Reabilitação de Confúcio é cada vez mais evidente na China, por Tatiana Prazeres.

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Partido Comunista e autoconfiança cultural favorecem valorização do filósofo

Tatiana Prazeres Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior na direção-geral da OMC.

Folha de São Paulo, 19/11/2021

Qufu é literalmente uma cidade de quarta ou quinta categoria na China. As cidades no país são informalmente classificadas em faixas, de acordo com sua importância. No entanto, em Qufu, na província de Shandong, há um museu de primeiríssimo nível, que visitei recentemente. A cidade natal de Confúcio, com pouco mais de 650 mil habitantes, é pequenina para padrões chineses, mas de um simbolismo cada vez maior para o país.

O confucionismo tem uma história de altos e baixos na China. Agora, no entanto, tem sido reabilitado pela sociedade e pelas lideranças chinesas. O Museu de Confúcio em Qufu, inaugurado em 2018, é sinal dos novos tempos. Tem mais de 17 mil metros quadrados de área de exposição (o Masp tem 10,5 mil metros quadrados).

O pensador nascido em 551 a.C. é associado a valores tradicionais do país, como a harmonia, a meritocracia, o respeito à hierarquia e à autoridade, a deferência aos idosos, além do comportamento ético. Com o tempo, valores confucionistas foram incorporados ao tecido social do país, servindo de substrato moral a uma sociedade desprovida de base religiosa forte.

Durante a Revolução Cultural (1966-1976), entretanto, o confucionismo sofreu um duro golpe. Foi visto como obstáculo à transformação social que se pretendia. O pensamento do filósofo foi classificado de conservador, retrógrado, burguês e, portanto, contrarrevolucionário —e muito. Combatê-lo era visto como essencial à causa comunista. Em Qufu, o túmulo de Confúcio e um templo em sua homenagem foram destruídos pela Guarda Vermelha.

Hoje, o partido fez as pazes com o confucionismo. Sua reabilitação ocorre gradualmente desde os anos 1980, mas foi nos últimos 15 anos que Confúcio readquiriu prestígio. Antes malditas, as ideias do filósofo passaram a figurar em discursos oficiais.

Não surpreende que o Partido Comunista, no comando há mais de 70 anos, valorize o respeito à autoridade e à harmonia social. Ao associar essas ideias a Confúcio, no entanto, o partido confere-lhes dose extra de legitimidade e valoriza o modelo político do país. Ademais, o confucionismo, além de milenar, é prata da casa —diferentemente do marxismo, importado.

Nem todas as ideias de Confúcio foram igualmente reabilitadas. A visão do pensador sobre as mulheres, em especial, é de tempos passados —e o partido sabe disso.

O resgate do filósofo fica evidente na política externa do país. Não é apenas à base de poderio econômico, tecnológico e militar que a China pretende projetar poder. Quando, em 2004, Pequim decidiu criar centros mundo afora para difundir a cultura e a língua chinesas, atribuiu-lhes o nome de Instituto Confúcio. Nenhum outro nome supera o do sábio da antiguidade em potencial de soft power para o país.

Para além da visão das autoridades, quão confucionista a China de 2021 realmente é? Muito, mais que nunca —respondeu-me uma professora chinesa. O confucionismo tem sido revitalizado na sociedade na esteira do crescimento do nacionalismo na China e das tensões externas envolvendo o país. Ganha importância com o aumento da autoestima dos chineses, com a valorização da história milenar e da cultura tradicional.

Jovens nacionalistas abraçam com gosto a ideia de autoconfiança cultural, que aliás tem outras manifestações visíveis. Volta à moda, por exemplo, o “hanfu”, o roupão tradicional chinês. O patriotismo favorece personalidades, ideias e mesmo produtos e marcas chineses. É o made in China, agora em alta.

O renascimento do confucionismo é simbólico de uma China que pensa já ter aprendido bastante com o resto do mundo.

Agora, sente-se também em condições de se promover e de ensinar. Se o museu em Qufu for indicativo da nova autoconfiança cultural dos chineses, ela é monumental.

O SUS diante da sua “janela histórica”, por Flávio Dieguez.

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Nelson Rodrigues dos Santos, um dos líderes da Reforma Sanitária, inaugura seção de artigos de Outra Saúde e sugere quatro rumos para defesa e ampliação da Saúde Pública, após a pandemia. Para ele, é hora de “otimismo da vontade”

Flávio Dieguez – OUTRA SAÙDE – 17/11/2021

Protagonista destacado da Saúde Pública brasileira e da construção do SUS, o epidemiologista Nelson Rodrigues dos Santos parece disposto, em tempos árduos, a continuar apontando caminhos na luta por esta causa. Outra Saúde publica hoje um texto cristalino, embora denso, em que ele vê uma “janela histórica” de oportunidade para retomar o projeto da Reforma Sanitária. O artigo foi publicado inicialmente pelo Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz, em 4 de outubro. Professor da Unicamp e conselheiro do Idisa – Instituto de Direito sanitário aplicado – “Nelsão” aponta o enorme atraso do Estado brasileiro na implantação de políticas igualitárias de Saúde, nas últimas três décadas. Lamenta o avanço, no mesmo período, da medicina como atividade voltada para o lucro. Mas enxerga, no novo prestígio alcançado pelo SUS durante a pandemia, a potência necessária para uma nova onda de mobilizações sociais. E propõe quatro objetivos centrais que ela deveria perseguir.

O pesquisador aponta, no artigo, os entraves persistentes à efetivação do modelo de saúde constitucional, proposto pela Reforma. Seus argumentos são muito convincentes – mas não impedem a conclusão surpreendentemente positiva – que ele emoldura no conhecido dístico do filósofo italiano Antônio Gramsci: “Pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade”. É fato que estamos imersos, especialmente no Brasil, em profundo retrocesso civilizatório. Mas em grande número de países, parece haver avanços.

Além disso, escreve Santos, a despeito da atual situação brasileira, “vale lembrar outros momentos históricos, como nos anos 1980 em nosso país, quando foi realizado, com crescente e grandiosa participação social, amplo debate rumo a um projeto de sociedade e nação, inverso ao projeto da ditadura que se extinguia”. De lá para cá, ao longo de 33 anos, não foi possível estabelecer um nível adequado de financiamento do SUS. A esfera executiva federal desconsiderou a recomendação constitucional de destinar para o sistema 30% do orçamento da seguridade social e negligenciou, desde então, oito oportunidades, ao menos, de corrigir essa deficiência.

Em vez disso, de fato, inverteu as prioridades constitucionais: deixou de gastar na capacidade do sistema público enquanto financiava – por exemplo por meio de isenções tributárias – o setor de seguros e planos privados, apenas incipiente no final dos anos 1980. No entanto, a experiência adquirida nesses anos não foi pequena, e compensou os impasses da esfera federal. Como diz Santos: “[…] a experiência acumulada da gestão descentralizada (estadual e municipal), contra-hegemônica mas junto a entidades da sociedade, academia, poder Legislativo e outras, vem compensando parcialmente o grande vácuo imposto pela esfera federal e sua influência na opinião pública”.

Notavelmente, Santos contabiliza muito positivamente o esforço feito pelo SUS no enfrentamento da pandemia, o que o tirou da invisibilidade e mostrou sua necessidade e valor às camadas da população que usualmente têm preferência pela saúde privada. Diante disso, e da conjuntura global, torna-se plausível esperar que se firmem pactos sociais mais avançados, inclusive no Brasil. A dinâmica nacional também abre espaço para avanço na democratização e em pactos federados, e para movimentos para a construção de uma “social-democracia brasileira”.

É nesses termos que o pioneiro do SUS conclui seus argumentos apontando para uma “janela histórica”: “reabrindo para mobilizações sociais, democratização do Estado [e] resgate do SUS constitucional”. Ele diz esperar quatro desdobramentos que, no estreito espaço desta nota se poderia resumir assim: elevação dos investimentos federais nos serviços públicos em todos os níveis; modernização da gestão pública em todos os níveis, visando cumprir o direito constitucional da universalidade, equidade e integralidade; regulação dos serviços privados complementares do SUS – “como se públicos fossem”; e reformulação dos planos e seguros privados, de modo a substituir seu financiamento público pelos procedimentos normais de mercado.

Brasil, vitrine do rentismo parasitário, por Márcio Pochman.

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Incapaz de gerar riqueza nova, a “elite-ralé” do país aliou-se ao bolsonarismo. Em 10 anos, inflaram suas fortunas a base de fraudes e da pilhagem do Estado. A vida de milhões foi precarizada enquanto o número de bilionários mais que dobrou

Márcio Pochman, Outras Palavras 16/11/2021

Em apenas dez anos, a economia brasileira desceu do posto de sexta maior do mundo, alcançado em 2011, para a décima terceira colocação no ranking projetado dos países para 2021. Com o decrescimento do PIB per capita na década passada acumulado em 4,7%, fica evidente o registro de que o país empobreceu, embora pouquíssimos e seletivos segmentos sociais privilegiados tenham continuado a enriquecer, sobretudo pela ascensão do sistema de pilhagem.

No ano de 2011, por exemplo, o Brasil tinha 30 pessoas com fortunas acima de um bilhão de dólares (5,5 bilhões de reais) segundo avaliação da revista Forbes, sendo que a metade delas declarou depender da herança familiar para alavancar seu patrimônio. Juntos, os 30 bilionários contabilizaram uma fortuna total estimada em US$ 131,4 bilhões, o que equivaleu a 5% do total do PIB brasileiro de 2011.

Dez anos depois, a mesma revista apontou a existência de 65 bilionários no Brasil, cujo valor total das fortunas alcançou a soma de US$ 223,3 bilhões, ou seja, 16% do PIB estimado para o ano de 2021. Enquanto o número de bilionários foi multiplicado por 2,2 vezes, o total das fortunas aumentou 70% e a participação relativa dos bilionários no PIB subiu 191% entre 2011 e 2021.

Para um país que demonstra não conseguir gerar riqueza nova, difundiu-se na borda da classe dominante a estética do dinheiro velho (Old Money), fundamentado no continuado processo de financeirização do estoque das fortunas derivadas de heranças. Acumuladas, em geral, no passado, por gerações que deixaram de existir, a linhagem atual dos enriquecidos se associa crescentemente à pilhagem do Estado como mecanismo necessário para prosseguir valorizando de forma fictícia o estoque da riqueza puída.

As reformas trabalhistas e previdenciárias, bem como a própria mudança constitucional para abrigar o teto de gastos públicos não financeiros, exemplificam o quanto a guerra de classes sociais se deslocou para o interior do fundo público. Diante da escassez de riqueza nova, a imposição de maior espaço fiscal transcorre através da pilhagem orçamentária em favor da ostentação da estética do dinheiro velho aos já muito ricos e novos enriquecidos no país.

Ao mesmo tempo, cresce de importância a cultura do “meu patrocínio primeiro” (Sugar Baby), rapidamente incorporada pela diversa classe dirigente que busca ascender, mais recentemente mobilizada por fraudes de toda natureza (titularidade acadêmica e curricular, negociatas e outros). Pelo impulso da ascensão social a qualquer preço, o país se transforma numa espécie de cercado a mercantilizar de tudo o que paira sob o sol, fazendo-o retroceder aos tempos da acumulação primitiva exercida pela pilhagem dos ativos nacionais e riquezas naturais.

É neste contexto de fortunas duvidosas e de origem controversa, em fomento por uma elite-ralé, que o lumpesinato brasileiro ganha maior dimensão, reproduzindo-se em marcha forçada. Ao contrário da classe trabalhadora que se encontra vinculada às atividades produtivas, ainda dispondo da possibilidade de representação sindical e de alguns direitos sociais e trabalhistas, o lumpesinato constitui segmento crescente da população que, descolado da geração do excedente econômico, busca sobreviver a qualquer custo possível atribuído pela captura de parte da renda de outros segmentos sociais (assalariados, autônomos e empresários).

A decomposição da sociedade brasileira, expressa pela expansão da lumpenização do mundo do trabalho, resulta da prosperidade do rentismo parasitário que converte a política nacional em mais um negócio no interior do curso geral de pilhagem nacional. O resultado tem sido a efetivação da barbárie social exposta mundialmente como vitrine de um país que acompanha docemente o rebaixamento de suas principais instituições públicas.

Numa economia em decadência como a brasileira, o encurtamento da riqueza coloca maior centralidade no Estado e, sobretudo, no seu fundo público. Por isso se dá o aparelhamento do setor estatal, crescentemente ocupado por representantes de hordas do lumpesinato que, a serviço da elite-ralé, operam o governo de plantão voltado aos seus apoiadores para atender o requisito de evitar a derrota na próxima eleição.

A desfiguração de órgãos públicos como os de controle que se domesticam para favorecer grupos dominantes também transcorre no legislativo que opera um orçamento de ficção, fingindo seguir regras, locupletando operadores de “rachadinhas”, de emendas obrigatórias e expropriação de funcionários públicos, entre outras modalidades do exercício da pilhagem. No poder público, a realidade do desmonte não tem sido diferente, com ministério travestido de balcão de negócios operados na compra de vacinas falsas e difusão de mentiras reproduzidas em plataformas e redes sociais que garantem dinheiro de publicidade e reconhecimento de seguidores.

Assim, a reprodução social assentada na delinquência mudou mais recentemente a dinâmica da política nacional. Daí o sucesso da extrema direita, que se viabiliza convertendo a política em mais um negócio rentável a consolidar a idade de ouro das fraudes no Brasil – que segue ladeira abaixo.

Inflação

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As sequelas da pandemia sobre a sociedade brasileira crescem todos os momentos, deixando claro a grande dificuldade de construirmos consensos políticos para superarmos este momento, a economia não consegue criar espaços de crescimento consistente, o desemprego ainda permanece em números proibitivos, a miséria cresce e a exclusão social se mostra cada vez mais assustadora, gerando incertezas e instabilidades que postergam as melhorias econômicas.

A inflação deve ser definida como o aumento generalizado de preços na economia, seus impactos são variados, gerando ganhadores e perdedores, diante disso, os grandes perdedores são os setores mais fragilizados, setores que não conseguem se proteger dos impactos negativos do aumento dos preços e a perda do poder de compra, gerando empobrecimento crescente. Do outro lado, dois setores ganham com o aumento dos preços, o governo e o setor financeiro. Estes setores conseguem defender seu poder de compra, auferindo lucros maiores, piorando a concentração da renda e o aumento da desigualdade entre os grupos sociais.

A sociedade brasileira conviveu com inflação durante muitas décadas, namoramos momentos de hiperinflação, gerando instabilidades, incertezas, baixa confiança e reduzindo o crescimento econômico. Com a implantação do Plano Real, em 1994, a realidade melhorou, os índices inflacionários diminuíram a níveis mais civilizados e crescimento econômico mais consistente, estimulando investimentos produtivos, reduzindo o papel do Estado na economia e criando perspectivas saudáveis e momentos exuberantes, colocando o Brasil na berlinda da economia internacional.

Infelizmente esse sonho não se efetivou, cometemos erros na condução do plano de estabilização, deixamos o câmbio se apreciar, reduzimos os investimentos produtivos e estimulamos o crescimento da jogatina financeiro, colocando no centro da economia setores marcados por baixa produtividade, com reduzida geração de emprego e que contribuíram para o processo de desindustrialização, levando o país a aumentar a dependência dos setores agroexportadores e abrimos mão de um papel mais ativo nos setores industriais. Neste momento, tornamos um grande importador de produtos industrializados, como vimos nas dificuldades de conseguirmos os insumos industriais do setor da saúde.

A inflação, anteriormente esquecida, atualmente ganha força e está crescendo em todos os setores da economia brasileira, gerando incertezas e instabilidades, degradando os indicadores sociais, reduzindo os investimentos produtivos e reduzindo a geração de empregos. Neste momento, o governo se apoia na política monetária, aumentando os juros, restringindo a moeda que circula na economia e, com isso, posterga a recuperação dos investimentos e a retomada da economia.

A inflação em curso na sociedade brasileira está diretamente ligada aos choques de custos na sociedade internacional, gerada pela desagregação das cadeias produtivas globais e pelo incremento da pandemia, impactando sobre o preço do frete externo, reduzindo a produção em decorrência da falta de insumos, como percebemos no setor de semicondutores, os chamados chips, produtos fundamentais para a economia globalizada, centrada em tecnologias avançadas, sofisticação e alta complexidade.

A sociedade precisa compreender que a inflação é também, e principalmente, um fenômeno político. Numa sociedade como a brasileira, que naturaliza a pobreza e banaliza a desigualdade social, atrelando-a a ausência de empreendedorismo, os grandes ganhadores usam o poder econômico para incrementar seus ganhos financeiros e influenciar espaços da política, garantindo altos lucros, retornos elevados e rentabilidades vultosas. Em momentos de pandemia, de desestruturação econômica, de fome e de exclusão social percebemos quem são os grandes beneficiários das instabilidades em curso da sociedade brasileira, são aqueles que se escondem atrás de discursos falaciosos baseados em meritocracia, esquecendo que somos um dos países mais desiguais do mundo, sem oportunidade não existe meritocracia.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 17/11/2021.

Estagflação

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A economia brasileira vem passando por grandes processos de desestruturação econômica e produtiva, com impactos sobre setores inteiros, impulsionando a degradação da economia, aumentando o desemprego, elevando os preços e reduzindo a renda dos trabalhadores. Para piorar o ambiente, passamos por um momento de desajuste nos preços, desvalorização cambial, fragilidades fiscais e perda da confiabilidade externa, gerando um cenário que os economistas podem definir como estagflação.

Podemos definir a estagflação como uma situação simultânea de estagnação econômica, ou seja, ou até mesmo recessão, apresentando altas taxas de inflação. Neste momento, a atuação das autoridades econômicas exige maturidade e atuação sistemática, utilizando todos os instrumentos da política econômica, como forma de reverter uma situação negativa e preocupante para o comportamento da economia, com desemprego em alta, queda da renda e fragilidade dos indicadores macroeconômicos.

O ambiente econômico gera preocupação, o crescimento da inflação levou o governo a aumentar as taxas de juros e os investimentos produtivos estão em queda, inviabilizando a contratação de trabalhadores, postergando a recuperação econômica e, num momento de pandemia, com mais de seiscentos mil mortos, fragilizando os indicadores sociais, aumentando as tensões sociais e reduzindo a confiança dos setores produtivos.

O aumento da austeridade degrada mais o ambiente social, empobrecendo a massa da população e aumentando a degradação social, elevando a fome, a pobreza e a miséria. A elevação das taxas de juros aumenta a dívida pública, cada ponto percentual de aumento nas taxas de juros elevam a dívida do Estado em 50 bilhões de reais, com isso, o custo total da elevação da conta de juros alcançará valores aproximados de 400 bilhões de reais, recursos que beneficiam uma pequena parte da população, um contingente de 1% dos brasileiros em detrimento da grande maioria da sociedade, dessa forma, percebemos uma forma crescente da pilhagem dos recursos da sociedade para fins privados.

O incremento dos preços na sociedade brasileira está intimamente ligado as desvalorizações cambiais, as desarticulações das cadeias globais de produção e da elevação dos preços dos alimentos e a forte demanda por produtos agrícolas no mercado global. A desvalorização cambial impacta nos preços internos e eleva a inflação, a estabilização do câmbio exige uma atuação conjunta do governo, a construção de uma confiabilidade perdida e uma organização da agenda econômica que, infelizmente, apresenta grandes instabilidades e incertezas que fazem com que a moeda nacional perca espaço no mercado internacional e aumente os riscos para os investidores externos.

A agenda liberal preconizada pela equipe econômica, confusa e marcada por improvisações, gera instabilidade, reduz a confiança e afasta os investidores internos e externos. Estamos presenciando a retirada do Estado da condução da economia brasileira e sua substituição pelos atores privados, diante disso, percebemos que os investimentos não estão acontecendo, com isso, não estamos percebendo os supostos benefícios propagados pela propaganda oficial, muito pelo contrário, essas contribuíram apenas para a degradação do trabalho, gerando aumento no desemprego e no subemprego, redução dos investimentos públicos e privados, diminuição dos recursos da educação e da saúde pública, contribuindo para que o país retorne ao mapa da fome e da degradação social.

Os países desenvolvidos estão aumentando os investimentos produtivos e incrementando a atuação dos atores públicos, reestruturando as políticas industriais e o aumento dos investimentos em infraestrutura e na formação de capital humano, infelizmente, em terras brasileiras ainda estamos insistindo em discussões imaturas e limitadas entre Estado e Mercado, onde a combinação destes atores é o caminho mais apropriado para o crescimento econômico, a melhoria das condições sociais e a constituição da soberania nacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 10/11/2021.

Brasil atravessa convergência de escolhas equivocadas, diz ecóloga

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Para Mercedes Bustamante, ao não controlar o desmatamento nem investir em adaptações às mudanças climáticas, país coloca economia em risco

Folha de São Paulo, 07/11/2021

Cristiane Fontes
Marcelo Leite

OXFORD E SÃO PAULO
Mercedes Bustamante, uma das maiores autoridades brasileiras em ecologia e desmatamento do cerrado e da floresta amazônica, está alarmada com a perda de credibilidade do governo brasileiro na COP 26 cúpula sobre a crise do clima que se realiza em Glasgow, Escócia. Não o bastante, contudo, para perder o otimismo.

Uma entre mais de 200 autores de relatório do Painel Científico sobre a Amazônia, ela aponta como prioridades zerar o desmatamento, legal ou ilegal, “sem adjetivos”.

Ela também vê como essencial organizar de forma inclusiva atividades de bioeconomia, com base na parceria da ciência com o conhecimento tradicional, e aperfeiçoar a regulamentação do acesso a recursos genéticos que de fato atendam tanto à indústria quanto a populações locais.

Para isso, entretanto, seria urgente desfazer a série de escolhas equivocadas do país, alçada a níveis nunca vistos no governo Bolsonaro. “Não se consegue montar uma bioeconomia inclusiva na Amazônia competindo com uma economia ilegal como se tem hoje.”

O relatório do Painel Científico para a Amazônia (sigla SPA, em inglês) foi finalizado para lançamento na COP26. Quais são as principais recomendações do texto? Um dos primeiros pontos importantes é deter o desmatamento. E a gente não coloca um adjetivo aí, desmatamento legal ou ilegal, é deter o desmatamento e o processo de degradação da floresta.

O segundo passo é organizar as atividades sustentáveis na Amazônia. Há hoje uma série de atividades, algumas já ganhando escala, com base na utilização dos recursos biológicos que comporiam a bioeconomia num sentido mais amplo.

Mas existe uma lacuna enorme no que poderia ser feito a partir da integração dos diferentes sistemas do conhecimento: ciência, tecnologia e inovação e conhecimento indígena e tradicional.

O que falta para a construção dessa chamada bioeconomia amazônica? O conceito de bioeconomia deve ser abrangente o suficiente para a gente olhar povos da floresta, recursos terrestres, recursos aquáticos, agricultura familiar e atividades de maior escala.

O Brasil não conseguiu uma implementação satisfatória dos mecanismos que permitem o acesso aos recursos genéticos nem clareza em relação à repartição de benefícios associados ao conhecimento tradicional. Hoje o país não protege adequadamente o conhecimento tradicional, e eu acredito que também não atenda, de forma satisfatória, nem a indústria nem academia.

Outro gargalo para uma bioeconomia sólida e inclusiva é que ela demanda fiscalização e eliminação de atividades ilegais. Políticas que tenham como premissa a floresta em pé, rios saudáveis. Demanda ações claras de que apropriação indevida de terras púbicas, de unidades de conservação, de territórios indígenas não serão toleradas.

Por fim, o investimento em ciência, tecnologia e inovação ainda está muito aquém do necessário. Na Amazônia, a gente descreve uma espécie a cada dois dias, o que indica a enorme lacuna de conhecimento da diversidade.

Além disso, o Brasil enfrenta novamente o problema da fuga de cérebros. Vemos a convergência de uma série de escolhas equivocadas para o país. Acrescentaria ao quadro a questão da mudança do clima. Uma das grandes preocupações do Brasil deveria ser como as mudanças climáticas vão afetar a biodiversidade e o funcionamento dos sistemas naturais, que são nossa vantagem competitiva no mundo.

A gente vem organizando ou desorganizando o sistema com o olhar no retrovisor, para uma economia que não vai existir mais, deixando de perceber onde estão as possibilidades que se desenham rapidamente em função da crise climática. Você não consegue montar uma economia legal na Amazônia competindo com uma economia ilegal como a gente tem hoje.

O que seria mais urgente para a gente reverter a situação atual e assegurar a moratória do desmatamento? Vejo com bons olhos a movimentação dos governadores, das instituições locais, porque elas começam a ocupar o vazio que foi deixado pelo governo federal. Agora, uma boa parte do território amazônico é de responsabilidade de União.

A gente já percebe mercados que se fecham para o Brasil. Esse clima de instabilidade que a gente vive tem consequências econômicas.

Quando falamos de mudança no clima no Brasil, normalmente pensamos na Amazônia, mas o cerrado é segundo maior bioma. Que medidas de proteção são urgentes para a savana brasileira? Os critérios de sustentabilidade que a gente vem discutindo para a Amazônia se aplicam para todos os biomas brasileiros.

A situação do cerrado preocupa bastante porque o avanço do desmatamento se deu de forma muito rápida.

Quando a gente fala que 50% do cerrado já foram convertidos, as pessoas têm essa impressão de que há 50% intactos, mas estão bastante fragmentados e muitos deles em estágio de degradação.

Apesar de o Código Florestal colocar que tem de conservar pelo menos 20% no cerrado, hoje a maior parte do desmatamento não tem autorização de órgãos ambientais. Novamente, existe o problema do cumprimento da lei. Isso impossibilita que você tenha uma gestão desse processo de ocupação, olhando a paisagem e não a propriedade, que é um dos nossos grandes problemas.

O segundo ponto é que nós temos enormes áreas de pastagens, que continuam sendo o uso prioritário da terra no cerrado. Pastagens que estão degradadas, abandonadas, sobretudo na porção mais antiga de ocupação, no centro-sul.

O que seria possível fazer nessas áreas? Muitas delas podem ser utilizadas para a agricultura, segurando o desmatamento na porção norte, ou para restauração, para conectar fragmentos importantes que sejam de conservação da biodiversidade.

O terceiro ponto em relação ao cerrado é a mudança de práticas da agricultura de larga escala. No futuro, uma área extensa de monocultura não vai ter mais lugar, porque ela não se sustenta. E ela só tem lucro se tiver essa ocupação em larga escala.

Essa ocupação em larga escala no Matopiba [Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia] enfrenta um risco climático muito grande. E ele vai se acentuar, se a gente não conseguir manter o limite da temperatura em 1,5ºC, da meta do Acordo de Paris.

Isso começa a inviabilizar a agricultura nessas áreas e significa que elas têm de retornar para o centro-sul. Só que o centro-sul já está ocupado, então a gente vai chegar num dilema de competição por área, se não houver planejamento.

Qual a sua opinião sobre a participação do Brasil na COP26? A gente chega na COP26 com uma reputação bastante assanhada, debilitada.

O governo brasileiro pode levar uma bela proposta, que não está sendo amplamente discutida com a sociedade ou com a academia. As ações são tão contundentes no sentido contrário que uma meta que não tenha a clareza de etapas, como vai ser atingida, tem pouco efeito.

O Brasil está perdendo um tempo precioso. A gente discute muito a questão da redução das emissões dos gases de efeito estufa, sobretudo porque essa emissão vem do desmatamento, mas não vem discutindo adequadamente ações de adaptação, num país em que as camadas sociais mais pobres estão cada vez mais vulneráveis.

RAIO-X
Mercedes Bustamante, 58
Professora de ecologia da Universidade de Brasília desde 1993. Integra a Academia Brasileira de Ciências e a Academia Nacional de Ciência dos EUA. Participou do quinto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Concentra sua pesquisa nas mudanças de uso da terra no Brasil e seus impactos sobre os ecossistemas.

Para muitos jovens, não faz mais sentido correr atrás de um diploma, por César Callegari.

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Explicação para queda no número de candidatos em vestibulares vai além da paralisação das aulas presenciais

César Callegari Sociólogo, ex-secretário de Educação Básica do MEC (2012-13, governo Dilma), ex-secretário municipal da Educação de São Paulo (2013-15, gestão Haddad) e autor de ‘O Fundeb’ (ed. Aquariana)

Folha de São Paulo – 07/11/2021

Uma sensação de desalento ronda a juventude brasileira. Motivos não faltam e causas são muitas. À pandemia, crise econômica, política e de valores, soma-se uma percepção generalizada de que um diploma universitário já não garante muita coisa.

Além das altas taxas de desemprego estrutural que atingem amplos setores da economia, restringindo oportunidades, as organizações são cada vez mais rigorosas ao apurar as reais competências de profissionais candidatos a uma vaga.

São cobrados conhecimentos e habilidades raramente proporcionados pela maioria dos cursos superiores, principalmente os oferecidos por instituições particulares de baixa qualidade.

O resultado vê-se em toda parte: engenheiros, economistas e tantos outros diplomados tentando seu ganha-pão em ocupações precarizadas que nada têm a ver com sua área de formação.

Diante do quadro, muitos jovens começam a questionar se vale a pena tanto esforço por um diploma. Isso pode explicar, em parte, a queda acentuada de inscrições para vestibulares e para o Enem, bem como a alta evasão registrada em cursos universitários.

Claro que os impactos da pandemia sobre o sistema educacional influenciam, atingindo principalmente os jovens em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica.

Os quase dois anos de paralisação das atividades presenciais nas escolas e a dificuldade de acesso aos meios remotos de educação fazem com que muitos estudantes se sintam despreparados para enfrentar o desafio das provas.

Mas isso não explica tudo.

Falta ao Brasil uma política para a juventude. A começar por uma verdadeira reforma do ensino médio que dê sentido e significado para a educação superior. As recentes iniciativas nessa direção não passam de um arremedo de reforma.

Muita propaganda, nada aconteceu e pode piorar. Acenam com opções vocacionais que, na prática, não serão oferecidas, face à pobreza de condições da maioria das escolas. Criam uma ilusão de profissionalização onde não há laboratórios, internet, professores capacitados. Reduzem os direitos de aprendizagem ao que couber em 1.800 horas, limitando as possibilidades de uma formação crítica e criativa tão demandada hoje.

Assim, por se tratar de pura miragem, geram maior frustração, especialmente entre os alunos de escolas públicas desconfiados de que o ensino superior não vai resolver os déficits acumulados no nível básico. Isso precisa mudar.

Todos sabem que o futuro de um país depende de seus jovens. E as juventudes necessitam de um horizonte que hoje o Brasil lhes nega.

É possível e urgente construí-lo com educação básica e superior de qualidade, sustentadas por investimentos vigorosos e continuados que garantam acesso e permanência para todos. Com uma visão ousada e inclusiva de construção de futuro. Com políticas de ingresso no mundo do trabalho que combatam frontalmente a precarização e que se articulem às necessidades estratégicas do país.

O interesse pela educação superior está associado a um projeto de nação que, entretanto, ainda nos falta. Que seja inclusiva, democrática, desenvolvida e socialmente justa.

Educador, sociólogo e presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada


Democracias entre vidas, mortos e caminhos tortos, por Mônica Sodré.

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Nossa crise vai além da corrosão institucional; banalizamos a violência

Mônica Sodré Cientista política e diretora executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps)

Folha de São Paulo, 06/11/2021

São tempos difíceis para as democracias em vários lugares do mundo. A ascensão de governos autoritários e populistas, aqui e lá fora, é atribuída à capacidade de algumas figuras capturarem o mal-estar causado pela falha das democracias em produzir prosperidade e socialização coletiva dos ganhos econômicos, pela atual desestruturação do mundo do trabalho e pelo sistemático enfraquecimento dos Estados nacionais e da representação política e dos partidos. São lideranças que se apoiam na ideia de que seriam capazes de mudar o estado das coisas. Trata-se de narrativa, mas com alto poder de convencimento.

No Brasil, a discussão sobre democracia costuma estar frequentemente focada nos aspectos eleitorais. Por razões óbvias, esse tema ganhou destaque em virtude das declarações e ações do atual chefe do executivo federal, para quem os ataques às instituições já se tornaram prática permanente. Se a crise passa (e certamente passa) pelas nossas instituições e elementos eleitorais, não se resume, no entanto, a eles. Aqui, a noção de equidade que a lei institui não veio acompanhada de condições reais para a participação dos cidadãos na vida política e cívica, ou de possibilidade em interferir nos rumos do país —exceto, na maioria das vezes, no momento do voto.

Nossa democracia está em crise porque banalizamos a violência, característica constituinte do nosso povo, que foi o último do mundo a abolir a escravidão. Está em crise porque normalizamos que existam vidas “não merecedoras de luto, nem proteção”. Porque aceitamos que mais de 75% das mortes violentas sejam de pessoas negras. Porque temos mais de 14 milhões de pessoas desempregadas. Porque metade da população vive com apenas R$ 400 por mês. Porque cabe a nós, mulheres, boa parte dos trabalhos não remunerados e salários de apenas dois terços do rendimento dos homens.

Porque hoje mais de 117 milhões de brasileiros —mais de 50% daqueles que aqui nasceram e vivem— comem menos, não comem ou não sabem se vão comer.

Participar da vida política acaba se tornando um luxo, incompatível com as preocupações de quem hoje não sabe se vai jantar ou se vai sobreviver à próxima batida policial.

Olhar a nossa democracia exclusivamente a partir da ótica das eleições e das instituições é escolher fechar os olhos para o tamanho do problema sobre o qual estamos sentados há muitos anos, e que continuará diante de nós: estamos destruindo a base material de nossa existência. As desigualdades históricas, agora agravadas pela pandemia deixarão sequelas por muitos anos, da fome à sobrecarga de um sistema de saúde que terá que lidar com as sequelas dos sobreviventes, aos órfãos e ao atraso da aprendizagem de nossas crianças.

Nossa incapacidade de tornar o Estado elemento corretor das desigualdades e de prover proteção a quem mais precisa nos remete aos Buarque de Holanda —Sérgio, o pai, e Chico, o filho. Não só revela que há, sim, pecados ao sul do Equador como demanda um imenso esforço para não reforçarmos o argumento de “Raízes do Brasil” de que a democracia, do lado de cá, sempre foi um lamentável mal-entendido.

Precisamos de um novo pacto “pelo social”. Educar nossas crianças e adolescentes para um novo mundo, colocarmos a primeira infância como prioridade, fortalecer o nosso sistema de saúde, revisar o nosso sistema tributário que pesa desproporcionalmente sobre os mais pobres. Precisamos mudar a maneira com que nos inserimos no conjunto das nações, que nos relacionamos com o meio ambiente e com a finitude dos nossos recursos naturais, com a ciência, com o valor do diálogo para a reconstrução da confiança na política, com as periferias, com os povos indígenas e as comunidades tradicionais.

Precisamos, com urgência, realizar a transição para uma economia de baixo carbono, da qual depende a nossa sobrevivência como espécie, sem que os custos disso recaiam, novamente e como sempre, nos mais vulneráveis.

A crise da nossa democracia vai muito além da sua corrosão institucional e dos elementos eleitorais. É a desigualdade, além de marca constituidora do nosso povo, o que impede a sustentação e fragiliza a estabilidade da democracia inteira.

Como já dizia Caetano: “Gente é pra brilhar. Não pra morrer de fome”.

Como fabricar uma crise e ganhar muito dinheiro com ela, por Paulo Feldman.

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Conversa de banqueiro com presidente do BC indica quem serão os vencedores

Paulo Feldman Professor de economia da USP e ex-presidente da Eletropaulo (1995-96, governo Covas), foi diretor e presidente no Brasil de multinacionais como Microsoft, Ernst & Young e Sharp

Folha de São Paulo, 04/11/2021

Há três meses se discute o Orçamento do governo federal para 2022. Entre o R$ 1,7 trilhão que o governo terá para gastar já se incluiu de tudo, como por exemplo alguns bilhões para os deputados atenderem seus redutos eleitorais ou o aumento salarial dado aos militares. Até mesmo a quitação da dívida gigantesca com os precatórios foi facilmente absorvida.

No entanto, quando o governo apresentou o Auxílio Brasil, que acarretava gasto adicional de menos de 2,5% do total que terá em 2022, uma crise apareceu. O mercado mobilizou-se com veemência, assessores do ministro da Economia, Paulo Guedes, pediram demissão e a mídia não tem assunto mais importante nos últimos dias. Inúmeros editoriais foram publicados, expondo o desastre que seria o rompimento do teto. Até o ex-presidente Michel Temer (MDB), o inventor do teto, escreveu um artigo nesta Folha (“Teto é tudo”, 24/10) e mostrou-se apavorado com as consequências de se romper o limite da sua cria.

O que ninguém comentou é que, neste momento, 20 milhões de brasileiros não tem o que comer, e os R$ 400 que receberiam mensalmente talvez atenuassem sua fome. Na verdade, 55% da população vivem sob insegurança alimentar e não sabem se conseguirão comprar os mantimentos mínimos para sobreviver nos próximos dias. O fato é que agora temos que colocar quase R$ 6 para comprar um dólar e, dessa forma, a inflação virá com força nas próximas semanas. Isso sim será inevitável, pois quase tudo o que é produto industrial manufaturado é importado no nosso país. Lembrando que, no começo da pandemia, ficou evidente que nem máscaras já não sabíamos mais fabricar.

O mercado —leia-se a Faria Lima — argumenta que o risco Brasil subiu muito e não teremos mais investimentos vindos de fora. Pelo contrário: os investidores estrangeiros estão retirando seus dólares e, por isso, o preço da moeda sobe. Dizem também que sem os investimentos entraremos em recessão, e a previsão para 2022, de repente, caiu para um crescimento abaixo de zero.

Com inflação e mais recessão, chegaremos à chamada estagflação. Os grandes especialistas que trabalham na Faria Lima, com sua brilhante criatividade, não hesitam em recomendar: temos que subir as taxas de juros, e a Selic precisa ser superior a 10% ao ano. Provavelmente é isso que vai acontecer. Mas ouso perguntar: com a subida da taxa de juros, quem será o grande vencedor?

Sim, claro, esse mesmo mercado formado por bancos, rentistas e investidores que, felizmente para eles, estão fora da insegurança alimentar.

Aliás, recentemente vazou uma gravação para a imprensa e ficamos sabendo que o presidente de um dos maiores bancos brasileiros costuma conversar com o presidente do Banco Central para falar, entre outras coisas, de taxas de juros.

Deu para entender quem ganha com as crises fabricadas?

A Amazônia é a nossa salvação, por Ilona Szabó de Carvalho.

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Sem mudar modelo de desenvolvimento e padrões destrutivos de uso da terra, o sofrimento humano e as perdas econômicas que vimos até aqui serão só o começo

Ilona Szabó de Carvalho Empreendedora cívica, mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala (Suécia). É autora de “Segurança Pública para Virar o Jogo”.

Folha de São Paulo, 03/11/2021.

Você já parou para pensar que, da perspectiva climática, 2021 é provavelmente o melhor ano dos próximos cem? No Brasil e mundo afora, eventos climáticos extremos —como secas, ondas de calor, tempestades de poeira, degelos, inundações, entre outros, já são realidade. A má notícia é que, de acordo com os cientistas do clima, se não mudarmos o modelo de desenvolvimento baseado no uso de combustíveis fósseis e em padrões destrutivos de uso da terra, o sofrimento humano e as perdas econômicas que vimos até aqui são só o começo.

Desde domingo (31), líderes mundiais discutem como frear as mudanças climáticas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP 26, em Glasgow, na Escócia. Nesse encontro, cada um dos países signatários da Convenção de 1992 e do Acordo de Paris de 2015 deve apresentar sua contribuição nacional para limitar o aumento da temperatura da terra em até 1,5° C acima do registrado antes da Revolução Industrial, e assim garantir a sobrevivência de nossa espécie.

Em suma, temos que aumentar a ambição para reduzir, até 2030, mais de 50% das emissões de gases do efeito estufa que causam esse aquecimento, e zerá-las até 2050. Para o Brasil, salvar a Amazônia —zerando o desmatamento—, é a única forma de cumprir os compromissos assumidos no Acordo de Paris e, por consequência, garantir o bem-estar das próximas gerações. E, por hora, as promessas feitas e os compromissos já firmados em Glasgow estão aquém das metas necessárias, ou ainda vagos demais.

A floresta amazônica —maior floresta tropical do planeta— abarca oito países sul-americanos e a Guiana Francesa, 20% da água fresca e cerca de 10% da biodiversidade. Temos a boa fortuna de abrigar a maior parte dessa inestimável riqueza em nosso território. Porém, quase 20% da floresta já foi destruída, o que faz com que a Amazônia esteja se aproximando de um ponto de inflexão que pode resultar em um processo de savanização irreversível.

Motivações econômicas advindas da especulação com terras que alimentam a grilagem e de uma crescente demanda nacional e global por carne bovina, soja, ouro e outras commodities, têm levado ao aumento desenfreado do desmatamento. Mas hoje não é necessário desmatar para produzir. Há tanto métodos de produção sustentáveis como áreas já desmatadas em quantidade suficiente para garantir a segurança alimentar do Brasil e de outras partes do mundo.

O que se observa é que parte importante dessas cadeias produtivas se alimentam de crimes ambientais, como o desmatamento e o garimpo ilegal, e a grilagem de terras. De acordo com o MapBiomas, quase a totalidade do desmatamento verificado na Amazônia e em outros biomas brasileiros em 2020 tem indício de ilegalidade.

Para além dos danos ao meio ambiente, em geral crimes ambientais também têm relação com outros crimes como tráfico de drogas, de armas e de pessoas e causam graves consequências sociais como corrupção, trabalho escravo e violência contra povos originários e defensores da floresta. Precisamos dar um basta e zerar o desmatamento já.

A boa notícia é que há um potencial extraordinário de riqueza na preservação da biodiversidade que a floresta oferece. E a melhor maneira de proteger esse recurso é estimular o surgimento de uma economia sustentável de base florestal que contemple a inclusão das populações originárias e os centros urbanos da Amazônia.

Zerar o desmatamento na Amazônia, e garantir a mudança de um modelo de desenvolvimento predatório para um regenerativo, dependerá dos esforços combinados dos governos subnacionais e federal, do setor privado, da sociedade civil e da cooperação regional e internacional. Mas, sobretudo, salvar a floresta passa pela genuína compreensão de que ela é a nossa única salvação.