Globalização e tribalismo: ameaças ou complementos segundo Raghuram Rajan.

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Por Vinícius Miller – Estado da Arte – 09/05/2019

Já se foram algumas décadas desde que o caloroso debate acerca dos efeitos da globalização sobre a cultura e os costumes viveu seu auge. No princípio, o barulho maior vinha daqueles que defendiam que, com a globalização, costumes locais seriam ameaçados pela homogeneidade de uma imposição cultural que acompanhava, em tese, a imposição econômica. Seria, nesta versão, a nova fase do imperialismo. Agora sem pudor nenhum em suprimir culturas locais em nome da imposição dos valores norte-americanos. Nesta hipótese, comer feijoada era uma resistência ao avanço do domínio dos arcos amarelos.

            Passado o tempo, o que se viu foi muito mais uma adaptação aos valores locais por aqueles que se espalhavam pelo globo. Ainda no exemplo culinário, os arcos dourados ponderaram seu cardápio entre seus tradicionais e globalizados sanduíches, de um lado, e ingredientes típicos das localidades onde se instalavam pelo mundo, de outro. Algo não muito diferente do que havia sido feito pelas multinacionais que se instalaram em diversos países ao longo do pós-guerra. Multinacionais como a Unilever se adaptavam aos costumes locais, criando marcas e produtos que refletiam a cultura do país que as recebiam. Ao mesmo tempo em que driblavam, ao menos parcialmente, a defesa protecionista da “produção nacional”.

            Isso precipitou uma inversão da hipótese inicial. Na nova versão, a globalização não era uma ameaça aos costumes locais, mas sim a possibilidade do indivíduo optar. Ou seja, comer feijoada não era mais uma resistência, mas uma opção do indivíduo que poderia escolher sua refeição entre diversos cardápios de diferentes culturas. Assim, um indiano poderia comer na quarta-feira o hambúrguer sem carne bovina oferecido pela filial da lanchonete norte-americana em Déli, enquanto deixaria a culinária local para o almoço da família no sábado. A globalização se transformava de imperialismo em liberdade.

Entre todas as teses, a mais interessante teoria acerca dos efeitos da globalização sobre as culturas e os costumes foi feita pelo sociólogo espanhol Manuel Castells. As identidades culturais, ao mesmo tempo motor e resultado dos costumes e tradições, seriam criadas não mais pelas divisões e critérios tradicionais, como a família, a cidade, a religião e a nacionalidade. Em seus lugares, entraria uma multiplicidade de identidades, variáveis em suas geometrias e potencializadas pela revolução tecnológica que sustenta a globalização. Desta forma, um professor em São Paulo estaria mais próximo de um professor italiano, em seu modo de entender as grandes questões do mundo, do que de um operário em Recife. Ao mesmo tempo, teria uma forte identidade com japoneses por conta do gosto comum que têm por mangá. Maior do que tem, por exemplo, com admiradores da cultura fronteiriça do Rio Grande do Sul. E, certamente, uma identidade qualificada com frequentadores dos clubes de jazz de Nova Iorque, para onde vai a cada biênio. Maior do que aquela que guarda junto aos seus primos, admiradores de música sertaneja-universitária, que vivem na mesma cidade no interior de Minas Gerais na qual o professor de São Paulo nasceu e viveu até o fim da adolescência. E para onde vai todo fim de ano passar o Natal com a família e seus amigos de infância.

Ou seja, as identidades são, segundo Castells, tão múltiplas e variáveis no tempo e no espaço que seria praticamente impossível defini-las como sendo resultados da homogeneidade imposta pela globalização. Tampouco como fruto da adaptação entre o global e o local e, muito menos, como reflexo exclusivo das escolhas individuais. Seriam resultantes de todas elas ao mesmo tempo, assim como, impulsionadas pela revolução tecnológica, representariam a cultura e costumes característicos de um mundo sem fronteiras e globalizado. Em outras palavras, o avanço da globalização econômica e produtiva teria sido acompanhado pela criação de costumes, culturas, comportamentos e identidades também globais.

Contudo, a pertinência desta associação entre uma globalização econômica e a formação de uma cultura global só é convincente se o seu avesso for verdadeiro. Ou seja, se a crise da globalização for acompanhada pela crise da identidade global. E, analogamente, se a revisão crítica à globalização econômica amparada em propostas nacionalistas for acompanhada pela reversão de uma identidade global em uma defesa de costumes locais. Vale notar que o avanço da globalização econômica também foi acompanhado pela ideia de que os valores da democracia liberal seriam fundamentais para que os países pudessem, da melhor maneira possível, participar do fenômeno de expansão dos mercados e das estruturas produtivas. A ascensão da China e seu híbrido entre economia de mercado e estado autoritário, assim como o trilema definido por Dani Rodrik em sua obra sobre os limites da globalização, colocam tal hipótese sob forte pressão e desconfiança. As analogias possíveis são simples: assim como a associação entre expansão global dos mercados e sistemas democráticos, antes vista como essencial, vem sendo questionada, as ideias acerca dos impactos da globalização na cultura e nas identidades também estão sendo desafiadas por algumas novas percepções e resultados concretos.

            Duas delas se entrelaçam no novo livro do economista indiano Raghuram Rajan (The Third Pillar: How Markets and The State Leave The Community Behind). A obra do professor da Universidade de Chicago, que já foi economista chefe do FMI assim como presidente do Banco Central da Índia (seu país de origem), apresenta a possibilidade de, em um efeito muito veloz como a volta de um elástico, a revalorização de identidades comunitárias e costumes tribais ameaçarem a globalização. Isso porque, com os amplos questionamentos feitos nos últimos anos àquilo que costumamos identificar como sendo resultados econômicos do processo de globalização, o que também nos acostumamos a identificar como sendo o resultado cultural da globalização seria, do mesmo modo, questionado. E este questionamento volta-se à legitimidade de uma identidade global, geometricamente variável e múltipla em seus elementos constitutivos, e à defesa de certa pureza dos grupos menores, do sentimento de comunidade e de pertencimento tribal que, mesmo estando em desvantagem ao longo das últimas décadas, não deixou de existir. A imagem, amplamente usada por Rajan, é a que trata de um profissional “globalizado” e local ao mesmo tempo: alguém que obtém sucesso profissional em atividades exercidas em localidades distantes de sua origem e/ou em setores como tecnologia, bancário ou esportivo, mas cujo desejo é mostrar seus resultados aos amigos de infância, aos seus familiares ou à suas paixões juvenis. Ou seja, mesmo global, sua identidade continua sendo parcialmente local, assim como o verdadeiro reconhecimento viria de sua comunidade, de sua tribo.

            Os alertas feitos por Rajan são óbvios. A desconfiança ao processo da globalização estimulada pela persistência e ampliação da desigualdade, pelos conflitos relacionados à imigração e pelo desemprego gerado pelos deslocamentos das atividades produtivas resulta, analogamente, na repulsa às identidades, aos costumes e aos comportamentos identificados como sendo também frutos da globalização. Quem ganha com isso são os sentimentos de pertencimento tribal e comunitário, em tese contrários à globalização. São estes sentimentos que vulgarmente sustentam as hipóteses absurdas sobre os males do globalismo, as teorias de conspiração sobre o plano de dominação mundial do “esquerdista” George Soros, entre outras tantas patéticas considerações. Contudo, também sustentam – e são sustentadas – por governos iliberais, de tendência autoritária e antidemocrática que se multiplicam pelo mundo.

Mas Rajan, também autor da melhor obra sobre a crise de 2008 (Linhas de Falha. Como Rachaduras Ocultas Ainda Ameaçam a Economia Mundial), não é nem um profeta do caos e muito menos um entusiasta dos populismos nacionalistas. Ao contrário, é um defensor nada ingênuo das vantagens da globalização e um intelectual que viveu, e ainda vive, a dualidade entre a identidade global que obteve em sua carreira internacional e suas origens indianas. Por isso, está mais preocupado em apontar como esta identidade comunitária, não obstante ser uma ameaça, pode ser também um elemento de fortalecimento da globalização. O desafio é parecido com aquele do início. O que parecia ser a imposição de uma cultura que homogenizaria as identidades nacionais, se transformou em liberdade, em alternativa e em novas e variadas identidades. Cabe aos verdadeiros defensores da sociedade aberta, global e democrática acharem a fórmula que faça o mesmo com as ameaças representadas pelas identidades comunitárias e tribais. Embora legítimas, tais identidades não estão sendo vistas como propulsoras e participantes da sociedade global. Ao contrário, foram capturadas pelos antidemocráticos, populistas e iliberais. Este é o desafio ao qual Rajan está tentando responder. Mais do que isso, este é o apelo que o economista indiano está nos fazendo.

Vinícius Müller

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

 

 Capitalismo, conscientização social e os novos valores humanos

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A sociedade está passando por momentos de grandes transformações sociais, econômicas, políticas e culturais cujos impactos sobre os indivíduos são difícil de mensurar, alguns se debruçam sobre os novos modelos sociais que estão chegando no mundo contemporâneo, gerando constrangimentos, medos e desesperanças crescentes e, ao mesmo tempo, novas oportunidades, novos desafios e novos espaços de empreendedorismo, neste momento de dúvidas e preocupações, novas perspectivas surgem para os indivíduos.

Neste momento de pandemia, os indivíduos estão percebendo que novas construções estão surgindo, alterando modelos constituídos anteriormente e criando novos espaços em construção, com novos desafios, símbolos e características próprias. Nos novos modelos sociais nascentes não conseguimos visualizar e compreender todas as características desta nova sociedade. Algumas características são claras e outras ainda estão obscuras e nebulosas, destas novas perspectivas sociais e culturais da sociedade contemporânea percebemos claramente o crescimento do individualismo, o crescimento da competição, o aumento da concorrência, a busca pelas imagens, pela performance, pelo incremento do empreendedorismo e pela busca crescente do isolamento social,  das transformações dos modelos anteriores de trabalho e sociabilidade, famílias e convivências sociais, caminhando rapidamente para uma construção caracterizado pelo imediatismo, centrados na flexibilidade, das inseguranças, das instabilidades, como se o mundo contemporânea se tornasse um grande cassino, cujos os templos são convertidos em grandes bancos e corretoras globais, os verdadeiros donos do poder da sociedade internacional.

Nesta nova sociedade, como destacou o grande sociólogo Zygmunt Bauman, estamos vivendo uma sociedade marcada pela instabilidade e a insegurança é a tônica da nova sociedade, onde as riquezas crescem de forma acelerada, criando novos espaços de entesouramento sensacionais e, ao mesmo tempo, conduz os indivíduos, rapidamente, a ruína econômica, a falência produtiva e a perda dos sentidos sociais, devastando as reputações, fragilizando os sentimentos centrados em valores éticos e morais.

O referido sociólogo destaca que vivemos em momentos de grandes instabilidades, os valores são flexíveis, os sentimentos morais e éticos são conduzidos de acordo com interesses mercantis, tudo é possível desde que se consiga pagar por seus interesses, perdemos os sentidos mais consistentes e dos valores dos indivíduos, se afastando dos valores coletivos, incentivamos o individualismo e acreditamos que ao estimular o egoísmo e a competição, vamos construir uma sociedade mais decente marcada pelas oportunidades para todos os cidadãos, desta forma estamos nos aproximando de valores bárbaros, marcados pelo culto da morte, da degradação e da falência moral.

Nesta sociedade, os indivíduos se afastam dos relacionamentos amorosos, os namoros estão sendo deixados de lado, as pessoas querem apenas se relacionar sexualmente, sem proximidade, sem envolvimento, querem prazer imediato, gozos sem preocupações, sem convivências afetivas e construções mais consistentes, querem prazer sem ligações maiores, com isso, as famílias estão sendo transformadas, os filhos são postergados, os relacionamentos são frios, os valores são imediatos e a solidão crassa nesta sociedade, os transtornos emocionais e sentimentais crescem de forma acelerada, as depressões crescem e os suicídios aumentam, transformando o suicídio em um problema social, um verdadeiro problema de saúde pública, que leva os gestores públicos passam a investir em conscientização dos cidadãos, aumentando os dispêndios de recursos em um orçamento cada vez mais reduzidos.

As redes sociais passam a contribuir crescentemente a degradação social, como nos disse Umberto Eco, o surgimento de redes sociais deu voz aos idiotas, mostrando os vícios sociais, os medos e misérias dos seres humanos. Nestes novos modelos de comunicação social, os indivíduos postam imagens, fazem comentários de assuntos, analisem perfis variados, julgam atitudes, criticam e comentam sobre as vidas alheias, criando um verdadeiro espaço de julgamento social, um verdadeiro tribunal onde todos se sentem em condições de emitir seus julgamentos, destruindo reputações, matando a ética e degradando os valores mais consistentes. Nesta sociedade, as pessoas são julgadas pelas curtidas, os compartilhamentos e seus seguidores, quanto maior os números de seguidores melhor no mundo das redes sociais.  Zygmunt Bauman destaca, que nesta sociedade das redes sociais, as pessoas percebem tristemente que as amizades, os seguidores e os compartilhamentos não são amigos verdadeiros, indivíduos sem afetos, sem proximidades e sem consistências, uma verdadeira sociedade líquida.

A nova sociedade se característica por novas estruturas sociais, novas configurações familiares, nossos relacionamentos afetivos, nossas proximidades cotidianas, tudo está se tornando mais distantes, sem proximidades, sem afetividades e sempre centradas nos valores monetários e financeiros, sem estas argamassas da sociedade contemporânea, marcadas pelos recursos materiais, estas relações sociais dissipam, as pessoas se afastam e a solidão cresce de forma acelerada. Os valores do capitalismo contemporâneo estão entrando nas mentes dos indivíduos de forma acelerada, transformando as pessoas, alterando seus sentimentos mais íntimos, incrementando as desesperanças e gerando novos transtornos, novos vícios, novas doenças emocionais e afetivas.

No mundo contemporâneo, marcados pelo conhecimento, pelos valores das pesquisas científicas, os valores do capital estão devastando os valores da ciência, os recursos monetários estão definindo as pesquisas, financiando as novas tecnologias com interesses imediatistas e sem contrapartidas sociais para a coletividade. Desta forma, percebendo que as novas tecnologias, os novos produtos, as novas máquinas e as novas descobertas, que servem para aumentar as riquezas de uma pequena parte da sociedade e delegando uma pobreza crescente para uma grande parte da sociedade mundial. Nos anos de 2018, os dados trazidos pelo Oxfam foram assustadores, neste ano, 82% das riquezas mundiais se concentraram em apenas com 1% da população global, algo em torno de 70 milhões de pessoas da sociedade mundial, enquanto os 99% da população global, algo em torno de 6,92 bilhões de pessoas, angariou apenas 18% da riqueza da sociedade internacional.

Os grandes conglomerados da educação, verdadeiros instituições dotadas de somas altíssimas de recursos financeiros, recursos pulverizados em milhares de acionistas das mais variadas regiões do mundo, indivíduos que desconhecem onde seus recursos estão sendo investidos, apenas aguardam seus dividendos e lucros polpudos, sem compromissos com o setor educacional, sem compromisso com os interesses sociais, apenas se interessam com os valores milionários que incrementam suas fortunas pessoais e garantiram a bonança de seus familiares que vivem como verdadeiros sultões, vivendo muito bem, gozam de privilégios que os capitais podem garantir e sem preocupações com os rumos da sociedade, sem os verdadeiros valores sociais que consolidam a existência de uma verdadeira nação.

Nestes novos mercados da educação, percebemos que os diplomas se transformaram em verdadeiros caçam níqueis, cursos de graduação se difundiram por todos os estados, aumentando os graduandos de todas as áreas, desde os cursos tradicionais como os de engenharia, direito, medicina, administração e da pedagogia, além de novos cursos da área da saúde e da tecnologia, aumentando a competição destes novos profissionais em busca de novos modelos de trabalho que estão desaparecendo de forma acelerada, gerando desesperanças, medos crescentes e depressões aviltantes. Nestas verdadeiras empresas educacionais, transnacionais do ensino, percebemos que os professores mais capacitados são perdendo espaço, servem apenas para construir as apostilas e os métodos pedagógicos e, posteriormente, são afastados e substituídos por outros profissionais sem qualificação, sem capacitação, recebendo salários reduzidos, sem perspectivas e se sujeitam a este modelo de trabalho e exploração.

Com o surgimento de ensino a distância, os grandes conglomerados ganham espaço, aumentando seu portfólio de novos cursos e novas plataformas, cobrando valores reduzidos, sem qualificação e se especializam em grupos sociais menos abastados, estudantes que possuem recursos limitados, sem formação consistente e sem compreender a importância do ensino de qualidade, pagam com dificuldades pelos diplomas banais para garantir algum aumento salarial num verdadeiro acordo, onde todos os envolvidos se enganam claramente, as escolas vendem diplomas, os governos não interferem neste mercado e os estudantes acreditam que seu diploma garantirá retornos consideráveis, ledo engano, com estes cursos existentes na sociedade servem apenas para perpetuar sua condição indignidade e de exploração social.

O que acontece no mercado educacional, percebemos em todas as áreas, na saúde também se ressente de projetos consistentes, os hospitais se transformaram em grandes conglomerados econômicos, se utilizam da saúde como slogan charmoso e elegante, marcados por profissionais bem vestidos de ternos bem cortados, falam da qualidade e da eficiência, propagandeando os valores sociais e de humanidade, mas infelizmente, são motivados por interesses imediatistas marcados pelos valores do capital e da acumulação, marcados pelos sentimentos da frieza, pela insensibilidade e pelo imediatismo. Nesta sociedade, marcada pela financiarização, os grandes grupos econômicos que garantiram recursos orçamentários do fundo público, seus subsídios e suas isenções monetárias crescentes e, como tacada final, aumentam os ataques ao sistema social de saúde, abrem guerras ao Sistema Social de Saúde (SUS), degradam as instalações e objetiva diminuir os investimentos na área e posteriormente, comprar seus hospitais, seus laboratórios, seu expertise e garantirem os polpudos investidores na saúde nacional. Na sociedade percebemos uma verdadeira guerra contra o fundo público, uma busca constante para transferir novas instalações para as instituições privadas, aumentando os ganhos monetários de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais.

Neste ambiente, marcados pela busca da privatização dos ativos do Estado, muitos grupos sociais abraçam a venda das estruturas estatais e a alienação dos setores públicos como se resolvessem as contradições da sociedade e abrisse espaços para o crescimento e para o desenvolvimento das nações em desenvolvimento. Nesta campanha pública da desestatização de empresas estatais, muitos grupos sociais defendem bandeiras que, num próximo momento, sentirá os custos da venda dos patrimônios públicos, dentre elas, destacamos a classe média, que nos últimos anos vem perdendo espaço na estrutura social, como destaca Christophe Guilluy na obra O fim da classe média. Na sociedade, percebemos, os integrantes destes grupos sociais defendem a desestatização dos serviços públicos, acreditando que, com isso, estes novos serviços garantirão mais eficiência e incrementando a eficácia, ledo engano. Esta crise da sociedade contemporânea se encontra em momentos de grandes instabilidades e incertezas, momento marcado por períodos de grandes inquietações, grande parte da classe média da sociedade contemporânea tende a perder o status acumulado nos anos séculos, reduzindo a importância social, garantindo empregos precários marcados por salários menores, degradados e explorações crescentes, neste ambiente, num futuro próximo seus integrantes devem se candidatar a serviços que eram servidos por agentes públicos mas na atualidade, são ofertados pelas organizações privadas, agora mais degradados, caros e marcados pela desesperança, neste momento percebemos que a classe média, marcada pelo grande capacidade intelectual e moral, percebem como foi usada pelos grupos mais abastados e sem compromissos sociais.

Na pandemia percebemos novas perspectivas na sociedade, neste momento de intranquilidades e desesperanças motivadas pela virulência da pandemia, a necessidade dos investimentos governamentais aumentou de forma acelerada, obrigando muitos grupos econômicos e políticos a rever novos pensamentos, obrigando-os a reconstruir novos espaços de sociabilidade e solidariedade, diante disso, nestes momentos de instabilidades gerados pela pandemia que afetou toda a sociedade internacional, os indivíduos deveriam transformar este momento de novos espaços de reflexão e de reconstrução da coletividade em bases mais sólidas e consistentes, abrindo a coletividade para novos horizontes de crescimento e de desenvolvimento econômico, com mais igualdade, liberdade e fraternidade.

Pandemia: 400 milhões de empregos viraram pó, por César Locatelli.

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César Locatelli – Carta Maior, 09/09/2020

Mesmo assim 32 das maiores empresas do mundo devem faturar R$ 577 bilhões a mais em 2020 do que na média dos quatro anos anteriores, observa novo estudo da Oxfam

“Estamos vivendo tempos de partir o coração. Seis meses após a Organização Mundial da Saúde ter declarado que a COVID-19 é uma pandemia, mais de 800.000 pessoas perderam suas vidas em decorrência da doença. Estima-se que 400 milhões de pessoas, a maioria mulheres, perderam seus empregos. Até meio bilhão de pessoas poderá ter sido empurrado para uma situação de pobreza até a pandemia acabar”. Assim principia o mais recente relatório da Oxfam, que tem ‘titulo: “Poder, Lucros e a Pandemia: da distribuição excessiva de lucros e dividendos de empresas para poucos para uma economia que funcione para todos”.

Para termos uma ideia da disparidade de renda e riqueza, mesmo em países bastante menos desiguais que o Brasil, o estudo mostra que “Jeff Bezos, proprietário da Amazon, lucrou tanto em 2020 que poderia pagar um bônus único de US$ 105 mil para cada um dos seus 876 mil funcionários e ainda assim ser tão rico quanto era no início da pandemia.”

O aprofundamento do desemprego e da informalidade convive, lado a lado, com o gigantesco aumento no patrimônio dos bilionários brasileiros. “No Brasil, os efeitos da pandemia também foram desiguais. Enquanto a maioria da população perdeu emprego e renda (país tem hoje cerca de 13 milhões de desempregados e 40 milhões de trabalhadores informais) e mais de 600 mil micros, pequenas e médias empresas já fecharam as portas, os 42 bilionários brasileiros tiveram sua riqueza aumentada em US$ 34 bilhões (mais de R$ 180 bilhões) durante a pandemia.”

As agruras do modo de produção adotado mundo afora ficaram ainda mais evidentes durante a pandemia: “a COVID-19 deixou claro que um modelo econômico focado na extração de valor não nos permitirá superar os complexos e urgentes desafios dos nossos tempos”.

As recomendações contidas no estudo da Oxfam são estruturadas em três áreas: “1) responder à pandemia e às suas demandas por recursos adotando um imposto sobre lucros excedentes, 2) reformar o setor empresarial em quatro dimensões essenciais: propósito, pessoas, lucros e poder e 3) reconstruir nossas economias com base em modelos de negócios mais sustentáveis”.

Segue o release da Oxfam sobre o estudo, que está disponível em seu site.

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Lucro de grandes empresas dispara em meio à pandemia de coronavírus enquanto os mais pobres pagam o preço

Às vésperas do marco de seis meses de uma das maiores crises sanitárias do mundo, Oxfam lança o relatório Poder, Lucros e Pandemia destacando como o atual modelo econômico tem priorizado o lucro dos mais ricos sobre a vida dos mais pobres.

As 32 empresas mais rentáveis do mundo conseguiram US$ 109 bilhões (mais de R$ 577 bilhões) a mais em lucros durante a pandemia de covid-19 em 2020 do que a média obtida nos quatro anos anteriores (2016-2019), revela o novo relatório da Oxfam Poder, Lucros e a Pandemia, lançado globalmente nesta quinta-feira (10/9).

Publicado na véspera do marco de seis meses da declaração oficial de pandemia no mundo (11 de março), o informe revela como grandes corporações do mundo priorizaram lucros em detrimento da segurança dos trabalhadores. Cortaram custos, não reduziram riscos nas cadeias de fornecimento e usaram toda sua influência política para moldar as ações tomadas pelos governos para conter a crise.

Enquanto isso, a crise econômica global provocada pela pandemia deixa meio bilhão de pessoas no limiar da pobreza. Quatrocentos milhões de empregos não existem mais e 430 milhões de pequenos negócios estão sob risco de falência.

Acionistas protegidos, população à deriva

As 100 empresas campeãs do mercado de ações acrescentaram mais de US$ 3 trilhões ao seu valor de mercado desde o início da pandemia (em março de 2020). Como resultado, os 25 maiores bilionários do mundo aumentaram suas riquezas em quantidades assombrosas. Jeff Bezos, por exemplo, poderia pagar um bônus único de US$ 105 mil (mais de R$ 550 mil) para cada um dos 876 mil funcionários da Amazon e ainda assim ser tão rico quanto era no início da pandemia.

Para Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, vivemos uma situação insustentável e injusta com milhões de pessoas que perderam seus empregos, renda e dignidade, enquanto alguns poucos bilionários aumentavam sua riqueza.

“Não podemos aceitar que esse modelo econômico, que privilegia alguns poucos bilionários em detrimento de toda a sociedade, continue a ditar as regras. Nosso relatório mostra que essa economia só tem funcionado para um pequeno grupo de pessoas, os super-ricos”.

Segundo Gustavo Ferroni, coordenador de Setor Privado e Direitos Humanos da Oxfam Brasil, os recursos fundamentais para garantir o enfrentamento à pandemia e a sustentação socioeconômica das pessoas estão indo parar nas mãos de poucos. “Enquanto isso, mulheres, a população negra, minorias étnicas e migrantes pelo mundo sofrem imensos impactos em suas vidas.”

O relatório destaca ainda como as corporações exacerbaram os impactos econômicos da pandemia ao canalizarem lucros para seus acionistas em vez de investirem em melhores empregos e tecnologias mais limpas, além de pagar sua parte justa em impostos e priorizar as pessoas em vez dos lucros.

No Brasil, pandemia também aumenta fortuna de bilionários

No Brasil, os efeitos da pandemia também foram desiguais. Enquanto a maioria da população perdeu emprego e renda (país tem hoje cerca de 13 milhões de desempregados e 40 milhões de trabalhadores informais) e mais de 600 mil micros, pequenas e médias empresas já fecharam as portas, os 42 bilionários brasileiros tiveram sua riqueza aumentada em US$ 34 bilhões (mais de R$ 180 bilhões) durante a pandemia. O patrimônio líquido desses super-ricos aumentou de US$ 123,1 bilhões (mais de R$ 650 bilhões) em março para US$ 157,1 bilhões (mais de R$ 832 bilhões) em julho – um aumento de US$ 34 bilhões (mais de R$ 80 bilhões) em quatro meses. Quatro meses de pandemia que tiraram muito de milhões.

Alguns dados do relatório que revelam como a pandemia impactou de maneira desigual os super-ricos e os mais pobres:

• 10 das maiores marcas de roupas do mundo usaram 74% de seus lucros (um total de US$ 21 bilhões – mais de R$ 100 bilhões) para pagar dividendos a seus acionistas e recomprar ações em 2019. Em 2020, 2,2 milhões de trabalhadores em Bangladesh foram afetados com o cancelamento de pedidos de produtos têxteis. O fechamento de fábricas causou um prejuízo estimado de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16 bilhões) ao país.

• Jeff Bezos, proprietário da Amazon, lucrou tanto em 2020 que poderia pagar um bônus único de US$ 105 mil (mais de R$ 500 mil) para cada um dos seus 876 mil funcionários e ainda assim ser tão rico quanto era no início da pandemia.

• Nos Estados Unidos, cerca de 27 mil trabalhadores de fábricas de empacotamento de carne testaram positivo para covid-19 – um em cada nove trabalhadores – e mais de 90 morreram devido à doença. A maior empresa de processamento de carne do país, a Tyson Foods, publicou uma carta defendendo a abertura de suas fábricas, apesar de 8,5 mil trabalhadores de suas fábricas terem testado positivo para o virus.

• Na Índia, centenas de trabalhadores das plantações de chá, muitos dos quais são mulheres, ficaram sem seus salários devido às medidas de isolamento social demandadas ao combate ao coronavírus. Ao mesmo tempo, algumas das maiores empresas indianas de chá aumentaram seus lucros ou conseguiram manter margens de lucros cortando empregos.

• Os trabalhos de mineração no Peru continuaram em operação apesar dos altos riscos de infecção entre os trabalhadores do setor.

• A petrolífera americana Chevron anunciou cortes de 10-15% de seus cerca de 45 mil trabalhadores pelo mundo apesar de gastar mais em dividendos e recompras de ações no primeiro trimestre do ano do que arrecadaram em seus negócios.

A Oxfam acredita que a habilidade de muitas empresas em lidar com a crise econômica causada pela pandemia e cuidar de seus trabalhadores foi minada por anos de uma cultura de pagamento de altos valores a acionistas; algumas empresas chegaram a pagar valores mais altos do que seus lucros durante a pandemia.

Entre 2016 e 2019, 59 das empresas mais lucrativas dos Estados Unidos, Europa, Coreia do Sul, Austrália, Índia, Brasil, Nigéria e África do Sul distribuíram quase US$ 2 trilhões (mais de R$ 10 trilhões) a seus acionistas, com pagamentos em média 83% superiores aos ganhos obtidos no período.

As três maiores empresas de planos de saúde da África do Sul – Netcare, Mediclinic e Life Healthcare Group – pagaram 163% de seus lucros para acionistas por meio de dividendos e recompras de ações.

Crise pede resposta urgente e justa

É preciso uma resposta urgente para a crise atual que priorize apoio aos trabalhadores e trabalhadoras e aos pequenos negócios. Isso inclui o estabelecimento de um Imposto sobre Lucros Obtidos com a Pandemia de Covid-19, para assegurar um sacrifício compartilhado na sociedade. Quem está lucrando com a pandemia tem que ajudar aqueles que só perderam com a crise de saúde pública.

No longo prazo, a Oxfam pede a governos e corporações que reequilibrem o propósito corporativo, seus lucros e poder, deixando de beneficiar exclusivamente os executivos e acionistas, passando a dar mais atenção a trabalhadores e trabalhadoras, fornecedores, consumidores e comunidades.

“Estamos em um momento crítico. Temos uma escolha a fazer: voltar ao modelo de negócio de sempre ou aprender com a crise e desenhar uma economia mais justa e sustentável”, afirma Gustavo Ferroni. “A menos que mudemos o curso das coisas, as desigualdades vão aumentar – no Brasil e no mundo

A sociedade dos empregos de merda, por David Graeber.

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Como o capitalismo contemporâneo cria sem cessar ocupações inúteis, enquanto remunera muito mal as mais necessárias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidadã Universal?

David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, em Outras Palavras.

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.

Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules e [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).

A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.

Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?

Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.

Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?

Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?

Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.

Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.

As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.

Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham

É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.

Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.

E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?

Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.

Na mídia, há um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?

Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.

Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.

Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.

Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.

Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.

Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.

Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.

Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.

Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.

Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?

 

Quem vai pagar os estímulos fiscais e monetários?

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Programas para incentivar atividades econômicas somaram US$ 20 trilhões, ou 25% do PIB mundial. Paulo Leme* – OESP – 06/09/2020

Todos nós pagaremos a conta dos grandes programas de estímulos fiscais e monetários implementados pelos governos para atenuar os efeitos recessivos da pandemia. Sem entrar no mérito desses programas, a conta a ser paga é da ordem de US$ 20 trilhões (25% do PIB mundial). Dessa quantia, 60% foram financiados com emissão de dívida pública e 40% através da política monetária. Esses recursos foram utilizados para estimular a demanda agregada, transferir renda aos desempregados, e salvar as empresas diretamente afetadas pelo lockdown, evitando um colapso ainda maior da oferta agregada. A boa notícia é que junto com as medidas de saúde pública para controlar a pandemia, esses programas de estímulo permitiram que a economia mundial se recuperasse já a partir do segundo trimestre. Mesmo assim, estimo que a pandemia destruiu quase que US$ 10 trilhões do PIB mundial, o que exigirá pelo menos 18 meses para que volte ao seu nível de fevereiro. of leak p3rcth1rty O meu objetivo é explicar como e quem vai pagar essa conta de 25% do PIB. Os governos usarão três fontes principais de financiamento. Primeiro, o aumento da dívida pública. Segundo, a senhoriagem, através da emissão de moeda, aproveitando que a crise aumentou a demanda por base monetária: assustados com a crise, investidores resgataram as suas aplicações e se refugiaram em caixa, entregando sua poupança aos bancos centrais. Só nos Estados Unidos e na Europa esse movimento foi equivalente a 3,5% do PIB mundial. Terceiro, os bancos centrais compraram trilhões de dólares de ativos de risco do sistema financeiro, cuja contrapartida foi a expansão das reservas bancárias e papel moeda. Por sua vez, os bancos repassaram parte desses recursos para empresas e famílias através de empréstimos. As perguntas são quando e como os governos vão repagar o setor privado. Isso dependerá do país, da solidez das suas instituições fiscais e monetárias, e se o país emite ou não (como no caso dos EUA e UE) moeda e dívida que são aceitas como reservas internacionais. Há quatro caminhos para repagar (ou não) os 25% do PIB. Essas alternativas são complementares e não mutuamente exclusivas. Primeiro, as economias desenvolvidas pagarão esse passivo de forma transparente e orçamentária. Isso quer dizer que nos próximos 30 anos os governos aumentarão os impostos para pagar os juros e o principal da dívida pública. Isso significa que o PIB mundial só não caiu mais graças à transferência intertemporal de crescimento e de recursos de futuras gerações. Segundo, quando a economia mundial voltar a crescer, haverá um aumento da demanda por instrumentos financeiros, parte da qual será atendida pela venda de ativos hoje encarteirados pelos bancos centrais. Isso reduzirá as reservas bancárias e o tamanho dos balanços dos bancos centrais. Terceiro, os governos utilizarão instrumentos quase fiscais ou formas indiretas de tributação. O melhor exemplo disso são as taxas de juros reais negativas, que hoje cobrem quase que dois terços de todos os instrumentos de renda fixa no mundo. Juros negativos são um imposto que incide sobre os poupadores e um subsídio aos devedores (governos e empresas). A segunda forma de tributação indireta é o imposto inflacionário: a inflação é equivalente a uma forma de calote porque corrói em termos reais os salários e o valor do principal da dívida. A terceira forma de tributação é desvalorizar a moeda, mas esta é uma arma que só funciona para países que emitem ativos de reserva internacional. Quarto, o último recurso é simplesmente dar um calote na dívida. Em um processo de reestruturação, o devedor reduz o valor da dívida através de um haircut (corte) no principal. No caso da reestruturação da dívida de uma empresa, ela impõe uma perda aos acionistas da empresa e credores. Não há almoço grátis. O choque real imposto pela covid-19 exigiu que os governos transferissem rapidamente um volume gigantesco de recursos do setor privado (e de países com uma alta taxa de poupança) para estimular a demanda e a oferta agregada. Assim como não ter feito nada não era uma opção, no futuro, a conta virá na forma de aumento de impostos e inflação, desvalorizações cambiais, calotes, e queda do crescimento econômico. *PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

Lições do Vale do Silício chinês devem ser lembradas no atual ajuste de rumo de Pequim

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 PIB de Shenzhen, primeira zona econômica especial do país, ultrapassou o de Hong Kong em 2018

Tatiana Prazeres – FSP, 03/09/2020

Há 40 anos, era impensável que uma vila de pescadores no sul da China pudesse se tornar um polo mundial de tecnologia. Pois nenhuma cidade simboliza melhor a modernização do país do que Shenzhen.

A região então pacata que começou produzindo cópias baratas de calculadoras e toca-fitas passou a ser conhecida como fábrica do mundo e hoje é chamada de Vale do Silício chinês.

Poucos dias atrás, a China comemorou os 40 anos de criação da primeira zona econômica especial do país. Rememora o passado de olho nos desafios atuais.

Quando a China ainda era fechada ao mundo, Deng Xiaoping ousou ao estabelecer quatro áreas-piloto para atrair capital estrangeiro, estimular industrialização e exportações. Shenzhen foi a primeira e a mais bem-sucedida delas.

Diferentemente do restante do país, naqueles enclaves as empresas poderiam buscar lucro, demitir funcionários, remeter divisas para o exterior.

Quatro anos depois, mais 14 cidades replicariam o modelo pioneiro de Shenzhen, localizada na província de Guangdong, que, aliás, tinha o pai de Xi Jinping como chefe do Partido Comunista à época.

A experiência transformou não apenas a China mas também a governança do país. Em primeiro lugar, reforçou a capacidade de o governo chinês experimentar. Atravessa-se um rio sentindo suas pedras —a frase atribuída a Deng simboliza a disposição em aprender fazendo e corrigir rumos.

Em segundo lugar, a experiência deu ímpeto aos esforços de descentralização econômica. Ao contrário do que comumente se pensa, províncias e cidades chinesas têm margem de manobra considerável. O experimento com as zonas econômicas especiais contribuiu para isso.

Shenzhen é hoje sede de empresas de equipamentos de telecomunicações como Huawei e ZTE. Alberga a maior empresa de drones do mundo, a DJI, e o grupo Tencent, dono do superaplicativo WeChat.

Cerca de metade dos pedidos de patente da China vem de Shenzhen. Em 2000, tinha 100 empresas de tecnologia. Hoje, mais de 30 mil.

Em 2018, o PIB de Shenzhen passou o de Hong Kong, que fica a 15 minutos de trem, com quem hoje rivaliza e que lhe serviu como fonte de capital, tecnologia e talento.

Das inúmeras lições sobre Shenzhen, duas são particularmente oportunas hoje: o equilíbrio de forças entre Estado e setor privado, e a abertura para o mundo. Como em nenhum outro lugar da China, o modelo desenvolvido em Shenzhen permitiu liberar a energia do empreendedorismo chinês. Desfez amarras que ainda prosperam em outras partes.

Igualmente, a abertura para comércio e investimentos estrangeiros que se viu em Shenzhen estimulou reformas no plano nacional, fundamentais para a modernização do país.

Hoje, parece estar em curso na China uma atualização do seu modelo econômico. Cunhado de estratégia da dupla circulação, o modelo ainda carece de detalhes, mas sugere mais foco na economia interna e menos na integração global.

Vários temem que a nova linha implique desaceleração dos esforços de abertura e modernização da economia. Receiam que empresas estatais voltem a ganhar maior importância. Nesse contexto, vozes a favor da autossuficiência passam a ser mais influentes, sobretudo depois que os EUA adotaram sanções contra empresas da China —não por acaso, de Shenzhen.

A impressão que se tem é de que a China vai se voltar para dentro, inclusive para diminuir riscos de um ambiente externo mais desfavorável tanto sob ponto de vista político quanto econômico.

A mudança de circunstâncias externas pode exigir ajustes de rumo, mas não justifica abandonar as lições que Shenzhen legou para a China.

Em 2012, quando se tornou líder do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping foi a Shenzhen e depositou uma coroa de flores aos pés de uma estátua de Deng Xiaoping, artífice da modernização econômica do país. Hoje, a lembrança parece especialmente oportuna.

Tatiana Prazeres

Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

 

O desastre anunciado da economia brasileira

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Ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados do produto interno bruto (PIB) no período do segundo trimestre, os dados não trouxeram nenhum estranhamento, queda em 9,7% na economia nacional, mesmo sabendo que a situação econômica retratada pelo instituto é claramente desastrosa, mostrando os impactos do vírus, da quarentena e dos desencontros das políticas governamentais, sem foco, sem planejamento, sem organização e sem estratégias claras e, muitos equívocos, vários conflitos políticos, mentiras generalizadas, hipocrisias crescentes e omissões constantes na gestão da pandemia, os dados mostram uma situação caótica, incremento no desemprego e no subemprego, queda vertiginosa da renda agregada, redução dos salários e uma maior desesperança.

Desde 2014 a economia brasileira está passando por grandes dificuldades de crescimento econômico, desemprego crescente e aumento da degradação social, levando a situação social a situações de desesperanças e desagregação generalizadas, criando na sociedade brasileira um ambiente de caos político, social, econômico e, na atualidade, uma crise sanitária causada pelo coronavírus e que levou a mais de 120 mil mortes de cidadãos.

No ambiente econômico, os dados do IBGE destaca números assustadores da economia brasileira, mais de 9,7% queda do produto interno bruto (PIB), aumento dos desequilíbrios do sistema econômico, gerando novas instabilidades e exigindo dos gestores públicos a uma atitude mais incisiva, utilizando todos os instrumentos econômicos disponíveis para reverter esta situação de degradação, sob pena de um incremento dos desajustes sociais que estão presentes na maior dos lares brasileiros, marcados por desempregos e medos crescentes. Os números desnudados pelo instituto exigem atuações dos agentes governamentais, assim como a grande maioria dos países civilizados estão fazendo, para diminuir os estragos do vírus, reconstruir as estruturas econômicas e produtivas e abrir novas perspectivas econômicas para a sociedade brasileira, sem estas providências urgentes, as condições tendem se degradar de forma acelerada.

Os dados divulgados pelo Instituto só foram piores, porque o auxílio emergencial aprovado pelo governo e incentivado pelo Congresso Nacional de 600 reais, com custos mensais de mais de 56 bilhões de reais. Importante destacar ainda que, segundo as ideias do ministro da economia e da equipe econômica, os valores deveriam ser algo em torno de 200 reais, valores insuficientes para a manutenção das condições de vida digna de uma parcela da sociedade brasileira.

Os recursos destinados pelo governo federal no auxílio emergencial de 600 reais foram fundamentais para que os dados divulgados pelo IBGE não fossem mais negativos e degradantes para a sociedade, neste momento, percebemos novas discussões e novas políticas para a superação deste ambiente marcado por graves desequilíbrios sociais e forte retração da economia nacional, sem novas estratégias claras e consistentes, os desequilíbrios devem crescer de forma mais degradantes, com maior falência de empresas, violência urbanas e incremento da insegurança e da desesperança.

Os indicadores econômicos da economia internacional mostraram que todos as nações estão em recessão, marcadas por incremento do desemprego e caos generalizados, os dados mostraram que o único país que conseguiu apresentar dados positivos no segundo trimestre foi a China, cujos dados chegaram a um crescimento econômico de 11,5%, valores surpreendentes que mostraram o potencial do país asiático, cujo isolamento social, a quarentena e o planejamento foram organizado pelo governo com êxito e grande sucesso.

Observando os dados disponibilizados pelo IBGE, percebemos que o único setor da economia brasileira que apresentou crescimento no período foi o agronegócio, que avançou 0,4% no segundo semestre, mostrando o forte crescimento da produtividade deste setor da economia brasileira, responsável pelo incremento das exportações e o aumento das vendas externas, principalmente, os negócios com o maior parceiro do país, a China, responsável por grandes aquisições e pela manutenção dos superávits comerciais brasileiros, a entrada de recursos externos e o equilíbrio das contas externas.

A conjuntura econômica brasileira está mostrando a queda acentuada dos investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) na estrutura produtiva nacional, chegando a algo em torno de 15% do produto interno bruto, dados muito distantes dos investimentos da economia, que chegaram a quase 22% do PIB no começo do século e garantiram uma taxa de crescimento maior de 3%, além de novos empregos e novas oportunidades de crescimento econômico.

O colapso da economia brasileira neste ano nos leva a ausência de um novo projeto econômico consistente, a ausência de planejamentos e estratégicas de emprego e reformas que ampliam o potencial de crescimento econômico. Neste momento, percebemos que os dados divulgados pelo IBGE não surpreenda todos aqueles que observam a conjuntura econômica, as dificuldades políticas do governo, as fragilidades no legislativo e os embates com o judiciário estão aumentando as dificuldades de gestão, dificultando o gerenciamento da crise, incrementando e degradando a situação econômica que é claramente caótica e seus impactos da crise gerada pelo covid-19 são cada mais maiores e consistentes.

A crise mostra os equívocos da equipe econômica liderada pelo economista Paulo Guedes, muitas versões equivocadas, mentiras crescentes, previsões furadas e falas desnecessárias levam a um ambiente de grave degradação social, instabilidade no mercado financeiro e afastando os investidores externos, que buscam espaços de investimentos consistentes e oportunidades claras de ganhos e melhorias de rentabilidades, todas ausentes da economia brasileira contemporânea, explicando os dados divulgados pelo IBGE.

Embora muitos setores, principalmente os detentores de grandes fortunas, a sociedade brasileira acumula grande ojeriza ao Estado Nacional, colocando-o no centro de todos os desequilíbrios sociais, políticos e culturais. Devemos destacar que o Estado Nacional tem grande papel na sociedade global, os defensores do pensamento liberal devem reconhecer o papel central para o crescimento e para a consolidação dos mercados, já que sem Estado os mercados não teriam formas de garantir os ganhos da acumulação, a acumulação financeira, os aparatos de seguranças públicas e a institucionalidade social, funções estas que tem no Estado seu espaço de atuação na sociedade moderna.

Os desastres geradas pelo coronavírus na economia brasileira e, principalmente, na sociedade nacional, deve ser vista como a ausência de planos concretos, pela fragilidade dos programas em curso, ausência de políticas organizadas em todos os entes federativos, marcados pela dificuldade de lideranças nacionais, visões mais amplas e  elaboradas, que incluam a todos os setores nacionais e todos os grupos sociais, sem estes programas e planos gerados e consolidados pelos governos, os dados trazidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não são novidades, estamos mergulhados na pior recessão econômica nacional, na verdade, estamos em crescente depressão, cujos impactos sobre a sociedade são assustadores, marcados pela ausência de projeto nacional claro, consistente e ambicioso.

As discussões em curso na economia brasileira são frágeis e desnecessárias, o Estado está perdendo a capacidade de estimular as grandes discussões nacionais, características existentes em décadas anteriores, onde a industrialização era conduzida pelos agentes governamentais e, tendo ao lado os setores industriais, os empresários nacionalistas, os grupos acadêmicos, da mídia e da sociedade civil, grupos interessados no progresso do país e a construção do desenvolvimento nacional. Na atualidade, os poucos grupos políticos estão interessados e dispostos a auxiliar na construção do desenvolvimento de um projeto nacional, querem apenas incrementar a acumulação e o crescimento dos interesses imediatos, atuando como lobistas de seus grupos econômicos e financeiros.

Na sociedade brasileira, os grupos mais abastados insistem em reformas fracassadas que recaem aos mais frágeis e nos setores da classe média, deixando de lado os grandes detentores da riqueza nacional, reformando os holerites dos outros setores e se colocando distante de reformas que atingem os status quo, como grupos dotados de grandes privilégios, pagam poucos recursos, conseguem isenções tributárias, não pagam seus recursos oriundos de lucros e dividendos crescentes e conseguem dominar todas as esferas nacionais de poder, perpetuando o poder e a dominação. No momento que escrevo, o governo federal deposita no Congresso Nacional uma proposta de Reforma Administrativa, uma reforma urgente e necessária para a sociedade, mas infelizmente, na proposta deixa de fora os grandes grupos detentores de salários mais elevados que impacta sobre as contas públicas. Os grandes detentores dos privilégios nacionais se perpetuando no poder e nos privilégios, com isso, o Brasil, mais uma vez, se especializa de perder novas oportunidades para dar um salto na produtividade e estimulando o desenvolvimento econômico e social, perpetuando as desigualdades e a exclusão social.

A economia mundial sente os desajustes gerados pelo coronavírus, seus impactos negativos é global, a pandemia exige atuação de todos os grupos nacionais e concatenação de interesses diversos, onde todos os grandes sociais devem compreender que uma sociedade não se constroem apenas como acumulo de seus ganhos econômicos e financeiros, a sociedade se constrói com ajustes constantes, com trabalho árduo e atuação de todos os grupos sociais, sem trabalhos dignos e decentes, sem crescimento da desigualdade social e do incremento de oportunidades para todos os setores. Desta forma, percebemos que a civilização está avançando lentamente e impulsionando a humanidade, deixando aos nossos herdeiros diretos melhores perspectivas, pela esperança e pela solidariedade.

As ideias liberais são interessantes e devem ser estimuladas na sociedade, para que este pensamento traga mais bem estar para a sociedade, faz-se necessário, construir novos espaços de oportunidades socias e de incremento profissional e emocional, sem estes crescimentos, os grandes beneficiados pelo liberalismo são aqueles que nasceram em grupos mais sociais mais consistentes financeiros e emocionais, perpetuando as desigualdades e consolidando os poderes de uma pequena parte da sociedade, os verdadeiros beneficiados pela iniquidade que crassa na sociedade brasileira. Num momento de pandemia, as discussões são fundamentais, a tributação deve ser centrada em grupo mais abonados, que neste momento de instabilidades e incertezas devem ser tributados mais intensivamente, garantindo o acúmulo de recursos econômicos e financeiros para diminuir os desequilíbrios nacionais, sem estes movimentos de atuação de maior tributação para a todos os grupos mais abastados, as instituições jurídicas e os agentes do Estado Nacional perderão mais legitimidade social, levando a sociedade a movimentos de renovação, a conflitos e reconstrução nacional.

O Brasil está doente, as pulsões mais delirantes vieram à tona, afirma psicanalista Maria Homem.

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Para ela, é preciso encarar o tratamento e identificar os problemas recorrentes nacionais

Emílio Santanna – FOLHA DE SÃO PAULO – 31/08/2020

Um paciente que, por muito tempo, deu pouca importância aos sintomas de um mal maior e, agora, movido pela urgência, precisa se deitar no divã e passar por um profundo processo de análise. A psicanalista Maria Homem vê assim o Brasil.

Um país com suas subjetividades individuais e coletivas pressionadas por mais de 120 mil mortes causadas pela pandemia do novo coronavírus, longe de conseguir baixar as marcas diárias de vítimas e em meio uma crise política e econômica. É preciso fazer uma escolha que leve à aproximação dos polos que se estabeleceram na vida nacional.

Em meio a esse processo, a crise de conceitos como individualismo e liberdade também nos coloca diante de escolhas e reposicionamentos prementes.

Maria Homem falou à Folha sobre algumas dessas mudanças e os desafios da pós-modernidade.

A pandemia e a quarentena colocam em xeque alguns conceitos como os de liberdade e individualismo. Como lidar com isso?

A modernidade toda está embasada na invenção da subjetividade individual. Antes, tínhamos a ideia de sermos parte de um clã, da família, da tradição, de que há um Deus transcendente que sabe o que estou pensando. Grosso modo, você não tinha um espaço de privacidade subjetiva individual, que é uma invenção moderna. É o que vai fundar o Estado democrático de direito, igualmente moderno. Qual o princípio básico? Um sujeito de liberdade e autonomia, cartesiano, kantiano, que diz “penso, logo existo” e “eu sou livre”.

Só que nós estamos numa era de críticas a alguns aspectos dessa modernidade. Estamos quebrando alguns grandes pilares da modernidade, ou ao menos colocando em xeque. A liberdade é do indivíduo? Também. Você quer sair da realidade, injetar, cheirar, fumar, pôr em baixo da língua, beber, tudo o que quiser? Qual é o limite? Não pode fazer isso tendo uma criança para tomar conta, tendo um carro para dirigir, que pode ser uma arma.

A gente tem uma liberdade, a priori inalienável, de ir e vir. Deveria ter, porque também não temos. O capital regula a circulação de pessoas. Também temos grandes narrativas: todos somos iguais perante a lei. É verdade que afirmamos isso, mas não é verdade que realizemos. Estamos há 200, 300 anos tentando executar o projeto iluminista.

A princípio, dentro do quadrado da nação, você pode ir e vir. Mas, mesmo nele, quando você tem um vírus com altíssima mobilidade e que é potencialmente letal, aí temos que fazer o isolamento social. Isso não é contra meu direito.

Eu não sou livre para ir e vir sem ser regulado pelo Estado?

Sim, seria. Por isso que é interessante discutir essa premissa da liberdade individual. É um grande pilar da modernidade. Eu sou livre, autônoma e racional. Não é Deus que vai dizer vá para cá ou vá para lá, não é uma guerra entre deuses e demônios para te fazer ser gay ou heterossexual, ser rei ou não ser. É Hamlet. É a grande questão shakespeariana: “Ser ou não ser, eis a questão”. Isso é o sujeito moderno por excelência.

Isso o século 19 já quebra. Freud cifra o sujeito ultramoderno com a ideia de que não temos plena consciência. Não somos movidos por aquilo que a gente deseja, porque o desejo é sobretudo inconsciente. Desejo, inconsciente, pulsão. É a crítica da subjetividade moderna, é a subversão do “cogito” cartesiano. Você é livre? Não. É escravo? Não, você é livre e escravo. Não é totalmente livre, porque age de acordo com seus impulsos basais. E também é identificado ao outro, é submetido aos imperativos do outro que você introjeta. Superego, “Úber-ich”. Todos carregamos um pedaço que é do outro dentro da gente.

Agora, vou andar cem anos, de Freud até hoje, sobretudo com as redes sociais que dizem o que a gente deve ser ou não e o que os outros aprovam ou não [às vezes] de uma maneira superegóica como a cultura do cancelamento Então a gente vai ser o quê? O que a gente acha, o que o outro acha? É o que eu acho que você acha? O que eu vou postar? O que eu acho que você acha que eu vou gostar? E aí vai, num movimento infinito de suposições, de ideias egóicas que estão sempre fora de mim. E chega um momento em que eu nem sei mais se quero ou não ir para a rua. Nem sei o que eu quero, do que eu gosto, o que eu posso, quem sou eu.

Se você no seu país, se colocou como adulto —a Nova Zelândia é o grande exemplo, governando por uma mulher que não precisa de um estratagema ficcional de governo calcado na fantasia e na mentira, como no Brasil e nos EUA—, nesse momento que você tem um problema, não pode tudo.

E se você não tinha acreditado no Freud, agora observe. Se eu vou mostrar, se quero mostrar, isso é todo esse jogo narcísico das redes sociais. E, se quer mostrar e quer que eu veja, que eu tenha inveja, ótimo.

Você é o sujeito pós-moderno por excelência, que é uma máquina de produzir inveja no olhar do outro para ter o seu valor reconhecido. A gente ampliou a lógica do reconhecimento. Não é sua família, é uma massa anônima que te dá “like”.

Isso nos torna ainda menos livres do que éramos há cem anos? 

Nesse aspecto eu diria que sim. A gente se complicou. Esse avatar que você constrói na rede é libertador? Não, não diria isso. Ou, então, deixaria essa pergunta para o leitor. Quão livre você é, tendo que construir continuamente um avatar para ser amado? Estamos mais livres do paradigma da demanda de amor, de que um Deus nos ame e nos aceite no Juízo Final? Sou otimista? Não diria isso… A gente está é inventando mais trabalho.

Então, no fim, só os preguiçosos serão salvos? 

[Rindo] E os tolos… Não sei se tenho sorte. Eu apanho, claro. Mas eu tenho um grande privilégio de ser muito livre para falar, pensar… A menina de dez anos, o estupro, o aborto, o que o Jair, o que o falou… Tem tanto material no Brasil que, se você deixar, não para de trabalhar.

Em que medida o isolamento social favorece o acirramento da polarização que vivemos?

A quarentena é uma operação gigantesca de desvelamento. Nessa situação de estresse e sofrimento, tudo vem à tona. Você está apertando subjetividades individuais e coletivas, e as estruturas vêm à tona, o Brasil veio à tona. O que é o bolsonarismo, o que são os filhos [de Bolsonaro], o que é a lógica miliciana, da corrupção, da política? Como a gente compra o centrão, o meio, a borda? Está tudo a céu aberto, é como se fosse um declínio da contenção, da inibição, crise do recalque, e todas as potências vêm à tona. Acho interessante como psicanalista. Sem isso você não faz tratamento. Você precisa saber bem o que é o Brasil. Tem racismo, misoginia, exploração, homofobia, desigualdades, tradições escravocratas, autoritária, violenta, assassina, bandida. Tudo isso faz parte da história do Brasil.

Precisa parar de se enganar, de maquiar, de pôr a culpa no outro, porque aí a gente vai fazer uma polarização que diz “Eu tenho o bem, você não tem”. Todo o bem está comigo, a raça superior, o futuro da nação, Novo Reich, todo o mal está com você que tem que ser exterminado. Isso é uma regressão para um mecanismo psíquico muito arcaico.

O racismo é problema nosso. Tivemos séculos de escravidão. Sempre tivemos transformação política via autoritarismo. Foi sempre com golpe. A Independência, a República, acreditamos na força. Milhões de pessoas elegem o cara com o símbolo de arma porque a gente acredita na força. Acreditamos na autoridade suprema e a desejamos para “parar com essa bagunça”. Esse binarismo mental entre o caos, a desordem, a puta zona e a ordem; a força, a violência, o “AI 5 quero, sim”, isso revela crenças, estruturas do que somos.

Temos que saber que são questões constitutivas, têm a ver com o que somos. É um processo analítico. O Brasil deveria entrar agora num processo analítico coletivo, como qualquer sujeito. “Eu estou com insônia, tenho síndrome do pânico’; ou “estou com vontade de matar quatro e já matei dois”. “Estou indo para análise. O que está acontecendo comigo?” É a ponta do iceberg, são problemas de séculos.

Assim, o bolsonarismo não ocorreu por acaso.

Não existe acaso no inconsciente. Nem no consciente. Acaso não existe. Mas existe, sim, o acaso/contingência? Claro. Tem toda uma estrutura por trás para possibilitar esse acaso. A vida é estrutura e acaso. Ela é tudo aquilo que já está montado. Se 58 milhões de pessoas entraram nesse delírio, isso está muito profundamente arraigado. Não existe acaso que eleja uma ficção com um imaginário tão delirante. Assim como o lulismo é outra construção que tem um aspecto profundamente imaginário. Não só, mas também, e é em alguma medida próximo a Bolsonaro —que consegue maior aprovação ao dar esse dinheiro mensal a uma parcela miserável da população.

É isso o que explica o aumento da popularidade do Bolsonaro?

Uma parte são os R$ 600 [do auxílio emergencial]. Outra parte é a ideia do salvador da pátria. Esse caudilhismo autoritário é curioso. Ele é de extrema esquerda porque é desenvolvimentista, estatista, vide o Exército no poder —como Chávez e Maduro, na Venezuela— com o verniz ultraliberal. É tão confuso que a gente tem generais no poder com o Paulo Guedes.

Será que não temos uma potência, uma pluralidade de pensamentos? Mas não estamos sabendo sentar à mesa e falar o que queremos. A gente quer a perpetuação do extrativismo, da miséria, o máximo de desigualdade, o máximo de dinheiro para esse grupo? Essa plutocracia que a gente está exercendo, queremos continuar nessa?

Tem muita gente boa, acho que dá para sentar à mesa e dizer “Olha nós vamos ceder, vamos negociar”.

Há uma disputa entre esses potenciais transformadores e algo como uma pulsão de morte que perpetua essa situação?

Tem muita pulsão de morte, claro. Uma pulsão de morte que, no momento, está vencendo. Quando você leva o pior do estado do Rio de Janeiro para o poder central, você vai ter uma “milicianização” global do poder do Estado. E nós estamos vendo isso. Estamos numa encruzilhada seríssima. Como vamos restaurar um mínimo pacto da lei? Como vamos barrar o gozo do outro? Se não barramos, é pulsão de morte, tânatos.

É isso que queremos? É o que estamos fazendo. É uma pergunta analítica. É realmente isso que você quer? É isso que você, Brasil, está fazendo da sua vida. Ou sentamos à mesa e explicitamos o que estamos fazendo, quem somos nós, ou vamos ser deixados fazer inconscientemente.

Agora que vieram à tona as pulsões mais delirantes, mais doentias, mais loucas do Brasil, vamos escutar e falar. O Brasil está doente. Não tenho dúvidas, o Brasil está doente. É preciso olhar no espelho.

Maria Homem 
Psicanalista, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, professora da Faap, autora de livros como “No Limiar do Silêncio e da Letra: Traços de Autoria em Clarice Lispector” (Boitempo, 2012) e “Coisa de Menina? Uma Conversa sobre Gênero, Sexualidade, Maternidade e Feminismo” (Papirus 7 Mares, 2019), em parceria com Contardo Calligaris. Seus cursos e palestras, como os que faz na Casa do Saber, se popularizaram nas redes sociais

 

O agronegócio na crise global

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Vendendo comida, o Brasil perdeu menos que outros países no segundo trimestre

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo, 30/08/2020

O mundo precisa comer, com ou sem crise, e o Brasil produz e vende muita comida. Graças a isso a exportação brasileira caiu bem menos que a média mundial na pior fase do ano. O comércio global despencou no segundo trimestre e isso é bem visível no desempenho das maiores economias. Nesse período o Grupo dos 20 (G-20) exportou 17,7% menos que no primeiro trimestre. O valor importado foi 16,7% menor que o de janeiro-março. Países com grande participação da agropecuária nas vendas externas, como Brasil, Argentina e Austrália, perderam muito menos receita que os demais, segundo relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O Brasil faturou no segundo trimestre 7,2% menos que no primeiro. A despesa com a importação foi 18,2% menor que nos três meses anteriores. Apesar da retração comercial observada na maior parte do mundo, a balança brasileira continuou no azul. Dois fatores contribuíram para isso. Com milhões de famílias fechadas em casa, consumo em queda e economia quase inerte, a demanda de importações foi muito baixa. O segundo fator foi o dinamismo permanente do agronegócio.

A exportação de comida e matérias-primas produzidas pela agropecuária continuou vigorosa no segundo trimestre, embora a economia mundial estivesse afundada em severa recessão. No primeiro semestre o agronegócio exportou produtos no valor de US$ 51,63 bilhões, 9,7% mais que um ano antes. O saldo comercial do setor chegou a US$ 45,40 bilhões e continuou sustentando o saldo positivo da balança comercial brasileira.

Em junho as vendas externas do agronegócio atingiram o recorde de US$ 10,17 bilhões, com crescimento anual de 24,5%, e corresponderam a 56,8% do valor total exportado pelo Brasil. Um ano antes a participação havia sido de 44,4%. O vigor se manteve em julho, quando o setor faturou US$ 10 bilhões com as vendas externas e garantiu 51,2% da receita geral do comércio de bens.

O agronegócio, convém sempre lembrar, mantém forte presença no mercado global apesar de ter sua imagem manchada pela desastrosa política ambiental do presidente Jair Bolsonaro e pela vergonhosa diplomacia do atual governo.

Mesmo com esses fatores adversos, o verdadeiro agronegócio, pouco presente na Amazônia e respeitador do ambiente natural, tem conseguido contornar a má fama do governo brasileiro e evitar o protecionismo baseado em bandeiras ambientalistas.

Mas o risco das campanhas protecionistas permanece, enquanto o presidente e seus piores ministros mantêm tolerância à devastação da Amazônia e de outros biomas e à violação de direitos dos povos indígenas. No mercado financeiro já é sensível o custo das más políticas federais. Grandes investidores cortam aplicações no Brasil ou ameaçam retirar-se. A decisão de três dos maiores bancos – Itaú, Bradesco e Santander – de criar o Conselho Consultivo Amazônia – para incentivar o desenvolvimento sustentável da região – mostra uma nítida percepção do problema ambiental e de seus custos.

Com grande peso da agropecuária na exportação, a Argentina faturou no segundo trimestre 11,8% menos que no primeiro, também com desempenho melhor que a maior parte dos países do G-20. Na Austrália a queda foi de 4,4%.

Na União Europeia o valor exportado caiu 21,3% e o importado diminuiu 19%. No bloco europeu a França teve a maior perda de receita, 29,3%, seguida pela Itália, com redução de 26,5%. Na maior economia do mundo, os Estados Unidos, a receita comercial do segundo trimestre foi 28,2% inferior à do primeiro. O gasto com a importação de bens diminuiu 14,5%.

A exceção no G-20 foi a China. Vendeu 9,1% mais no segundo trimestre, depois de ter perdido 9,3% no primeiro. Mas sua importação continuou em queda no período abril-junho, com recuo de mais 4,9%, mas sem danos para o agronegócio brasileiro. No primeiro semestre o mercado chinês absorveu 39,6% das vendas externas do setor. Em segundo lugar, apesar de alguma redução, ficou a União Europeia, principal núcleo das campanhas protecionistas contra o agro brasileiro.

 

 

O prosador de promessas

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Folha de São Paulo, 30/08/2020.

Como ministro, Guedes é bom contador de causos

VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Independentemente de qual teoria econômica se siga —ortodoxa ou heterodoxa—, é consenso que a boa condução de expectativas é fundamental para o bom funcionamento da economia. Foi Keynes quem primeiro trouxe essa ideia, e boa parte dos grandes economistas depois dele lidaram com ela —Friedman, Lucas, Skidelsky, Arkelof, Shiller. Trata-se de um instrumento de política econômica chamado de “forward guidance”. A importância de as medidas sempre mirarem o hoje e o amanhã é porque as decisões na economia, quaisquer que forem, acontecem e perduram no tempo. Quanto mais clara e crível for, portanto, a informação sobre o que fará o principal ente econômico —o governo federal—, melhor é para economia.

Alçado ao posto de figura inabalável e concentrando poderes de política econômica com poucos paralelos na história, Paulo Guedes é a voz com maior capacidade de moldar expectativas no país. Não há ministro do Planejamento para lhe fazer contraponto, e os presidentes dos bancos públicos e autarquias da área econômica lhe prestam continência. O presidente da República, aliás, reforça recorrentemente sua submissão —ainda que com deslizes práticos — à agenda do por ele apelidado “Posto Ipiranga”.

Ainda na campanha de 2018, Guedes garantiu, contra todas as evidências, que zeraria o déficit primário de cerca de R$ 130 bilhões já no primeiro ano de governo. Desta forma, ele implicitamente menosprezava todos aqueles que, familiares ao Orçamento, reforçavam a inviabilidade dessa tese. Pois 2019 passou e o déficit permaneceu.

Guedes tem prometido, com frequência, a privatização de todas as estatais, que trariam R$ 2 trilhões, ou seja, 30% do PIB, a serem anunciadas sempre “na semana que vem”. O BNDES apontou em julho que a maioria dos estudos sobre os efeitos de eventuais privatizações sequer foi concluída. Em vez do realismo, o ministro Paulo Guedes opta pelo discurso simples, que encanta quem vive de vender e comprar papeis em cima de promessas e boatos, mas que não altera a realidade das contas públicas ou a vida do cidadão brasileiro médio.

Guedes garantiu em setembro de 2019 que apresentaria a proposta de reforma tributária; claro, “na semana que vem”. Ela só chegou em julho de 2020 — e fatiada. Impressionam, também, as projeções superlativas do impacto das medidas do governo. Redução de 40% no preço da energia com o novo mercado do gás, anunciado em julho de 2019, e que nunca saiu do papel. Aliás, a reforma administrativa, que viria “na semana que vem” em 2019, também não saiu do papel. Geração de 3,7 milhões de empregos com a MP da Liberdade Econômica e outros 4 milhões com a Carteira Verde e Amarela. Investimentos de R$ 800 bilhões com o marco do saneamento. Agora, R$ 630 bilhões com um novo, de novo, marco regulatório do gás.

Em abril, o ministro da Economia disse, em uma live, ter “um amigo inglês” que doaria 40 milhões de testes de Covid-19 por mês ao Brasil. Quem era e onde estão os testes? Aliás, ficará na história a frase de Guedes, em 13 de março: “Com três, quatro ou cinco bilhões” o país “aniquilaria” o coronavírus. Os gastos do governo com a pandemia estão perto do meio trilhão de reais.

Diante da maior crise econômica de sua história, Guedes propaga uma recuperação em “V”, algo que contrasta com o que ocorreu em 2019, quando o PIB reduziu seu ritmo de crescimento —1,1%, contra 1,3% de 2017 e 2018. Isso sem contar a desarticulação da política econômica, que vem ocorrendo desde 2019, e os impactos econômicos negativos do desastre ambiental que é este governo: recuperação em “V”?

Guedes é, como ministro da Economia, um bom contador de causos. Um prosador de promessas: as pronuncia provavelmente com a mesma certeza que tem, em seu íntimo, de que não as entregará. Tendo lido Keynes três vezes no original antes de ir estudar com Friedman em Chicago, Guedes aparentemente pouco aprendeu de ambos os mestres.

Suas promessas confundem a sociedade, o que é sempre danoso à economia —como Keynes e Friedman ensinaram. A economista Esther Duflo, Prêmio Nobel em 2019, cunhou a sina dos três “is” que atrapalham o desenvolvimento: inércia, ideologia e ignorância. É uma pena que o Brasil pareça se encontrar preso nessa tríade, bem em meio à sua maior crise.

Débora Freire
Professora da UFMG

Élida Graziane
Professora da Eaesp-FGV

Fabio Terra
Professor da UFABC e do PPGE-UFU

Gabriel Brasil
Economista pela UFMG

Igor Rocha
Doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Cambridge

João Villaverde
Doutorando em administração pública pela FGV

Laura Carvalho
Professora da USP

Thomas Conti
Professor do Insper e IDP-SP