Escolas do futuro são escolas ‘low tech’, por José Ruy Lozano

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Materiais físicos impulsionam habilidades motoras, criatividade e imaginação

José Ruy Lozano, Sociólogo e educador, é autor de livros didáticos e membro da Comunidade Reinventando a Educação (Core)

Folha de São Paulo, 03/05/2024

Chamou a atenção da imprensa, no ano passado, o fato de que o sistema público de educação da Suécia decidiu voltar a usar livros e cadernos físicos como material didático obrigatório no lugar de tablets e lap tops. As razões apresentadas pelos suecos são várias, mas passam pela aprendizagem da leitura e pela manutenção da capacidade de concentração dos estudantes. Em ambos os casos, os materiais físicos apresentam resultados muito melhores.

Os escandinavos não estão sozinhos. Já forma uma longa fileira a lista de países desenvolvidos que vêm progressivamente abandonando equipamentos digitais e retornando ao papel e à caneta. As autoridades educacionais desses países baseiam-se em pesquisas científicas recorrentes, que apontam não só a melhoria do rendimento acadêmico como também o desenvolvimento mais adequado de habilidades motoras e o impulso à criatividade e à imaginação, sempre melhor estimuladas pelo uso de materiais físicos nas escolas.

Não há que se imaginar a escola contemporânea totalmente desconectada do mundo digital. Evidentemente, salas de aulas com computador e conexão à internet, que permitam a exibição de materiais visuais diversos, além de espaços com equipamentos digitais para pesquisa online mostram-se indispensáveis no mundo de hoje. A tecnologia digital, no entanto, não é fetiche ou panaceia. Ela não só não é capaz de solucioná-los, como por vezes termina por ampliá-los.

Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York, publicou dados alarmantes em seu novo livro, “The Anxious Generation” (“A Geração Ansiosa”), que aborda a deterioração da saúde mental de crianças e adolescentes a partir de 2010. Quadros de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio têm aumentado dramaticamente desde então. Não à toa, é justamente a partir de 2010 que se dá a generalização do uso das redes sociais, notadamente o Instagram, difundindo-se entre os mais jovens.

Ao largo das pressões negativas do mundo virtual, que captura a atenção dos mais jovens, corrói sua capacidade de concentração e os transforma em objetos manipulados por algoritmos, educadores têm reiterado a necessidade da redescoberta das relações de proximidade e do mundo físico. Nas mais renomadas escolas do Vale do Silício, na Califórnia, onde estudam os filhos dos executivos das grandes corporações mundiais de tecnologia, há poucas telas de LED e muitas ferramentas. No lugar do computador, lápis e canetas, mas também martelos, chave de fenda, pincéis. A educação “mão na massa”, com objetos e materiais físicos predomina em relação a dispositivos eletrônicos.

Diante da revolução representada pelo Big Data e pelas inteligências artificiais, devemos nos manter firmes como educadores que visam produzir conhecimento, não apenas reproduzir o que está armazenado nas bases de dados de governos e empresas. Afinal, a educação não é apenas dar acesso a informações, mas principalmente fazer refletir e questionar a partir das informações que acessamos.

Limitando o crescimento econômico

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Vivemos momentos interessantes, acumulamos desigualdades históricas, nos acostumamos com uma degradação social que qualquer sociedade normal sentiria vergonha e ojeriza, destacamos as variadas riquezas nacionais, exaltamos o homem cordial que nunca existiu na sociedade brasileira, destacamos a fragilização da educação nacional e, ao mesmo tempo, degradamos a figura do professor, piorando as condições de trabalho e arrochando seu salário, reduzindo investimentos em capital humano e continuamos rezando pela cartilha da ortodoxia, ideias rechaçadas pelos seus criadores e, mais uma vez, ainda continua sendo um mantra dos donos do poder nacional.

No começo dos anos 1990, a economia brasileira apresentava uma inflação galopante, seus níveis degradantes levaram o governo a criar um instrumento engenhoso para controlar os preços
relativos e estabilizar a moeda. Nascia o Plano Real, que trouxe benefícios palpáveis para a sociedade brasileira, melhorando a renda agregada, facilitando a chegada de investimentos externos, aumentando a competição e melhorando o ambiente econômico. É importante destacar ainda, que para estabilizar a economia o governo abusou da política cambial, valorizando-a em excesso, aumentando sensivelmente as taxas de juros, aumentando as importações e contribuindo para fragilizar os setores exportadores e criando, infelizmente, uma elite financeira viciada em juros altos.

Com esse choque dos juros elevados, criamos uma nova capacidade de analistas econômicos, os financistas ou rentistas, especialistas nos movimentos das bolsas de valores e que pouco sabem sobre a economia real, se especializando em defender os interesses dos donos do poder econômico, grupos dotados de grande recurso monetário e forte poder político, defensores contumazes desta política de juros estratosféricos que perduram desde então, criando uma sociedade mais desigual e empobrecida, sem perspectivas, sem esperanças e sem dignidade, acreditando que o problema está sempre nos outros, defendendo interesses imediatistas, fortalecendo uma visão de mundo centrada no individualismo e dos ganhos imediatos, estimulando a polarização política, fomentando conflito entre poderes, fortalecendo demandas ultrapassadas e desnecessárias, fugindo sorrateiramente das discussões de fundo que contribuem para sermos uma sociedade mais desigual, mais violenta e marcada pela exclusão social.

A sociedade brasileira se acostumou com taxas de juros elevadas, desta forma, os investimentos foram reduzidos, o desemprego aumentou, o trabalho se precarizou e, ao mesmo tempo, elevou substancialmente a quantidade de milionários e bilionários, como atesta as publicações especializadas, pessoas que pouco produzem e sobrevivem da renda, os chamados rentistas ou financistas, que engordam rapidamente em detrimento da espoliação da sociedade nacional.

Precisamos rever os nossos conceitos enquanto nação, analisarmos nossas trajetórias históricas, repensar nosso futuro, planejar nosso presente, garantindo recursos monetários e financeiros para investimentos produtivos, juros decentes, aumentando a geração de renda agregada, tributando todos os donos do poder econômico, reduzindo subsídios que degradam as contas públicos e pouco trazem para a comunidade, reduzindo os privilégios para todos os grupos público e privado que se escondem numa sociedade em franca degradação social, política e moral para manter seus ganhos imediatos e clamar por uma suposta meritocracia que não existe em uma sociedade tão marcada pela desigualdade e pela exclusão.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário

No Dia Internacional do Trabalhador, rentismo mostra suas garras, por André Roncaglia

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Novas tecnologias elevam produtividade mas geram questões sobre desemprego estrutural

André Roncaglia, Professor de economia da Unifesp e doutor em economia do desenvolvimento pela FEA-USP

Folha de São Paulo, 02/05/2024

O Dia Internacional do Trabalhador é um emblema das lutas históricas por melhores condições de trabalho, dignidade e justiça social: a jornada de trabalho de oito horas, o direito à organização sindical e a valorização do trabalho humano.

Inspirada pela greve iniciada em 1º de maio de 1886 em Chicago, a celebração continua atual e necessária. Nos últimos 30 anos, o poder de barganha dos trabalhadores foi debelado pela globalização, pela precarização e pela automação.

As novas tecnologias (uberização, automação e robotização) aumentam a eficiência produtiva, mas levantam questões sociais e éticas relativas ao desemprego estrutural, à neutralidade racial e de gênero dos algoritmos e à desigualdade de renda. A popularidade da proposta de renda básica universal no Vale do Silício é sintoma deste temor.

Com efeito, a queda da participação dos salários na renda da economia é fenômeno global e de longo prazo, como mostram estudos da OIT e do FMI. Nos países desenvolvidos, a OCDE registrou recente supressão de salários em várias indústrias, ocupações e níveis de qualificação. No Brasil, os salários somam menos de 40% da renda total, refletindo a desindustrialização precoce, a baixa sindicalização, a desregulamentação e a alta taxa de informalidade no mercado de trabalho: 39% da nossa força de trabalho se encontra em empregos precários e de baixa qualificação.

Insensível a esses fatos, o “banqueiro central dos pobres”, Roberto Campos Neto (RCN), anunciou, em entrevista à CNN em 1º de maio de 2024, que a economia brasileira vive um surpreendente “pleno emprego”, mesmo com 7,9% da força de trabalho desempregada e com taxa de subutilização da mão de obra em 18%.

Traduzindo: para ele, uma renda média mensal de R$ 3.100 é uma exuberância incompatível com a estabilidade macroeconômica. Se a renda do trabalho continuar subindo, o Banco Central (BC) será forçado a elevar a Selic para moderar as demandas salariais —por meio de maior desemprego— e, claro, defender o retorno do capital financeiro improdutivo, com a desculpa do controle da inflação, a qual está caindo sistematicamente.

Na mesma data, os porta-vozes do rentismo defenderam a desvinculação irrestrita dos benefícios sociais com relação ao salário mínimo (SM), alegando que cada R$ 1 a mais aumenta o gasto público em R$ 388 milhões.

Em números: a elevação nominal de 6,4% do salário mínimo entre 2024 e 2025 implica elevação do gasto primário em R$ 35 bilhões. O BC pode compensar esse aumento reduzindo em mero 1 ponto percentual a Selic, poupando R$ 44 bilhões em serviços de juros da dívida pública; mas este é um debate interditado.

A desvinculação focalizada de privilégios com relação ao SM é uma discussão bem-vinda; porém, o silêncio sobre os juros da dívida e a obscena injustiça tributária contrastam com a estridência das críticas aos direitos sociais e ao esforço de reindustrialização.

O ataque coordenado ao BNDES é outro sintoma deste mal-estar do rentismo. Seu modelo de estimação de empregos mostra que, em 2024, os projetos apoiados pelo banco podem adicionar 1,5 milhão de empregos.

A combinação de queda da Selic com a atuação do BNDES e os estímulos ao investimento industrial pelo MDIC ajudam a explicar a criação de 720 mil novas de emprego apenas no primeiro trimestre de 2024. O crescimento da economia previsto para este ano já passa de 2%. Esta “agenda errada” do governo provocou, no mesmo 1º de maio, a melhoria da perspectiva da nota de crédito do Brasil pela agência Moody’s. A agência não comprou o pânico fiscal e gerou muito mau-humor na Faria Lima.

A promoção de emprego e salário dignos e o acesso à seguridade social apenas ameaçam quem teme a tributação progressiva da renda e do patrimônio como pilar central do equilíbrio fiscal. A eutanásia do rentismo é, portanto, condição para o desenvolvimento.

A luta continua!

Dia do Trabalhador para quem? por Thiago Amparo

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Motoboys passam fome e sede, e possuem o dobro do índice geral de pressão alta

Thiago Amparo, Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos e discriminação.
Folha de São Paulo, 02/05/2024

“Liberdade de contrato no trabalho inclui ambas as partes envolvidas; uma tem tanto o direito de comprar quanto a outra de vender trabalho. Não há base razoável, no que diz respeito à saúde, para interferir na liberdade contratual, delimitando as horas de trabalho.” Este é o trecho de uma das mais desastrosas decisões da Suprema Corte dos EUA. Em 1905, no caso Lochner, a Corte decidiu contra uma lei de NY que proibia que padeiros trabalhassem mais que 60 horas por semana ou 10 horas por dia.

Cento e dezenove anos depois, para setores uberizados, pouco mudou: 40% dos entregadores de aplicativos trabalham mais de 60 horas por semana. Os dados são da pesquisa da Unicamp, feita com 200 entregadores em Campinas, publicada pelo The Intercept Brasil.

Nela, ficou claro que o bico na verdade é a principal fonte de renda, que motoboys passam fome e sede, e possuem o dobro do índice geral de pressão alta. Se a esquerda não conseguir reorganizar alianças num mundo pós-emprego, esta estará fadada ao fracasso diante da ilusão, à direita, de trabalhadores precarizados como empreendedores.

Outra faceta é a pejotização, com o Supremo e tudo. Em 85% das mais de 300 ações analisadas pela USP, ministros do STF afastaram sozinhos competência da Justiça do Trabalho. Problemática também é a forma pela qual o STF decide: os togados resolvem com mais rapidez casos trabalhistas do que outros litígios (15,7% deles no máximo em um dia), indica pesquisa da FGV Direito SP.

Liberais preocupados com o déficit fiscal deveriam estar, igualmente, preocupados com o desmantelamento da base tributária e com a pejotização de quem se enquadraria como trabalhador. Acidentes de trabalho têm custo, piora na saúde mental também, desigualdade de gênero e raça empacam o desenvolvimento da economia. Quem ainda não entendeu que os padeiros de 1905 somos todos nós, inclusive a dita classe intelectual precarizada pela inteligência artificial, entendeu nada sobre o sentido do 1º de Maio.

O neoliberalismo e a hegemonia dos valentões, por George Monbiot

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O sistema entende a vida como uma luta na qual só alguns devem vencer, promovendo líderes capazes, desde a infância, de coagir, submeter e ser brutais. Não precisa ser assim. Na competição, todos somos, de algum modo, derrotados

George Monbiot – Outras Palavras – 29/04/2024

Um grande e impressionante estudo sobre o progresso das crianças na idade adulta descobriu que aqueles que promovem bullying e apresentam comportamento agressivo na escola têm maior probabilidade de prosperar no trabalho. Eles conseguem empregos melhores e ganham mais. Os pesquisadores afirmam estar surpresos com suas descobertas, mas será que elas são realmente tão notáveis? A associação de cargos de chefia com comportamentos de intimidação e domínio será, sem dúvida, um choque para muitos.

Isto não significa que todas as pessoas com bons empregos ou que dirigem organizações sejam agressoras. Longe disso. Não é difícil pensar em pessoas boas em posições de poder. O que isto nos diz é que não precisamos de pessoas agressivas para organizar as nossas vidas. Nem a boa liderança, nem o sucesso organizacional, nem a inovação, a visão ou a previsão exigem uma mentalidade de domínio. Na verdade, tudo pode ser inibido por alguém que exerce seu peso.

Seja na teoria dos jogos ou no estudo de outras espécies, você descobre rapidamente como o comportamento dominante de alguns pode prejudicar a sociedade como um todo. Por exemplo, um estudo sobre peixes ciclídeos descobriu que os machos dominantes têm “relações sinal-ruído mais baixas” (som e fúria, sem significar nada) e impactos contraproducentes no desempenho do grupo. Alguma coisa parece familiar?

Uma vitória para os agressores é uma perda para todos os outros: o seu sucesso é um jogo de soma zero. Ou soma negativa: o primeiro estudo que mencionei também descobriu que os agressores escolares são mais propensos a abusar do álcool, fumar, infringir a lei e sofrer problemas de saúde mental mais tarde na vida. Mas o triunfo dos agressores é também um resultado da narrativa dominante dos nossos tempos: durante os últimos 45 anos, o neoliberalismo caracterizou a vida humana como uma luta que alguns devem vencer e outros devem perder. Somente por meio da competição, nesta religião quase calvinista, podemos discernir quem pode ser o digno e o indigno. A competição, claro, é sempre fraudada. O objetivo do neoliberalismo é fornecer justificativas para uma sociedade desigual e coercitiva, uma sociedade onde os valentões governam.

É um círculo perfeito: o neoliberalismo gera desigualdade; e a desigualdade, como mostra outro artigo, está fortemente associada ao bullying na escola. Com maiores disparidades de rendimento e de estatuto, o estresse aumenta, a concorrência aumenta e o desejo de dominar intensifica-se.

A patologia se autoalimenta.

Os pesquisadores que conduziram o primeiro estudo sugerem, tendo descoberto que os agressores prosperam, que deveríamos “ajudar a canalizar esta característica nas crianças de uma forma mais positiva”. Na minha opinião, esta é uma conclusão errada. Em vez disso, deveríamos procurar construir sociedades nas quais a agressão e o domínio não sejam recompensados. Seria melhor que as escolas se concentrassem na dissuasão e no aconselhamento.

Mas em todas as fases de nossa vida somos forçados a uma competição destrutiva. Não somente as crianças são pressionadas repetidamente a participar de concursos de seleção, mas também as escolas. Na Inglaterra, por exemplo, com seus testes Sats e o brutal regime Ofsted, essas competições prejudicam o bem-estar das crianças e dos professores. Como sempre, a competição é organizada para permitir que os ricos e poderosos vençam. Mas, como Charles Spencer explica em seu livro de memórias sobre a vida em um internato, ganhar também é perder: os pais que mandam seus filhos para escolas particulares pagam para criar uma personalidade externa dominante, mas a criança dentro da concha pode estar distorcida em nós de medo, fuga e raiva.

Esta contra-educação é reforçada mais tarde na vida por milhares de livros, websites e vídeos de autoajuda. Por exemplo, um site e programa popular chamado The Power Moves, dirigido pelo cientista social Lucio Buffalmano, ensina “10 maneiras de ser mais dominante”. Estas incluem exercer pressão social, reivindicar território, “agredir, afirmar e punir” e dar tapas na cara. Você também pode aprender oito maneiras de dominar as mulheres, uma lição essencial porque, aparentemente, “as mulheres dormem com homens que as obrigam a se submeter”. As técnicas que Buffalmano promove incluem “segurar o rosto dela se ela se recusar a beijar você”, “empurrá-la de brincadeira para a posição horizontal”, “arrastá-la de brincadeira para a cama” e “penetrar sua mente com ‘Daddy Dominance’”.

Buffalmano afirma que quer “promover a humanidade capacitando homens bons a avançar, liderar e vencer”. O resultado mais provável é aumentar o número de idiotas. Em vez disso, deveríamos aprender a ser atenciosos, pró-sociais e gentis: resistir à dominação, independentemente de quem a exerça.

O bullying óbvio no local de trabalho não é mais tolerado de modo geral. Mas suspeito que, em muitos casos, a aparente melhora é resultado do fato de os agressores aprenderem a mascarar seus impulsos, enquanto continuam a controlar e manipular sem ultrapassar a linha do RH.

Mas o bullying ostensivo está ressurgindo na política. Trump, Putin, Netanyahu, Orbán, Milei e outros fazem pouco para disfarçar seus comportamentos de dominação grosseira. Quando Trump ficou atrás de Hillary Clinton durante o debate presidencial e quando zombou vergonhosamente da deficiência de um jornalista, pudemos ver a criança que ele era e a criança que continua sendo.

Nossos sistemas políticos – centralizados e hierárquicos – estão prontos para serem explorados por valentões. Como nos pátios das escolas de antigamente, as piores pessoas acabam no topo.

A mesma dinâmica opera em nível global. Os governos garantem a seus cidadãos que estão envolvidos em uma “corrida global”: se ficarmos para trás, outra nação nos ultrapassará. Essa história de competição de soma zero justifica todo e qualquer abuso. Ela foi usada pelas nações europeias para racionalizar a construção de seus impérios e guerras eletivas. Logo foi acompanhada por um mito egoísta: o de que a corrida pelo domínio será vencida pela “raça dominante”. Como disse Charles Darwin: “As raças civilizadas do homem quase certamente exterminarão e substituirão as raças selvagens em todo o mundo”. Por meios mais sutis, com justificativas mais sutis, as nações ricas ainda jogam o mesmo jogo: sua riqueza depende, em grande parte, da extração de outros países.

Mas enquanto a corrida unilateral entre as nações continua, corremos coletivamente em direção ao precipício do colapso ambiental. Se alguma vez houve a necessidade de cooperação e colaboração, é agora. Mas a competição reina, uma competição que todos nós estamos destinados a perder.

Em resumo, devemos parar de celebrar o comportamento coercitivo e controlador. Em todas as etapas da educação e da progressão na carreira, bem como na política, na economia e nas relações internacionais, devemos procurar substituir um ethos competitivo por um ethos cooperativo.

Esse é o aspecto surpreendente dos seres humanos, ao contrário dos peixes ciclídeos: não precisa ser assim. Podemos controlar nosso próprio comportamento, além de imaginar e criar formas melhores de organização. Por meio da democracia deliberativa e participativa, tanto na política quanto no local de trabalho, podemos criar sistemas que funcionem para todos. Não há nenhuma lei natural que determine que os agressores de playgrounds devam continuar cobrando tributos pelo resto de suas vidas.

Pochmann: As três ondas de ultradireita no Brasil.

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Do Integralismo e da “Defesa da Tradição”, nos anos 30 e 60, país chegou ao bolsonarismo – em asfixia, mas com inegável força. Governo Lula pode ser crucial para superá-lo de vez. Mas precisará evitar os erros que alimentam o extremismo

Marcio Pochmann, OUTRAS PALAVRAS – 05/06/2023

Na esfera da disputa de poder em torno de interesses e necessidades de classes e frações de classes sociais, a política resulta de uma totalidade social complexa, cuja separação ideológica entre esquerda e direita tem origem na Revolução Francesa que em 1789 marcou a formação do Ocidente Moderno. Originariamente, os delegados defensores das mudanças sociais no velho agrarismo em torno da igualdade na França durante o último quarto do século 18 se posicionaram à esquerda do rei, enquanto os representantes dos interesses de aristocratas e conservadores da época se localizaram à direita.

Assim, em geral, o espectro ideológico de direita se afirmou como reação às mudanças que possam alterar o status quo de segmentos ricos, poderosos e privilegiados no interior de cada sociedade. No Brasil, a direita extremada se constituiu mais e melhor organizada em três diferentes momentos de inflexão da história republicana nacional.

O primeiro momento se estabeleceu na crise do liberalismo que a partir dos anos de 1920 terminou por colapsar o longevo projeto agrarista, produzindo, em consequência, distintas mobilizações em torno de novos rumos possíveis para o Brasil. Com Plínio Salgado à frente da Ação Integralista Brasileira (AIB) criada em 1932, o ideário fascista de base italiana ganhou expressão nacional e encadeou o movimento cívico cultural nos meios políticos e intelectuais em resposta aos efeitos internos da Grande Depressão capitalista de 1929.

Entre 1935 e 1937, por exemplo, o Partido Ação Integralista em inédito ritmo de expansão foi considerado a maior organização fascista em operação fora da Europa. Assim como o integralismo se alastrou na década de 1930, o Partido Nazista no Brasil também ganhou dimensão expressiva, assumindo a posição de maior seção do nazismo fora da Alemanha. Ambos os movimentos populares de extrema direita buscavam chegar ao poder pela via democrática, somente interrompida pela instalação do Estado Novo (1937-1945).

O segundo momento de inflexão histórica republicana pela extrema direita no Brasil transcorreu durante a consolidação da sociedade urbana e industrial no final dos anos de 1950. Em pleno auge das tensões em torno da Guerra Fria (1947-1991) na América Latina surgiu, em 1960, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) liderada por Plínio Correa de Oliveira no combate ideológico do comunismo identificado no movimento em defesa da Reformas de Base impulsionada pelo governo João Goulart entre 1961 e 1964.

Ao mobilizar valores morais do passado agrarista tradicional, assumiu o radicalismo conservador e antimodernista na época. Com apoio político e base social organizada, a extrema direita, patrocinou e justificou, compartilhada com interesses externos, o golpe de Estado em 1964. Por 21 anos o Brasil esteve submisso ao regime do autoritarismo, somente absolvido pelo movimento de redemocratização nacional na primeira metade da década de 1980.

O terceiro momento de inflexão histórica republicana se encontra em curso assentada na ruína da sociedade industrial e mediada pela crise do neoliberalismo que passou a ameaçar também os interesses do “andar de cima” da sociedade. Nesta perspectiva, consideram-se as jornadas de mobilizações nacionais do ano de 2013 como a marca do reaparecimento público de agrupamentos de extrema direita portadores de valores morais conservadores catapultados pelas inovações comunicações e organizativas trazidas pela transição para a Era Digital.

Por seu enraizamento no interior do poder Judiciário, embalado pela força tarefa denominada por Operação Lava Jato, a extrema direita ganhou e contaminou os meios de comunicação com a pauta anticorrupção. Na mesma toada, a sua expressão nacional se materializou na alçada partidária, contaminando os poderes legislativo e executivo.

O golpe parlamentar em 2016 que inviabilizou o mandato da presidente Dilma Rousseff, aprisionou o ex-presidente Lula e asfixiou as bandeiras de luta da esquerda asfaltou a via da extrema direita que pelo voto bolsonarista nas eleições de 2018 passou a dominar tanto a presidência da República como a maioria do parlamento. Em contraponto, o movimento popular na defesa de Lula Livre foi encontrando respaldo na cúpula do poder Judiciário até assumir a reversão da extrema direita incrustada na Operação Lava Jato.

A partir daí, o pêndulo da extrema direita chegou ao seu limite, iniciando a gradual asfixia. A vitória eleitoral presidencial em 2022 permitiu a montagem do governo Lula que apequenou, sem plenamente superar, a força da direita extremada que segue ainda com inegável força no parlamento, meios de comunicação e em segmentos específicos da sociedade brasileira.

O sucesso do governo do presidente Lula constitui a essência pela qual o país poderá – de fato – se livrar do terceiro momento de inflexão histórica republicano ocupado pela extrema direita. Mas isso dificilmente significará o fim dos representantes e das organizações em defesa dos interesses de poderosos, ricos e privilegiados no Brasil.

 

 

Ambiente conturbado

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Conflitos militares, agressões verbais, confrontos políticos, ofensas crescentes, informações equivocadas, invasões de embaixadas, guerras entre Estados, degradação do ambiente, fraudes financeiras, corrupção descontrolada, incremento das desigualdades, matanças generalizadas, confrontos religiosos, violências urbanas, crescimento da fome e da exclusão social, são características evidentes do caos que impera na sociedade contemporânea, gerando incertezas, instabilidades emocionais e desequilíbrios cotidianos.

Neste cenário, percebemos que a economia internacional vem sentindo cotidianamente pressões constantes, com o aumento dos desajustes produtivos, variações nos preços de produtos fundamentais para a sobrevivência dos seres humanos, levando à medidas macroeconômicas agressivas como forma de conter os desequilíbrios que se espalham para a comunidade mundial.

Percebemos, cotidianamente, os impactos dos desequilíbrios externos da economia global que estão forçando a novos ajustes internos, aumentando o desemprego e forçando os governos nacionais ao incremento das taxas de juros, como forma de reduzir os desequilíbrios internos e impedir que a economia nacional perda dinamismo e mergulhe numa espiral recessiva, gerando aumento do desemprego e instabilidades políticas internas. Vivemos numa economia fortemente integrada, marcada por forte interdependência, centrada no crescimento tecnológico, fortemente individualista e pela busca frenética pelos ganhos monetários e financeiros.

Nesta sociedade globalizada, marcada por grande desenvolvimento tecnológico, as nações precisam construir novas formas de inserção na economia internacional, fortalecendo sua autonomia política, investindo fortemente em pesquisa científica e angariar os conhecimentos necessários para desenvolver uma complexidade econômica e produtiva, única forma de fortalecer suas estruturas nacionais, defendendo interesses nacionais e consolidar nossa autonomia.

Numa economia internacional centrada nas incertezas e nas instabilidades, estamos sujeitos a movimentos cambiais que desequilibram nossa estrutura econômica, fragilizando os setores produtivos, degradando a renda interna, exigindo taxas de juros maiores como forma de combater a inflação, desta forma, nosso comportamento econômico medíocre se torna mais caótico, postergando a recuperação econômica e incrementando uma maior insatisfação popular e de ressentimentos políticos.

Vivemos numa sociedade altamente instável, com incertezas econômicas, inseguranças crescentes, violências urbanas e polarizações políticas, neste cenário, precisamos reconstruir nossos pactos sociais e políticos, como forma de se defender deste ambiente de medos, ressentimentos e caos generalizados.

Neste momento, precisamos evitar que os conflitos externos não se espalhem internamente, para isso é imprescindível reconstruir as instituições, garantindo passos seguros para fortalecer nossa democracia, consolidando-a e garantindo para todos os cidadãos oportunidades de ascensão social, dignidade e autonomia econômica, além de efetivarmos a tão chamada meritocracia. Numa sociedade mundial conflagrada por degradações constantes, marcada por grandes transformações tecnológicas, com imensas alterações no mundo do trabalho, incremento de grandes conflitos militares, precisamos rechaçar as brigas cotidianas que crescem e se avolumam entre os poderes institucionais.

Precisamos construir maturidade para que a sociedade compreenda, que os desafios em curso na sociedade mundial devem ser vistos como um divisor de águas entre a civilização e a barbárie, esta última que, cotidianamente está visitando a sociedade brasileira e vislumbrando atrasos, violências e degradações.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia do Setor Público, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Dependência eterna

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Vivemos numa sociedade altamente integrada e interdependente, caracterizada pelo processo de globalização construído pelo incremento do capital financeiro, onde as nações comercializam produtos, bens e mercadorias em todas as regiões, as distâncias vêm se reduzindo de forma acelerada, as culturas se transformam com uma rapidez pouco vista na história da comunidade internacional e as noções de tempo estão em constante movimento.

Com o crescimento da concorrência internacional, a abertura econômica e o incremento da tecnologia estão moldando a sociedade global gerando verdadeiras revoluções na estrutura econômica e produtiva, fortalecendo grupos transnacionais e multinacionais que passam a dominar setores estratégicos da economia mundial, criando formas de dependência externa, reduzindo a soberania das nações e fragilizando os Estados Nacionais.

As novas tecnologias estão arregimentando modelos de negócios revolucionários, empresas vistas como gigantes e consolidadas em determinados setores, dotadas de grande conhecimento e vistas como detentores de alta experiência, estão sendo superadas por novos grupos econômicos, com novas formas de organização, estruturas mais enxutas, comportamentos flexíveis, ágeis e eficientes, além de grande flexibilidade e dotadas de grande desenvolvimento tecnológico, impactando o mercado de trabalho, exigindo mão de obra altamente complexo e atualização constante.

Nesta nova sociedade internacional, os Estados Nacionais estão se utilizando de instrumentos geopolíticos, protecionismos e grandes recursos financeiros e monetários como forma de defender suas estruturas produtivas, como forma de estimular investimentos internos, fortalecendo a transferência de tecnologias externas, garantindo a geração de empregos e o fortalecimento de seus parques produtivos, desta forma, conseguem manter e aumentar seus poderes políticos e seu espaço numa sociedade globalizada e fortemente interdependente.

Anteriormente, as nações subdesenvolvidas eram os exportadores de produtos primários de baixo valor agregado, vendiam no mercado internacional produtos agrícolas e minérios, angariando recursos conversíveis na economia global para comprar produtos industrializados como forma de sobrevivência. Os preços eram definidos pelas nações desenvolvidas, estes países eram os grandes ganhadores do comércio internacional, acumulavam recursos, melhoravam as condições de vida de sua população e se destacavam como detentores de tecnologias inovadoras.

Os investimentos em capital humano, a construção de um projeto nacional, além de fortes investimentos em ciência, pesquisa e tecnologia eram fundamentais para o desenvolvimento industrial e o desenvolvimento da nação, além de políticas industriais efetivas e uma atuação ousada dos governos nacionais, subsidiando projetos, protegendo setores estratégicos, cobrando eficiência, definindo metas e angariando mercados internacionais.

Na nova economia internacional, marcada pelo desenvolvimento da tecnologia e a interdependência produtiva, as nações precisam construir novos instrumentos de inserção no cenário mundial, reduzindo a dependência da exportação de produtos primários de baixo valor agregado.
A estrutura da economia internacional está fortemente concentrada no conhecimento científico, nos ativos intangíveis e as nações que negligenciarem os investimentos em capital humano e que postergarem recursos em pesquisa científica tendem a perder espaço na economia internacional, consolidando uma dependência externa e eterna, perpetuando desigualdades sociais, incrementando exclusões e violências crescentes.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

As políticas públicas para quem mora na rua, por Maria Hermínia Tavares

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Faltam eficiência e respeito à dignidade das pessoas nas ações do Estado

Maria Hermínia Tavares, Professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap.

Folha de São Paulo, 11/04/2024

Dignidade foi uma das palavras mais ouvidas no recente seminário “População em situação de rua”, no auditório da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Entre diagnósticos, denúncias e propostas de políticas, o que uniu os participantes foi a constatação de que eficiência e respeito à dignidade das pessoas têm sido o bem mais escasso nas sucessivas tentativas de lidar com um problema tão descurado pelos governos municipais e estaduais. Uns e outros, com frequência, os reduzem a uma questão de polícia —o controle do tráfico e do consumo de substâncias ilícitas— ou de zeladoria urbana —a limpeza matinal de praças e ruas que servem de desabrigo aos sem-teto.

Este o primeiro erro: simplificar o que é complexo por qualquer lado que se o focalize. Para a rua convergem pessoas levadas por amplo rol de tragédias, agravadas pela proximidade da pobreza extrema: perda de emprego ou trabalho ultraprecário, ruptura de laços familiares, uso de drogas, doenças, problemas psicológicos graves ou distúrbios mentais. Para a simplificação contribui a inexistência de um censo dessa população que a descreva em detalhe. A lacuna permite que se substitua conhecimento por estereótipos assentados em preconceitos.

O segundo erro decorre do primeiro. Não existe bala de prata para lidar com problemas complexos. Há muitas dimensões a considerar —e a assistência social, embora insubstituível, está longe de ser a única. São igualmente importantes programas de moradia, saúde, educação, trabalho e renda, destinados a segmentos específicos desse contingente. A multiplicidade de instrumentos requer dos governos municipais e estaduais capacidade de coordenação, atributo raramente encontrado no setor público.

O terceiro equívoco são as mudanças abruptas de orientação a cada troca de governo: produzem instabilidade institucional, descontinuidades de todo tipo, dificuldade de acumular experiências e aprender com elas, ruptura de vínculos de confiança particularmente importantes quando os beneficiários são pessoas que perderam ou estão por perder suas raízes.

Difícil acreditar que iniciativas para população de rua possam se firmar se não virarem políticas de Estado, capazes de sobreviver a mudanças das coalizões governantes, a exemplo de Bolsa Familia, SUS ou Fundef.

Essa transformação sempre requer programas bem concebidos e comunidades de especialistas que os defendam e logrem dar-lhes legitimidade social. Em suma, que sejam capazes de mostrar que a indignidade a que está condenada nossa população de rua torna menos dignos os que com ela convivemos.

Macroeconomia da estagnação

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Depois de um forte crescimento econômico nas décadas posteriores a segunda guerra mundial até os anos 1980, com rápido crescimento econômico, com incremento da urbanização, industrialização e melhora nos termos de troca, a partir dos anos 1990, a economia brasileira perdeu seu dinamismo econômico, convivendo com estagnação produtiva, com forte desindustrialização, com precarização do trabalho, com achatamento salarial, com aumento substancial da violência urbana e incremento da desigualdade social, culminando em uma sociedade paradoxal e fortemente polarizada, de um lado somos um dos maiores produtores agrícolas, vegetação diversificada, solo fértil, climas propício e agradável, convivendo, lado a lado, com grandes contingentes de indivíduos empobrecidos, esfomeados, sem perspectivas e sem dignidade.

Desde os anos 1990, percebemos uma estagnação econômica e produtiva, taxas de juros escorchantes, câmbio valorizado, inflação em ascensão, diminuição dos investimentos produtivos, abertura econômica atabalhoada, privatização sem planejamento e marcado por crescimento da corrupção, fragilização dos órgãos de controles institucionais, culminando num processo amplo de desindustrialização e empobrecimento nacional, marcados por uma macroeconomia da estagnação. Qual nação conseguiu se desenvolver num cenário como este?

Depois de décadas de crescimento econômico e produtivo vigorosos, a sociedade brasileira caiu no canto da sereia, aceitando uma agenda vinda de fora, se rendendo aos interesses do grande capital financeiro internacional, abraçando o Consenso de Washington, abrindo mão da soberania nacional em prol de grandes grupos econômicos internacionais, desta forma, perdemos autonomia política e aumentamos a dependência da economia mundial, somos atualmente exportadores de produtos primários de baixo valor agregado e somos importadores de produtos industrializados, dependentes de tecnologias externas e abdicamos da construção da tecnologia nacional, exportamos cérebros e importamos todos os tipos de produtos industrializados.

Se construímos empresas de telecomunicação precisamos vender esse ativo para conglomerados internacionais e desta forma, passamos a absorver tecnologias de grandes grupos internacionais, aumentando a dependência externa. Se construímos aviões comerciais com grande complexidade e eficiência, somos obrigados a vender esse ativo estratégico para grupos globais maiores para aliviar os rombos fiscais e monetários. Se construímos chips e tecnologias complexas, setor responsável por grandes conflitos comerciais entre as nações internacionais, somos tentados a vender ou a fechar este ativo estratégico e nos tornando importadores dos grandes atores da tecnologia global, aumentando nossa dependência externa.

Embora as nações desenvolvidas estejam reconstruindo os consensos econômicos, relendo os manuais de teoria econômica, retomando privatizações equivocadas, aumentando a intervenção do Estado na economia e reconstruindo subsídios para fortalecer empresas nacionais, além de defender os produtores locais, com pomposas isenções fiscais e financeiras, países como o Brasil, insistem na macroeconomia da estagnação, limitando o potencial da sociedade, aumentando a dependência externa, como vimos no período da pandemia com a criação de um rastro de destruição e desagregação social.

Numa sociedade marcada pelo desenvolvimento tecnológico, pelo aumento da concorrência e pela instabilidade crescente, as nações que se sobressaem no cenário internacional são aquelas que investem fortemente em capital humano, com recursos garantidos em pesquisa científica, preservando sua autonomia econômica e sua soberania política, além de fortalecer seu projeto de nação e, principalmente, se afastando do complexo de vira lata, tão bem retratado por Nelson Rodrigues para analisar a elite nacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.