alçar um local de crescimento sustentável vislumbrando um desenvolvimento econômico que inclua todos os grupos sociais e melhore as condições de vida da população nacional.

Nos anos setenta do século passado, o Brasil era visto como uma nação de destaque, muitos especialistas acreditavam que éramos o país do futuro, suas vantagens comparativas nos cacifavam para um futuro mais grandioso e, desta forma, o século XXI nos traria crescimento econômico, pujança produtiva e o aumento de oportunidades para todos os grupos sociais. Infelizmente este sonho não se efetivou, perdemos espaço na economia global, a distância entre os grupos sociais aumentou, os mais ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram cada vez mais pobres, neste momento, os desafios brasileiros cresceram de forma gigantesca.

Dentre os grandes desafios precisamos elencar alguns mais imediatos, reduzir a pobreza extrema que degrada a sociedade e fomenta a violência urbana, investimento maciço em educação, afinal não existe desenvolvimento sem educação de qualidade para todos, recursos garantidos para a pesquisa científica e tecnológica, fortalecimento das vantagens competitivas, estimular o aumento do valor agregado dos produtos exportados, reduzir a burocracia que trava investimentos cruciais para o crescimento da economia nacional, criar instrumentos macroeconômicos para reduzir as taxas de juros que, neste patamar, impedem os investimentos produtivos e estimula os ganhos dos rentistas e financistas que ganham com este quadro de degradação nacional. Em poucas palavras, como nos ensinou o maior economista brasileiro, Celso Furtado, os grandes desafios nacionais não são econômicos, como muitos acreditam, são claramente desafios políticos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel de Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor universitário.

A desigualdade subsidia as elites? por Michael França

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História do Brasil é a de um presente aprisionado no passado

Michael França. Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford.

Folha de São Paulo, 26/05/2025.

O problema não está apenas na desigualdade de renda, mas também na de influência. A elite econômica não concentra só patrimônio, mas também determina prioridades políticas e financia as campanhas que desenham o Estado. Um Estado que supostamente deveria garantir equidade, mas que frequentemente se dobra aos interesses de quem pode pagar mais por sua atenção.

É assim que os vencedores do passado legam aos seus descendentes não apenas riqueza, mas também os meios para seguir vencendo, com o poder da influência, redes de proteção mútuas e um Estado moldado para manter quase tudo como está. Essa engrenagem se mostra com nitidez quando olhamos como a desigualdade do presente foi moldada pelo passado, em um arranjo que se apoia, por exemplo, em uma ampla base de trabalho pouco valorizado, que sustenta, com esforço diário, o conforto daqueles que possuem maior renda.

A ampla oferta de mão de obra pouco qualificada e mal remunerada garante à elite acesso a serviços baratos. Domésticas disponíveis sete dias por semana, entregadores pedalando sem proteção social, motoqueiros se acidentando pelas ruas da cidade, babás que gastam mais tempo com os filhos dos outros do que com os próprios filhos e cuidadoras que dedicam a vida ao cuidado dos idosos, enquanto seguem sem saber se, um dia, alguém cuidará delas com a mesma devoção.

Tudo isso reduz o custo de vida dos mais ricos. Em países desenvolvidos, um estilo de vida confortável como esse costuma exigir arcar com um custo maior pelo tempo do trabalho dos outros. Neles, o Estado tem um papel redistributivo importante e há uma sociedade que, ainda que com falhas, costuma reconhecer o valor de quem serve. No Brasil, a desigualdade subsidia o privilégio e as elites dificilmente pagam um valor justo por aquilo que consomem.

Mas, veja… Não foi por acaso que temos uma grande massa de trabalhadores pouco qualificados. Ao contrário de outras nações que enxergaram na educação um caminho para formar cidadãos e fortalecer instituições, o Brasil preferiu manter a escola longe dos mais desfavorecidos.

Desde o Império até o século 21, a história educacional do país é menos uma marcha rumo ao progresso e mais uma crônica da contenção. A contenção de uma elite que jamais considerou prioridade formar o povo.

Até durante a ditadura militar o discurso da integração pelo desenvolvimento não passou de retórica. O ensino foi massificado, mas também esvaziado. Gerou uma educação voltada para bater continência à hierarquia social. Professores desvalorizados, escolas sem infraestrutura adequada e currículos que reforçam um modelo de sociedade baseado na obediência à desigualdade ainda dão a tônica de nosso sistema educacional.

Hoje, mesmo com avanços pontuais, o Brasil ainda é prisioneiro desse passado que faz com que a elite viva de um país que trabalha para ela. Sua riqueza não é um acidente. Em muitos casos, pouco tem a ver com o esforço. Ela é o resultado de uma estrutura social construída para sugar energia de baixo e concentrar dividendos no topo.

 

 

Curso de Gestão Hospitalar – Fatec Barretos, 2025

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A revolução do óbvio, Túlio Augustus Silva e Souza.

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É difícil desconstruir o imaginário de que o bem-sucedido financeiramente é um ente divinal; deslumbramento com bilionários é chaga nacional

Túlio Augustus Silva e Souza, Professor e doutor em sociologia (USP)

Folha de São Paulo, 26/05/2025

Um confiável termômetro sobre o desatino de uma época é a capacidade de seus contemporâneos de se entorpecerem diante de uma simples obviedade. Se, como reza o ditado, em terra de cego quem tem olho é rei, vale acrescentar que, em palco de maluco, quem junta lé com cré vira gênio. Em tempos normais, o óbvio só consegue ser banal. Mas, na era do descalabro, o truísmo pode adquirir status de verdade revelada.

Nessa segunda categoria se insere a pregação de Abigail Disney, herdeira de fortuna e sobrenome que dispensam apresentações. Em entrevista à Folha (“Precisamos parar de idolatrar os ricos, diz herdeira da Disney “, 5/5), a cineasta filantropa, que visitou o Brasil recentemente, disse algo que vem a calhar nestes tempos aziagos. Segundo ela, o mundo precisa parar de idolatrar os ricos, achando que eles sabem mais. Atentemo-nos: cifras demais não necessariamente são neurônios a mais.

Com a autoridade de quem já doou US$ 70 milhões de sua fortuna e diz ter encontrado na filantropia uma felicidade que seu dinheiro antes não comprara, Abigail lidera uma organização de ricaços a favor de uma maior taxação de fortunas. E emenda: “Todo bilionário que não consegue viver com US$ 999 milhões é uma espécie de sociopata”. Lapidar.

Mais do que o passatempo preferido de alguns ricos, o de parecer bonzinho, a exortação da neta de Roy O. Disney (que fundou a The Walt Disney Company com o irmão, Walt) é pílula de sensatez em uma época que tem naturalizado a idolatria a Bilionários, por mais que suas opiniões políticas fascistoides favoreçam tudo, menos um mundo de mais justiça e equidade.

Quando se lembra, conforme pesquisas, que na Faria Lima os nomes de “Marçais e Gusttavos Limas” despontam como líderes desejáveis, a fala de Abigail adquire o peso de uma verdade incômoda.

O deslumbramento com os Tios Patinhas da vida real virou uma chaga que a sociedade brasileira exibe orgulhosa. No Congresso Nacional, de 2025, por exemplo, é mais difícil encontrar um oposicionista defendendo a justa redução dos impostos da cesta básica, conforme preconizado pelo governo, do que um representante do povo afoito para vociferar contra a taxação de fortunas, medida adotada em todo o mundo desenvolvido. A declaração do presidente do PP, Ciro Nogueira, confessando pretender aliviar qualquer aumento de impostos para o 0,006% mais rico é uma evidência da plutofilia da elite nacional.

Noves fora a interrupção de uma sessão congressual que discute um problema coletivo para tirar selfie com a influencer Virgínia Fonseca.

Uma das tarefas mais bem-sucedidas do neoliberalismo a granel nas consciências contemporâneas é exatamente a leitura de que qualquer indivíduo que porventura tenha alcançado a riqueza o fez apenas por méritos próprios, sem qualquer vínculo ou relação com o meio, as circunstâncias ou a sociedade que o cerca. Diante desse imaginário, fica mais fácil heroicizar todo e qualquer milionário.

Acrescente-se ainda uma mentalidade difundida Brasil afora com as novas versões da Teologia da Prosperidade, segundo a qual o sucesso é sempre uma recompensa ao esforço individual. Nesse caldo cultural, portanto, constrói-se a versão idealizada de que o rico, seja ele herdeiro ou “self-made man”, é sempre um incontestável merecedor da riqueza que o precede. Na gramática moral contemporânea, enriquecer via “jogo do tigrinho” é tão louvável quanto ganhar o Prêmio Nobel.

Desconstruir o imaginário de que o bem-sucedido financeiramente é um ente divinal entre os mortais não é tarefa fácil. Corre-se sempre o risco de se resvalar para uma aversão tola à prosperidade, que é sim bem-vinda, obrigado. Mas o apontamento da herdeira de Mickey Mouse faz todo sentido. Estimular que os ricaços doem quantias vultosas a projetos promovedores de equidade é um ato civilizatório. Todos ganham em uma sociedade com menos desigualdade. E que os ricos comecem a se dar conta disso é uma obviedade que pode nos salvar.

Como funciona o partido digital bolsonarista, por Camila Rocha.

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A forma de organização é uma inovação política alinhada ao espírito algorítmico de nossos tempos

Camila Rocha, Doutora em ciência política pela USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Folha de São Paulo, 26/05/2025

O PL (Partido Liberal), legenda que abriga Jair Bolsonaro desde 2021, é apenas um hospedeiro institucional do bolsonarismo. Sua verdadeira organização política é uma máquina digital de poder descentralizada, com base digital e estratégias próprias, que opera à margem das regras formais da política.

Tal forma de organização é uma inovação política que nasceu alinhada ao novo espírito algorítmico de nossos tempos. Daí o nome: “partido digital”.

É o que argumentam pesquisadores do Centro para Imaginação Crítica do Cebrap (CCI/Cebrap) que, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque e o Projeto Brief, realizaram uma série de levantamentos de dados para demonstrar por que faz sentido falar em partidos digitais.

“O bolsonarismo não é apenas um grupo de apoio a um líder, mas uma forma organizativa nascida no ambiente digital, que hackeia o sistema partidário tradicional para a disputa política eleitoral”, explica Ana Cláudia Chaves Teixeira, pesquisadora do CCI/Cebrap e professora de ciência política da Unicamp. “Ao operar em paralelo, o partido digital contorna as legislações eleitorais, modos de financiamento, bem como consegue operar de maneira nova a mobilização de sua base.”

É justamente tal modo de organização política que teria permitido a hegemonia política de Bolsonaro no campo das direitas sem a necessidade de um partido próprio ou de vínculos estreitos com lideranças políticas tradicionais. E, mais importante, mantendo um discurso antissistema radical.

Desde o início de sua vida política, Bolsonaro já passou por oito partidos. A agremiação em que permaneceu mais tempo foi o PP, fundado a partir de setores da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação da ditadura militar.

Quando se tornou a principal liderança política da extrema direita brasileira, Bolsonaro estava abrigado no PSC (Partido Social Cristão). Na época, de 2016 a 2018, o partido havia começado a receber um grande influxo de jovens querendo se filiar, algo até então inédito para siglas fisiológicas de direita. A maioria se declarava fã de Bolsonaro e Olavo de Carvalho.

Para viabilizar sua candidatura à Presidência, o partido pagou um curso de media training para Bolsonaro para amenizar seu estilo agressivo. Além disso, para aproximá-lo do eleitorado evangélico, o então líder do partido, Pastor Everaldo, da Assembleia de Deus, batizou Bolsonaro, que é católico, no Rio Jordão, em Israel.

Porém a radicalidade de Bolsonaro impediu sua permanência na sigla. A gota d’água foi uma aliança com o PC do B que possibilitou a eleição de um evangélico e de três vereadores comunistas. Depois disso, o bolsonarismo tentou se organizar em um partido único por duas vezes com duas siglas: Patriota e Aliança Brasil. Foi um fracasso retumbante.

De fato, os políticos bolsonaristas dificilmente conseguem se sentir representados por qualquer uma das siglas de direita brasileiras. Afinal, ao contrário da maioria dos políticos brasileiros, os bolsonaristas mais aguerridos querem fazer a grande política. E, para disputar corações e mentes hoje, as redes são imprescindíveis, os partidos tradicionais, não.

 

As elites querem o fim da universidade pública, por João Carlos Salles

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Folha, outra vez, encampa o obscurantismo: acusa Ensino Superior de projeto fracassado, caro e cabide de empregos. Lula acena com a suspensão do contingenciamento de verbas. Mas a mobilização não pode parar em gabinetes. Exige outra definição das prioridades nacionais

João Carlos Salles – OUTRAS PALAVRAS – 23/05/2025

  1. É claro o projeto das elites conservadoras para a universidade. Com rara felicidade, a Folha de S. Pauloo sintetizou no Editorial “Não haverá dinheiro que baste para universidade públicas”, de 23 de maio de 2025, reagindo ao manifesto conjunto da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso das Ciências (SBPC) — que, com plena razão, mostraram que o contingenciamento ora definido pelo governo federal favorece o desmonte da universidade pública em nosso país.

Os redatores da Folha são competentes. Eles são capazes de enunciar, em poucas linhas, toda a pauta reacionária, que não associa a universidade a um projeto de nação verdadeiramente democrática. Sem dúvida, com seu modo característico de simular a apresentação de argumentos em texto tão somente eivado de preconceitos, a Folha de S. Paulo mostra que tem lado. É verdade que ainda o faz sem as surpreendentes bravatas de um Trump, mas ela não está mais muito distante da retórica dos governos anteriores. Assim, ao condenar o “tom catastrofista” do manifesto da ABC e da SBPC, assume ela própria um requentado tom catastrofista, bastante digno de Bolsonaro.

No Editorial, as universidades aparecem como um projeto fracassado e caro, um inútil poço sem fundo, no qual, ademais, servidores docentes e técnicos atrevem-se a fazer greves, tendo o condenável benefício da estabilidade. Para começo de conversa, a Folha considera a universidade uma repartição pública qualquer, que não teria dignidade própria nem mereceria ser protegida das intempéries da economia. As universidades, afirma o Editorial, são meros “exemplos de distorções e vícios da gestão pública”. Já vai longe aqui o momento em que até a Folha reconhecia o valor das universidades, por exemplo, no combate à pandemia.

As bandeiras reacionárias parecem brotar como se fossem óbvias, expressando preconceitos ignorantes em letra de forma: fim da estabilidade dos professores, da gratuidade do ensino e, sobretudo, da garantia do financiamento público da educação superior — medidas que sabemos inconsistentes, mas podem ter grande apelo retórico. Em suma, para a Folha et caterva, a universidade parece mais abjeta que o próprio obscurantismo. Com efeito, a próxima campanha eleitoral começa, e o lugar de produção da pesquisa e do conhecimento no Brasil deve tornar-se um alvo a ser desmontado: “Trata-se de um modelo custoso, iníquo e de baixo incentivo à eficiência, defendido à base de discurso ideológico e prática corporativista”.

  1. Temos indícios positivos de que a reação do presidente Lula vai em outra direção. A nota da ABC e da SBPC, em vez de lhe provocar engulhos como à Folha, parece suscitar o aceno de que Lula receberá os reitores e que, então, poderá até anunciar a suspensão do contingenciamento para as universidades federais.

Não poderíamos esperar outra atitude. Nesse caso, se confirmado, fica a lição para aqueles que pensam ajudar o atual governo evitando qualquer crítica. A mobilização decidida e a crítica necessária ajudam nossos governantes a não serem tragados pelas pautas reacionárias. Com isso, nossos louvores à ABC e à SBPC, bem como a quantos vocalizam a luta, tanto urgente quanto de longa duração, em defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade.

Com justa alegria, reitores já comemoram nos bastidores. Não obstante o possível alívio, parece que essa boa e justa acolhida está longe de significar uma autêntica guinada nos rumos das prioridades nacionais. Que o governo Lula não sacrifique as universidades é algo que está à altura de sua história, de seu melhor legado, pois sua política fez expandir a rede de universidades por todo país e permitiu o acesso ao ensino superior de muitos outrora sistematicamente excluídos. Faz, então, muito bem o líder que acolhe, mas não para refrear uma luta ainda mais ampla e franca pelos valores mais elevados que, aliás, no momento, somente ele pode representar.

Que os atores da cena universitária leiam os sinais. As águas se dividem, os campos se desenham. Nesse cenário de grande confronto entre projetos opostos de nação, não há de bastar o mero alívio das dores agudas das nossas instituições. Reitores não podem contentar-se com sobreviverem a seus próprios mandatos, mesmo com eventuais conquistas e algumas inaugurações. Afinal de contas, está em jogo o destino da universidade. Assim, não basta remediar, é preciso curar um mal e combater uma narrativa, cabendo à ANDIFES uma resposta firme ao Editorial da Folha.

É preciso, pois, deslocar a educação pública para o lugar de prioridade nacional, de sorte que ela contribua, inclusive, por seus essenciais serviços à nossa nação, para afastar de forma duradoura os insistentes fantasmas do obscurantismo.

Lula deve agir nesse momento de urgência, e os reitores devem, sim, celebrar sua atitude. Mas é preciso mais. A mobilização não pode parar nos gabinetes, uma vez que o governo Lula e as universidades não podem fechar os olhos para a dimensão do ataque, nem recusar esta oportunidade para afirmar, perante a sociedade, a bandeira da educação. Se as soluções não forem de grande monta, se não implicarem uma autêntica redefinição das prioridades nacionais, estaremos oferecendo para uma luta ideológica de largo espectro apenas uma saída passageira e insuficiente, porquanto marcada por sua imediatez e tibieza