Revolução Financeira

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Neste espaço, constantemente discutimos as grandes transformações em curso na sociedade contemporânea. Vivemos momentos de destruições criadoras, como destacou o economista austríaco, Joseph Schumpeter, responsável por conceitos fundamentais para compreendermos as grandes alterações econômicas, seus impactos sobre o mundo do negócio, as formas de sociabilização, as reflexões referentes a democracia e as questões políticas, todas estas transformações estão criando um mundo novo, mais integrado, mais competitivo, com mais riquezas e, ao mesmo tempo, mais inseguro, mais desigual, mais violento, e com maior potencial de destruição.

Uma das grandes características da sociedade contemporânea é a revolução financeira em curso na sociedade internacional, surgindo novos produtos no mundo das finanças, onde destacamos conceitos novos com fortes repercussões em todas as regiões do mundo, tais como criptomoedas, blockchain, Open Banking, moedas digitais, bitcoin, token, fintechs, plataformas digitais, dentre outros. Estes conceitos ganharam relevâncias e estão no centro das grandes transformações da revolução financeira, que ganharam importância no período da pandemia de Covid – 19, que alterou as bases da sociedade, gerando novos modelos de negócios, compras virtuais, criptoativos, ou seja, estamos vivendo uma verdadeira revolução financeira.

As fintechs, instituições que disponibilizam serviços na área financeira, tendem a crescer fortemente na economia internacional, mas sabemos que esse modelo de negócio não deve engolir os bancos tradicionais, mas deve estimular o incremento da competição, forçando uma maior concorrência entre as organizações, trazendo benefícios para toda a comunidade, com o aumento do crédito e a taxa de juros mais atrativas, gerando espaços para o aumento dos investimentos produtivos e melhora dos ambiente de negócios.

A revolução financeira em curso na sociedade global está transformando comportamentos arraigados na comunidade, criando novas formas de relacionamento entre o dinheiro e o ser humano, levando-os a buscarem novos conhecimentos do mundo das finanças, buscando a compreensão dos desafios nos investimentos, fazendo com que as informações bancárias e financeiros estejam disponíveis em seus smartphones, fazendo trabalhos e liberações que anteriormente eram feitas pelos funcionários das instituições bancárias, com isso, essa revolução financeira nos traz a possibilidade de termos mais autonomia e maior planejamento, que com a introdução do Open Bankimg, exigirá uma maior profissionalização da gestão de suas respectivas finanças individuais.

Essa revolução financeira está trazendo novos elementos importantes para compreendermos o mundo contemporâneo, o mundo das finanças está sempre envolto em fortes competições, imediatismo e a busca crescente dos ganhos materiais e financeiros, levando as pessoas e as organizações a buscarem ganhos extraordinários e lucros imediatistas, levando muitos grupos a adotarem medidas degradantes, estimulando fraudes financeiras e levando-nos a crises, que em uma economia marcada pela crescente globalização, seus impactos se espalham para toda a economia internacional, vide as consequências da crise imobiliária dos Estados Unidos.

Vivemos momentos de grandes inovações, o mundo financeiro vem ganhando relevância em toda a sociedade global, o poder das finanças está moldando o mundo contemporâneo, alterando o comportamento humano, aumentando a competição e transformando os indivíduos, levando-nos a uma busca crescente de ganhos materiais, transformando a educação, a saúde e a segurança como espaços crescentes de rentismo, onde as escolas buscam maiores ganhos monetários e perdem seu sentido verdadeiro na formação profissional e na construção de valores sociais, onde a saúde se transformou num espaço de acumulação desenfreada de lucros dos grupos privados, onde os acionistas controlam a gestão, angariando ganhos substanciais, muitas vezes as custas de péssimos serviços, diminuindo investimentos, se apropriando dos órgãos reguladores e se perpetuando via porta giratória, perpetuando desigualdades, violências variadas, estimulando pobreza e indignidade humanas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Circular, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Não, o ‘socialismo’ não está tornando os americanos preguiçosos, por Paul Krugman

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Tudo o que precisávamos era de uma política que desse uma chance ao trabalho

Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, colunista do jornal The New York Times.

Folha de São Paulo, 15/07/2023.

Bernie Marcus, cofundador da Home Depot (grande loja de construção e decoração), teve algumas coisas negativas a dizer sobre seus compatriotas americanos em uma entrevista em dezembro passado.

“O socialismo” destruiu a ética do trabalho, ele declarou. “Ninguém trabalha. Ninguém dá a mínima. ‘Apenas dê para mim. Envie-me dinheiro. Não quero trabalhar — sou muito preguiçoso, sou muito gordo, sou muito burro'”.

Você é ingênuo se acha que a opinião dele é excepcional. Sem dúvida, homens ricos estão constantemente dizendo coisas semelhantes em clubes de campo em todos os Estados Unidos. Mais importante, os políticos conservadores são obcecados pela ideia de que a ajuda do governo está deixando os americanos preguiçosos, e é por isso que eles continuam tentando impor a exigência de trabalho para programas como Medicaid e vale-refeição, apesar da evidência esmagadora de que tais requisitos não promovem o trabalho, e sim criam barreiras burocráticas que negam ajuda aos que realmente precisam.

Não tenho a ilusão de que os fatos mudarão a opinião dessas pessoas. Mas todos os outros devem saber que, no ano passado, realizamos um grande teste da proposição de que os americanos se tornaram preguiçosos. E acontece que não.

Diante das oportunidades criadas por uma economia de pleno emprego — sem dúvida, a primeira economia de pleno emprego que tivemos em quase um quarto de século —, os americanos estão, de fato, dispostos a trabalhar. Na verdade, eles estão mais dispostos a trabalhar do que quase todo mundo imaginava, até mesmo os otimistas. E a robustez da ética de trabalho americana tem enormes implicações para as políticas.

Antes de entrar nos números, um lembrete sobre números. Os EUA têm uma população que envelhece, o que significa que, tudo o mais sendo igual, deveríamos estar vendo uma tendência de queda na parcela de adultos que ainda trabalham. De fato, a taxa geral de participação na força de trabalho — a porcentagem de adultos trabalhando ou procurando ativamente trabalho — é um pouco menor agora do que na véspera da pandemia de Covid-19.

Mas esse declínio era previsível e previsto, por exemplo, em projeções pré-pandêmicas do Escritório de Orçamento do Congresso. E a participação atual da força de trabalho é na verdade maior do que o órgão esperava — o que é realmente notável, visto que a Covid levou alguns trabalhadores à aposentadoria precoce, enquanto a Covid prolongada pode ter deixado um número significativo de trabalhadores com deficiências persistentes.

Uma maneira de olhar para além das mudanças demográficas é focar na participação na força de trabalho dos americanos em seus primeiros anos de trabalho, que é maior hoje do que 20 anos atrás. Bobby Kogan, do Centro para o Progresso Americano, relata que, se você ajustar pela idade e o sexo, o emprego geral nos EUA está agora em seu nível mais alto da história — novamente, apesar dos efeitos prolongados da pandemia.

Portanto, chega de alegações de que o grande governo tornou os americanos preguiçosos, ou mesmo falar de uma “grande autodemissão”. Os americanos estão trabalhando mais que nunca.

De onde vêm esses trabalhadores adicionais? Uma resposta é que, em um mercado de trabalho restrito, os empregadores estão mais dispostos a aceitar grupos marginalizados, muitos dos quais se revelam perfeitamente capazes de empregos produtivos. Vimos, por exemplo, um aumento impressionante no emprego entre os americanos com deficiência.

Também vimos um aumento no número de trabalhadores nascidos no exterior. O que quer que pessoas como Ron DeSantis possam pensar, os imigrantes são uma grande vantagem para a economia dos EUA: eles tendem a estar em idade ativa e altamente motivados. De fato, as políticas anti-imigração de DeSantis já estão tendo um efeito adverso visível na economia da Flórida.

Então, o que nos diz o extraordinário sucesso dos Estados Unidos em trazer a população de volta ao trabalho, além do fato de que não nos tornamos preguiçosos? Uma coisa que ele nos diz é que a lenta recuperação que se seguiu à crise financeira de 2008 — lenta em grande parte porque as Pessoas Muito Sérias estavam obcecadas por dívidas em vez de empregos — negou emprego a milhões de americanos que poderiam e deveriam estar trabalhando.

E os recentes ganhos no emprego também fazem a “bidenomia” parecer muito melhor do que um ano atrás.

O presidente Joe Biden começou seu mandato com um grande pacote de gastos que, segundo muitos, causou o superaquecimento da economia, alimentando a inflação. Provavelmente há uma verdade considerável nessa afirmação. Mas também houve alegações de que para se livrar do excesso de inflação seriam necessários anos de alto desemprego. Acontece que, afinal, a inflação — incluindo medidas que tentam eliminar fatores temporários — tem diminuído, apesar do alto nível de emprego. Portanto, tais afirmações parecem cada vez menos convincentes.

Embora a economia aquecida possa ter aumentado temporariamente a inflação, também colocou os americanos para trabalhar — não apenas aqueles que perderam empregos durante a pandemia e suas repercussões, mas também alguns que antes não conseguiam colocação. Também produziu ganhos especialmente altos para os trabalhadores de baixa remuneração. Se conseguirmos evitar uma recessão severa, muitos desses ganhos de emprego provavelmente persistirão.

O ponto mais importante é que, não importa o que os homens ricos mal-humorados possam dizer, os americanos não se tornaram preguiçosos. Pelo contrário, estão dispostos, e até ansiosos, a aceitar empregos, se estiverem disponíveis. E embora a política econômica dos últimos anos esteja longe de perfeita, uma coisa que ela fez — para grande benefício da nação — foi dar uma chance ao trabalho.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Bolsa Família está deixando os ricos preguiçosos? por Michael França

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Muitos gostam de colher onde nunca semearam

Michael França, Ciclista, doutor em teoria econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper.

Folha de São Paulo, 08/08/2023

Em um recente artigo, Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia e colunista do jornal The New York Times, trouxe interessantes perspectivas sobre a atual conjuntura do mercado de trabalho dos Estados Unidos.

Krugman começa sua coluna com uma citação de Bernie Marcus, cofundador de uma grande loja americana, na qual ele afirma que o socialismo destruiu a ética do trabalho. Segundo a visão de Marcus, ninguém quer trabalhar atualmente. Os americanos teriam virado preguiçosos e dependentes do Estado.

Tal afirmação contrasta com a realidade vivida por aquele país. A economia mostrou o quanto os americanos querem trabalhar. Dado o envelhecimento da população, deveria ter ocorrido uma queda no percentual de trabalhadores no mercado de trabalho. Porém o que se observa é justamente o contrário.

Quando se consideram características como gênero e idade, o emprego nos Estados Unidos está no nível mais alto da história. Com o atual mercado de trabalho aquecido, até grupos historicamente marginalizados, como os que têm algum tipo de deficiência e os imigrantes, estão conseguindo considerável espaço.

Os fatos não costumam mudar as opiniões das pessoas. Talvez isso seja ainda mais saliente entre conservadores. No Brasil, por exemplo, o Bolsa Família, famoso programa de transferência de renda para os pobres, é visto por um amplo conjunto de especialistas no meio acadêmico como uma política bem-sucedida, dado que diversas pesquisas mostraram que ela teve vários impactos sociais positivos a um baixo custo.

Apesar de o respaldo empírico sugerir o contrário, não é raro encontrar alguém no país dizendo que o programa produz preguiçosos. Em especial, entre os mais ricos, corriqueiramente, tal afirmação se faz presente. Entretanto é preciso subverter esse debate.

Quando se olha demais para a parte inferior da distribuição de rendimentos e riqueza, se esquece de questionar a parte superior. Nesse contexto, a “bolsa família” recebida pelos filhos dos mais ricos tem o potencial de deixar muitos deles relativamente preguiçosos.

Isso porque, visto que parte das ações humanas é movida pelas aspirações individuais, vários daqueles que nascem em ambientes ricos e com baixa competitividade podem não ter incentivos suficientes para se esforçarem em ir além daquilo que já foi construído nas gerações anteriores.

Afinal, quase tudo lhes é dado.

Sabe-se que vários membros das elites não construíram seus patrimônios sozinhos. Desse modo, o legado familiar afeta o conjunto de escolhas e a potencial oferta de trabalho. Alguns usam seus privilégios para se desenvolver. Trabalham duro e avançam os limites daquilo que foi construído pelos antepassados.

Outros apenas herdam as riquezas criadas por terceiros e vivem da renda gerada por ela. Não acrescentam muito valor à sociedade. São o que se convencionou chamar de rentistas. Algo que não é novo na história da humanidade.

Adam Smith, considerado como o pai da economia, já tinha destacado padrão análogo ao analisar a renda derivada dos aluguéis, séculos atrás. De acordo com Smith, os proprietários de terra, como todos os outros homens, gostam de colher onde nunca semearam.

União Europeia disfarça o protecionismo de sempre com preocupação verde, por Sylvia Colombo

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Exigências ambientais para acordo com o Mercosul inclui metas quase incumpríveis e cascas de banana

Sylvia Colombo, Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Buenos Aires. É autora de ‘O Ano da Cólera’

Folha de São Paulo, 06/08/2023

Em passagem pelo Brasil há duas semanas, o presidente eleito do Paraguai o, Santiago Peña,
afirmou que compartilhava a irritação demonstrada por Luiz Inácio Lula da Silva em sua visita mais recente à Roma. O assunto esteve na pauta do encontro de ambos em Brasília.

Na ocasião, o brasileiro disse serem “inaceitáveis” alguns pontos da chamada “side letter”, ou “anexo ambiental”, enviado pela União Europeia como requisito para seguir adiante com o que seria a etapa final do acordo com o Mercosul —ainda que já houvesse um texto pré-aprovado em 2019.

“Também fiquei irritado com isso, tenho simpatia pela posição de Lula, e porque muitas vezes no exterior se fala de nossos problemas sem conhecerem bem a situação”, afirmou Peña. E acrescentou: “Acontece o mesmo quando sempre se associa o Paraguai com o contrabando e o narcotráfico na Tríplice Fronteira. Só que a região não é só do Paraguai, são três países. E há muito o que dizer sobre os intercâmbios comerciais legais e positivos que passam por ali.”

A coluna teve acesso, em colaboração com o jornal paraguaio ABC Color, à “side letter” que até agora não havia sido divulgada e circulava apenas entre os negociadores.

O texto, de tom duro, exige que o Acordo de Paris seja cumprido, sob risco de punição em caso contrário — algo que não constava do texto original e meta que nem sequer foi alcançada por vários países europeus.

Outro requisito é “interromper e reverter a perda florestal e a degradação da terra até 2030, ao mesmo tempo que se promova o desenvolvimento sustentável e se impulsione uma transformação rural inclusiva”. Para isso, diz o texto, haverá uma “meta intermediária de redução do desmatamento de pelo menos 50% em relação aos níveis atuais até 2025”. Ou seja, um prazo curtíssimo para solucionar questões históricas dos países.

Também em um tom de exigência, a União Europeia diz que o acordo implicará que os países não possam “reduzir seus padrões ambientais ou trabalhistas com a intenção de atrair comércio ou investimento estrangeiro”. O documento também fala de compartilhamento de informações sobre metas nacionais e monitoramento sobre o cumprimento delas.

Uma fonte do governo paraguaio afirmou que se trata de um documento de cumprimento quase impossível, com muitas cascas de banana; que é preciso ainda trabalhar muito, porque contempla convenções ou disposições que não competem ou não contemplam o Mercosul, nem mesmo a muitos Estados-membros da União Europeia.

Outra fonte, do lado brasileiro, afirmou que a avaliação é de que o novo documento não dá espaço para que o Mercosul discuta o que a União Europeia quer e coloca o bloco sul-americano como mero acompanhante dessas exigências. O Brasil pedirá que o acordo se dê mais na base da colaboração mútua do que na de exigências.

As negociações para tentar fechar o acordo UE-Mercosul se arrastam há mais de 20 anos. Mesmo com um texto aprovado em 2019, não entrou ainda em vigor porque precisa ser ratificado pelos Parlamentos de todos os 31 países. Há uma resistência crescente com relação a produtores agrícolas em alguns países, como a França.

O adendo contém finalidades nobres e temas de fato urgentes ante a mudança climática e com relação à preservação do meio ambiente. Por outro lado, tem um tom quase hostil que sugere que, na verdade, o que a União Europeia deseja mesmo é adiar uma decisão.

Seria o protecionismo de sempre, só que agora disfarçado de preocupação verde.

Quem quer ser professor? por Priscilla Bacalhau

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Os que persistem na profissão apesar de todos os desincentivos enfrentam um achatamento da carreira

Priscilla Bacalhau, Doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora do FGV EESP CLEAR, que auxilia os governos do Brasil e da África lusófona na agenda de monitoramento e avaliação de políticas

Folha de São Paulo, 04/08/2023

A carreira docente na educação básica apresenta uma contradição intrigante. Não é difícil encontrar professoras que têm verdadeira paixão pela docência e uma resiliente dedicação às escolas e aos alunos. O magistério é visto como uma missão, que é seguida heroicamente. Ao mesmo tempo, diante das inúmeras dificuldades enfrentadas, demandas crescentes e baixa valorização, um sentimento de frustração com a profissão as acompanha.

Essa contradição é um reflexo da percepção geral sobre a profissão: por mais que haja motivação intrínseca, a profissão de professor não é atrativa. Diversas pesquisas mostram que menos de 5% dos jovens estudantes do ensino médio afirmam querer ser professor. Esses estudantes que demonstram interesse em ser professor não estão entre aqueles com melhor desempenho acadêmico.

Para os demais, a baixa remuneração, pouca valorização social e planos de carreira desestruturados são fatores determinantes para essa falta de interesse na profissão.

Os poucos que decidem seguir a carreira enfrentam dificuldades na formação. Há grande evasão, em especial na área de exatas, em que 70% dos alunos desistem do curso, segundo o Inep. A grande incidência de cursos a distância é outro desafio da formação inicial dos professores. Estes cursos, de forma geral, precisam ter seus mecanismos de garantia de qualidade da formação revistos, e os estudantes acabam concluindo a licenciatura sem uma formação sólida.

Os que persistem na profissão apesar de todos os desincentivos enfrentam um achatamento da carreira, ou seja, avançam muito pouco e muito lentamente. O piso salarial, que vem aumentando desde a criação da lei do piso nacional em 2008, não é suficiente para garantir uma valorização digna das demandas da profissão, nem condições mínimas de trabalho. Além disso, nem o crescente piso salarial pode ser considerado alto quando se compara com outros profissionais de ensino superior.

Professores são o principal fator dentro dos muros da escola que afetam o aprendizado dos alunos. Portanto, diante da baixa valorização docente, não surpreende que os alunos não estejam aprendendo o suficiente, como apontam todas as avaliações de alcance nacional.

Políticas de valorização e incentivo aos professores são urgentes para tornar a carreira atrativa. Investir no corpo docente já formado é imprescindível para atrair novos jovens, pois é vendo professores motivados e valorizados que novos jovens serão engajados em seguir a carreira de professor. A profissão docente não pode ser apenas para as heroínas que insistem em seguir sua missão mesmo frente a todas as adversidades.

A era de insegurança

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Vivemos momentos de grandes transformações na sociedade internacional, neste momento de alterações crescentes que eram vistos como sólidos e consistentes estão sendo modificados, sentimentos estão se esvaindo, modelos de negócios foram devastados, setores econômicos estão em franca decadência, relacionamentos sólidos perdem espaço e amores estão sendo cada vez mais vistos como líquidos, como diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, gerando incertezas, instabilidades e depressões constantes.

Neste ambiente, percebemos que vivemos numa sociedade marcada por grandes inseguranças, as transformações do mundo do trabalho estão gerando medos crescentes, desesperanças e conflitos internos, culminando em depressões, ansiedades e fortes instabilidades emocionais.

Estamos vislumbrando uma sociedade marcada por poucas certezas e grandes incertezas, dominadas por sensações de medo e de desesperança, que crescem em todas as regiões do mundo, anteriormente as inseguranças eram normais nos países pobres e miseráveis, na contemporaneidade, essa sensação se espalhou também para todas as nações desenvolvidas. Neste cenário centrado em desajustes elevados, carecemos de proteção e de segurança, com isso, os medos contemporâneos nos levam a abraçar ideias salvadoras, filosofias religiosas pouco confiáveis, abraçando informações falsas, equivocadas e espalhando fake news, desta forma, nossos medos se tornam cada vez mais patológicos, mais degradantes e com potencial de criar conflitos maiores, com polarizações políticas e graves constrangimentos para a vivência e a convivência em sociedade.

As grandes transformações na economia internacional, que culminaram na globalização da economia, responsável pelo aumento da competição e pelo incremento da concorrência, estas rápidas alterações estão fragilizando os valores humanistas, degradando a ética, reduzindo a solidariedade, o respeito, a cooperação entre os cidadãos e a responsabilidade social e ambiental. Dessa forma, o incremento da insegurança está dominando a sociedade contemporânea, transformando os indivíduos em pessoas cada vez mais individualistas, que se preocupam única e exclusivamente por defender seus interesses imediatos, olhando seus ganhos monetários e financeiros e, desta forma, contribuindo ativamente para a degradação dos laços sociais, criando uma verdadeira guerra de todos contra todos.

Vivemos amedrontados com os conflitos militares que espalharam na sociedade internacional, tememos os fenômenos naturais, as catástrofes geradas pela pandemia, os receios do desemprego, do terrorismo e das exclusões do cotidiano. Como consequência, intensificamos nossa qualificação profissional, buscando atualizações e capacitações cotidianas, nos fechando em casas e residências fortemente equipadas, com sistemas de segurança, câmeras sofisticadas e filmagens em todos os locais, mesmo assim, a sensação de insegurança é crescente e nos levam a grandes constrangimentos.

Nessa sociedade marcada pela insegurança, os laços sociais se reduzem, os vínculos humanos estão em constantes fragilizações, os relacionamentos amorosos estão em franca degradação, os amores são líquidos e não criam vínculos mais consistentes, os indivíduos querem apenas relacionamentos rápidos e prazeres imediatos, com isso, percebemos na sociedade contemporânea uma fuga crescente de relacionamentos mais sólidos e consistentes, para alguns especialistas ao criarmos vínculos com outras pessoas, corremos o risco de se decepcionar, podendo gerar constrangimentos íntimos, ansiedades e depressões.

As razões destas degradações da sociedade são variadas e seus impactos são elevados e geram fortes constrangimentos para todos os indivíduos, as alterações geradas pela tecnologia da informação estão motivando muitas destas transformações, que estão reconfigurando o mercado de trabalho e trazendo graves mudanças no mundo do trabalho e, ao mesmo tempo, as redes sociais ou antissociais criam a sensação de que estamos cercados de amigos e seguidores, ledo engano, somos cada vez mais monitorados, sem privacidade, atolados em dívidas, trabalhando cada vez mais, estamos na era da insegurança e da degradação da saúde física, mental e espiritual.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Comportamental, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Livro premiado conta como China comunista fez transição à economia de mercado

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Isabella Weber evita velho erro de pensar o Estado chinês como monolito e explicita a luta política da burocracia

Isabela Nogueira, Professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Folha de São Paulo, 29/07/2023

Os contrastes são gritantes. De um lado, a transição da União Soviética para a Rússia foi guiada pelo receituário da chamada terapia de choque —rápida desregulamentação de preços, liberalização de capitais e privatização em massa—, levando a uma hecatombe econômica de curto prazo e a uma desindustrialização continuada no longo prazo.

De outro, a China comunista fez sua transição para uma economia de mercado de maneira controlada e gradual, com o Estado se mantendo firme nos setores estratégicos da economia. Os resultados, enfim, ninguém precisa dizer o que a China representa hoje para a economia mundial.

Esse é o pano de fundo da pergunta que a economista alemã Isabella Weber, da Universidade de Massachusetts em Amherst, faz em “Como a China Escapou da Terapia de Choque”, uma obra premiada que acaba de ser lançada em português pela Boitempo.

Engana-se quem pensa que este é um livro apenas sobre os anos 1980. Trata-se de uma obra sobre as bases intelectuais em torno da formulação de políticas econômicas na China. E com desdobramentos que tornaram Weber uma das economistas mais importantes no debate atual sobre inflação no mundo.

Ao contrário do mito de que a China seria um Estado monolítico, um ente racional e guiado pelo Partido Comunista de maneira unitária, Weber destrincha os debates ferozes entre formuladores de políticas públicas sobre como conduzir a transição chinesa rumo a uma economia de mercado. É uma rigorosa pesquisa empírica, baseada em 51 entrevistas com fontes chinesas (e algumas internacionais) e fontes primárias não publicadas.

Weber mostra como o pensamento neoliberal penetrou na China ao longo dos anos 1980 e, em dois momentos, quase venceu a luta política dentro do Partido Comunista por reformas tipo “big bang”.

Essa visão defendia que a liberalização de preços deveria ser rápida, causando uma dor de curto prazo e evitando uma dor de longo prazo, e teria que ser acompanhada de forte ajuste fiscal e aperto monetário para evitar uma espiral inflacionária. Compunham esse grupo os economistas de inspiração neoclássica, muitos baseados nas teorias de “rent-seeking”, que argumentavam que o sistema de controle de preços em vigor seria uma distorção que deveria ser abolida rapidamente.

Eles se baseavam no sucesso internacional de Milton Friedman e nos modelos matemáticos em busca de preços de equilíbrio.

O próprio Deng Xiaoping, principal líder no período, teria se transformado em um defensor da terapia de choque durante uma curta fase em 1988. Isso levou a uma disparada inflacionária e as políticas de liberalização foram rapidamente revertidas, mas o embrião para a revolta social que eclodiu em 1989 estava implantado.

Do outro lado da disputa política estava um grupo de burocratas que defendia o que a autora chama de “gradualismo experimental”. Em vez de um modelo teoricamente derivado, o novo sistema deveria ser induzido por meio da experimentação e da pesquisa empírica.

Essa é a essência do pragmatismo chinês: no caso da reforma, só poderiam ser liberalizadas as partes da economia que não fossem essenciais para o controle de preços. O objetivo seria ampliar os mercados gradualmente, pelas margens, sem abrir mão do controle pelo Estado de tudo que fosse considerado essencial.

Em resumo, o que esse grupo defendia era que o excesso de demanda agregada não deveria ser resolvido por meio da sua supressão (austeridade fiscal e aperto monetário), mas por meio de um aumento expressivo da oferta. A escassez deveria ser gerida em nível setorial, mantendo a gestão estatal em energia e commodities essenciais. E o foco seria industrializar rapidamente o país.

Qual a base intelectual desse grupo? A resposta, segundo Weber, está na história e no método.
A autora mostra como os debates sobre temas básicos da economia política são parte da civilização chinesa há 2.000 anos. Ela revê textos antigos como o “Guanzi” e argumenta que a responsabilidade do Estado por disciplinar mercados e estabilizar os preços dos grãos para evitar convulsão social é uma preocupação constante dos tempos imperais.

Do ponto de vista do método, em todos esses textos ela encontra a necessidade de estudar relações econômicas de maneira concreta e adaptar as políticas públicas de maneira experimental.

O pragmatismo seria, enfim, congruente com uma longa linha de pensamento tradicional.

A autora ressalta que não está buscando uma explicação sinocêntrica baseada exclusivamente na experiência civilizacional. Burocratas dos anos 1980 também se debruçaram sobre vários outros casos, inclusive Brasil e América Latina.

Lições essenciais teriam vindo dos Estados Unidos e das experiências de estabilização de preços em países ocidentais no imediato pós-Segunda Guerra. E da própria experiência de sucesso do Partido Comunista no controle de preços assim que tomaram o poder, em 1949.

Weber entrega uma narrativa institucionalista sobre o sucesso do modelo econômico chinês que não incorre no velho erro de pensar o Estado enquanto um monolito.

Ela explicita a luta política da burocracia, reconstruindo o papel central de figuras como Zhao Ziyang, ex-secretário geral do Partido que morreu em prisão domiciliar após tentativa de evitar o Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. Por conta da censura à história de Zhao, o livro está, ironicamente, tendo dificuldades para ser publicado na China continental.

Daí deriva o principal limite da obra de Weber. O Estado chinês não chega a ser propriamente caracterizado e é retratado como insulado das forças sociais, como no velho institucionalismo.

As relações sociais imbricadas com o poder político surgem como sombras difusas na narrativa.
Weber remete a um Estado sem forma social, com uma burocracia que aparece de maneira independente das forças produtivas. Tudo em uma sociedade que está transformando suas relações de produção e de propriedade e criando novos capitalistas na velocidade da luz.

COMO A CHINA ESCAPOU DA TERAPIA DE CHOQUE
Preço R$ 97 (472 págs.) Autoria Isabella M. Weber Editora Boitempo Tradução Diogo Faia Fagundes

Big Techs e Educação: o fim do professor? por vários autores.

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Corporações prometem customizar ensino e fazer da educação um game. Por trás do marketing, a cartilha neoliberal: privatizar sistemas públicos via plataformas, forjar o aluno-consumidor e reduzir o docente a um mero operador da tecnologia

Por Antonio Lovato Sagrado, Amanda Aliende e Enric Prats Gil – Outras Palavras – 26/07/2023

A erosão da profissão docente é um fenômeno que vem se desenvolvendo há décadas, principalmente com a aceleração do capitalismo, e é um tema que já vem sendo discutido na Academia e na mídia.

Diversas transformações nas últimas décadas vêm determinando diretamente mudanças nos papéis dos professores, algumas diretamente educacionais (como a universalização da educação básica e a ampliação da influência de organismos internacionais nas políticas educacionais nacionais) e outras socioeconômicas (como a globalização ou a rápido desenvolvimento das tecnologias digitais e a expansão de seu uso no dia-a-dia).

Atualmente, neste contexto, as fundações filantrópicas com alcance global estão adquirindo um papel especial na formação de docentes e na formação dos papéis dos professores. Tendem a promover um discurso sobre a (in)eficiência da escola e dos professores, o que favorece a sua entrada nas escolas públicas, incorporando no dia-a-dia escolar tecnologias educativas que eles próprios desenvolvem e financiam, como as plataformas digitais na educação.

Este artigo argumenta que as corporações de tecnologia estão moldando um novo docente. Para isso, fazemos uma leitura sobre pedagogia seduzida pelo mercado, apresentamos brevemente duas das grandes plataformas digitais que estão entrando na sala de aula (Byju’s e Khan Academy) e analisamos como esse processo afeta a reconfiguração dos professores.

A pedagogia seduzida pelo mercado

Compreender as incursões no mundo educacional do mercado e da ideologia neoliberal é fundamental para refletir sobre os impactos e as mudanças que são promovidas no campo da pedagogia. Um dos argumentos que sustenta a entrada das plataformas digitais na educação é a suposta necessidade de personalizar as trajetórias de aprendizagem de cada estudante.

A personalização visa oferecer serviços educacionais sob medida para que cada aluno-consumidor possa alcançar uma experiência de aprendizagem adaptativa (adaptative learning). Isso requer o uso de algoritmos, mineração de dados, análise de aprendizado e inteligência artificial (IA).

Algumas das ferramentas que foram criadas nesse sentido são: a customização dos módulos de aprendizagem, o alinhamento dos conteúdos que cada aluno deve trabalhar com base em suas necessidades específicas e o uso de chatbots, que incentivam, interagem e fornecem feedbacks imediatos aos estudantes sobre seu desempenho e seu nível de avanços, através de uma comunicação em linguagem natural, mantendo os alunos envolvidos em diferentes níveis.

A personalização pode ser expandida com novas contribuições da IA. Isso permite a extração e processamento de uma quantidade muito elevada de dados, o que possibilita, entre outros aspectos, a tomada de decisões com base em um maior número de elementos. Por meio dos últimos avanços em IA, as plataformas aprenderão, por exemplo, o que cada aluno mais ou menos desenvolveu em seu processo de aprendizagem e, com base nas informações de milhares de outros alunos, saberão prontamente qual conteúdo oferecer. Ainda assim, até o momento, a tecnologia desenvolvida é incipiente. No entanto, todas as decisões baseadas em dados respondem a uma lógica de eficiência escolar que não é necessariamente uma lógica pedagógica.

Junto a isso, a política de marketing das plataformas digitais na educação é bastante agressiva, embora aparentemente amigável. Seu interesse em seduzir a clientela é detectado no uso de imagens de jovens sorridentes de diferentes origens étnicas e culturais, bem como famílias heterossexuais felizes, com textos sempre muito positivos e depoimentos de usuários e especialistas, destacando valores supostamente universalizáveis do mainstream neoliberal, como equidade, inclusão e diversidade. Essas plataformas são populares entre quem estuda em casa e têm grande potencial de mercado na América Latina, refletido em seu uso generalizado em diferentes países do continente, bem como nas estratégias de marketing que oferecem para sua adaptabilidade aos diferentes idiomas.

As plataformas digitais na educação tendem a ampliar lógicas narrativas que se sustentam na possibilidade de romper com o ensino tradicional e o modelo classes de aulas, incorporando novos valores e ensinando as habilidades necessárias no século XXI. Argumenta-se que isso permitiria, finalmente, aproximar ensino e entretenimento, garantindo melhores resultados educacionais. Há uma década, Gingrich (2014) já encorajava que projetos pioneiros como Khan Academy e Coursera, hoje amplamente difundidos, seriam mais parecidos com a Netflix do que com as antigas lousas.

As empresas digitais globais que atuam nessa área tiveram um crescimento espetacular na última década, oferecendo produtos e serviços de alta qualidade gráfica por meio de plataformas digitais, incluindo conteúdo educativos para educandos, suas famílias, professores, escolas e outras empresas. Seus negócios incluem um longo repertório de fórmulas voltadas para um público amplo e diversificado. Os efeitos pedagógicos desses produtos já estão sendo estudados, e parte do setor educacional parece defender uma incorporação acrítica devido à suposta eficiência das plataformas para oferecer conteúdo.

O que é certo é que esse número crescente de ferramentas está sendo desenvolvido em um contexto de mercado com alto potencial de lucro. O modelo típico é o das EdTechs: empresas de base tecnológica em rápido crescimento (startups) que se desenvolvem no campo das tecnologias educacionais. O capitalismo digital entrou fortemente pela mão das empresas EdTech, que começam a ser difíceis de mapear (Saura, 2021; Williamson & Hogan, 2020).

Big Tech ou gigantes tecnológicos é uma categoria analítica que se refere às corporações mais importantes do mundo, que operam por meio da monopolização de serviços e, portanto, têm avançado na configuração dos futuros digitais dos sistemas educacionais. É importante diferenciar entre os gigantes da tecnologia dos EUA (Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft) e os baseados na China (Alibaba, Baidu, Huawei ou Tencent). É comum que esses atores políticos privados atuem pela lógica da expansão global para moldar visões cada vez mais simplistas e populistas da IA, e o fazem apresentando a IA como um avanço democrático orientado para a justiça social, como exemplificado pela aliança entre Microsoft e Abra AI 1 . (Saura, 2023: 3)

Segundo o Holon IQ, os fundos de investimento investiram US$ 10,6 bilhões em empresas em 2022, 49% a menos que em 2021. Apesar disso, o investimento aumentou 14 vezes em 12 anos e essas empresas têm alta incidência em todas as facetas do processo educacional, desde o desenvolvimento de materiais didáticos para formação de professores e substituição do ensino universitário em formatos digitais.

Empresas como a estadunidense Age of Learning ou a chinesa 17zuoye disputam esse mercado e têm captado investimentos de grande escala. Além da disputa com o mercado editorial tradicional, o campo da personalização na educação faz fronteira com aplicações de mineração de dados e de análise de dados de aprendizagem (learning analytics application), que possuem alto potencial lucrativo:

(…) a adoção contínua de inteligência artificial na educação regular ao longo da década de 2020 lançará a datificação em uma escala sem precedentes. É inegável que todas essas formas díspares de inteligência artificial (do aprendizado profundo à IA generativa) estão famintas por dados.

Na vanguarda da extração de dados de ambientes educacionais estarão os provedores de plataformas digitais, para quem os dados do usuário são seu ativo mais valioso (Selwyn et al., 2020: 2, tradução nossa).

Ao lado das grandes empresas, existem também unicórnios tecnológicos educacionais que usam imaginários baseados em uma visão tecnosolucionista que oferece soluções tecnocráticas para problemas sociais e dissemina imagens de progresso e modernidade para justificar suas operações (Saura, 2023). Esses imaginários do futuro estão ligados à abertura de novos mercados financeiros.

Como exemplo, podemos destacar que a EdTech indiana Byju’s foi a patrocinadora oficial da Copa do Mundo FIFA no Catar 2022 2. Empresas como essa não são mais apenas unicórnios, mas “decacornios” (Williamson, 2022), já que estão avaliadas nos mercados financeiros acima de 10 trilhões de dólares. A plataforma Crunchbase (s.f.), especializada em monitorar e fornecer informações sobre o ecossistema de investimentos em empresas globalmente, informa que a Byju’s arrecadou mais de 5,5 bilhões de dólares desde sua fundação em 2015. A empresa desenvolve tecnologia educacional para aprendizagem personalizada para crianças e tem mais de 150 milhões de alunos em mais de 100 países (Byju’s, s.f.). Em seu site 4 eles são apresentados da seguinte forma:

A Byju’s torna o aprendizado envolvente e eficaz, aproveitando a pedagogia e a tecnologia de ponta. Com ofertas que vão desde cursos adaptativos de autoestudo em aplicativos e na web até aulas personalizadas individuais com professores especializados para idades de 4 a 18 anos ou mais, temos programas para todos os alunos.

Outra empresa que movimenta quantidades significativas de recursos é a Khan Academy. A lista de doadores e aliados da empresa é poderosa: alguns deles aparecem na lista da Forbes, como Carlos Slim, Bill Gates, Scott Cook, Jorge Lemann e Susan McCaw. Além disso, conta com conselheiros e assessores, gurus e policymakers ligados ao campo educacional e promotores de visões e estratégias de larga escala.

A Khan Academy se apresenta como uma empresa sem fins lucrativos 5 e opera na modalidade B2C (sigla em inglês para Business to Consumer ou de empresa a cliente). O que em seus primórdios, em 2006, eram videotutoriais de algumas disciplinas, elaborados e realizados por seu próprio fundador, Salman Khan 6/, hoje é uma complexa plataforma de aprendizagem personalizada que opera com poderosas ferramentas de IA. É focada nas disciplinas básicas obrigatórias e não obrigatórias, e também se concentra no ensino superior: matemática, ciências, programação de computadores, línguas e leitura, artes e humanidades, economia e até habilidades para a vida, como segurança na internet, financiamento ou apoio ao ingresso em universidades e, mais recentemente, a saúde e medicina. Propõe realizar um desafio de grande escala: oferecer uma educação gratuita e global.

Com o discurso sedutor e eficiente de for every student, every classroom. Real results, a plataforma propõe acompanhar o aluno na resolução dos seus problemas acadêmicos com uma metodologia própria que se apresenta como muito eficaz e efetiva. A Khan Academy argumenta que funciona porque incentiva o domínio do conteúdo: os alunos aprendem em seu próprio ritmo, primeiro identificando seus déficits e depois acelerando o processo.

A plataforma também oferece treinamento de professores na metodologia “aprendizado para o domínio”, que escalona o processo em quatro níveis (tentativa, familiar, competente e dominado): o papel do professor é selecionar o assunto e verificar o alcance dos marcos de aprendizagem . Além disso, a conexão com o Google Classroom permite a comunicação direta com alunos e famílias, e a plataforma alerta sobre riscos jurídicos para menores. A Khan Academy defende consistentemente o ensino à distância, e isso a sintoniza com as famílias que ensinam em casa, tornando essas famílias alguns de seus principais usuários.

Os últimos avanços da Khan Academy incluem a incorporação do ChatGPT-4 da OpenAI, que criou a figura do Khanmigo: um tutor de IA que conversa com os alunos em linguagem natural, recriando a experiência de um professor humano. A tecnologia também trabalha com os professores, gerenciando e preparando cronogramas de ensino e corrigindo as respostas dos alunos.

A plataforma oferece a cada aluno a experiência de um tutor humano, concentra conteúdos educacionais supostamente de alta qualidade, media o processo de aprendizagem e personaliza a trajetória de cada aluno de forma gamificada e viciante. Não há como competir com a capacidade de processamento de dados da plataforma, então entende-se que a Khan Academy conhecerá o processo de desenvolvimento de conteúdo de cada aluno muito melhor do que um professor.

A reconfiguração docente

No contexto da incorporação de plataformas como a Khan Academy às instituições de ensino, a função docente é fortemente afetada. Um professor que atue mais como auxiliar das plataformas do que como personagem central no acompanhamento do desenvolvimento do aluno parece ser o objetivo final dessas plataformas. Nesse contexto, o que se busca é que o estável e o imutável seja o serviço oferecido pelas plataformas; o professor seria cada vez mais secundário e facilmente substituível.

Os imaginários históricos sobre a função docente deixam de fazer sentido neste novo cenário. O professor não é mais a fonte de informação, conteúdo e conhecimento; não é quem desenvolve ou seleciona os materiais didáticos; nem é quem expõe o conteúdo, oferece exemplos e tira dúvidas do dia a dia. O currículo passou a ser desenhado por plataformas com alcance global, e não é mais uma pessoa que conhece os alunos e seu contexto o suficiente para tomar decisões sobre como avançar em sala de aula para reduzir as desigualdades.

No entanto, a introdução das tecnologias digitais na educação intensificou a carga de trabalho docente e fortaleceu os mecanismos de controle externo e de autocontrole interno. “(…) Por meio de todas essas mudanças, está sendo gerada a expressão máxima da subjetividade neoliberal digitalizada. O professor, que se acredita livre, se autoexplora e se autocontrola sem as limitações do plano analógico.” (Saura, Cancela e Parcerisa, 2023: 28). A gestão de todos esses dados gera um novo controle da função docente. “O papel tinha um limite. Os dígitos, no entanto, são infinitos.” (Saura, Cancela e Parcerisa, 2023: 28).

A privatização educacional digital por meio de plataformas hegemônicas como Google e Microsoft cria um solucionismo tecnológico que os professores devem atender. Essas corporações também oferecem formação, certificados e prêmios para os docentes inovadores, o que faz com que os professores que se adaptam ao seu discurso criem “inovações” e valorizem sua nova personalidade digital certificada. Desta forma, contribuem para a tecnocratização da educação e a desprofissionalização dos docentes (Saura, Cancela e Parcerisa 2023: 28).

As consequências das tecnologias digitais são imprevisíveis e dificultam o mapeamento dos atores da educação global. Isso causa uma pressão adicional sobre a função docente, que se desgasta devido à deterioração das três funções básicas (qualificação, socialização e subjetivação) propostas por Gert Biesta (2015). A abordagem de Biesta destaca que a nota não é apenas atribuir um número, mas que os alunos entendam o significado do conhecimento que é transmitido. A socialização implica a capacidade de encontrar um significado local e particular na aprendizagem, que pode ser afetado pelas barreiras impostas pelo campo digital. Por fim, a subjetivação implica que os jovens se considerem como indivíduos particulares, algo que a abordagem globalista e digital não atende. Esta deterioração tem um acentuado sotaque cultural e anula o filtro necessário do professor nas três áreas referidas, tendo efeitos perversos nos educandos.

A erosão digital na educação implica que o professor perca ou desvalorize alguns dos seus papéis e tarefas. A sua participação no planeamento, implementação e avaliação da aprendizagem é diminuída, a sua decisão sobre o currículo é anulada e a realidade das condições em que o ensino decorre é omitida. Além disso, sua figura de pesquisador desaparece e a essência da escola é subsumida pelo aprender por aprender, sem a necessidade de recorrer ao significado dessa aprendizagem.

Considerações finais

Esse processo de incorporação das EdTechs nas instituições de ensino e a configuração de uma nova função docente vem ocorrendo há anos. Na América Latina, por exemplo, existe um conglomerado de empresas que está atuando para se inserir nas escolas públicas e assumindo todos os riscos: a Samsung financia salas de aula tecnológicas 6 que poderão receber produtos educacionais da Khan Academy e de outras empresas. Mas em decorrência da pandemia de covid-19, a presença de agentes comerciais privados na educação ampliou-se ainda mais e eles defenderam a necessidade da manutenção de um mínimo de cotidiano escolar (sem que se considere, neste discurso, o gap tecnológico).

Este movimento tem causado tensões que afetam os objetivos, conteúdos e habilidades da educação.

Isso corrói o controle democrático delegado ao docente, deteriora sua figura e reduz seu papel como ator social, o que acarreta uma perda da “comunidade simbólica idealizada” (Sennett, 2000).

Nesse sentido, é importante destacar que a figura do docente é fundamental para garantir o acesso a uma educação de qualidade e equitativa para todos os alunos. Por isso é fundamental proteger o trabalho do professor como agente público e como mediador entre os alunos e o conhecimento. Num contexto em que a educação é cada vez mais influenciada por agentes comerciais privados, o papel do professor torna-se ainda mais importante enquanto defensor dos valores democráticos e da justiça social. Portanto, é fundamental que mais atenção seja dada à proteção do controle democrático da educação e do trabalho do docente nela, para garantir uma educação de qualidade e equitativa para todos os estudantes.

Os senhores da morte, por Vera Iaconelli.

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O filme ‘Oppenheimer’ faz o espectador experimentar uma profunda tristeza reflexiva

Vera Iaconelli, Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Folha de São Paulo, 25/07/2023

Freud não tinha razões para se iludir com a natureza humana. Três de seus filhos participaram da Primeira Guerra Mundial, na qual perdeu um sobrinho. Ele só escapou da perseguição nazista que antecedeu o segundo conflito mundial por obra e graça de Marie Bonaparte, princesa da Grécia e psicanalista.

Ele sentiu na pele a derrocada da pretensão civilizatória iluminista, que projetava os horrores da humanidade nos outros: basicamente nos povos originários a serem colonizados com a justificativa de que seriam selvagens. Mas quando as guerras se deram entre irmãos europeus ficou mais difícil sustentar a retórica eurocêntrica. Como se sabe, nos olhos dos outros, pimenta é colírio. A lavagem cerebral colonial é tão persistente que ainda existe quem se espante com a guerra na Ucrânia como se conflitos bélicos fossem coisa do sul global.

Freud foi mais longe, para desconsolo dos otimistas de plantão, e disse que o mal-estar na cultura é resultado do próprio processo civilizatório. A exigência de que renunciemos a parte de nossas satisfações pulsionais sempre cobra a fatura. Sua falta, por outro lado, é a barbárie. Ruim com, pior sem. Nos resta identificar como se apresenta o mal-estar de cada época para buscarmos as melhores formas de enfrentá-lo.

Mas a humanidade também é capaz de prodígios de criação que embalam nossa imaginação e engrandecem nosso espírito. Goethe, Shakespeare e Cervantes eram faróis a inspirar Freud em busca de valor na combalida humanidade.

Os grandes criadores da humanidade têm gana por aprender, resolver problemas, criar e receber o reconhecimento devido, o que os leva a um ciclo de angústia e satisfação. O prazer da descoberta, o reconhecimento social e o poder — financeiro e político — seduzem a ponto de ofuscar o interesse pelas consequências. Se algo espetacular pode ser criado, por que deveríamos nos importar com os efeitos da criação, a glória não justificaria tudo?

Atendi descendentes das vítimas da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki em mais de uma ocasião. Ouvi os relatos de sofrimento e adoecimento psíquico de familiares de sobreviventes, pais e avôs que, quando crianças, assistiram a vizinhos falecerem na sua porta sem que pudessem socorrê-los. Herdaram também riscos consideráveis de produzirem câncer em decorrência da radiação.

É uma geração que viu o esplendor de nossas capacidades intelectuais e imaginativas serem usadas para construir a maior expressão da violência humana até então. Como Primo Levi. que tentou em vão comunicar a máquina de desumanização criada pelos nazistas, também essas vítimas tentam nomear o inominável da experiência de aniquilação anônima e programática de um ser humano por outro.

O que mais se pode falar sobre tamanha tragédia, que fará 78 anos no próximo dia 6 de agosto?

O filme “Oppenheimer”, sobre o pai da bomba atômica, tenta uma abordagem. O ator Cillian Murphy sustenta magistralmente um personagem no qual convivem genialidade, lealdade para com os seus e incapacidade de se colocar no lugar das vítimas de sua criação até que seja tarde demais — e talvez nem assim, pelo potencial psicotizante. O autor da bomba não está só, logicamente. Uma empreitada dessas é sempre uma ação coletiva e gigantesca, como foi a escravidão e o holocausto.

Christopher Nolan, diretor dessa obra-prima, não dá ao espectador direito à catarse, fazendo-o experimentar uma profunda tristeza que o acompanha durante e depois da sessão. Como nas melhores obras, essa tristeza não vai sem angústia e reflexão.

Filme obrigatório para aqueles que insistem em encarar a ciência como um brinquedo lucrativo e cujas consequências negligenciam acintosamente.

Por que o capital está deixando os EUA? por Richard D. Wolff

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Richard D. Wolff – A Terra é Redonda – 24/07/2023

O capitalismo avançou, abandonando seus antigos centros e, assim, empurrando os seus problemas e as suas divisões para crises cada vez maiores.

No início, o capitalismo norte-americano estava centrado na Nova Inglaterra. Depois de algum tempo, a busca pelo lucro levou muitos capitalistas a deixar aquela área e se transferirem para Nova York e para os estados do meio do Atlântico. Grande parte da Nova Inglaterra ficou com fábricas abandonadas e cidades deprimidas – o que é evidente até hoje. Eventualmente, os empregadores se mudaram novamente, abandonando Nova York e o meio do Atlântico para o Meio-Oeste.

A mesma história foi se repetindo à medida que o centro do capitalismo se deslocava para o Extremo Oeste, o Sul e o Sudoeste. Termos descritivos como “cinturão da ferrugem”, “desindustrialização” e “deserto manufatureiro” se aplicavam cada vez mais a espaços antes habitados pelo capitalismo norte-americano.

Enquanto os movimentos do capitalismo permaneceram principalmente dentro dos EUA, os alarmes levantados por suas vítimas abandonadas permaneceram regionais, não se tornando ainda uma questão nacional. Nas últimas décadas, no entanto, muitos capitalistas transferiram as instalações de produção e os novos investimentos para fora dos EUA, para outros países, especialmente para a China. Controvérsias e alarmes contínuos cercam agora esse êxodo capitalista. Mesmo os célebres setores de alta tecnologia, sem dúvida o único centro robusto remanescente do capitalismo dos EUA, investiram pesadamente em outros lugares.

Desde a década de 1970, os salários eram muito mais baixos no exterior e os mercados também cresciam mais rápido por lá. Cada vez mais capitalistas americanos tiveram que sair ou correr o risco de perder sua vantagem competitiva sobre aqueles capitalistas (europeus e japoneses, bem como os EUA) que haviam partido mais cedo para a China e estavam obtendo taxas de lucro incrivelmente melhores. Além da China, outros países asiáticos, sul-americanos e africanos também forneceram incentivos de baixos salários e mercados em crescimento, o que acabou atraindo capitalistas americanos, assim como outros, para transferirem os seus investimentos para lá.

Os lucros obtidos por esses movimentos do capital estimularam mais movimentos. O aumento dos lucros fez a subir os mercados de ações dos EUA e produziu grandes ganhos em renda e riqueza para alguns. Isso beneficiou principalmente os já ricos acionistas corporativos e altos executivos corporativos. Eles, por sua vez, promoveram e financiaram a formulação de ideologias, segundo as quais o abandono do capitalismo dos EUA foi, na verdade, um grande ganho para a sociedade americana como um todo.

Essas afirmações, categorizadas sob os títulos de “neoliberalismo” e “globalização”, serviam perfeitamente para esconder ou obscurecer um fato-chave: lucros mais altos principalmente para os poucos mais ricos era o principal objetivo e o resultado do abandono dos EUA pelo capital sempre ganancioso.

O neoliberalismo era uma nova versão de uma velha teoria econômica que justificava as “escolhas livres” dos capitalistas como o meio necessário para alcançar a eficiência ótima para economias inteiras. De acordo com a visão neoliberal, os governos devem minimizar qualquer regulação ou outra interferência nas decisões orientadas pelo lucro dos capitalistas.

O neoliberalismo celebrava a “globalização”, seu nome preferido para a escolha dos capitalistas de transferir especificamente a produção para o exterior. Dizia-se que a “livre escolha” permitia uma produção “mais eficiente” de bens e serviços, porque os capitalistas poderiam explorar recursos de origem global. As linhas de força que fluíam das exaltações do neoliberalismo, das escolhas livres dos capitalistas e da globalização, era que todos os cidadãos se beneficiam quando o capitalismo avançava. Com exceção de alguns dissidentes (incluindo alguns sindicatos), políticos oportunistas, meios de comunicação de massa e acadêmicos auto-interessados em grande parte se juntaram à intensa torcida pela globalização neoliberal do capitalismo.

As consequências econômicas do movimento do capital impulsionado pelo lucro para fora de seus antigos centros (Europa Ocidental, América do Norte e Japão) trouxeram o capitalismo para sua crise atual. Primeiro, os salários reais estagnaram nos antigos centros. Os empregadores que podiam exportar empregos (especialmente na manufatura) o fizeram. Empregadores que não podiam (especialmente nos setores de serviços) procuraram automatizá-los.

À medida que as oportunidades de emprego nos EUA pararam de aumentar, os salários também pararam de crescer. Desde que a globalização e a automação impulsionaram os lucros das empresas e os mercados de ações, enquanto os salários estagnaram, os velhos centros do capitalismo exibiram um aumento extremo das diferenças de renda e riqueza. O aprofundamento das divisões sociais se seguiu e culminou na crise do capitalismo agora.

Em segundo lugar, ao contrário de muitos outros países pobres, a China possuía a ideologia e a organização para garantir que os investimentos feitos pelos capitalistas servissem ao seu próprio plano de desenvolvimento; ora, essa foi a estratégia econômica da China. A China exigia o compartilhamento das tecnologias avançadas dos capitalistas entrantes (em troca do acesso desses capitalistas à mão de obra chinesa de baixos salários e à rápida expansão dos mercados chineses).

Os capitalistas que entravam nos mercados de Pequim também eram obrigados a facilitar parcerias entre produtores chineses e canais de distribuição em seus países de origem. A estratégia da China de priorizar as exportações significava que precisava garantir o acesso aos sistemas de distribuição (e, portanto, às redes de distribuição controladas por capitalistas) em seus mercados-alvo. Parcerias mutuamente lucrativas foram desenvolvidas entre a China e alguns distribuidores globais, tal como o Walmart.

O “socialismo com características chinesas” de Pequim incluía um poderoso partido político e um Estado focado no desenvolvimento. Juntos, supervisionavam e controlavam uma economia que misturava o capitalismo privado com o capitalismo de Estado. Nesse modelo, empregadores privados e empregadores estatais dirigem massas de empregados em suas respectivas empresas.

Ambos os conjuntos de funções patronais, entretanto, estão sujeitos às intervenções estratégicas de um partido e de um governo determinados a atingir seus objetivos econômicos. Como resultado dessa definição e operação do “socialismo” com características chinesas, a economia desse país ganhou mais (especialmente no crescimento do PIB) com a globalização neoliberal do que a Europa Ocidental, a América do Norte e o Japão. A China cresceu rápido o suficiente para competir agora com os velhos centros do capitalismo.

O declínio dos EUA dentro de uma economia mundial em mudança contribuiu para a crise do capitalismo norte-americano. Para o império norte-americano que surgiu da Segunda Guerra Mundial, a China e seus aliados do BRICS representam agora o seu primeiro desafio econômico sério e sustentado. A reação oficial dos EUA a essas mudanças até agora tem sido uma mistura de ressentimento, provocação e negação. Não se apresentam soluções para a crise nem ajustamentos bem-sucedidos a uma realidade alterada.

Em terceiro lugar, a guerra da Ucrânia expôs os principais efeitos dos movimentos geográficos do capitalismo e do declínio econômico acelerado dos EUA em relação à ascensão econômica da China.

Assim, a guerra de sanções liderada pelos EUA contra a Rússia não conseguiu esmagar o rublo ou colapsar a economia russa. Esse fracasso se seguiu em boa parte porque a Rússia obteve apoio crucial das alianças (Brics) já construídas em torno da China. Essas alianças, enriquecidas por investimentos de capitalistas estrangeiros e domésticos, especialmente na China e na Índia, forneceram mercados alternativos quando as sanções fecharam os mercados ocidentais às exportações russas.

As disparidades de renda e riqueza anteriores nos EUA, agravadas pela exportação e automação de empregos de alta remuneração, minaram a base econômica dessa “vasta classe média” da qual tantos funcionários acreditavam fazer parte. Nas últimas décadas, os trabalhadores que esperavam desfrutar do “sonho americano” descobriram que o aumento dos custos de bens e serviços levou a que o sonho estivesse fora de seu alcance. Seus filhos, especialmente aqueles forçados a pedir empréstimos para a faculdade, se viram em uma situação semelhante ou pior.

Resistências de todos os tipos surgiram (movimentos de sindicalização, greves, “populismos” de esquerda e direita) à medida que as condições de vida da classe trabalhadora continuavam se deteriorando. Para piorar a situação, os meios de comunicação de massa celebraram a riqueza estupefaciente daqueles poucos que mais lucraram com a globalização neoliberal.

Nos EUA, fenômenos como o ex-presidente Donald Trump, o senador independente de Vermont Bernie Sanders, supremacia branca, sindicalização, greves, anticapitalismo explícito, guerras “culturais” e extremismos políticos frequentemente bizarros refletem o aprofundamento das divisões sociais.

Muitos nos EUA se sentem traídos depois de serem abandonados pelo capitalismo. As suas diferentes explicações para a traição exacerbam o sentimento amplamente difundido de crise na nação.

A deslocalização global do capitalismo ajudou a elevar o PIB total dos países BRICS (China + aliados) bem acima do G7 (EUA + aliados). Para todos os países do Sul Global, seus apelos por ajuda ao desenvolvimento agora podem ser direcionados a dois possíveis entrevistados (China e EUA), e não apenas ao Ocidente. Quando as empresas e entidades chinesas investem na África, é claro que os seus investimentos são estruturados para ajudar tanto os doadores como os receptores.

Se a relação entre eles é imperialista ou não, depende das especificidades da relação e do saldo dos ganhos líquidos. Esses ganhos para os BRICS provavelmente serão substanciais. O ajuste da Rússia às sanções relacionadas à Ucrânia contra ela não apenas a levou a se apoiar mais nos BRICS, mas também intensificou as interações econômicas entre os membros dos BRICS. Os laços econômicos existentes e os projetos conjuntos entre eles cresceram. Novos estão surgindo rapidamente. Sem surpresa, outros países do Sul Global solicitaram recentemente a adesão ao BRICS.

O capitalismo avançou, abandonando seus antigos centros e, assim, empurrando os seus problemas e as suas divisões para crises cada vez maiores. Como os lucros ainda fluem de volta para os velhos centros, aqueles que lá recolhem os lucros iludem os cidadãos e a si mesmos pensando que tudo está bem no capitalismo global.

Como esses lucros agravam drasticamente as desigualdades econômicas, as crises sociais se aprofundam. Por exemplo, a onda de militância trabalhista que varre quase todas as indústrias dos EUA reflete uma raiva e um ressentimento crescente contra essas desigualdades. O bode expiatório histérico de várias minorias feitas por demagogos e pelos movimentos de direita é outro reflexo do agravamento das dificuldades. Outra é a crescente percepção de que o problema, em sua raiz, é o sistema capitalista. Tudo isso são componentes da crise atual.

Mesmo nos novos centros dinâmicos do capitalismo, a crítica socialista, mascarada ou não, volta a agitar as mentes das pessoas. A organização dos novos centros de trabalho – mantendo o velho modelo capitalista de empregadores versus empregados em empresas privadas e estatais – é desejável ou sustentável? É aceitável que um pequeno grupo, os empregadores, permita que a maioria das empresas decida em seu próprio favor, de forma exclusiva e irresponsável?

Richard D. Wolff é economista. Fundou o portal Democracy at Work. Autor, entre outros livros, de Capitalism”s Crisis Deepens (Haymarket books).

Tradução: Eleutério F. S. Prado.