Alívio econômico

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A economia brasileira vem padecendo de baixo crescimento econômico desde meados dos anos 1980, depois de forte crescimento da estrutura produtiva nas décadas anteriores, o país perdeu o dinamismo, perdeu espaços na economia internacional, fragilizando sua estrutura industrial, mergulhando em taxas elevadas de inflação e que culminaram em políticas de estabilização, austeridade fiscal, baixo crescimento econômico e incremento da desigualdade social, com aumento da exclusão social, com crescimento das drogas e a explosão da violência em todas as regiões, vide a Cracolândia que cresce de forma acelerada, gerando desafios e prescindem de políticas públicas planejadas e organizadas.

Vivemos numa sociedade altamente integrada, onde as estruturas econômicas e produtivas estão interligadas, o crescimento tecnológico está moldando uma nova sociedade, com novos modelos de negócios, centrados nas novas plataformas de comunicação, novos instrumentos de marketing, com o incremento da inteligência artificial, das biotecnologias, demandando profissionais altamente capacitados, flexíveis, dinâmicos, dotados de inteligência emocional e fortemente engajados nos desafios que crescem cotidianamente, vide os desafios criados com o surgimento do ChatGPT, que estão transformando setores e exigindo uma constante atualização.

Neste ambiente, percebemos que a economia brasileira vem demonstrando melhoras constantes, embora acreditemos que os avanços sejam tímidos, uma sensível redução dos combustíveis, com taxas de inflação demostrando sinais claros de redução sistemática, a moeda nacional apresentou forte valorização, atraindo moedas externas, impactando sobre os preços internos e um incremento da renda dos trabalhadores.

Destacamos ainda, os avanços da reforma tributária, que surgem para simplificar os impostos, além dos avanços do arcabouço fiscal, uma medida tão aguardado pelo chamado mercado e foram bem vistos pelos donos do dinheiro, com isso, percebemos que os índices de confiança da economia nacional apresentaram números positivos, com aumento dos investimentos externos e as tratativas de novos investimentos, que estão em alta crescente e as perspectivas se apresentam positivas, vide as investidas de empresas chinesas que estão buscando o mercado brasileiro, inicialmente no setor automobilístico e eletroeletrônico e, posteriormente, outros setores econômicos, demonstrando que o país está voltando para os círculos de investimentos internacionais, depois de anos de escassez de recursos externos e pouco investimento produtivo, aonde recebíamos apenas grandes levas de investimentos financeiros que vinham para angariar ganhos com nossa taxa de juros escorchantes.

Neste momento, percebemos que existe uma reconfiguração do poder global, estamos percebendo o nascimento de um mundo multipolar, onde os eixos econômicos estão saindo das nações desenvolvidas ocidentais para os países asiáticos, que ganharam novas estruturas econômicas e produtivas, passaram a competir com as nações ocidentais e passaram a ganhar espaço na nova configuração da economia internacional, marcada por forte concorrência externa, grandes investimentos em ciência e tecnologia, maciços dispêndios nos setores educacionais e melhora na estrutura produtiva, saindo de nações exportadoras de produtos primários de baixo valor agregado para uma estrutura mais tecnológica, centradas em produtos industrializados e dotadas de mercadorias de alto valor agregado.

Numa economia altamente concorrencial, marcada pelos fortes investimentos em tecnologia, educação e inovação, onde os Estados Nacionais usam todos os instrumentos para fomentar seus setores econômicos e produtivos, como estamos vendo nos países desenvolvidos que despejam trilhões de dólares para fortalecer seus setores produtivos, faz-se necessário que as economias estejam estabilizadas, estimulando a confiança e a credibilidade, para atrair novos investimentos internos e externos, desta forma, percebemos que a melhora econômica da economia brasileira pode abrir novos horizontes para investimentos e melhorar o ambiente de negócio, deixando de ser vistos como um pária internacional e retomando um lugar de destaque no cenário internacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Circular, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 26/07/2023.

Violência nas escolas é também reflexo de quem nós somos, por Belinda Mandelbaum

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Instituições de ensino e famílias reproduzem lógicas de mercado e trabalho, causando adoecimento, intolerância e vergonha

Belinda Mandelbaum, Psicanalista e professora titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP. Autora de “Psicanálise da família” (Artesã, 2020) e “Trabalhos com famílias em Psicologia Social” (Blucher, 2023)

Folha de São Paulo, 23/07/2023

Ficamos horrorizados ao tomar conhecimento de episódios de violência em escolas, que resultaram no brutal assassinato de crianças, adolescentes e adultos, e em traumas psíquicos que perduram naqueles que testemunharam esses acontecimentos de perto ou de longe.

Diante desse horror, nós, pais e educadores, nos perguntamos atordoados o que fazer para auxiliar nossas crianças a lidar com essa brutalidade, de forma a elaborarem pessoal e coletivamente o possível, e não perderem o gosto e a confiança na escola, sentimentos que ficaram abalados em tantos de nós.

Parte do modo de darmos sentido a esses acontecimentos é buscar explicações que, no geral, tendem a se deter nas patologias mentais dos perpetradores. E isto, de fato, é parte da explicação: os assassinos via de regra têm histórias pessoais traumáticas, resultantes de violências sofridas na infância e juventude, como maus tratos e humilhações em casa, na escola, na rua.

Mas, alguma reflexão que conseguirmos fazer sobre essas histórias pessoais já nos obriga também a ampliar o nosso foco de compreensão das causas e sentidos da violência, que partem da psicologia dos perpetradores e vão em direção à constatação de como atos de violência física, psicológica e moral fazem parte do cotidiano das instituições de ensino. Se manifestam em diversificadas práticas de agressão, desrespeito e humilhação, e ocorrem com maior frequência quando as vítimas são ou mostram-se mais vulneráveis por quaisquer diferenças que se apresentem.

Raça, gênero, orientação sexual, classe social, incapacidades físicas ou psicológicas são algumas delas.

Crianças e adultos no espaço escolar podem ser estigmatizados e discriminados por mínimas diferenças em relação aos padrões socialmente valorizados. Todos temos ou já tivemos essas experiências: há violência dentro e fora da sala de aula, nas atividades esportivas e recreativas –por exemplo, quando os jogos perdem as suas potencialidades de prazer, cooperação e socialização para se tornarem competições frenéticas e desesperadas pela superação e alcance dos melhores desempenhos.

A escola hoje, tal como uma empresa, foi tomada por uma lógica competitiva e avaliativa, reproduzindo em seu interior os modos hegemônicos das relações de mercado e trabalho. A escola “prepara” os alunos para o mundo da competição, da (auto)avaliação contínua, da exigência de incessante superação das metas, até o limite da exaustão. E não dar conta ou adoecer pode ser alvo de intolerância e vergonha.

Tudo ocorre tal como nos games, em que aos vencedores há a promessa de riqueza e sucesso, e aos perdedores resta a humilhação, a exclusão, até o extermínio. Isto está em toda parte hoje, como uma ideologia que tende a ser totalitária em nossas vidas. Está também dentro das nossas casas, nas expectativas e ansiedades que vivemos em relação a nós mesmos e aos filhos desde o nascimento.

Enfraquecer ou adoecer se tornou sinônimo de intolerância e vergonha. É preciso repensar esse modo de vida, pelo mal que nos tem causado no corpo, na mente e nas nossas relações em todos os espaços sociais, ainda que a tendência seja estarmos convencidos de que não há alternativa, não há outra forma de viver.

Mas, a conversa em casa e na escola a partir das violências ocorridas e seu impacto em todos nós, crianças e adultos, pode já ser parte de outra forma de viver. Assim, abrimos uma brecha, um espaço e um tempo para que o outro se sinta à vontade para falar do seu jeito, do que sente e pensa, de suas fantasias, temores e ansiedades. Sem julgarmos, apenas ouvindo, acolhendo e pensando juntos, podemos ser transformadores de modos profundos, surpreendentes e inusitados.

Quem sabe assim também possamos nos dar conta de nossas próprias violências.

Lula quer taxar os muito ricos, por Celso Rocha de Barros.

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Regime atual da taxação dos fundos exclusivos é aberração evidente

Celso Rocha de Barros, Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de “PT, uma História”.

Folha de São Paulo, 23/07/2023

O governo Lula vai tentar cobrar mais impostos dos muito ricos. O Ministério da Fazenda planeja propor novas regras para tributar os fundos exclusivos, um tipo de aplicação financeira para quem tem muitos milhões para investir.

Dá até vergonha explicar isso, mas, pelas regras atuais, os ricos que aplicam no fundo exclusivo “Guedes Totoso” pagam menos impostos que a classe média que, por exemplo, investe no fundo de renda fixa “Merreca DI”. Para um resumo das vantagens que isso proporciona aos investidores, sugiro a reportagem de Lucas Bombana publicada na Folha da última quinta-feira.

O governo defende que os fundos dos milionários e os fundos da classe média sejam sujeitos às mesmas regras. Não chega a ser nada muito bolchevique.

Nesse ponto, você pode estar pensando: rapaz, o Brasil está com problema nas contas públicas faz muitos anos. Já tinham cortado dinheiro de tudo que era lado, e só agora notaram que milionário pagava imposto de menos?

Todo mundo sempre soube. Mesmo governos de direita, como Temer e Bolsonaro, cogitaram mudar a regra dos fundos exclusivos, mas não conseguiram fazer a proposta andar. Uma vez perguntei ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso porque não tornar os impostos brasileiros mais progressivos (isto é, fazer os ricos pagarem proporcionalmente mais).

Ele me respondeu que todo mundo sabia que tinha que ser feito, mas que os interesses contrários eram fortes no Congresso. Foi a mesma resposta que obtive quando entrevistei petistas graduados para meu livro sobre o PT: ninguém propunha porque todo mundo sabia que ia perder.

E se você leu isso e pensou, “bom, então o problema é o Congresso, é a democracia”, errou. No estatuto da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que apoiava a ditadura militar constava: “por um sistema tributário justo, instrumento do desenvolvimento econômico e de redistribuição social, através de crescente utilização dos impostos pessoais e diretos, de caráter progressivo” (artigo 2, alínea “i”). Apesar dessa declaração de intenções, a desigualdade de renda aumentou enormemente durante a ditadura.

Não é fácil cobrar imposto de rico.

Entretanto, há um bom motivo para que mesmo governos de direita recentes tenham pensado em mexer nos fundos exclusivos. O Brasil enfrenta uma crise fiscal terrível há muitos anos. Qualquer um que assuma a Presidência do Brasil vai ter que sair procurando de onde tirar dinheiro sem gerar uma crise social. Os pouco mais que 2.500 investidores que aplicam um total de mais de R$ 700 bilhões em fundos exclusivos provavelmente sobreviverão bem se tiverem que pagar um pouco mais de imposto. Isso não é verdade sobre a maioria dos brasileiros.

A proposta sobre os fundos exclusivos não deve ser confundida com outro projeto do governo, a reforma do Imposto de Renda, que deve ficar para o ano que vem e é um assunto mais complexo, que exigirá mais negociação.

O regime atual da taxação dos fundos exclusivos é uma aberração evidente, algo que faria o Von Mises cantar a “Internacional” tomado de indignação.

Torço para que isso torne a proposta do governo Lula mais fácil de aprovar. O exemplo dos outros governos mostra que talvez não seja o caso.
Mas é para pelo menos tentar essas coisas que os brasileiros votam na esquerda.

Levantar-nos da sociedade do cansaço, eis o desafio, por Luiz Marques

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Vivemos a era das doenças neuronais, sugere Byung-Chul Han. Terror é ameaça permanente. A hiper-atenção esgota corpos e mentes, produz o sujeito depressivo. Mas há uma brecha: decodificar o poder totalitário de hoje – o neoliberalismo

Luiz Marques – Outras Mídias – 17/07/2023

O filósofo radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, considera que o fim da época bacteriológica coincide com a descoberta dos antibióticos, em 1928. A pandemia do vírus HIV, que a partir de 1977-78 vitimou 32 milhões de pessoas e o da Covid-19, que no biênio 2020-21 cravou 15 milhões de óbitos, para não citar os diversos tipos de gripe Influenza (A, B, C e D) e o vírus ebola, não o fizeram mudar de ideia. Sua ênfase recai nos imunizantes das moléstias virais, ignorando as tragédias mundiais. A publicação em português do ensaio, sem o posfácio autocrítico, demonstra que o autor segue com as antigas convicções ao propor um salto acrobático e arriscado, da biologia e da medicina, para a filosofia, a sociologia e a política.

O século XXI seria a época das doenças neuronais: depressão e transtornos, seja do déficit de atenção com síndrome de hiperatividade, seja da personalidade limítrofe. Já não morreríamos de infecção atacados por uma alteridade, mas de enfartos pelo excesso de positividade (o mesmo). A globalização suspendeu a negatividade (a diferença) ao trespassar as barreiras nacionais e impor um cosmopolitismo. Aqui, vale recordar: “A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, as relações produtivas e as relações sociais… A burguesia obriga as nações a adotarem o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar o que ela chama de civilização”, como previra Karl Marx no Manifesto de 1848.

Na verdade (que liberta), o capital é que foi globalizado. Se no decênio de 1960 a “sociedade de consumo” foi alvo de críticas acadêmicas nos países desenvolvidos, mais de sessenta anos depois o problema nos países em desenvolvimento não é o consumismo, senão a dificuldade da população em acessar uma cesta básica. O autor abstrai do raciocínio a realidade. Apaga das estatísticas o aumento das desigualdades sociais, consequência das políticas neoliberais: a desindustrialização, a precarização do trabalho, o desemprego e a inempregabilidade por falta de absorção da mão de obra não qualificada perante os extraordinários avanços da tecnologia.

Para o professor da Universidade de Berlim, “o igual não leva à formação de anticorpos”, logo, “não é possível falar de força de defesa, exceto em sentido figurado”. O imigrante seria apenas um peso, ao invés de uma ameaça. Ora, no capitalismo, admitir que os indivíduos se constituem em peças da engrenagem sistêmica ou que a concorrência interindividual corrompe a solidariedade – é razoável, mas não nivela os desiguais. Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos e na Europa, o assunto preponderante entre os eleitores foi disparado a imigração. As tribos que esgrimem uma igualitarização tóxica não são parâmetro para universalizar as teses pós-modernas (ou pior) sobre a sociabilidade, in totum. Antes, reenviam à equação cognitiva dentro-fora.
Sociedade de desempenho

Diferentemente de Michel Foucault, Byung-Chul Han avalia que os estudos sobre as instituições totais da “sociedade disciplinar” – hospitais, presídios, quartéis, fábricas, seminários – cederam a instituições como os bancos, laboratórios de genética, aeroportos, escritórios, shopping centers. Correspondem melhor à “sociedade de desempenho”, em que “os habitantes não se proclamam mais sujeitos de obediência, mas sujeitos de desempenho e produção; são empresários de si mesmos”. Note-se que a matriz do empreendedorismo, a desindustrialização, é sequestrada da tela.

A sociedade disciplinar era caracterizada pela negatividade (proibição, coerção). A sociedade do desempenho, com a “desregulamentação crescente, vai abolindo-a”. A passagem a seguir é muito ilustrativa: “O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação.

A sociedade disciplinar gera loucos e delinquentes. A sociedade de desempenho produz depressivos e fracassados”. Na imagem descritiva, a luta de classes e o malogro da meritocracia passam ao largo. A condenação ecoa uma lamentação resignada, sem bússola. Um campo fértil para a literatura de autoajuda e as palestras motivacionais de neurolinguística a empresários.

O impacto do neoliberalismo no continente europeu resultou na guinada da social-democracia para la pensée unique, que fez tábua rasa da direita e da esquerda. De repente, todos estavam a favor da austeridade, do equilíbrio fiscal e da contenção dos gastos sociais. Quase batendo à porta de Murray Rothbar, fundador do anarcocapitalismo, para o qual a organização social deve pautar o axioma “o Estado é um mal desnecessário”. Isso, apesar das lições catastróficas da crise de 2008 evidenciarem a imprescindibilidade da regulamentação estatal. Vide a negligência fatal da segurança privada na tragédia do submersível, que levou bilionários ao cemitério do Titanic.
“Liberalização nem sempre cria mais produtividade. É preciso estimular gastos de governos em áreas que tragam retorno (saúde, educação, etc.)”, reconhece agora o comentarista do Financial Times, Martin Sandbu, na contramão dos dogmas monetaristas dos anos 1990 que criminalizavam investimentos essenciais. Não obstante, o produtivismo extrativista a expensas do meio ambiente prossegue colado como um kárman ao inconsciente social da sociedade de desempenho, em perseguição do lucro imediatista. Conforme o velho Marx, o processo econômico em curso marcha independentemente da vontade do sujeito: “assemelha-se ao feiticeiro que não pode controlar as potências internas que pôs em movimento com suas palavras mágicas” (op.cit.).
Uma lacuna da narrativa

Byung-Chul Han realiza uma espécie de fenomenologia dos sentimentos que afloraram na dita pós-modernidade, a começar pelo tédio. Explicaria então as pessoas, de um lado, rejeitarem o ato da contemplação e, de outro, correrem a maratona da hiper-atenção, com o radar em múltiplos sinais e uma certeza somente – a derrota ao final. Feito um animal na selva que ao comer cuida para não ser comido, os humanos seriam entes irrequietos. Sem a paciência dos zen-budistas, absolutizam a vita activa e afundam na histeria e no nervosismo do redemoinho da ação.

“A sociedade do cansaço, enquanto sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping. A incessante elevação de desempenho leva a um enfarto da alma”. A pressão por resultados, a ausência de regramentos e os esgotamentos causados pela super positividade induzem ao uso de ansiolíticos e antidepressivos. Um fenômeno que Christian Dunker com senso de humor denomina “síndrome de domingo à noite”, momento entre o ócio e o ativismo.

“O cansaço profundo afrouxa as presilhas da identidade. As coisas cintilam e tremulam em suas margens. Tornam-se mais indeterminadas, permeáveis, e perdem certo teor de sua decisibilidade”.

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos. As célebres perguntas não calam. O autor sul-coreano metaboliza a subjetividade aflita do tempo marcado pela irracionalidade da hecatombe climática, do terror da guerra nuclear, da erosão da democracia e do espectro de novas pandemias. Motivos para combater a distopia da extrema direita, a necropolítica, na acepção foucaultiana do soberano que controla a mortalidade e define a vida como uma manifestação do poder. É hora de mobilizar a opinião pública e superar os maus agouros coletivos.

O neoliberalismo, isto é, a nova razão do mundo, serve de pano de fundo ao ensaio de Byung-Chul e ao filme O lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, estrelado por Leonardo DiCaprio. Contudo, na obra de arte cabia evitar o conceito para valorizar as emoções. Em uma reflexão teórica, o silêncio sobre a sociedade que não ousa dizer o seu nome é uma grande lacuna da narrativa. Não contribui para o trabalho de decodificação do totalitarismo do livre mercado. Esse é o ponto central. No teatro da política, não existe um diagnóstico sem responsabilização do diretor do espetáculo e sem um prognóstico com vistas à reordenação do papel dos atores, e da plateia.

Tempos estranhos

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Vivemos momentos estranhos na sociedade internacional. Os valores estão invertidos, os ganhos monetários e financeiros se tornaram o grande objetivo social, onde os indivíduos estão sendo vistos através de seu poderio econômico, os valores estão centrados no imediatismo, no individualismo e na busca frenética pelas riquezas materiais, deixando de lado valores centrados no humanismo, na solidariedade e na busca do bem-estar social, desta forma estamos caminhando a passos largos a uma fragilização civilizacional.

Nesta sociedade, encontramos descobertas científicas e tecnológicas que contribuíram para novos horizontes de melhorias sociais, doenças vistas como incuráveis, responsáveis por ceifar milhões de vidas, foram controladas por novas drogas, novos medicamentos e tratamentos revolucionários. Regiões inóspitas e inabitadas foram transformadas pela ciência, pelas pesquisas científicas que contribuíram para melhorar o clima e a vegetação, levando a riqueza material, a fartura alimentar e a melhora das condições de vida da população, deixando a pobreza e a indigência nos registros dos livros e nas anotações acadêmicas.

Vivemos numa sociedade que a tecnologia se transformou no agente instrumental da transformação social e econômica, trazendo uma aproximação física entre os indivíduos, aumentando a comunicação entre os seres humanos, barateando novos produtos, máquinas e serviços que estão revolucionando as relações sociais, alterando o convívio das pessoas, mudando seus comportamentos, modificando seus relacionamentos e impactando sobre as convenções sociais, criando novos modelos de negócios, novos desafios e oportunidades. Nesta sociedade, encontramos várias contradições, tais como uma tecnologia que nos aproxima virtualmente e, ao mesmo tempo, nos torna cada vez mais distantes fisicamente, mais solitários e infelizes, num verdadeiro paradoxo contemporâneo.

A atual sociedade revolucionou as descobertas espaciais, levando satélites, criando estações estelares e investindo trilhões de dólares para conhecer os segredos planetários e, ao mesmo tempo, percebemos que estamos se degradando com conflitos íntimos e pessoais, trabalhamos em excesso, acumulamos cada vez menos recursos monetários e estamos envoltos em crises existenciais crescentes e numa busca generalizada pelo sentido da vida, levando muitas pessoas a se entregarem em soluções milagrosas e elixires mágicos que, posteriormente, aumentam sua indigência emocional e afetiva. Neste cenário, os especialistas em saúde pública acreditam que estamos vivendo um incremento de desequilíbrios emocionais e espirituais, com aumento da depressão, das ansiedades crescentes e um aumento generalizado dos suicídios diretos e indiretos, ceifando milhões de pessoas em todas as regiões do mundo.

Desde o desenvolvimento industrial da humanidade, encontramos novas técnicas de gestão, novos instrumentos de incremento da produtividade, elevando o conhecimento da sociedade, melhorando os sistemas educacionais e, ao mesmo tempo, percebemos que estamos degradando mais efetivamente o meio ambiente, levando inúmeras espécies humanas à extinção, aumentamos a temperatura do Planeta Terra e estamos degradando regiões inteiras e plantações tradicionais, gerando riquezas para poucos e espalhando a miséria e a indigência para muitas pessoas do mundo, neste cenário, ainda encontramos inúmeros céticos, por desconhecimento ou por conveniência?

Vivemos momentos preocupantes e tempos estranhos, como destacou o sociólogo polonês radicado em Londres Zygmunt Bauman, onde as tecnologias da comunicação estão sendo utilizadas para espalhar inverdades e ressentimentos, aumentando os conflitos sociais e políticos, aumentando as tensões sociais e os conflitos dentro das comunidades, exigindo dos governos nacionais uma atitude cada vez mais agressiva para controlar os desequilíbrios, gerando mais repressões, mais prisões e mais dispêndios econômicos e fragilizando os orçamentos públicos.

Vivemos momentos estanhos, assustadores e preocupantes, neste cenário, precisamos de lideranças capacitadas e, urgentemente, repensar o modelo econômico dominante na sociedade brasileira, que estimular o rentismo, o imediatismo e o individualismo que aprofundam as desigualdades que caracterizam a sociedade nacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre e Doutor em Sociologia.

Carta Mensal – Junho 2023

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O mês de junho de 2023 completou seis meses do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva, um momento de grandes expectativas no cenário econômico, além de grandes incertezas políticas e inseguranças sociais, geradas por movimentos de polarizações constantes, que levaram o governo a adotar políticas serenas com o objetivo de gerar maiores instabilidades no campo econômico, cujo potencial é elevado e pode criar graves constrangimentos para o governo e, ao mesmo tempo, um conjunto de medidas que deveriam iniciar o sepultamento de políticas anteriores criadas e estimuladas no governo anterior.

Destacamos neste mês grandes desafios no campo econômico, onde destacamos as votações do chamado Novo Arcabouço Fiscal (NAF), medida criada pelo governo com o intuito de substituir o modelo anterior, chamado de Teto de Gastos, implementado no governo de Michel Temer e que congelava os gastos públicos num período de vinte anos, mesmo sabendo que os recursos fiscais fossem aumentados, gerando impactos sobre os chamados gastos sociais e públicos.

Depois de uma costura cotidiana, onde o Ministro da Fazendo Fernando Haddad, conseguiu aprovar o novo arcabouço, contando com o forte apoio do governo federal, além de seus integrantes e do Presidente da Câmara, Arthur Lira, o grande e poderoso no cenário nacional, detentor de forte representatividade na eleição de fevereiro no Congresso Nacional.

O chamado Novo Arcabouço Fiscal (NAF) pode ser visto como uma forte vitória do governo Lula da Silva, angariando força política perante os mercados e um fortalecimento do Ministro da Fazendo, visto como muitos políticos e empresários, o próximo candidato para a próxima eleição presidencial, se o atual governante não aceitar uma reeleição.

O NAF pode ser visto como um acerto entre o governo e o mercado, como forte potencial de elevar os indicadores econômicos nacionais, onde destacamos a valorização da moeda nacional, que o dólar saiu de mais de R$ 5,40 no começo do ano e, no momento, está na casa dos R$ 4,80, um movimento interessante que está contribuindo ativamente para melhorar o ambiente de negócio e reduzir as taxas de inflação, aliviando os preços internos e melhorando a renda do consumidor nacional e criando novos horizontes para o segundo semestre.

Outro assunto que precisamos destacar é os dados referentes a inflação, que está dando sinais claros de redução, depois de anos de forte crescimento e que levou o Banco Central a elevar as taxas de juros ao patamar de 13,75%, a maior taxa de juros entre as economias internacionais, que contribuiu para que o comportamento da economia nacional fosse preocupante e assustador, reduzindo os investimentos produtivos e elevando os recursos ligados aos setores rentistas da economia nacional.

A queda da inflação está ligada a variados movimentos, onde destacamos a chegada de um novo ambiente externo marcado por viagens internacionais e novos acordos comerciais com outras nações, onde destacamos as medidas adotadas na viagem da China, onde várias empresas estão sinalizando novos investimentos produtivos para o Brasil, destaque para o setor automobilístico, que está recebendo novos projetos bilionários, como a chegada da empresa BYD, conglomerado chinês líder em baterias elétricas, além de carros, caminhões e outros produtos variados.

A chegada de novos investimentos deve se somar aos novos acordos com a renovação do Mercosul, com conversas bilaterais e os acordos comerciais com a União Europeia que, no momento, está sendo rediscutido e futuramente será implementado totalmente ou parcialmente, só o tempo pode responder essa indagação.

A chegada de recursos internos, valorizou a moeda nacional, além de novos horizontes fiscais, com o NAF, que podem melhorar o ambiente de negócios, melhorando as condições econômicas e produtivas, atraindo investimentos externos e novas levas de geração de emprego.

Destacamos ainda a Reforma Tributária em curso na economia nacional, com potencial de simplificar as questões tributárias, diminuindo os custos com a questão dos impostos, vistos como um grande emaranhado complexo e centrado na ineficiência e nos desperdícios elevados, desta forma, a aprovação dessa reforma na Câmara dos Deputados pode trazer boas sinalizações no horizonte para a economia brasileira e atraindo novos investimentos internos e internacionais.

Muitos foram os avanços neste seis meses de governo, embora muitos críticos acreditem que as mudanças sejam pontuais, percebemos que muitos analistas estão sendo excessivamente críticos com as mudanças neste período, se esquecendo que se o governo anterior continuasse no poder, as questões econômicos seriam muito mais agressivas e degradantes, com isso, percebemos que falta uma maior complacência com um governo que assumiu a poucos meses, depois de um verdadeiro tsunami de degradação e destruição.

Embora destaque as muitas medidas positivas, é importante destacar, que o governo se tornou muito dependente do presidente da Câmara dos Deputados, responsável por grandes vitórias do governo, mas sabemos que todas as vitórias capitaneadas por Arthur Lira, tem uma fatura salgada para o governo nacional, como aconteceu no período da presidente Dilma Rousseff que culminaram no impeachment.

Destacamos ainda os movimentos de reindustrialização da economia brasileira que estão em curso e estão apresentando frutos interessantes, embora saibamos que os verdadeiros frutos tendem a demorar muitos anos, mas é fundamental que essa política seja estimulada por todo governo, uma medida de governo que una todos os setores econômicos, políticos e sociais, como uma forma de transformar um projeto é uma verdadeira Missão, como destaca a economista italiana Mariana Mazzucatto.

Neste cenário, destacamos a desoneração de carros de até 120 mil reais, como forma de estimular a produção, reduzir os estoques das montadoras e dar um alívio para a economia nacional, mobilizando os setores econômicos e produtivos, garantindo empregos e movimentando a economia.

A medida foi criticada por muitos críticos, que acreditam que essa medida piora as condições das cidades, aumentando a quantidade de carros circulando nas vias públicas, aumentando a emissão de dióxido de carbono e estimulando um setor produtivo com forte impacto sobre a economia linear em detrimento da chamada economia circular.

Depois de seis meses, os avanços são visíveis, embora saibamos que os desafios contemporâneos sejam elevados e as perspectivas podem ser positivas, mesmo sabendo que os riscos são elevados e as preocupações são muitas e prescinde de atenção constantes…

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Poder e progresso, por Hélio Schwartsman.

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Livro mostra que avanços tecnológicos podem virar concentração de renda ou prosperidade compartilhada

Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”.

Folha de São Paulo, 16/07/2023

Daron Acemoglu, um dos autores do best-seller “Por que Nações Fracassam”, volta à carga com mais um livro importante. Trata-se de “Power and Progress” (poder e progresso), desta vez em parceria com Simon Johnson.

Os autores admitem, por óbvio, que avanços científicos e tecnológicos estão na base da era de bem-estar material em que nos encontramos. Hoje, mesmo os mais pobres vivem vidas mais longas, mais saudáveis e com acesso a confortos com que nossos ancestrais de 300 anos atrás nem sequer podiam sonhar. O ponto da dupla é que nem todos os progressos tecnológicos se convertem automaticamente em prosperidade para todos.

Em algumas circunstâncias conseguimos transformar os avanços em bem-estar compartilhado, mas em várias outras o que se vê são elites se apropriando dos ganhos de produtividade, podendo até mesmo levar a maioria a experimentar uma piora nas condições devida. Foi o que ocorreu, por exemplo, com vários dos grupos que trocaram a caça/coleta pela agricultura/pastoreio. Foi também o destino das primeiras levas de trabalhadores sob a revolução industrial.

Acemoglu e Johnson analisam mil anos de história e tentam mostrar as razões para a diferença. Os detalhes obviamente variam muito, mas a repartição dos ganhos só ocorreu de forma mais equitativa quando a sociedade conseguiu desenvolver instituições, como sindicatos, imprensa etc. que lograram fazer com que as decisões sobre a tecnologia e a organização do trabalho não ficassem unicamente a cargo das elites.

Com esse instrumental, a dupla também aborda vários temas quentes do momento, como a inteligência artificial e as ameaças à democracia representadas pelas redes sociais. No capítulo final, eles elencam medidas que ajudariam a robustecer a sociedade civil, transformando-a numa força capaz de contrabalançar a tendência de concentração de poder e riqueza nas mãos de grupos cada vez mais restritos.

Professores, uni-vos!, por Jean Pierre Chauvin

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A Terra é Redonda -11/07/2023

Iean Pierre Chauvin

Um voto de protesto contra o discurso nefasto sobre o duro, incompreendido e desvalorizado ofício de professor

Uma das notícias mais tristes, nos últimos anos, foi constatar a existência de colegas que não só votaram no mitômano especializado em matar,[i] mas continuam a defendê-lo em 2023, apesar de tudo o que ele negou, distorceu, corrompeu e desfez; a despeito de todas as ignomínias que cometeu; apesar do absoluto deboche com que desgovernou as pessoas, as coisas, as culturas, as leis e as contas do país, em favor de si mesmo e de seus asseclas, todos situados muito abaixo da mediocridade.

Ora, se nem mesmo a hecatombe sanitária por negligência federal foi capaz de sensibilizar alguns professores durante a pandemia, o que o discurso leviano do seu filho poderia despertar? É nisso que tenho refletido desde que o deputado comparou “professores doutrinadores” a “traficantes” – em prejuízo moral dos educadores –, durante o final de semana, em ato que “coincidiu” com os seis meses do atentado aos três Poderes da República, no dia 8 de janeiro de 2023.

Alguém objetará que resulta inútil propor qualquer forma de diálogo com essa turma nefasta; mas, persisto.

Comecemos pela suspeita de que pouca gente lembra ou sabe que entre os antigos romanos, o verbo “doutrinar” subjazia o ato de lecionar, ou seja, era prática inerente à relação entre Mestre e Discípulo (veja-se o que ensinou Antônio Geraldo Cunha em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa).

Entretanto, o correr dos séculos, a mudança dos regimes, as novas formas de conceber o mundo, emprestaram caráter pejorativo ao termo doutrinação. Se até o final do Oitocentos, doutrina traduzia um conjunto de preceitos e, por extensão, a ideia de sistema, o fato é que a palavra assumiu caráter negativo ao longo do século XX, especialmente quando ela passou a ser empregada como sinônimo de perversão, desvio ético e/ou intelectual dos “puros” alunos, por obra do professor “doutrinador”.

Se resgatar a etimologia de doutrina pode resultar em argumento inconsistente (já que foram atribuídas muitas camadas de sentido a essa palavra, ao longo dos séculos), consideremos o uso que Paulo Freire fez dela em Pedagogia do Oprimido – publicado em 1968. Contrariando o que disparam seus detratores sem tê-lo lido, repare-se que em nenhum momento ele defendeu o papel doutrinário do professor, mas o seu propósito libertário, no trabalho com os alunos.

Uma explicação possível. A concepção freiriana de ensino-aprendizagem pressupunha solidariedade contra antagonismo; educação crítica em lugar de escolarização ingênua. Em suma, superar a contradição oprimido-opressor envolveria a relação horizontal entre educador-educando e educando-educador.

A lição pode soar óbvia aos colegas familiarizados com a extensa obra de Paulo Freire; mas, provavelmente será condenada como peça de pedagogia “doutrinária” pela extrema direita e seus adeptos – especialistas em ressentimento que fingem acreditar nos absurdos que eles mesmos criam e disseminam, em nome de quimeras como “Pátria” (quintal dos EUA), “Deus” (da prosperidade), “Família” (das aparências) e “Propriedade” (do latifúndio improdutivo) etc.

O que seres dessa estirpe simulam esquecer é que não há professor neutro, tampouco ensino isento de parcialidade. O que eles teriam a dizer sobre coachs apologetas do neoliberalismo, que transferem toda a cota do insucesso para o indivíduo “fracassado”? Sobre instrutores que “ensinam” o empreendedorismo como se fosse um valor absoluto, alheio aos limites do indivíduo e infenso às assimetrias sociais? Sobre líderes “religiosos” que espoliam os fiéis mais carentes, em benefício próprio? Sobre sujeitos na política que se divertem enquanto alvejam os profissionais da educação?

Professores, uni-vos!

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e literatura brasileira na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros de Sete Falas: ensaios sobre tipologias discursivas.

A economista que desmascarou a “austeridade”

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A poucos meses de lançar seu livro no Brasil, Clara Mattei sustenta: “Falta de recursos” é armadilha ideológica. Dinheiro, os Estados criam o tempo todo. Corte de serviços públicos visa disciplinar as maiorias, forçando-as a aceitar qualquer trabalho

Outras Mídias – 06/07/2023

A professora e escritora Clara Mattei é objetiva: já no título de seu mais recente livro ela fala da conexão direta entre austeridade econômica e o fascismo. Em The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism (ainda sem título em português – em tradução livre: “a ordem do capital: como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo”) ela destrincha essa relação. O livro será lançado no Brasil ainda este ano pela editora Boitempo.

Mattei foi a convidada do Brasil de Fato Entrevista desta semana. Ela contou sobre o processo para elaboração da obra, que é fruto de dez anos de estudo. Italiana radicada nos Estados Unidos (ela é professora de Economia na The New School for Social Research, em Nova Iorque), a pesquisadora cita personagens como Benito Mussolini, Donald Trump e a atual primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como frutos políticos de um caminho trilhado com apoio na lógica da austeridade econômica.

“Para o capitalismo funcionar, a maioria das pessoas deve estar desempoderada, precarizada e
dependente do mercado. E é isso que a austeridade faz. Tira recursos da maioria das pessoas, que ganham dinheiro através de um salário, e entrega a uma minoria, cuja riqueza vem de patrimônios e rendas”, afirma ela, que destaca que a alternativa a esse sistema passa pela organização das pessoas em suas comunidades locais.

A senhora passou dez anos escrevendo o livro que nasceu da sua tese de doutorado. Como e quando decidiu se aprofundar neste assunto?

Tudo começou quando estava vivendo os anos de grande austeridade de Mario Monti, na Itália. Ele chegou ao poder após a crise da dívida soberana em nosso país e estava estudando e vivendo na pele, assim como a maioria das pessoas no mundo ainda vive hoje, os efeitos da austeridade, a redução de verbas para a educação e saúde pública. Vi as pessoas na Itália ficarem cada vez mais pobres a olhos vistos. Era um país em que não tínhamos pessoas morando na rua e as ruas estavam ficando cheias de gente. Não havia moradia.

Mas você passou dez anos pesquisando e procurando material em arquivos, certo?

Sim, é um trabalho em economia histórica e política. É baseado em fontes primárias e na reconstrução do passado através de uma nova perspectiva, analisando material que ainda não havia sido publicado. O tipo de debate sobre austeridade que estava ocorrendo na mídia, na política pública e até entre movimentos de esquerda era muito insatisfatório porque era muito apolítico.

Transformaram a austeridade em uma ferramenta técnica para gerir a economia e a discussão era se a austeridade estava ou não funcionando para equilibrar o orçamento e promover crescimento. Era um debate sem solução. E não muito útil para entender por que a austeridade continuava emergindo mesmo que claramente não estivesse gerando crescimento, nem ajudando a resolver a questão da dívida.

Então o estudo histórico é muito importante porque nos dá uma análise com perspectiva de classe que estava ausente no debate econômico contemporâneo, que era muito tecnocrático. A tentativa era então olhar para o que aconteceu 100 anos atrás e mostrar como a austeridade tem uma clara lógica política que visa manter todos nós em uma situação de precariedade, de dependência do mercado, desempoderando assim a população para que o sistema se proteja e mantenha a ordem do capital, que é o título do livro: A ordem do capital, para se manter intacto.

Se olharmos para a história, isso só é visível porque aconteceu em um momento em que o capitalismo foi muito contestado depois da Primeira Guerra, e assim realmente vemos como a austeridade operava como uma contraofensiva usada pelas elites para impedir qualquer alternativa ao nosso sistema.

Na apresentação do livro, você fala sobre várias crises econômicas e políticas em países do mundo todo, já que essas crises e essa austeridade são intrínsecas à nossa sociedade moderna.

Nos últimos anos, mais uma vez vimos uma crise do neoliberalismo no mundo todo, algo que já se dizia no início do século passado. Esse modelo econômico não é o mais adequado, certo?

Sim, com certeza. Estamos em outro momento em que as pessoas não acreditam no sistema, penso eu.

Aliás, é por isso que a austeridade voltou com força total. Não só no Brasil. Eu moro nos Estados Unidos e o motivo pelo qual o Federal Reserve, o [equivalente ao] Banco Central, está aumentando a taxa de juros é porque a maioria das pessoas não está voltando ao trabalho.

Muitos trabalhadores estadunidenses, 46 milhões, em 2022, largaram seus empregos porque estão cansados da exploração e porque veem que o sistema não trabalha para eles e sim para uns poucos que enriquecem constantemente. Então é nessa situação que a austeridade deve voltar para nos convencer que, na verdade, estamos enganados e não existe outra saída a não ser através do sacrifício dos trabalhadores e, em última instância, do corte de salários para atrair a confiança dos investidores.

E o capital parece tentar se reestabilizar e se preservar o tempo todo. Mesmo diante de uma crise, os bancos, o sistema inteiro, e até os governos liberais, ainda tentam protegê-lo.

Com certeza. Mas acho que existe aí uma mensagem de esperança que surge quando levamos a História a sério: o capital não é fixo, não é algo dado e não é uma coisa, não é um objeto. É uma relação social e se traduz em uma maioria que aceita sua condição e aceita sua condição de vender sua capacidade por um salário.

A relação social não é de maneira alguma estática. É dinâmica e pode ser subvertida. É dinâmica e pode ser subvertida. Então a realidade é que a ordem do capital é muito frágil. E é por isso que a austeridade é tão cara a ela, porque a protege de todas essas demandas de transformação social que vão surgindo.

A mensagem aqui é que precisamos saber como a classe dominante opera para preservar um sistema injusto. Precisamos parar de idealizar o capitalismo como um sistema que pode ser reformado e que tem flexibilidade para incorporar nossas necessidades, e perceber que o capitalismo tem limites rígidos. É um sistema que só cresce e produz para gerar lucro e isso requer austeridade.

A tese central aqui é que a austeridade não é uma exceção no capitalismo, não é algo que só se vê nas etapas neoliberais, começando nos anos 80. Ela é muito mais intrínseca à longa história do capitalismo. Está no DNA do sistema exatamente porque, para o capitalismo funcionar, a maioria das pessoas deve estar desempoderada, precarizada e dependente do mercado. E é isso que a austeridade faz. Tira recursos da maioria das pessoas, que ganham dinheiro através de um salário, e entrega a uma minoria, cuja riqueza vem de patrimônios e rendas.

A pesquisa aborda os primeiros anos do século 20 até a atualidade. E a austeridade esteve sempre presente, como você acaba de dizer, desde o período entreguerras, que é onde começa a pesquisa.

Você disse que a austeridade foi uma ferramenta técnica e despolitizada para a ascensão de lideranças autoritárias. Por que unir Mussolini, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán e Giorgia Meloni, por exemplo? A pergunta é: “o que os une?”

É muito importante aqui dar um passo para trás. No livro, faço uma reconstrução da crise do capitalismo após a Primeira Guerra, há exatos 100 anos. Em 1919 e 1920, a população em geral tinha desistido do capitalismo, pensando que haveria um futuro melhor após a reconstrução pós-guerra. E todos esses experimentos que surgem de conselhos de trabalhadores demandam democracia econômica, o que significa que as pessoas estavam se reapropriando da produção e distribuição de recursos. Isso estava acontecendo concretamente.

Meu foco é o movimento de Antonio Gramsci, em Torino, L’Ordine Nuovo, em que é possível ver um esforço real não só para pensar diferente, como também para agir diferente. E só se podia agir diferente realmente pensando diferente e só se podia pensar diferente agindo diferente. Então é a importância da prática, de uma sociedade diferente nascer de experimentos dentro das fábricas e também no campo, em que as pessoas se reapropriaram dos meios de produção e da organização do trabalho.

Nessa situação explosiva, a burguesia ficou muito assustada. Porque, é claro, ela se beneficiava do capitalismo, queriam protegê-lo e qualquer forma de distribuição e democracia econômica teria significado, de certo modo, o fim dos seus privilégios. É nesse momento em que vemos emergir a austeridade como uma contraofensiva e aqui há dois fatores relacionados à sua pergunta. O primeiro é que os economistas participaram muito ativamente na construção de modelos econômicos supostamente “neutros”, teorias “neutras”, conhecimento científico, para dizer às pessoas que elas eram ignorantes, que elas não entendiam e, em suma, que estavam vivendo por conta própria e tinham que aceitar a verdade dura, como diziam, do trabalho duro e abster-se de consumir.

Então esse lema de austeridade, “consuma menos, produza mais”, foi imposto à população italiana e inglesa. Esses dois países são o foco dos meus estudos porque meu interesse é mostrar que a austeridade surge onde a democracia econômica é mais palpável. E naquele momento na Europa as pessoas tinham ganhado o direito ao voto, por exemplo. Mas o que se vê é uma aliança entre economistas e governos. Os economistas são convocados pelos governos para ajudar a impor à população a austeridade. E a austeridade veio em uma variedade de formas. Não foram só cortes de gastos, foi, em primeiro lugar, cortes de gastos sociais, taxação regressiva. Então houve aumento em impostos sobre o consumo, como ainda vemos no mundo todo hoje, mais impostos para pessoas físicas e corte de impostos para ricos e impostos corporativos ou sobre patrimônio etc.

Também se tratava de aumentar as taxas de juros, que também vemos hoje, ou seja, austeridade monetária, e, por último, aquilo que chamo de medidas industriais, que são ataques diretos a sindicatos, privatização, desregulação do trabalho e arrocho salarial. Então essa tríade da austeridade; fiscal, monetária e industrial; foi imposta à população também graças a economistas que estavam dizendo: “Este é o caminho certo a seguir e somos especialistas e objetivos”. Nesse sentido, fica evidente que os economistas desempenharam um papel bastante classista, participaram nessa guerra de uma classe contra o resto dos cidadãos e isso poderia ter sido feito de outro jeito, como foi na Inglaterra, onde a democracia liberal usou a austeridade contra seu povo e isso aumentou o desemprego e assim disciplinou os trabalhadores.

Eles tiveram que deter as greves, voltar ao trabalho com um salário bem menor e em piores condições. Voltando à pergunta, na Itália, vemos que Benito Mussolini, o fundador do fascismo, foi o mais eficiente implementador e aprendiz da austeridade. Mussolini chegou ao poder através de uma eleição, não um golpe, assim como Giorgia Meloni e Orbán hoje. Mas com uma intenção explícita de impor austeridade, dizendo às pessoas para não se preocuparem porque iriam fazer os cidadãos italianos pararem as greves, as reclamações e voltarem ao trabalho.

Agora, eu acho que hoje vemos muitos desses políticos “autoritários parafascistas” emergirem porque as pessoas estão insatisfeitas com a austeridade. A austeridade venceu a um ponto em que não há mais a noção de classe: as pessoas pensam que são indivíduos [isolados], e é uma típica mensagem de austeridade: “Não há classes, não há antagonismo, só indivíduos. E são os empresários que lideram a máquina econômica, não os trabalhadores.”

Então, no caso da Itália, para mim, Meloni chegou ao poder porque prometeu redistribuição de renda, e é claro que não cumpriu, porque assim que assumiu o poder mais uma vez impôs austeridade, como Mussolini e outros regimes autoritários.

Sobre isso, você diz que a austeridade não teve sucesso em estabilizar a crise econômica, mas teve sucesso em estabilizar as relações de classe. Estamos vendo agora uma mudança global nas relações de trabalho. Os sindicatos estão enfraquecidos, perdendo poder em alguns países. Como poderíamos ver nascer uma nova organização de trabalhadores?

Tenho algumas ideias sobre isso. Em primeiro lugar, mesmo se existe essa ideia de que os trabalhadores estão enfraquecidos, isso se deve à ação da austeridade sobre nossa vida por mais de 100 anos. Ela foi muito bem-sucedida, como você disse. A austeridade não teve sucesso em atingir os objetivos estabelecidos de crescimento econômico e pagamento da dívida, mas teve muito sucesso em atingir seu verdadeiro maior objetivo: garantir que as pessoas não pensem que podem viver em outro tipo de sociedade, aceitem sua condição de trabalhadores assalariados. Mais uma vez, impondo a ordem do capital. E isso também é uma armadilha para a mente porque os modelos econômicos reafirmam que os trabalhadores não importam, só os empresários.

Então é justo e correto afastar os recursos dos preguiçosos e favorecer os supostamente meritórios. Eles oferecem justificativas para essas políticas de extração de todos nós.

Claramente a austeridade teve sucesso e vemos que, historicamente, os trabalhadores perderam poder, o poder de barganha, o poder de imaginar um novo futuro. Dito isso, quero chamar atenção ao fato de que, no capitalismo, a luta de classes nunca para. É uma constante. Nosso sistema está em movimento, é um processo, não há nada fixo, mesmo que os economistas queiram que acreditemos que há algo fixo. Porque acreditar que algo é fixo nos desempodera e aprisiona nossa imaginação.

Então quero dizer que, é claro, existe um motivo por que a coisa não vai tão bem para os trabalhadores neste momento histórico, mas não é à toa que existem muitas mobilizações novas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, é o setor de serviços: pessoas em restaurantes, hotéis, em áreas em que normalmente o trabalho é muito precarizado e individualizado, estão agora se sindicalizando. Starbucks, Amazon, Chipotle. E isso está assustando muito as classes dominantes.

Eu diria que estamos em um momento, na verdade, em que existe novamente certa turbulência. Claro, não é o espírito revolucionário de 100 anos atrás, mas há muita demanda por libertação.

Respondendo a sua pergunta, me sinto muito esperançosa. Há pouco estive na África do Sul, apresentando o livro, e me organizei e me encontrei com ativistas das townships [áreas urbanas comparáveis a favelas]. As townships são lugares onde o apartheid ainda existe, em termos de precarização econômica. No entanto, há muita energia no território, muita gente das novas gerações que abandonou as velhas categorias e estão pensando o novo.

Acho que o importante, para avançarmos, é abrir espaço para essas iniciativas que buscam recuperar independência e autossuficiência. Trata-se de romper a principal armadilha, que é a dependência do mercado. O que quero dizer? Que a maioria de nós, para poder viver, precisa ter dinheiro no bolso. Se quiser comer, tem que comprar algo no supermercado. Se quiser morar, tem que pagar aluguel. Se quiser ser curado, tem que pagar pelos médicos. Se quiser ir à escola, muitas vezes tem que pagar. Este é o resultado da austeridade. A mercantilização de todos os aspectos da nossa vida para nos desempoderar cada vez mais.

Acho que a primeira missão aqui é ser capaz de recuperar nosso poder através da organização, de conselhos, da vizinhança, de atividades locais, de formas de produzir e distribuir por nossa conta. Assim não dependeremos do salário dos capitalistas e não gastaremos nosso dinheiro em supermercados, para que o dinheiro não vá embora assim que entrar. Precisamos que os recursos permaneçam dentro da comunidade. E acho que esse é um primeiro passo importante para engajar as pessoas na ideia de organizar, colaborar e perceber que não é suficiente só votar nas eleições.

Votar nas eleições é um ato muito superficial. E é algo que mantém viva a servidão econômica.
Então é preciso romper e combater a servidão econômica. E esse seria um primeiro passo em um projeto muito mais ambicioso, que vai além da democracia social. É a derrubada das relações salariais em si. Repito que isso está acontecendo. Está acontecendo nas townships, eu estive lá há pouco. Está acontecendo no Chile, onde os conselhos são fortes. Acho que está acontecendo no mundo todo, mas a mídia não fala disso. Mas é suficiente para se envolver, ir para a rua, conhecer sua vizinha, ver que essas realidades existem e a austeridade está aí justamente para parar esses processos. Mas nós precisamos lutar contra isso.

Você mencionou a viagem à África do Sul. Seu livro será publicado no Brasil no segundo semestre, editado pela Boitempo. Está preparada para esse tour ao redor do mundo?

Tenho um filho de 8 meses que está viajando conosco. Seria melhor não ter que me mover tanto, mas faço isso porque acredito no poder do conhecimento, em ajudar a levar processos adiante.

Novamente, a mudança tem que vir de baixo, de quem está mobilizado. Mas acho que as bolsas de estudo de militância podem ajudar a desenvolver ferramentas para afiar a mente e o conhecimento sobre as estratégias inimigas. E é por isto que a História é útil, para abrir espaço a novas maneiras de fazer as coisas, para fomentar a imaginação política porque, no passado, houve muitos esforços para mudar a nossa sociedade. E ainda existem esforços assim e acho que meu papel é fazer a discussão avançar e dar esperança às gerações mais novas.

A ideia de ter um orçamento elevado é o debate central no Brasil hoje. Esse debate eterno torna impossível avançar em direção a uma agenda positiva para o país. Por outro lado, muita gente, incluindo o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, acredita que os juros altos vão barrar o crescimento econômico e que o controle da inflação não deveria ser o foco principal.

Essa ideia sobre o orçamento primário tem a mesma origem que a austeridade?

Com certeza. É exatamente isto que a austeridade faz. Passa a mensagem de que não há alternativa. Equilibrar o orçamento é uma prioridade indiscutível. É uma prioridade neutra e necessária. Agora, sabe que a mensagem do livro não é que esses economistas estão necessariamente errados. Acho que em boa parte dos casos, principalmente em países do Sul, nos quais os limites do capitalismo são reais, é realmente um problema que a inflação esteja alta, que a moeda esteja desvalorizada. Mas isso dialoga com a violência econômica que é muito estrutural no sistema. Por isso a solução não é só fazer remendos no nosso sistema, com algumas reformas. Porque o estrangulamento é forte.

E é verdade que, sob o capitalismo, dependemos da confiança dos investidores para o crescimento econômico. E como você atrai investidores? Só se mantiver baixas as taxas sobre grandes riquezas e as taxas empresariais. Só se abrir às privatizações. O que ocorre agora é que grandes gestores de ativos estão comprando infraestrutura, imóveis, para tirar o máximo de taxas e renda, para aumentar o máximo possível as nossas necessidades diárias. Mas é exatamente isto que o Estado capitalista deve fazer, em suma, abrir-se a esses investidores privados. Essa é a realidade do sistema. É por isso que é muito idealista pensar que o Estado capitalista pode se opor a essas tendências global de austeridade. É por isso, repito, que temos que encontrar formas através de processos de libertação da propriedade privada, meios de produção e relações salariais. Porque o capitalismo realmente nos aprisiona. Não sei se isso faz sentido.

Esse debate entre economistas soa, é claro, como se não fosse uma escolha política. E podemos dizer que obviamente é uma escolha política. Mas também é uma escolha restritiva porque são decisões políticas favoráveis à manutenção da estabilidade de certa forma de mercado capitalista, certo? E isso requer nossa subordinação às leis do mercado que nos estrangulam e beneficiam uma minoria muito pequena. Essas escolhas políticas são restritivas. Mas nós podemos pensar grande, querer mais que migalhas para manter o povo controlado. Precisamos pensar grande, pensar em realmente romper com a nossa posição de subordinação ao mercado.

Aqui no Brasil, em 2016, o governo, que aliás não tinha sido eleito pelo povo, criou um marco fiscal conhecido como “teto de gastos”. A ideia era controlar o orçamento e a relação entre gasto público e PIB. Na verdade, vimos uma drástica redução em investimentos sociais, como educação, saúde pública e outros programas sociais. Essa política de austeridade, junto a outros eventos do sistema político brasileiro, pavimentaram o caminho para a eleição de Jair Bolsonaro.

Movimentos como esse poderiam dar lugar ao avanço de partidos de extrema direita?

Sim, esse é outro exemplo de que a austeridade não é um erro. Muita gente na esquerda diz que é fruto de uma economia ruim, que é um erro. Infelizmente, não é um erro. O que você descreveu mostra o sucesso da austeridade. As pessoas foram tão desempoderadas, que perderam seu senso de união de classe. Perderam a noção da luta coletiva contra o inimigo, que é a minoria que se beneficia do sistema, e terminaram votando por essa minoria que se beneficia do sistema. Porque a austeridade nos individualiza, nos convence que todos nós podemos ser empresários se nos esforçarmos e que deveríamos sentir vergonha de ser pobres. O motivo por que as pessoas votam em alguém como Trump é exatamente o sucesso da austeridade. Não acho que podemos culpá-las por votarem em Bolsonaro ou Trump. Deveríamos culpar a elite dominante, incluindo, infelizmente, o Partido Democrata [dos Estados Unidos] e todos os partidos supostamente progressistas que, de forma hipócrita, já vinham praticando a austeridade.

A austeridade atravessa fronteiras partidárias. Infelizmente, aqueles que supostamente representam o povo, incluindo os sindicatos, apoiaram a austeridade, criaram a sensação de falta de esperança e de que deveríamos fazer o possível para nos salvar como indivíduos, sem olhar para o fato de que somos, na verdade, produtores, produtores coletivos que deveriam lutar contra a exploração e contra aqueles que nos exploram. Então é só através da recriação do senso de coesão de classe e da conscientização de classe que podemos nos libertar da armadilha de pensar que regimes autoritários vão nos salvar. Eles não vão. Mas o mesmo vale para partidos democratas, como o de Biden, que estão desfinanciando todos os setores sociais. Por toda parte.

Quase trinta anos depois

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O começo de julho completou quase trinta anos do Plano Real, um plano de estabilização monetária que trouxe grandes alterações na economia brasileira, gerando algum tipo de estabilidade, melhora nos indicadores de preços e o incremento do ambiente de negócio, efetivando a redução dos preços que assolavam a economia nacional a décadas, atraindo novas formas de investimento, deixando claro nossos horizontes e os novos desafios para a sociedade brasileira.

Neste mês estamos comemorando quase trinta anos de sucesso no controle inflacionário, embora encontremos muitos especialistas que duvidem deste sucesso, as taxas de inflação caíram sensivelmente, trazendo suspiros e sonhos de que a economia brasileira se consolidassem de forma mais efetiva como uma das economias mais pujantes, se caracterizando como uma das maiores economias mundiais, donas de um potencial invejável, com espaços de crescimento econômico e, posteriormente, nos levando a vislumbrar a possiblidade, concreta, de seu desenvolvimento econômico, com melhorias substanciais para a população, impulsionando o bem-estar social e deixando para trás anos de subdesenvolvimento e heranças coloniais degradantes.

No começo dos anos 1990, a sociedade brasileira era vitimada por taxas elevadas de inflação e degradação do poder de compra da moeda, contribuindo efetivamente para a vergonhosa concentração de renda da sociedade nacional, onde os grandes setores econômicos e produtivos conseguiam se defender das taxas elevadas de inflação, garantindo ganhos reais, em contrapartida, uma parte substancial da população tinham suas rendas e salários mensais degradados pela elevada inflação, reduzindo seus rendimentos e contribuindo ativamente para que as condições de vida e de desigualdade fossem mais precárias.

O Plano Real pode ser visto como uma engenharia financeira muito sofisticada. Inicialmente, o governo dialogou constantemente com os setores econômicos e políticos, deixando de lado as medidas drásticas que foram utilizadas anteriormente, que distorcia o comportamento dos agentes econômicos e contribuíram para gerar desconfiança e descrédito. De outro lado, o Plano buscou um equilíbrio fiscal e, num próximo momento, inaugurou uma nova moeda, o Real, que substituiu a moeda anterior, marcada por grande depreciação e a perda crescente de poder de compra.

O Plano Real trouxe grandes transformações na economia brasileira, a estabilização monetária permitiu uma melhora da situação econômica, atraindo grandes fluxos financeiros para os sistemas produtivos, valorizando a moeda nascente e valorizando demasiadamente o câmbio, facilitando a importação, atraindo novos investidores e prejudicando os setores exportadores, contribuindo ativamente para o processo que vivemos na contemporaneidade, de desindustrialização da economia brasileira.

O câmbio valorizado trouxe grandes investimentos externos, melhorando o ambiente econômico, atraindo empresas internacionais, mas contribuiu, negativamente para fortalecer nosso potencial exportador de produtos industrializados, levando a economia nacional a uma desindustrialização.

Embora a desindustrialização não seja uma característica apenas da economia brasileira, grande parte das economias ocidentais perderam força de seus setores industriais e garantiram aos países asiáticos novos espaços na economia internacional, levando esses países a liderarem setores industriais no cenário global, onde destacamos a China, Coréia do Sul, Taiwan, dentre outras nações.

O câmbio valorizado contribuiu para reduzir os preços internos e contribuíram para debelar a forte inflação, mas levou a economia nacional a perder espaço na indústria global, muitas empresas tradicionais foram vendidas ou foram anexados por conglomerados internacionais, perdendo o dinamismo industrial, levando-nos a um caso único na economia mundial, de uma nação que se desindustrializou sem ter conhecido um setor industrial de ponta, ficamos mais uma vez, pelo caminho e fomos ultrapassados por outras nações, que na atualidade colhem os louros da industrialização e, novamente, ficamos para trás na competição internacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia do Setor Público, Mestre, Doutor em Sociologia. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 12/07/2023.