Desigualdade aumenta o gasto social em segurança patrimonial, por André Roncaglia

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Democratização das oportunidades diminui a oferta de mão de obra ao crime e cria ambiente mais seguro

André Roncaglia, Professor de economia da Unifesp e doutor em economia do desenvolvimento pela FEA-USP

Folha de São Paulo, 22/12/2023

A América Latina é uma região violenta. Responsável por quase metade das vítimas de homicídio no mundo, ela detém pouco mais de 8% da população global. É também uma das regiões mais desiguais do planeta.
Estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, além das dolorosas perdas familiares, a criminalidade inibe a acumulação de capital. Ao afugentar investidores temerosos de roubo e violência e elevar os custos de vida e de operação das empresas, a insegurança diminui a produtividade ao desviar recursos para investimentos menos produtivos, como a segurança residencial.

O combate ao crime melhora a alocação de recursos, mas é importante atacar as suas causas mais profundas. Estudo de Daniel Hicks e Joan Hicks (2014) trouxe evidências de correlação entre criminalidade e desigualdade: regiões dos EUA em que havia maior consumo conspícuo (carros, joias, restaurantes caros etc.) também sofriam com maior criminalidade.

O Brasil é um dos países com maior desigualdade econômica no mundo. Aqui, R$ 20 de cada R$ 100 gerados correm para o 0,5% mais rico da população. A privação econômica, a concentração de riqueza e a sensação de insegurança impulsionam a necessidade de proteção patrimonial.

Pesquisa do Instituto Datafolha mostrou que a insegurança cresce com o nível de renda. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública justificam o med o: crimes contra o patrimônio, como roubos e furtos, têm aumentado nos últimos anos no Brasil.

A concentração espacial de riqueza também se relaciona a taxas mais altas de crimes contra o patrimônio. Propriedades de alto valor se tornam alvos atrativos para criminosos, o que leva proprietários a investir em sistemas de segurança mais sofisticados. Isso inclui a contratação de seguranças particulares, a instalação de câmeras de vigilância e de sistemas de alarme, com segurança particular, blindagem de automóveis, camadas de segurança cibernética contra golpes e crimes financeiros e, a partir de 2019, com armas, muitas armas.

Um trágico evento recente exemplifica este padrão. Estimulado pela política de violência pública de Bolsonaro, o empresário paranoico com sua segurança residencial disparou suas duas pistolas contra uma policial civil e estimulou seu segurança privado a fazer o mesmo. Os três acabaram mortos.

A plataforma DataViva mostra que, entre 2003 e 2021, a renda mensal neste setor cresceu de R$ 400 milhões para R$ 2 bilhões, tendo o gasto mensal direto em atividades de segurança e vigilância variado de R$ 193 milhões para mais de R$ 1 bilhão, enquanto o número de empregos cresceu de 266 mil para 500 mil.

Para a maioria da população, contudo, esta proteção não é acessível. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua mostrou que, em 2021, cerca de 1,8 milhão de brasileiros foram vítimas de roubo (1,1% da população), dos quais 63,2% eram pretas ou pardas e 38,6% das vítimas tinham até o ensino médio incompleto. A riqueza concentrada no topo gera insegurança generalizada no andar de baixo.

Problemas comuns requerem atuação do Estado. Como na saúde e na educação, a política de segurança pública não pode ser terceirizada ao cidadão comum, sob pena de gerar mais insegurança às forças policiais, tragédias familiares e má alocação de recursos na economia.

O caminho mais efetivo para combater a criminalidade é reduzir a desigualdade de riqueza e ampliar a oferta de bens públicos, via tributação progressiva e crescimento econômico inclusivo.

A democratização das oportunidades diminui a oferta de mão de obra ao crime e cria um ambiente mais seguro e equitativo para todos, não apenas para quem pode pagar.

Pacto pela Produção

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A comunidade econômica internacional está percebendo grandes transformações nas discussões teóricas nos governos, nas universidades e nos construtores das políticas públicas, onde destacamos o retorno das discussões referentes as políticas de intervenção dos governos nacionais retomando momentos de maior intervencionismo. Neste momento, as políticas protecionistas estão sendo adotadas, sempre destacando que estas políticas foram utilizadas por todos os governos nacionais como forma de estimular seus setores produtivos, uns deixando mais claras e efetivas, enquanto outras nações se escondiam em discursos surreais de uma defesa incondicional do livre mercado e da livre competição.

Neste momento, percebemos que estamos vivendo um momento interessante na economia nacional, com indicadores positivos, com melhoras sensíveis nos empregos, com queda das taxas de juros, redução da inflação, melhora nas contas externas, aumento das exportações e perspectivas positivas. Estas melhoras no campo econômico são sempre necessárias e imprescindíveis, mas precisamos entender, que os desafios são imensos e exigem esforços de todos os grupos sociais e políticos para que a sociedade enterre décadas de estagnação e baixo crescimento econômico, que trouxeram um incremento da degradação social, aumento da pobreza e da indignidade, além de facilitar o crescimento das polarizações políticas, aumentando os conflitos sociais, as violências e a desagregação.

Nos últimos quarenta anos, a economia nacional deixou de lado os grandes geradores de emprego em detrimento dos financistas e dos donos do capital financeiro, que passaram a controlar a agenda econômica, os meios de comunicação, impedindo as discussões democráticas e passaram a adotar uma pauta que garantem e perpetuassem de seu poder econômico e financeiro em detrimento da geração de riqueza real para a comunidade, controlando as autoridades monetárias, com taxas de juros escorchantes que garantem lucros e dividendos estratosféricos, com isso, percebemos uma situação surreal, uma economia estagnada, uma população endividada, desemprego nas alturas, empresas em dificuldades e bancos e sistema financeiro garantindo lucros e dividendos elevados.

Precisamos reconstruir um pacto pela produção, pela defesa da dignidade, em defesa do potencial produtivo da sociedade brasileira, estimulando os grupos que impulsionam a economia nacional, os pequenos, médios e grandes empresários, os trabalhadores das cooperativas, dos grupos econômicos vinculados as associações, os grandes produtores do campo, do agronegócio, todos aqueles que estão vinculados com a construção de riquezas nacionais, desta forma, precisamos alavancar investimentos produtivos, gerando empregos de qualidade, fortalecendo a formação e a instrução nas universidades, fomentando a ciência, a pesquisa e o conhecimento, canalizando recursos para a economia real, gerando emprego, taxas de juros condizentes e uma perspectiva de dignidade da população, impedindo um colapso social em curso na sociedade brasileira, um país imensamente rico, dotado de grandes vantagens comparativas, energias alternativas, economia verde e dotado de grande potencial de inclusão social e, infelizmente, convivendo com o crescimento exponencial dos moradores de ruas, das violências urbanas e no crescimento do mercado das drogas, das milícias e dos entorpecentes.

O predomínio da agenda dos grupos financistas e dos setores vinculados ao mercado financeiro fragilizaram uma visão de sociedade, criando uma análise imediatista, reduzindo os investimentos de longo prazo e levando os gestores privados a estimularem os ganhos imediatos e os pagamentos de dividendos elevados em detrimentos de investimentos produtivos, rechaçando o planejamento estratégico, garantindo lucros imediatos para os acionistas e fragilizando os negócios no longo prazo.

Vivemos numa sociedade paradoxal que privilegia setores que pouco contribuem para a geração de riqueza social e nos esquecemos dos verdadeiros geradores de progresso econômico e produtivo, sem estes não conseguiremos construir uma nação de cidadãos, apenas construindo consumidores.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

A lógica do capital, por Alysson Mascaro

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Alysson Leandro Mascaro – A Terra é Redonda -24/12/2023

Ao capitalismo, o Brasil já é o que deve ser. O desenvolvimento será socialista

As posições relativas dos países no desenvolvimento capitalista mundial não são devidas a incapacidades ou omissões ou ausência de vontades e de acordos suficientes para o progresso. São, fundamentalmente, posições materialmente bastantes de exploração, dominação e acumulação. Por isso, não cabe a imagem de um topo geopolítico mundial ao qual alguns países subiram por esforço e mérito, cabendo aos demais chegarem também.

A divisão de classes e as diferenças entre países e formações sociais no plano externo e interno são exatamente o modelo de reprodução social capitalista. O Brasil, mesmo sendo periférico no quadro mundial, é grande o suficiente para não poder se resolver de modo autônomo sem impactar os interesses do capital internacional, que se interpenetra de modo indissolúvel com o capital brasileiro. Nessa dialética de potência e limite, não faltaram meios econômicos, quadros nem ideias que ensejassem um pleno desenvolvimentismo capitalista brasileiro: faltam estruturas de sociabilidade.

A contradição do Brasil é exatamente a mesma contradição do capitalismo no plano mundial. Não será por melhor astúcia, acordo, suavidade, concórdia, boa razão, republicanismo, legalidade e cumprimento dos princípios constitucionais, ou por exaustão das mesmas tentativas, que o desenvolvimento estável e inclusivo então chegará ao Brasil: o erro é na forma da luta, não na arte do empreendimento. Pelo século XX, formações sociais de grande peso no mundo, como é o peso da brasileira, só cambiaram com êxito mediante revoluções socialistas.

Os casos russo e chinês dão demonstrações de refundações da sociabilidade e de suas instituições que se provaram suficientes para uma reescrita pujante de suas próprias histórias. Muito disso se deve à aglutinação social das classes trabalhadoras – via de regra forjada mediante guerras – e, em especial, pela tomada de poder autonomista e progressista que altera estruturalmente instituições como as forças armadas (no caso russo e chinês, reformuladas a partir de novo padrão, de exércitos populares) ou mesmo as funções institucionais executivas, legislativas e judiciárias (também reescritas em tais países mediante o centralismo de partidos comunistas).

Os casos de câmbio progressista dentro do sistema capitalista só se deram sob subordinação aos Estados Unidos e mediante estrito interesse geopolítico deste – Europa sob plano Marshall, Coreia do Sul e Japão como cunhas no oriente soviético-chinês. Mas o Brasil representa aos interesses dos EUA, exatamente, aquilo que já é. Tudo o que caminhar a ser distinto altera posições e sofre imediato bloqueio. E, no que tange às relações sociais internas, as classes capitalistas e os grupos dominantes do Brasil não esperam outro tipo de pujança nem se orientam pela igualdade e pelo progresso de pobres e trabalhadores, igual a qualquer outra classe capitalista e dominante de qualquer outro país capitalista do mundo.

A lógica do capital é a manutenção suficiente e ótima dos próprios padrões de acumulação já dados, ou a modulação apenas para sua ampliação. Por isso, uma transformação social progressista só pode se dar mediante as classes trabalhadoras. Sob condições capitalistas, o capital e suas instituições destroem as lutas inclusivas logo que tal processo comece a se concretizar. Somente a ruptura das formas, com novas coesões e forjas de poder, ação e interesses, conduzindo ao término da dinâmica de acumulação do capital, é capaz de reestruturar a sociedade brasileira, bem como qualquer outra sociedade.

Todas as outras tentativas, operando dentro das formas do capital, são tragadas e bloqueadas pelas próprias formas e instituições já dadas. Avista-se, para as contradições estruturais das lutas sob o capitalismo, apenas uma fresta estreita na história, a revolução que altere o modo de produção. Os câmbios socialistas são difíceis como o foram e têm sido já há quase dois séculos por muitas plagas do mundo, mas, peculiarmente, são ainda assim mais fáceis do que mudar uma sociedade da exploração para a inclusão mantendo o quadro geral das formas e instituições que só operam a acumulação e que bloqueiam o câmbio progressista. A história é aberta. A utopia é concreta. O desenvolvimento é possível. Se existir de modo vitorioso e perene, ele será socialista.

*Alysson Leandro Mascaro é professor da Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros livros, de Estado e forma política (Boitempo).
“Teses sobre desenvolvimento e capitalismo”, publicado originalmente no livro Utopias para Reconstruir o Brasil, organizado por Gilberto Bercovici, João Sicsú e Renan Aguiar. Rio de Janeiro, Editora Quartier Latin do Brasil, 202

A era da distopia, por Samuel Kilsztajn

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Samuel Kilsztajn – A Terra é Redonda – 11/12/2023

Estamos todos mergulhados no sistema orquestrado pelo despotismo da mercadoria

A população mundial, praticamente estável em 300 milhões de pessoas durante todo o primeiro milênio da Era Cristã, cresceu paulatinamente para atingir um bilhão em 1750, início da Revolução Industrial. Antes da Revolução Industrial, o que se passou a chamar de renda per capita era relativamente constante desde a Antiguidade e também diferia muito pouco entre as diversas sociedades ao redor do mundo, tanto as consideradas pobres como as abastadas.

Adam Smith, que viveu na Inglaterra no bojo da Revolução Industrial, publicou em tempo real, já em 1776, na crista da onda, a obra que marcou o nascimento da economia política, Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (abreviada para A riqueza das nações).

A Revolução Industrial alavancou a produção de alimentos, bens de consumo e instrumentos de trabalho a patamares nunca antes imaginados. Podia-se antever então uma nova era de fartura, o paraíso terrestre, a utopia realizada, em que a carestia seria completamente eliminada da face da terra.

O ano da publicação de A riqueza das nações, 1776, também marca a independência dos Estados Unidos da América do domínio inglês, a Revolução Americana. Em 1789 caiu a Bastilha e, no início do século XIX, a Revolução Francesa ganhou a Europa Continental (a Inglaterra, já em 1688, havia se livrado da monarquia absolutista, que foi submetida ao parlamento; o Império Russo, por outro lado, tendo derrotado Napoleão, manteve-se refratário às conquistas liberais e aos plenos direitos civis).

No início do século XX a Europa vivia a Belle Époque, oh là là! que não durou muito, porque estourou a Grande Guerra que poria fim à Era dos Impérios. Em meio à guerra, o absolutista Império Russo, com atraso de um século, enfim ruiu; e os impérios centrais Alemão, Austro-Húngaro e Otomano foram dissolvidos. A Inglaterra não cumpriu o ideário marxista e coube à retrógrada Rússia a instauração do socialismo, como uma forma de desenvolver a sua economia arcaica. A Revolução Industrial cunhou A riqueza das nações e a ideologia do progresso e do desenvolvimento das forças produtivas.

Durante a guerra, o exército alemão foi destroçado pela gripe espanhola, o que levou a Alemanha a aceitar o humilhante armistício, mesmo com o seu exército estacionado em território inimigo, sem que o exército dos aliados tivesse adentrado o território alemão (o que deu margem ao mito da “punhalada pelas costas”).

No pós-guerra, enquanto os Estados Unidos viviam os anos dourados da Era do Jazz, a Alemanha, submetida a pagar pesadas reparações de guerra, mergulhou em severa crise, com alto nível de desemprego, pobreza, hiperinflação e desarticulação social. Em 1924, a Alemanha conseguiu se restabelecer e seguiram-se cinco anos de relativa prosperidade, que terminou por força da grande depressão mundial de 1929.

Em 1928 o partido nazista de Hitler contava com 2,6% dos votos na Alemanha; cinco anos depois, em meio à grande depressão, ao alcançar 43,9% dos votos, os nazistas tomaram o poder, inaugurando o Terceiro Reich e se preparando para o novo embate que elevaria Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der welt, a Alemanha, Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo.

Os alemães, que primam pela eficiência, instituíram na prática as teorias racistas que dominaram a ciência e a civilização ocidental na primeira metade do século XX. O Terceiro Reich, que aterrorizou a Alemanha, a Europa e a humanidade, programado para viver por um milênio, sobreviveu por intermináveis doze longos anos, suficientes para mergulhar o planeta na barbárie.

No pós-Segunda Guerra Mundial, o Império Russo, sob a insígnia de União Soviética, reabilitado sobre uma economia planificada e um sistema político extremamente autoritário, ao lado de seus estados satélites do Leste Europeu, dividiu a hegemonia internacional com o liberal império americano e seus aliados do Atlântico Norte (OTAN), período denominado Guerra Fria.

Após o colapso da União Soviética em 1991, o império chinês, sob a insígnia de República Popular da China, igualmente reabilitado sobre uma economia planificada e um sistema político extremamente autoritário, entrou em cena para se vingar da humilhação sofrida nas Guerras do Ópio na metade do século XIX, quando a Inglaterra submeteu o longínquo e milenar império, que foi levado à desarticulação. A OTAN e o império chinês dividem hoje a hegemonia internacional.

Além da OTAN, do império chinês e do império russo, participa do cenário internacional a Organização de Cooperação Islâmica, que representa os dois bilhões de muçulmanos que vivem em países do norte da África, África Ocidental, Oriente Médio, Ásia Central e Sudeste Asiático, países que não necessariamente atuam em bloco.

Apesar da Revolução Industrial, a fantástica riqueza das nações não erradicou a miséria da maior parte da população mundial, nem os bolsões de pobreza no interior das nações mais desenvolvidas do planeta. As faculdades de “ciências econômicas” ensinam que o aumento na produtividade é acompanhado pelo crescimento e diversificação das necessidades humanas. Novos produtos e novas necessidades vão sendo criados, muito além dos básicos produtos alimentícios, vestuário e habitação necessários para a vida.

Em 2023, na Cidade de São Paulo, quando saio às ruas, fico amargurado ao ver os transeuntes passando impassíveis por inúmeras pessoas dormindo ao longo das calçadas, algumas na diagonal, enroladas nos cobertores cinzas de resíduos de fibras sintéticas que a prefeitura anda distribuindo. Plagiando Hobsbawm, penso, essa é a era da distopia.

A Revolução Industrial, que nos levaria à era da utopia, o fim da carestia para a humanidade, engendrou, ao contrário, a atual era da distopia, em que uma parafernália de novos produtos supérfluos é produzida, consumida e descartada, por uma sociedade do espetáculo, do consumo, do desperdício e da produção de lixo que convive com uma população que revira o lixo das grandes cidades em busca de alimentos e de materiais recicláveis para revenda.

Como é que os laboratórios farmacêuticos poderiam sobreviver sem fornecer pastilhas de fibras para as pessoas que enriquecem o lixo doméstico com os bagaços descartados de seu saudável suco matinal de laranja? Como é que alguém pode sobreviver sem acesso a alimentos dietéticos altamente processados e prontos para o consumo, um tênis de marca e um celular de última geração? Como é que a desigualdade no interior das sociedades e entre as nações, que foi acirrada pela Revolução Industrial, pode dispensar a produção de engenhos de segurança e armamentos para proteger os esnobes ricaços dos marginalizados amigos do alheio?

Estamos todos mergulhados no sistema orquestrado pelo despotismo da mercadoria. Quem hoje ousaria se contrapor à mercadoria, ao progresso e ao desenvolvimento econômico? Só não são afetados pela mercadoria os povos que vivem fora do sistema, a exemplo das populações indígenas do Brasil. Mesmo assim, vários indígenas abandonam suas comunidades, fisgados pelas “maravilhas” da sociedade do consumo.

O consumo supérfluo enfeitiça as pessoas com a promessa da felicidade neste lado do paraíso. Não é nem propriamente o consumo que importa, mas a perda da sociabilidade e o consequente impessoal espírito de competição. O que vale mesmo é deixar o seu vizinho de queixo caído ao ver você sair da garagem com o carrão do ano.

Não acho que a questão atinja apenas os pobres. Os ricos também são presas do sistema que faz com que sejam apêndices da mercadoria e de seu consumo; e se percam em valores mundanos em que a solidariedade humana não encontra mais lugar. Apesar da filantropia e das aparências, a artificialidade da vida dos ricos não permite que eles vivam plenamente em lugar algum, nem na estratosfera.

Além disso, não é o consumo das camadas privilegiadas da sociedade que justifica o sistema capitalista, mas sim os investimentos, o progresso e o desenvolvimento econômico. Por que será que a fantástica produção mundial nunca é suficiente para abastecer a humanidade? O destino dos pobres é passar necessidades básicas de forma a justificar os investimentos (que, contudo, ratificam a estratificação social), o progresso e o desenvolvimento econômico orquestrado pelo mundo da mercadoria.

A China, ao que tudo indica, é a herdeira do projeto civilizatório orquestrado pelo mundo da mercadoria. O império chinês, que provê e alimenta seus trabalhadores autômatos despersonalizados a serviço da mercadoria, tem tudo para ser a última fase do capitalismo, que vai arrastar consigo o império americano. O Partido Comunista Chinês, por linhas tortas, vai conseguir cumprir o seu ideal, desestruturar o sistema capitalista e enfim implodir o reino da mercadoria.

Imponentes impérios se sucederam às margens do Mediterrâneo durante a Antiguidade. Após a queda de Roma, seguiu-se a chamada Idade das Trevas, que se estendeu por todo um milênio. O capitalismo industrial, que criou “maravilhas maiores que as pirâmides do Egito”, que vem devastando o planeta e enfim açambarcou o longínquo império chinês, ainda não completou três séculos de vida.

* Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Do socialismo científico ao socialismo utópico.

Transformações globais

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Neste espaço todas as semanas fazemos reflexões sobre questões interessantes para a sociedade internacional, assuntos econômicos relevantes que impactam sobre a sociedade, comentários políticos e análises sociais que repercutem com a comunidade. Diante disso, estamos percebendo o surgimento de novos horizontes econômicos e políticos que estão ganhando relevância na sociedade mundial, como a retomada de políticas protecionistas, subsídios para setores estratégicos e novas formas de atuação dos governos nacionais, que estão crescendo e se tornando visíveis na economia dos Estados Unidos, que antes era visto como um paraíso da globalização e do livre comércio, percebemos alterações evidentes como o incremento das políticas protecionistas, abandando o livre comércio de forma pragmática para defender seus interesses econômicos e financeiros.

Neste cenário, os governos norte-americanos, desde Donald Trump e mais incisivamente o atual presidente Joe Biden, vem adotando políticas fortemente protecionistas, com o despejo de trilhões de dólares para alavancar a produção nacional, com medidas tarifárias para proteger a produção interna, atraindo grandes conglomerados asiáticos para o mercado interno e a geração de emprego local, como forma de reconstruir laços industrializantes que foram perdidos num momento de crescimento das finanças em detrimento da estrutura industrial. Essa política deve ser vista como o reconhecimento da sociedade norte-americana de que sua estrutura econômica e produtiva não é mais hegemônica e dominante no cenário global, sentindo a concorrência da economia chinesa, que como destacou o renomado jornal inglês Financial Times: “Desculpem, EUA, a China tem uma economia maior do que a sua”.

Neste momento, percebemos que a economia norte-americana que liderou a economia internacional, saindo de um cenário unipolar para uma estrutura global descrita, por especialistas, de uma sociedade multipolar, onde encontramos novos eixos que lideram a economia mundial, surgindo novos conceitos, novos valores e novos comportamentos, exigindo das nações novos conceitos, buscando novas formas de autonomia e novas formas de soberania, além de liderança e capacidade de compreender os novos desafios da sociedade contemporânea.

Todas as nações que se desenvolveram buscaram fortalecer seu capital humano, com forte investimento em educação, capacitando e qualificando sua população e criando instrumento para a competição desta nova economia internacional, centrada no mundo digital, de novas tecnologias, de novas inovações e de novas oportunidades para os cidadãos. O mundo criado e estimulado pela globalização pelos Estados Unidos está perdendo espaço para uma nova sociedade, mais protecionista, onde o Estado Nacional está ganhando uma nova centralidade, criando os instrumentos de política econômica e de política públicas para estimular seus atores econômicos e produtivos, melhorando a produtividade, gerando mais e melhores empregos, incrementando a renda dos trabalhadores e melhorando as condições de vida dos cidadãos.

Neste novo horizonte, os mitos econômicos estão sendo repensados, as ideologias perdem espaço para a realidade contemporânea, defendemos liberalismo e a livre concorrência como forma de chegar ao oásis do progresso material quando estamos no pódio maior do crescimento econômico mas, nossas atitudes e comportamentos mudam quando nos vemos ameaçados, desta forma repensamos nossas ciências e retomamos, novamente, nosso histórico de protecionismo e passamos a retomar o pragmatismo e adotamos a expressão: faça o que eu digo mas não faça aquilo que eu faço.

Neste momento, percebemos que as nações desenvolvidas estão retomando políticas estratégicas de desenvolvimento econômico, incrementando investimentos para suas comunidades, retomando empresas estratégicas, melhorando instrumentos de fiscalização e consolidando suas capacidades de regulamentação e, ao mesmo tempo, as nações em eterno subdesenvolvimento se esforçam para entregar suas riquezas para grandes conglomerados internacionais, perpetuando nossa indignidade, nossa exploração e nosso eterno subdesenvolvimento.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Comportamental, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

A quem interessa reduzir a formação básica dos jovens no ensino médio? por Cássio e Cara

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Proposta na Câmara corta 30 minutos por dia de acesso ao conhecimento

Fernando Cássio, Professor da Faculdade de Educação da USP, integra a Rede Escola Pública e Universidade (Repu) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Daniel Cara, Professor da Faculdade de Educação da USP, é coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Folha de São Paulo, 11/12/2023

Tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei 5.230/2023 que pretende corrigir a reforma do ensino médio.

Elaborado pela equipe do MEC como resultado de uma consulta pública, o texto do PL precisa ser aperfeiçoado, mas expressa o incontestável: o novo ensino aprovado a toque de caixa no governo Temer era pior do que se imaginava.

Além de amplificar desigualdades escolares, a reforma se mostrou administrativamente inviável, com escolas e redes de ensino tendo que planejar a oferta e a alocação de professores em dezenas (e até centenas) de disciplinas com pouco conteúdo científico. Maltratou a saúde física e mental do professorado e sabotou os sonhos de muitos jovens.

Milhões de estudantes que há pouco fizeram as provas do Enem não tiveram aulas durante metade do ensino médio. Eles próprios afirmam que um itinerário formativo sobre sustentabilidade envolvendo empreendedorismo com sucata ou a fabricação de tijolos não pode ser chamado de “aula”.

Entre avanços e tropeços do PL de agora, há uma disputa em torno da carga horária da chamada “formação geral básica” (FGB). A proposta do MEC é reservar, dentro das 3.000 horas letivas totais do ensino médio, uma carga horária mínima de 2.400 horas para a FGB (as 13 disciplinas escolares), que a atual reforma havia minguado para 1.800 horas.

Na Câmara, o relator designado para o PL — Mendonça Filho (União-PE)— é o ex-ministro da Educação de Michel Temer que aprovou a reforma de 2017 e já se declarou mobilizado na defesa do “legado” do ex-presidente. Ele tem o apoio de secretários estaduais de Educação para cortar 300 horas da formação científica dos estudantes. O objetivo é driblar a necessidade de contratação de professores nas redes estaduais —simplificar o currículo para baratear a educação dos mais pobres.

Uma nota técnica produzida por pesquisadores que estudam políticas de ensino médio, que também analisaram as 79 emendas apresentadas ao PL 5.230/2023, mostrou que essa redução para 2.100 horas significa retirar dos estudantes 30 minutos por dia de acesso ao conhecimento. É como se o ensino médio durasse apenas 2,7 anos nas escolas públicas, em comparação aos três anos das particulares.

Antes de defenderem o encurtamento da formação escolar nas escolas públicas, parlamentares e secretários de Educação deveriam responder quantas das aulas de física ou história eles trocariam por oficinas de “brigadeiro gourmet” nas escolas privadas de seus filhos e netos.

Dificuldade em lidar com conceitos filosóficos ou antipatia pelas aulas de biologia são comuns para jovens que ainda estão por perceber que o conhecimento que parece inútil nos torna pessoas pensantes e capazes de dar sentidos inéditos às coisas do mundo. Sim, precisamos conhecer os estados de oxidação do carbono para entender a enrascada climática em que nos encontramos. E, sim, precisamos de aulas de sociologia para problematizar mazelas que se perpetuam na mesma proporção do enriquecimento das elites nacionais.

Elites que, representadas por especialistas em educação fabricados por institutos e fundações empresariais, propuseram e defenderam a atual reforma do ensino médio, e seguem convencidas de que é preciso surrupiar horas-aula da formação científica de estudantes da escola pública para “modernizar” o currículo.

Futebol e dinheiro, por Francisco Fernandes Ladeira

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Francisco Fernandes Ladeira, A Terra é Redonda, 10/12/2023

O futebol virou negócio até nos resultados. Frequentemente, vence quem tem mais dinheiro
Segundo um conhecido ditado popular, dinheiro não traz felicidade. Entretanto, no cenário futebolístico dos últimos anos, dinheiro tem, de alguma forma, trazido felicidade; pelo menos para as torcidas dos clubes que possuem recursos suficientes para investir nas contratações dos melhores jogadores.

Não por acaso, no recém-terminado Campeonato Brasileiro, os três elencos mais caros do país – Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro – estiveram entre os quatro primeiros colocados. Além disso, o último campeão nacional não pertencente a este trio “bilionário” foi o Corinthians, em 2017.

Em âmbito subcontinental, o fato de o Brasil ter vencido as cinco últimas edições da Taça Libertadores da América também pode ser explicado pelo poderio financeiro, pois, nossos clubes, além de repatriarem jogadores que atuavam na Europa (diferentemente de argentinos e uruguaios, com bem menos recursos), têm contratado atletas que se destacam em outros países sul-americanos. Assim, ao mesmo tempo em que se reforçam, enfraquecem seus rivais.

Na Europa, onde cifras astronômicas são investidas no esporte mais popular do planeta, as diferenças entre clubes são ainda maiores. Isso reflete no fato de as principais ligas e torneios do continente serem dominados por alguns poucos clubes, como Barcelona, Real Madrid, Liverpool, Manchester City e Bayern de Munique.

Já em torneios mundiais, quando se enfrentam as principais equipes da Europa (verdadeiras “seleções do mundo”) e da América do Sul, o predomínio europeu é gritante. Afinal de contas, desde 2013, o mundial de clubes é vencido apenas por times do Velho Continente.

Isso não significa, evidentemente, afirmar que jogadores europeus são melhores do que seus congêneres sul-americanos (basta mencionar, por exemplo, que a última campeã mundial é a Argentina).

Em outras épocas, quando o futebol ainda não era tão globalizado e o poderio monetário não desequilibrava, os clubes da América do Sul, em geral, eram melhores do que os da Europa (haja vista a vantagem no número de vitórias em torneios internacionais, registrada até a década de 1990).

Lembrando o título de uma famosa música, interpretada pela cantora estadunidense Cyndi Lauper, “money changes everything” (dinheiro muda tudo). No caso abordado neste texto, muda até o futebol, já não tão “imprevisível” como outrora. Quem tem dinheiro, investe maciçamente, tem os melhores jogadores e, consequentemente, vence os principais torneios.

*Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em geografia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de A ideologia dos noticiários internacionais (CRV).

A ideologia do empreendedorismo, por Cesar Sanson

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Cesar Sanson, A Terra é Redonda, 09/12/2023

Dois séculos e meio depois assistimos ao retorno das origens do capitalismo nas relações de trabalho

O capitalismo (re)descobriu uma nova forma de organizar o trabalho sem precisar se responsabilizar com os direitos e ainda por cima com uma vantagem, transfere aos próprios trabalhadores os custos de financiamento de direitos básicos, como por exemplo a previdência social.

Ao menos dois exemplos evidenciam esta nova realidade, o primeiro é a uberização em que trabalhadores exercem o seu trabalho desvinculados da garantia de direitos; o segundo, é o contrato entre empregador e trabalhador utilizando-se do recurso do microempreendedor individual (MEI). Essa modalidade é também conhecida como pejotização. As mudanças na regulação da terceirização que não distingue meios e fins da atividade laboral e a Reforma Trabalhista, fez explodir a contratação via MEI. Em ambas as formas, o capital não assume o pagamento de direitos.

Vemos agora milhares de trabalhadores trabalhando sem direito nenhum ou tendo que financiar seus próprios direitos. A pergunta é porque os trabalhadores aceitam esta condição. Para além dos problemas estruturais do mercado de trabalho brasileiro caracterizado pela informalidade em que a falta de alternativas empurra as pessoas para a aceitação desta situação, há outras razões nem sempre tão explícitas.

Uma delas, é que estas mudanças vêm acompanhadas e sustentadas pela ideologia do empreendedorismo que parte do pressuposto que o sucesso de uma pessoa, particularmente na vida laboral, depende apenas dos seus esforços, da sua perfomance, da sua vontade, de sua perseverança e de suas intuições visionárias. Muitos creditam o crescimento das modalidades de trabalho por conta própria a esta ideologia.

Engana-se, porém, quem acha que estes trabalhadores se consideram empreendedores. Há evidências que uma porção significativa é seduzida para o labor sem direitos menos em função do discurso ideológico e mais pela pretensa autonomia que a modalidade uberização e pejotização promete.

Foi-se o tempo em que trabalho com carteira assinada e jornada de 8 horas era o emprego sonhado.

A resistência ao emprego fordista se deve a jornada de trabalho padronizada em que o trabalhador precisa estar num mesmo local pela mesma quantidade de horas diariamente e muitas vezes subordinado a um chefe ou supervisor autoritário. Este tipo de emprego garante direitos – salário regular e mínimo, férias, adicional de férias, 13º, previdência social – porém nele a autonomia é tolhida.

Há outro problema com o emprego de padrão fordista, paga-se muito pouco.
Colocado tudo na balança, entre um emprego com carteira assinada engessado e um “emprego” do tipo Uber, muitos optam pela segunda alternativa. Não é incomum em conversas com trabalhadores uberizados os mesmos afirmarem que largaram o emprego porque agora se sentem mais autônomos e ganham o mesmo ou até mais.

A adesão de milhares a uberização e pejotização do trabalho se encaixa unicamente a partir das explicações acima? É evidente que não. Assim como é evidente – as pesquisas revelam – que os trabalhadores uberizados querem direitos, porém, preservando a sua autonomia. Vem daí a resistência a “celetização” – contrato CLT – da regulação do trabalho. É crescente o número de trabalhadores que não aceitam e não querem mais trabalhar de forma subordinada.

Trata-se de uma mudança significativa no mundo do trabalho porque dessa vez o discurso do capitalismo, de que você pode ganhar dinheiro organizando a sua própria vida, encontra forte adesão entre os trabalhadores.

A luta de classes permanece, mais se tornou mais complexa.

*Cesar Sanson é professor de sociologia do trabalho do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), autor de O Trabalho nos Clássicos da Sociologia, o – Marx, Durkheim e Weber (Expressão Popular, 2021).

A dolorosa queda do Santos, por Juca Kfouri

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Nada marcará mais o futebol brasileiro em 2023 do que o rebaixamento santista

Juca Kfouri, Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

Folha de São Paulo, 10/12/2023

O menino tinha oito, nove, dez anos, e acordava cedo mesmo nas férias escolares de dezembro e janeiro para ser o primeiro a pegar o jornal na porta de casa no Itaim Bibi.

Era corintiano, mas, nos tempos em que as notícias não chegavam a jato, o garoto queria não ler nas páginas do caderno de esportes (sim, em 1958/59/60, havia caderno de esportes nos jornais) que Pelé tinha sido vendido para o Real Madrid, Benfica ou Milan, que viviam anunciando interesse em contratá-lo.

Uma criança se preocupava porque o melhor jogador de um time rival poderia desfalcá-lo.

Diga-se que naqueles tempos a seleção brasileira tinha uma importância tão grande como os tais cadernos de esportes, e, guardadas as proporções, com o time de camisas amarelas aconteceu meio que a mesma coisa.

Voltemos.

Pelé e Santos eram faces de moeda única, e torcer pelo time de camisas imaculadamente brancas, obrigatório para quem gostasse de futebol.

Porque nunca houve na história do futebol um time como aquele em seu auge, no começo da década de 1960.

O Real Madrid é o maior clube de futebol do mundo, é inegável, mas como aquele Santos que enfiou 5 a 2 no Benfica na decisão do Mundial, no estádio da Luz, em Lisboa, em 1962, jamais houve nada igual.

Os tempos passaram, e a Vila Belmiro testemunhou outros ótimos esquadrões, campeoníssimos, embora nada nem parecido.

É possível dizer que o Santos é tão grande, mas tão grande, que sua grandeza só é superada pela do Rei Pelé.

Alfredo Di Stéfano não é maior que o Real Madrid, Lionel Lionel Messi não é maior que o Barcelona, Diego Maradona não é maior que o Boca Juniors, Zico não é maior que o Flamengo etc.
Pelé, tivesse jogado em quaisquer desses gigantes, seria maior que eles.

Porque Pelé só não é maior que o próprio futebol, irmão gêmeo dele e sinônimo.

Pelé é o Pelé dos Pelés, como Michael Jordan é o Pelé do basquete e Muhammad Ali é o do boxe.

O menino cresceu, e o Santos do Rei passou 11 anos sem perder para o time dele.

Empilhou taças e mais taças enquanto o Corinthians jejuava por inacreditáveis 23 anos.

O mundo reverenciava o Santos como a nenhum outro time brasileiro então —e até hoje.

Só a camisa branca santista rivalizava em excelência com a merengue madridista. Nenhuma outra.

Resumi-la a Pelé seria, além de injusto, impreciso, até porque nada se resume em Pelé, tudo extrapola.

E Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe. E Gylmar, Cejas e Rodolfo Rodrigues. E Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos de Oliveira, Calvet, Ramos Delgado, Zito, Pagão, Jair Rosa Pinto, Clodoaldo, Edu, Giovanni e Paulo Henrique Ganso. E os Meninos da Vila, e os que vieram depois em 2002, Diego, Robinho, Elano e Neymar.

Nenhum deles, por tudo o que fizeram pelos gramados mundo afora, merece a dor do rebaixamento.

Economia Verde

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Vivemos num momento de grandes alterações em todos os setores da sociedade internacional, a globalização e o incremento da competição nas estruturas produtivas está transformando a economia global, com o surgimento de novos modelos de produção, novos negócios, novas exigências e qualificações dos trabalhadores e o crescimento da chamada economia verde, ao mesmo tempo, que as antigas formas de energia vem perdendo espaço na economia mundial, gerando incertezas e instabilidades, além das resistências dos grupos econômicos que sempre ganharam com o modelo energético atual, fortemente dependente dos combustíveis fósseis.

As transformações do sistema econômico e produtivo internacional estão moldando o nascimento de uma sociedade, exigindo políticas efetivas, consistentes, sérias e rigorosas para a construção de um novo consenso da necessidade e de uma matriz energética alternativa para dinamizar a estrutura produtivo. Esse consenso é imprescindível para a legitimação das ações da sociedade para a construção de um modelo energético mais limpo e com menor dependência dos combustíveis fósseis, mas numa sociedade marcada por grandes polarizações políticas, discursos inflamados e debates centrados em notícias falsas, este consenso, embora imprescindível, nos parece muito distante.

Somos uma nação dotada de grandes vantagens energéticas, poucas nações do mundo apresentam um potencial tão elevado como a brasileira, somos dotados de energia variada e dotada de grande conhecimento nesta área, ou seja, estamos vivendo um momento imprescindível para aproveitar essas oportunidades, reduzindo as dívidas sociais acumuladas à muitos séculos, construindo políticas públicas que possibilitem investimentos em educação, saúde e bem-estar social, desta forma, impulsionando os dispêndios em ciência e tecnologia, fundamentais para a construção de uma sociedade desenvolvida, mais igualitária e com maior autonomia no cenário internacional.

Mas percebemos que essa transformação energética apresenta grandes dificuldades estruturais, embora percebamos que a sociedade global esteja percebendo os graves desequilíbrios no meio ambiente, as alterações climáticas, o calor exagerado, o crescimento de maremotos e tsunamis, mas é imprescindível destacar que muitos setores grupos sociais e econômicos ganham com este modelo econômico e produtivo, desta forma, utilizam seu forte poderia financeiro para impedir alterações que podem reduzir seus ganhos substanciais.

Se compararmos os valores prometidos para os países desenvolvidos nos grandes fóruns internacionais na casa dos 100 bilhões de dólares para combater os impactos do aquecimento global, percebemos que essa quantia é imensamente menor do que os dispêndios das nações desenvolvidas para financiar a indústria bélica, cujos gastos militares está na casa dos 2 trilhões de dólares, recursos que poderiam retirar, em definitivo, mais de 800 milhões de pessoas que passam fome na sociedade global, segundo dados atualizados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Neste cenário, a sociedade brasileira tem todos os instrumentos para receber bilhões de dólares de investimentos produtivos, gerando empregos, melhorando a renda da população, atraindo empresas e organizações produtivas em todas as regiões, atraindo empresas que demandam energias a custos menores e não os encontram em seus países de origem. Os próximos anos são imprescindíveis para atrairmos novos investimentos, para isso, precisamos fortalecer as instituições nacionais, aumentando os dispêndios na educação e na saúde, garantindo um capital humano altamente qualificado e capacitado para compreender os desafios da era do conhecimento.

A economia verde pode abrir novos horizontes e novas perspectivas para a economia nacional, somos dotados de grandes vantagens competitivas para enfrentarmos os desafios contemporâneos, reconstruir nossa indústria é imprescindível, além de elaborar um projeto sólido de nação, exigindo sólidas contrapartidas dos grupos internacionais, investindo na educação, na pesquisa e abandonando o complexo de vira-lata que predomina a suposta elite nacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Circular, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.