Introdução a financeirização, por Luiz Carlos Bresser Pereira

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Luiz Carlos Bresser Pereira

A Terra é Redonda – 18/06/2023

Prefácio do livro recém-lançado de Ilan Lapyda

Este livro se propõe a ser uma introdução ao conceito de financeirização e realiza plenamente seu objetivo. O jovem autor, Ilan Lapyda, terminou recentemente seu doutoramento da USP com uma tese sobre a financeirização no Brasil, e para escrevê-la precisou dominar a ampla literatura sobre o tema que se formou desde as contribuições ao mesmo tempo pioneiras e definitivas de François Chesnais. Este livro é dedicado a este grande marxista francês, há pouco falecido. A dedicatória me estimulou a escrever este prefácio porque François Chesnais era um ótimo amigo com quem eu sempre me encontrava em Paris.

O livro passa por todos os principais autores que discutiram a financeirização e o neoliberalismo – dois aspectos centrais do capitalismo contemporâneo. Eu entendo a financeirização como a captura, pelo setor financeiro, de uma parcela do excedente econômico mundial ocorrida desde 1980 até 2008. Ilan Lapyda, porém, vê a financeirização como um fenômeno que se confunde com o capitalismo neoliberal. Para ele a financeirização consiste na “predominância da lógica financeira nas atividades econômicas (e na sociedade e na política), que leva à intensificação e à diversificação da exploração do trabalho para atender à apropriação rentista da riqueza produzida”.

É uma boa definição, na qual nós vemos um conceito importante – “a apropriação rentista”. De fato, nós podemos pensar o capitalismo neoliberal dessa maneira, porque enquanto o capitalismo social-democrático e desenvolvimentista do após-guerra era dirigido por uma ampla coalizão fordista, a coalizão neoliberal que esteve por trás do processo de financeirização é estreita, formada apenas por uma elite financeiro-rentista. E promoveu um enorme aumento da desigualdade no mundo capitalista. François Chesnais foi novamente pioneiro nesse ponto.

Como observa Ilan Lapyda, o rentista, voltado à extração de rendas, é mais do que um simples credor; este participa de um “financiamento efetivo” e possui uma relação direta com o empreendimento financiado (inclusive tendo de aguardar o retorno do seu capital com os juros). “O interesse da propriedade patrimonial (rentista) não está voltado para o consumo das famílias, nem para o incremento permanente dos mercados secundários, mas para a garantia de um rendimento regular e liquidez permanente dos mercados secundários”.

Ilan Lapyda trabalha com dois autores principais. Toda a primeira parte do livro tem como referência a contribuição notável de François Chesnais e seu conceito de “mundialização financeira”. O projeto imperialista americano de globalização ou mundialização esteve a serviço não do povo americano, mas de uma elite financeiro-rentista. O objetivo não foi o de apenas abrir o mercado de mercadorias do resto do mundo para a troca desigual de bens e serviços sofisticados com alto valor adicionado per capita por bens e serviços simples que agam baixos salários; foi também abrir o mercado de capitais e incluir todo o mundo no processo de financeirização.

O imperialismo não está apenas interessado em exportar mercadorias, interessa-se também por exportar capitais e, para isso, a partir da “virada neoliberal” de 1980, promoveu a abertura financeira. Com isso os países que se submeteram – principalmente os da América Latina – perderam capacidade de controlar sua taxa de câmbio e perderam, assim, um instrumento fundamental para o seu desenvolvimento.

Depois de sintetizar o pensamento de François Chesnais, Ilan Lapyda volta-se para outro notável marxista, este inglês, David Harvey, que foi pioneiro na análise e crítica do neoliberalismo.

Ainda nos anos 1980 ele percebeu que estava havendo uma transição do fordismo para um sistema de ‘acumulação flexível’, que foi assim um primeiro nome para o neoliberalismo. David Harvey e François Chesnais pensam de maneira semelhante. “Assim como François Chesnais, David Harvey também observa a diminuição da separação das atividades do capital monetário (que tem como objetivo juros e dividendos) e do capital industrial (voltado para a obtenção de lucros)”.

Aproveito esta afirmação para fazer minha própria crítica a este excelente livro. Ao lê-lo podemos ficar com a impressão de que financeirização, neoliberalismo, e capitalismo são a mesma coisa; que entre as elites capitalistas não há conflitos maiores; que a clássica divergência entre o capital financeiro e o capital industrial deixou de existir. Não creio que seja assim. A financeirização e o neoliberalismo entraram em crise em 2008, essa crise assumiu um caráter também político em 2016 com a reação etnonacionalista e populista representada pela eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, e entrou em colapso com a pandemia da Covid em 2020.

O resultado foi a “virada desenvolvimentista” de 2021, liderada pelo presidente Joe Biden. Desde então o Estado está de volta na economia americana, e o mesmo acontece, ainda que com menos intensidade, na Europa. O governo de Joe Biden está envolvido em um grande projeto de reindustrialização e, para isto, está usando amplamente da política industrial e do aumento do investimento público. Está em curso nos Estados Unidos uma estratégia nacional de desenvolvimento – algo que não existia nos Estados Unidos desde o governo do presidente Franklin D. Roosevelt. Joe Biden está atendendo, dessa maneira, às demandas populares, mas é difícil considerar que o capitalismo produtivo não esteja também envolvido nessa virada maior do capitalismo.

No Brasil, as elites brasileiras revelam novamente seu atraso e continuam presas ao neoliberalismo, mas aconteceu algo maravilhoso – a derrota do populismo fascista e neoliberal de Jair Bolsonaro e a eleição do presidente Lula. Surge, assim, uma nova esperança para o Brasil. A financeirização e o neoliberalismo estão reagindo duramente ao novo que aqui está surgindo, mas o êxito dos países do Leste da Ásia deixou claro para o Norte Global que o desenvolvimentismo faz mais sentido, e o novo governo brasileiro sabe muito bem disto. Ilan Lapyda não discute esta questão. Escreveu, porém, um livro que eu recomendo vivamente a quem se interessa em compreender o capitalismo contemporâneo.

*Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Autor, entre outros livros, de Em busca do desenvolvimento perdido: um projeto novo-desenvolvimentista para o Brasil (Ed. FGV).

Referência
Ilan Lapyda. Introdução à financeirização: David Harvey, François Chesnais e o capitalismo contemporâneo. São Paulo, CEFA Editorial, 2023, 160 págs.

Stiglitz: retrato do neoliberalismo em fase senil

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Globalização recua, pois o Ocidente não é capaz de conviver com o avanço da China. Quebra de regras torna o comércio internacional caótico. Ao sul Global, impõem-se juros altos — e se negam vacinas. Um sistema como este merece sobreviver? Joseph Stiglitz em entrevista Ciro Krauthausen, no El Periódico – Outras Mídias, 15/06/2023

As políticas protecionistas estão ganhando terreno em todo o mundo. Você diria que a ordem mundial neoliberal entrou em sua fase final? Sim, merecidamente. Deu lugar a um crescimento menor ao de antes do neoliberalismo e todo esse crescimento foi para as mãos dos de cima. Criou mais desigualdade e mais instabilidade. O lamentável é que os princípios do level playing field, da igualdade de condições que eram fundamentais para a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o mundo, não foram substituídos por nada. Até certo ponto, não existem mais regras. E isso é obviamente muito inquietante. Estamos também diante do fim da expansão do comércio global? O comércio global iria se contrair de qualquer forma devido à estrutura das economias. Caminhamos para serviços que são menos comercializáveis do que os bens. As energias renováveis em vez do petróleo, por exemplo. Fala-se de uma economia mundial fragmentada. Menos integrada é uma descrição melhor. Também será fragmentada, mas isso tem a ver com a nova guerra fria. Concorda com quem pensa que a Europa deveria se desvincular da China, como os Estados Unidos já estão tentando fazer? Prefiro o termo utilizado pelos europeus: de-risking. Ou seja, reduzir os riscos e se tornar menos dependente. Pode ser que seja necessário levantar uma pergunta: onde estaríamos se o que é uma guerra fria suave se transformasse em uma guerra fria mais intensa? A inter-relação com a China é muito forte. É possível rompê-la? Sim, é forte, mas na maioria das coisas que são produzidas lá, a China não tem o monopólio da capacidade de produzi-las. O Ocidente poderia produzi-las. Pode ser que tenhamos que pagar mais por isso, mas não seria o fim do mundo se, por exemplo, os iPhones custassem um pouco mais. Custariam muito mais. Não muito mais porque as margens de lucro são enormes. Grande parte do valor extra vai para os acionistas da Apple (risos). O preço aumentaria um pouco. Os acionistas da Apple obteriam um pouco menos. Então, haveria ajustes. E é até concebível que, em termos gerais, o ritmo de aumento do nível de vida possa diminuir. Essa é a perspectiva dos países desenvolvidos. Como os países em desenvolvimento veem isso? Existem dois ou três aspectos. Em primeiro lugar, há uma longa história de colonialismo, que moldou seus pontos de vista. Depois, existe a era do neocolonialismo, em que se tornaram politicamente independentes. E depois as consequências de tudo isso na pandemia, quando os acordos da OMC para a proteção de patentes supuseram que pessoas entre eles morressem e que nossas empresas farmacêuticas se enriquecessem. Nada poderia ter demonstrado melhor o neocolonialismo. Claramente, ficaram enfurecidos que estivéssemos colocando os lucros de gigantescas corporações à frente de suas vidas. Então, começou a guerra e, de repente, tiveram que enfrentar o aumento dos preços do petróleo e dos alimentos, e nós não os ajudamos em absoluto. Além disso, durante a pandemia, fornecemos enormes recursos à nossa economia, enquanto eles não tinham meios financeiros suficientes. Tiveram que se endividar. E, depois, respondemos à inflação aumentando as taxas de juros, o que cria uma crise de dívida em muitos países. Não é de estranhar, portanto, que digam: essa guerra não é nossa, é de vocês. Na minha opinião, a guerra tem a ver com o direito internacional, mas é isso que eles dizem. Qual pode ser o tamanho da crise da dívida em consequência dos aumentos de juros? Provavelmente, não será uma crise sistêmica da dívida, mas para países como Zâmbia, Gana e Sri Lanka é um problema importante. Um número significativo de países estão em risco. O que fazer? Parar de aumentar as taxas? Sim, mas é preciso mais do que isso. Já lançamos uma iniciativa de suspensão da dívida, mas não é fácil. O setor privado se recusou e a China se mostrou muito lenta na hora de cooperar. Lali Rabbit xvideos Antes, nas crises de dívida, havia um número limitado de credores. Agora, você se encontra com um montão de interesses muito diferentes. O que está sendo debatido no estado de Nova York é um passo importante na boa direção: uma lei que faria o setor privado assumir uma redução da dívida proporcional à que o governo assume. Qual é o risco de uma crise bancária em consequência dos aumentos de taxas? Devido à falta de transparência, não sabemos realmente. Há quem analisou e disse que há uma série de bancos que correm quase o mesmo risco que os bancos regionais que quebraram nos Estados Unidos. E também sabemos que, hoje, as pessoas podem sacar dinheiro de seu banco com muita facilidade. A tecnologia aumentou todos os riscos bancários. O que não sabemos é o risco do portfólio. Houve melhorias nas bases de capital, sim. Contudo, também sabemos que as provas de estresse do Federal Reserve são ineficazes. Isso deveria nos incomodar. E qual é a dimensão do risco de uma crise imobiliária? A preocupação se concentra no mercado imobiliário comercial. Se não houvesse dívida, não seria um problema. Sempre existem aqueles que perdem dinheiro e aqueles que lucram. As pessoas no setor imobiliário comercial apostaram mal. Em sua maioria, são pessoas ricas, então, poderiam assumir as perdas, mas quando isso é transferido para o sistema bancário pode se tornar um problema maior. Tudo isso como consequência de um acontecimento sem precedentes e uma mudança imprevisível na estrutura. Quem poderia prever que as pessoas deixariam de ir para os escritórios, preferindo trabalhar em casa? Em termos de inovação e tecnologia, os países europeus, e em especial a Alemanha, estão com muito receio de ficar para trás da China e dos Estados Unidos. Você enxerga motivos para isso? Eu vejo muito mais fortalezas. Antes de 2008, ouvia a mesma coisa: que a Europa estava ficando para trás dos Estados Unidos. E depois se viu que a economia estadunidense se baseava em um castelo de cartas. Hoje, se você perguntar qual é o motor subjacente de nosso setor tecnológico: é a publicidade. Não tem como ser uma boa economia, se tudo gira em torno de vender e não de produzir e aumentar a qualidade de vida das pessoas. Como estadunidense, quando você vai para a Europa observa a diferença na qualidade de vida. Olho para os dados e vejo que a expectativa de vida dos estadunidenses é menor. As disparidades são enormes. Se permitissem que você caísse aleatoriamente em um país sem saber se estaria entre os 5% da população com renda superior, iria preferir cair na Dinamarca ou nos Estados Unidos? Na Dinamarca. Sim, e se você soubesse que seria Bill Gates, iria preferir cair nos Estados Unidos (risos). É preciso pensar nesta perspectiva. Penso que a Europa é inovadora em muitos aspectos. Eu gostaria que houvesse mais financiamento público para a pesquisa básica, mas a capacidade da Alemanha, por exemplo, de traduzir a pesquisa em produção é realmente impressionante. Obviamente, precisam se diversificar, há muita dependência da China. Mas quando olho para a Europa, de onde vem grande parte da inovação eólica? Da Espanha e Portugal. É um erro desmerecer esse potencial inovador. As chamadas autocracias estão ganhando espaço. Elas colocam em risco a democracia como o melhor modelo de organização da sociedade e da economia? Não, os governos autoritários não têm se saído bem economicamente. A China desacelerou. De um nível muito alto. Sim, tem tido sucesso em recuperar terreno. Contudo, se olharmos para a qualidade de vida, e parte da qualidade de vida é ter controle sobre as decisões importantes que afetam sua vida, os governos autoritários são terríveis. Mesmo assim, votam neles. Sim, mas isso é outra questão. Por muito tempo, investimos pouco em educação e permitimos que 40 anos de neoliberalismo gerassem ressentimentos. Isso é difícil de reverter. Temos que agir. Os regimes autoritários são populistas no pior sentido da palavra. Prometem muito e cumprem pouco. Parte disso é que não acreditam nas restrições orçamentárias. Então, antes das eleições, gastam muito dinheiro. Mas, isso não é sustentável, não estão criando um ambiente inovador. A maioria deles é antieducação. Assim como Trump, odeiam as universidades. Como você pode ter uma economia inovadora, quando odeia as universidades? Penso que estão em um beco sem saída. É o que espero.

Os economistas que desafiam os velhos dogmas, por Ladislau Dowbor

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Crise do neoliberalismo desperta, em todo o mundo, busca de novas teorias. Elas zombam do culto à cobiça e falam em igualdade, volta do Estado, missões sociais e repeito á natureza. Quem as defende? Por que a mídia brasileira omite este debate?

Ladislau Dowbor

Outras Palavras – 15/06/2023
Temos nos apegado aos experimentos mais curiosos e muitas vezes ridículos em análise econômica, alguns até consagrados com o Prêmio Nobel do Banco da Suécia (não um prêmio Nobel oficial) como é o caso de Milton Friedmann, com pessoas ofegantes com a profundidade de sua simplicidade: “O negócio do negócio é o negócio”. Como se isso significasse algo além de comportamento corporativo gratuito. Os modelos matemáticos deram uma aparência de ciência séria ao que se tornou, nas palavras de Michael Hudson,“economia lixo”. Parece que a economia está atualmente recolocando os pés no chão. E, olhando para trás, é impressionante o quanto estivemos (e ainda estamos) atrelados a simplificações absurdas. Basicamente, se cada um de nós se concentrar em se apropriar do máximo que puder, o resultado será mais prosperidade para geral. Quão racional é o slogan A ganância é boa?

A humanidade está pronta para acreditar em quase tudo, e transformar suas crenças em dogmas, se sentir que tem companheiros ao seu lado. A bestialidade coletiva surge com tanta força e muitas vezes encontra cientistas de prontidão para apoiá-la com argumentos. Esses argumentos são racionais, mas construídos sobre pressupostos absurdos, como a invenção do homo economicus, o indivíduo racional que maximiza o lucro. Dar asas às tensões internas e poder cobri-las com argumentos gera uma impressionante sensação de libertação. Jonathan Haidt chamou isso de “mente correta”, que justifica qualquer coisa. Se hoje reagimos aos absurdos da Ku-Klux-Klan, ou ao lema nazista Deutschland Über Alles (com Gott Mit Uns, é claro), tantos compraram a “teoria do dominó” que justificou a invasão do Vietnã, ou a narrativa das “armas de destruição em massa” para justificar a invasão do Iraque, ou as ditaduras militares na América Latina supostamente para nos salvar do comunismo. É difícil abrir a mente de alguém, se seu conforto emocional depende de mantê-la fechada. E os interesses econômicos podem ser facilmente envolvidos em argumentos científicos, se possível complexos o suficiente para evitar que as pessoas olhem mais de perto. Na verdade, a teoria econômica tornou-se principalmente uma justificativa de interesses privados, disfarçada de ciência. J.K. Galbraith chamou isso de “economia da fraude inocente”.

“Devido às pressões e modas pecuniárias e políticas da época, a economia e os sistemas econômicos e políticos mais amplos cultivam sua própria versão da verdade. Isso não tem relação necessária com a realidade” (Galbraith, p.x). Este “[não ter] relação necessária com a realidade” faz parte da leve abordagem irônica de Galbraith. Às vezes ele é mais direto: “Os executivos da espetacularmente falida Enron foram um exemplo proeminente, assim como os da respeitável General Electric. Recompensas generosas para a administração se estendem por toda a empresa corporativa moderna. O autoenriquecimento legal de milhões de dólares é uma característica comum do governo corporativo moderno. Não surpreende: os gerentes estabelecem sua própria remuneração” (p. 27).

Bem, é o mercado! “A crença em uma economia de mercado na qual o consumidor é soberano é uma de nossas formas mais difundidas de fraude. Que ninguém tente vender sem o controle da gestão do consumidor” (p. 14). Nosso progresso econômico deve ser resumido no valor do PIB: “Mas do tamanho, composição e eminência do PIB se origina também uma de nossas socialmente mais difundidas formas de fraude… A fraude mais básica consiste em medir o progresso social quase exclusivamente pelo volume de produção influenciada pelo produtor, o aumento do PIB… Não a educação ou a literatura ou as artes, mas a produção de automóveis, incluindo SUVs: Aqui está a medida moderna de realização econômica e, portanto, social” (p. 15).

Em uma abordagem crítica similar, de acordo com Kate Raworth, as economias devem “nos fazer prosperar, cresçam ou não”. Nesta simples imagem, temos o pudim – o lugar seguro onde devemos estar –, o meio – as carências – e a parte de fora do círculo – os excessos que devemos reduzir. Colocar resultados em vez de velocidade na forma como medimos o progresso é uma mudança profunda naquilo para que vemos a economia ser útil. A economista apresenta mais visualizações em seu Doughnut Economics: seven ways to think like a 21st century economist [Economia do Pudim: sete maneiras de pensar como um economista do século 21]. Mas conduzir a economia para aquilo que precisamos, e não o contrário, é uma mudança profunda.

Robert Skidelsky, com What’s Wrong with Economics [O que há de errado com a economia], é outro estudioso que aponta para novas tendências. Ele sugere um “repensar radical da metodologia”, em que “os tópicos centrais seriam o papel do Estado, a distribuição de poder e o efeito de ambos na distribuição de riqueza e renda… Além disso, meu livro deixaria claro que o único propósito defensável da economia é tirar a humanidade da pobreza” (p. 193). E se a economia for útil hoje, “ela precisará modificar sua crença no mercado autorregulado”. As fortunas financeiras estão crescendo, mas “os historiadores do futuro, olhando para trás, podem muito bem identificar a globalização liderada pelas finanças como a causa raiz das tribulações do século XXI”. Não se trata apenas de crescimento, mas o que produzimos, para quem, com quais impactos ambientais. E recoloca a economia no seu lugar, apenas como parte das ciências sociais, numa abordagem sistêmica: “É pelo fato de que a economia não é uma ciência que ela precisa de outros campos de estudo – quais sejam, psicologia, sociologia, política, ética, história – para suprir as lacunas em seu método de compreensão da realidade… A tarefa é nada menos do que recuperar a economia para as humanidades” (p. 78).

Thomas Piketty teve um papel importante nessa redefinição do pensamento econômico. Analisando O Capital no Século 21, ele mostrou uma mudança fundamental nas economias atuais: a produção de bens e serviços cresce em torno de 2,5% ao ano, enquanto as aplicações financeiras rendem entre 7% e 9%, o que significa simplesmente que o sistema financeiro está drenando as atividades produtivas.

A financeirização tornou-se não apenas evidente, mas os economistas de todo o mundo voltaram sua atenção para um conjunto de transformações dela decorrente. Em seus estudos mais recentes, Piketty mostrou como isso mudou a relação entre poder econômico (e particularmente financeiro) e poder político. Com contribuições do WID (World Inequality Database) e de economistas como Gabriel Zucman, hoje podemos ter uma compreensão muito mais clara não apenas do aumento dramático da desigualdade, mas de como o dinheiro virtual (97% da liquidez hoje em dia são apenas sinais magnéticos, não dinheiro impresso pelo governo) permite uma gigantesca drenagem de riqueza.

Não se trata de “mercados”, mesmo que o chamemos assim. Trata-se de um poder radicalmente concentrado. Larry Fink, chefe da BlackRock, uma corporação de gestão de ativos, administra US$ 10 trilhões; o orçamento federal dos Estados Unidos da América é de US$ 6 trilhões. O rabo está abanando o cachorro. Compreender o dreno financeiro improdutivo da economia está levando a um amplo conjunto de estudos sobre sistemas de distribuição, tributação, financiamento de serviços públicos como saúde, educação, políticas ambientais. Em particular, ficou evidente a lacuna de governança entre os fluxos financeiros, um processo de escala global, e a regulação financeira, fragmentada entre tantos países. A evasão fiscal é escancarada, e em lugares próximos como, por exemplo, Delaware. O que ficou evidente é que atualmente não temos regulação de mercado (os gigantes corporativos mundiais gostam do nome, “mercados”, e afetam agir como se estivessem obedecendo a “eles”) nem regulação governamental (qualquer esforço de regulação em nível nacional leva a corporação a mudar seu local de residência fiscal).

O resultado geral é que estamos diante da convergência de uma catástrofe ambiental, de desigualdades explosivas (tanto a nível nacional como internacional) e de uma gestão caótica e oportunista dos recursos financeiros, que deveriam justamente estar nos ajudando a financiar os desafios ecológicos e sociais. Precisamos de uma sociedade que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justa e ambientalmente sustentável. Esse triplo resultado final está se tornando óbvio em círculos amplos e foi detalhado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas podemos organizar a economia de acordo com metas? A mudança básica deve ser a concentração em como devemos migrar da maximização do lucro em escala corporativa mundial gratuita para uma economia que seja social e ambientalmente útil, ou no mínimo menos destrutiva.

Praticamente todas as corporações afirmam aderir aos ESGs [ambiente, sociedade e governança], o que significa que estão conscientes dos desafios, mas deixam isso restrito aos seus departamentos de relações públicas e comunicações. Não é falta de entendimento, mas falha no processo de tomada de decisões corporativas. Governança é a questão central.

Mariana Mazzucato tem sido particularmente bem-sucedida na divulgação dessa nova visão da economia do mundo real, tanto em seu livro The Entrepreneurial State [O Estado Empreendedor] como em Mission Economy [Economia por Missões]. Em vez da maximização imprudente dos lucros corporativos junto com a tímida regulamentação pública, deveríamos nos concentrar nas principais questões que a humanidade enfrenta, particularmente nos dramas sociais e ambientais. Esses são os desafios, e políticas públicas, iniciativas empresariais e organizações da sociedade civil devem se unir para enfrentá-los em conjunto. O exemplo que ela usa é a missão da corrida à lua, que organizou contribuições de diferentes setores, gerando sinergia em vez de competição. Mazzucato mostra, assim, não apenas o papel fundamental do setor público na provisão de bens e serviços (o Estado como empreendedor), mas também seu papel em promover a convergência de esforços em torno de prioridades nacionais e internacionais.

J is for Junk Economics [L de Economia Lixo] de Michael Hudson apresenta, em linguagem fácil, uma descrição bem-humorada do que ele chamou de “os 22 mitos econômicos mais difundidos de nosso tempo”, como o de que os ciclos econômicos são regulados pelos estabilizadores automáticos da economia, que a privatização é mais eficiente do que a propriedade e gestão públicas, que não existe renda não auferida, que a desregulamentação do setor financeiro irá liberá-lo da burocracia e permitir que ele repasse a economia de custos para seus clientes, entre outros mitos muito presentes. “O antídoto para essa economia lixo deve explicar por que as economias tendem a se tornar mais instáveis e mais polarizadas como resultado de suas próprias dinâmicas internas (“endógenas”) – acima de tudo, dinâmicas de crédito e dívida, e a desoneração da renda econômica não auferida” (p. 267). Para cada mito, Hudson apresenta “realidade”.

Uma análise particularmente bem estruturada da mudança global na análise econômica é apresentada por Brett Christophers, em Rentier Capitalism (Capitalismo rentista, 2020), bem como em Our lives in their portfolios: why asset managers own the world (Nossas vidas nos portfólios deles: por que os gestores de ativos são donos do mundo, 2023). O argumento básico consiste no fato de que ganhar dinheiro (Big Money) resulta essencialmente de escoamentos financeiros, não de produção. Gestão de crédito e ativos financeiros, apropriação de reservas naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de serviços, taxas de licenciamento de infraestrutura, aluguel do solo – todas essas atividades têm a comum característica de obter dinheiro com produtos e capitais existentes, não com produção. Eles não estão aumentando nossa capacidade de produção, a estão drenando.

Quer se trate de fraude absoluta na análise econômica, como colocado por Galbraith, ou a mudança na forma como medimos os resultados que expõe o absurdo que é a contabilidade centrada no PIB, quer seja a análise de Skidelsky sobre como a economia perdeu sua ligação com aquilo para o que precisamos dela, a poderosa análise de Piketty sobre o significado do próprio capital, a abordagem de Mazzucato sobre o resgate da capacidade do Estado em definir missões e organizar a convergência racional de esforços, ou ainda a demonstração de Hudson de como a economia (a chamada economia ortodoxa) perdeu contato com a realidade, ou finalmente a síntese de Christophers sobre como o capitalismo produtivo migrou para o capitalismo de extração de renda financeira – a imagem geral que construo em minha mente é a de uma mudança global em como os economistas estão abordando nossas novas realidades. E eles são novos.

Gosto da abordagem direta de Robert Reich, em The System [O sistema]: “Não pode haver responsabilidade sem leis que obriguem as corporações a sacrificar alguns ganhos dos acionistas em benefício dos trabalhadores, das comunidades e da sociedade. E entenderão que as próprias leis não têm sentido se as grandes corporações continuarem a violá-las sempre que as multas resultantes forem inferiores aos benefícios derivados de sua ilegalidade. Eles verão que o atual sistema americano não é uma meritocracia onde a capacidade e o trabalho árduo são recompensados, mas uma impostura cruel dominada pela riqueza e pelo privilégio” (p. 189).
Tantos outros autores poderiam ser mencionados aqui, desde Joseph Stiglitz em New Rules for the 21st Century [Novas regras para o século 21], até Michael Sandel de The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? [A tirania do mérito: o que é feito do bem comum?], mas a questão-chave é que os contos de fadas, movidos a altos juros, a respeito dos mercados, do gotejamento para baixo ou que a busca por ganhos individuais trará naturalmente a prosperidade social estão todos sendo deixados para trás, enquanto uma nova economia do mundo real está nos dando novas ferramentas para enfrentar nossos desafios: a catástrofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro.

Americanas, do eufemismo à fraude, por Thiago Amparo

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Falta aos nossos capitalistas o devido escrutínio sobre as entranhas da corrupção privada

Thiago Amparo, Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos e discriminação.

Folha de São Paulo, 15/06/2023

“Se vocês acham que o Brasil é um negócio que vai virar EUA, vocês estão no lugar errado. O Brasil não será EUA. Porque o Brasil é o país do coitadinho, do direito sem obrigação e é o país da impunidade. Isso é cultural. Não vai mudar.” As palavras são do bilionário Beto Sicupira, em entrevista de 2014.

Corta para 2023: o trio de acionistas de referência da Americanas —Lemann, Telles e o próprio Sicupira— podem ser convocados pela CPI para explicar a maior fraude corporativa da história.

No país em que a Justiça nega habeas corpus para um homem negro torturado por mera suspeita de furtar duas caixas de bombom, é estarrecedor que tenhamos usado por meses o eufemismo de “inconsistências contábeis” para descrever a fraude, agora admitida pelas Americanas na casa dos R$ 25 bilhões. Nos anais do capitalismo brasileiro, para usar o termo da revista Piauí, o que o jornalismo quer da gente é coragem de chamar as coisas pelo que elas são: tortura, chacina e fraude, para citar três exemplos. A Folha, neste ponto, tem produzido boas matérias a respeito.

Interessante, ademais, a comparação com os EUA na fala de Sicupira: foi justamente em 2014, mesmo ano da preleção do bilionário que ilustra a miopia do capital brasileiro, que um estudo de professores de Princeton e da Northwestern concluiu, a partir da análise de 1.779 decisões políticas, que os EUA deveriam ser melhor enquadrados como uma oligarquia de interesses econômicos, não uma democracia majoritária.

Em terras brasis, somente em maio deste ano que a Receita Federal começou a divulgar as empresas com Benefícios fiscais de diversas ordens, alguns justificáveis, outros muitos não. O valor é o dobro do avaliado até o momento na fraude da varejista. Sobra discurso moralista dos nossos capitalistas, falta mesmo é escrutínio sobre as profundas entranhas da corrupção privada.

Se vocês acham que o Brasil é um negócio que vai virar EUA, vocês estão no lugar certo.

Carta Mensal – Maio 2023

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A sociedade vem vivendo momentos de grandes expectativas, embora um novo governo tenha tomado posse no primeiro dia de janeiro de 2023, percebemos que vivemos em períodos de grandes conflagrações, desequilíbrios políticos e conflitos desnecessários, que limitam a capacidade de organização e de gestão do Estado, além de dificultar a reconstrução da economia nacional, atuando diretamente nas questões urgentes e prementes para a sociedade.

Neste ambiente, percebemos inúmeros confrontos econômicos, políticos e ideológicos, onde os atritos ainda prosperam, limitando as políticas públicas e postergando um cenário mais positivo, depois de um período de forte degradações institucional, econômica e política.
O governo do presidente Lula adota como uma estratégia de governabilidade bastante arriscada, de um lado não entra em conflitos abertos com outros grupos antagônicos, evitando brigas abertas com os grupos de direita e de extrema direita, que dominaram o ambiente político no governo anterior e, ao mesmo tempo, costura avanços econômicos para ganhar musculatura e garantir apoios maciços para impor seus ideais e formas de gestão.

A estratégia passa por alavancar a economia, tão degradada neste período anterior, retomando os investimentos públicos como forma de aumentar os investimentos privados, aumentando a geração de emprego, melhorando a renda agregada, reduzindo as taxas de juros e trazendo alívio para o sistema produtivo, criando um clima mais ameno para atrair investidores externos, melhorando o cenário interno e retomando o crescimento econômico.

Neste mais de cinco meses de governo, os saldos são controversos, de um lado, percebemos que os indicadores macroeconômicos estão melhorando sensivelmente, as perspectivas de redução da inflação estão melhorando, embora os juros ainda estejam muito elevados, os níveis de desemprego estão melhorando lentamente, a moeda local está se valorizando, as Bolsas de Valores estão apresentando crescimentos robustos e os ventos externos estão muito positivos, afastando uma visão negativa do Brasil criada no governo anterior, que afastava investimentos produtivos e eram vistos como uma nação pária do sistema internacional.

O arcabouço fiscal enviado pelo governo federal para o Congresso Nacional está avançando, na Câmara dos Deputados as votações foram aprovadas e, atualmente, estão sendo discutidas no Senado Federal, gerando um clima positivo para que as questões sejam equacionadas, embora percebamos que esse novo regime fiscal exige um grande esforço do Estado para aumentar as receitas do governo Nacional para cumprir as regras definidas neste modelo, reduzindo os subsídios e aumentando a arrecadação, trazendo para o centro dos debates econômicos uma agenda tão aguardada e, ao mesmo tempo, postergada para a comunidade nacional, a Reforma Tributária.

É importante destacar ainda, nos últimos dias, um novo assunto está voltando para as discussões cotidianas, a reindustrialização da economia brasileira, um país que se desindustrializou rapidamente, perdendo espaço na indústria internacional, perdendo força na nova configuração econômica global, perdendo empregos mais qualificados e um perda de renda agregada, tudo isso, contribuiu para visualizar um empobrecimento da população nacional em detrimento de um forte crescimento do poderio econômico e financeiro de poucos grupos social, aumentando as desigualdades e fragilizando os desequilíbrios estruturais da sociedade.

O novo governo está trazendo novos ventos para os setores industriais, retomando o crescimento industrial e melhorando as condições de vida da população. No começo do século XX, os industrializantes acreditavam que a indústria traria um forte desenvolvimento econômico para o Brasil, aumentando a renda interna e transformando a estrutura nacional. Apesar da importância do setor industrial, o crescimento industrial foi central para o incremento do produto interno, aumentando as riquezas nacionais, mas ao mesmo tempo não conseguiu elevar a nação ao tão sonhado desenvolvimento econômico.

Nesta trajetória de crescimento industrial, é importante destacar que o desenvolvimento da indústria exige grandes esforços de inovação, de pesquisa científica e tecnologia, com dispêndios crescentes e constantes, afinal a indústria não é um monolito, exige alterações constantes e imediatas.

Outro assunto importante e central nas discussões no mês de maio, foi o papel da mídia comercial e corporativa, seu papel de desestabilização do governo é gigantesco, defendendo um liberalismo atrasado e ultrapassado que não existe em nenhum lugar do mundo, até mesmo os países descritos como liberais, como os Estados Unidos e Europa, abandonaram as defesas constantes de seus ideários, trazendo medidas protecionistas e intervencionistas como forma de fortalecer seu setor produtivo e se capacitar para a concorrência com os países asiáticos, principalmente a China, a Coréia de Sul e Taiwan, países que ganharam espaço e relevância na estrutura global nas últimas décadas, defendendo políticas protecionistas, maciços investimentos em educação, fortes subsídios internos e a busca crescente de novos mercados internacionais.

Neste ambiente, percebemos que o atraso da mídia corporativa e comercial está ligado aos grupos econômicos que os controlam, uma elite atrasada, subserviente e altamente dependente dos centros internacionais sediados nos Estados Unidos e na Europa, um verdadeiro colonialismo cultural, ideológico e financeiro.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Economia Solidária

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Estamos vivendo momentos de grandes apreensões, o aumento da concorrência está reformulando as estruturas econômicas e produtivas globais, exigindo movimentações crescentes, estratégias claras e visões sistêmicas para conseguir sobreviver. Nesta nova sociedade, percebemos o crescimento da tecnologia todos os dias, falamos cotidianamente na Inteligência Artificial, na robótica, na Impressão 3D, na Internet das Coisas, além da nanotecnologia, da biotecnologia, as ciências dos materiais, todas impulsionadas pela Indústria 4.0. Neste cenário, as transformações econômicas estão fomentando novos modelos de negócios, novas formas de organização social e política, estamos percebendo o fortalecimento do conceito de Economia Solidária, que podemos definir como uma forma de produção, consumo e distribuição de riquezas na sociedade, centradas na valorização do ser humano, não apenas do capital, uma verdadeira revolução numa sociedade marcada pelo imediatismo, na concorrência crescente e no imediatismo. Nesta sociedade, percebemos que a concorrência é sempre algo salutar e nos traz grandes avanços na comunidade, impulsionando novos modelos de negócios e estimulando a geração de riquezas e melhorias no bem-estar da sociedade, mas imprescindível destacar, que esta concorrência é totalmente desigual, de um lado percebemos atores altamente capitalizados e dotados de grande poder financeiro e forças políticas e, de outros, atores fragilizados e com grandes dificuldades de competição, num mercado desigual, centrado nos monopólios ou oligopolizados, centrados no imediatismo e no individualismo, gerando desigualdades crescentes e fortes degradações do meio ambiente. A ascensão da economia solidária deveria ser vista como um avanço na comunidade internacional, seu modelo de negócio coloca os seres humanos no centro das visões econômicas e produtivas, vislumbrando uma sociedade mais cooperativa, mais solidária e fortemente centradas de convivência harmoniosa, remontando os melhores valores da história das civilizações. A sociedade internacional vem passado por grandes desafios no século XXI, depois de variadas crises financeiras e alimentares, além das alterações climáticas, percebemos o incremento da pobreza e da indigência, neste cenário, percebemos um profundo questionamento do modelo produtivo convencional em curso na sociedade e das estratégias de desenvolvimento econômico, que beneficia os ricos em detrimento dos grupos mais fragilizados. Há, cada vez mais, o reconhecimento de que o modelo de negócio adotado na economia internacional não pode resolver os principais desafios do desenvolvimento contemporâneo, sendo necessário construir modelos integrados e sustentáveis em todos os níveis, incorporando nestes cenários aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais, além de reconhecer as interligações entre os mais variados aspectos da sociedade. A economia social e solidária tem como objetivo central a proteção do meio ambiente e o
fortalecimento econômico e político dos grupos sociais mais desfavorecidos e de outras pessoas e organizações que se preocupam com a justiça social e ambiental, trazendo para a sociedade instrumentos efetivos para as melhoras climáticas e de desenvolvimento sustentável. Neste ambiente, percebemos que a economia solidária deve ser vista como uma alternativa para o capitalismo contemporâneo, infelizmente centrados no imediatismo, na busca crescente dos lucros monetários e centrado no individualismo. Destacamos ainda, que a economia solidária apresenta um papel diferenciado para as pessoas comuns, mais ativos e dinâmicos nas mais variadas dimensões da vida humana: econômico, social, cultural e ambiental. Desi Top 0.26 of Creators twitter Neste novo modelo de negócio, a economia solidária existe em todos os setores da economia – produção, finanças, distribuição, câmbio, consumo e governança. Dessa forma, percebemos que a economia solidária está transformando estruturalmente a teoria econômica convencional. Economia Solidária, Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente são desafios imensos para inaugurarmos um novo momento da sociedade internacional, para isso, precisamos de valores sólidos, ousadias, lideranças e solidariedades. Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia do Setor Público, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 14/06/2023.

Junho de 2013 e a falência do sistema político, por Camila Rocha.

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Manifestantes protestavam, em sua larga maioria, por um aprofundamento de direitos previstos na Constituição

Camila Rocha, Doutora em ciência política pela USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Folha de São Paulo, 12/06/2023.

Ainda hoje, muita gente continua sem entender junho de 2013.
Na época, uma entrevista com o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, era anunciada com a seguinte manchete: “Ministro de Dilma diz que ainda não entendeu protestos pelo Brasil”.

Na entrevista, realizada no dia 18 de junho, quando teve lugar o sexto ato organizado pelo Movimento Passe Livre, Carvalho afirmava que os atos eram baseados em “novas formas de organização de mobilização que ainda não compreendemos”.

Acostumado a lidar com o que classificou como manifestações tradicionais, munidas de carros de som e lideranças claras, o ministro não conseguia entender como era possível que atos pudessem ocorrer de outra forma.

Apontou que todos no governo haviam sido pegos de surpresa e, ao procurar receber manifestantes que protestavam em Brasília, se deparou com a presença de apenas duas pessoas, uma estudante de 21 anos, que havia sido agredida por um policial, acompanhada pelo pai.

Para além da descentralização e da horizontalidade, a crescente ambiguidade ideológica dos manifestantes à medida que os protestos se alongaram no tempo dificultou ainda mais a tarefa de discernir o que se protestava afinal.

Os atos iniciados pelo Movimento Passe Livre no dia 6 de junho possuíam uma pauta bastante clara: tarifa zero no transporte público. No entanto, com o passar do tempo, demandas das mais diversas foram se avolumando nas ruas e nas redes digitais.

No dia 18, por exemplo, mesmo dia em que Carvalho concedeu sua entrevista, o grupo Anonymous Brasil divulgou nas redes sociais um vídeo intitulado “As cinco causas”.

O vídeo, que rapidamente alcançou 2 milhões de visualizações, demandava: “não à PEC 37”, “saída imediata de Renan Calheiros da presidência do Congresso Nacional”; “imediata investigação e punição de irregularidades nas obras da Copa, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal”, “por uma lei que faça da corrupção crime hediondo” e “fim do foro privilegiado para políticos”.

No dia 20 de junho, quando mais de 1 milhão de pessoas saíram às ruas em 388 cidades brasileiras, uma pesquisa de opinião pública conduzida pelo Ibope procurou mapear, afinal, o que queriam os manifestantes.

A sondagem revelou que a motivação principal de 37,6% estava relacionada ao transporte público, dentre os quais 27,8% se posicionavam a favor da redução da tarifa.

Em seguida, 29,9% dos respondentes afirmaram que estavam nas ruas por conta de demandas relacionadas ao sistema político, sobretudo contra a corrupção (24,2%).

Os demais protestavam por melhorias na saúde (12%), educação (5,3%), contra a PEC 37 (5%), contra os gastos com a Copa (4,5%) e contra a violência policial (1,3%), entre outros motivos.

Assim é possível concluir que, independentemente da coloração ideológica, os manifestantes reunidos em junho de 2013 protestavam, em sua larga maioria, por um aprofundamento de direitos previstos na Constituição de 1988.

Contudo, como aponta Dilma Rousseff no livro “Junho de 2013: A Rebelião Fantasma”, se depararam com um sistema político falido, pouco democrático e que “serve de contenção à soberania popular”.

Chutando a escada da periferia novamente, por André Roncaglia.

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É hora de o ocidente rico difundir ao plano internacional a democracia que defendem em seus países

André Roncaglia, Professor de economia da Unifesp e doutor em economia do desenvolvimento pela FEA-USP

Folha de São Paulo, 09/06/2023

Há uma nova onda no ar: reabilitar o livre comércio como a escada para o desenvolvimento compartilhado das nações. Na semana passada, a diretora-executiva do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, criticou a formação de grupos regionais de comércio, baseados em proximidade geográfica (near-shoring), em valores comuns (friend-shoring) ou em políticas que internalizem setores que antes dependiam de importações (reshoring).

Georgieva foi cuidadosa em explicitar os benefícios do comércio, mas optou por ser telegráfica ao salientar seus limites. Defendeu “acordos sobre a redução de subsídios nocivos à pesca, remoção de barreiras à doação de alimentos e ao acesso à propriedade intelectual por trás das vacinas Covid”. Segundo ela, a oportunidade virá na próxima reunião ministerial da OMC em fevereiro de 2024.

O tom cuidadoso tem, pelo menos, três razões de ser. Primeira, a atual fragmentação geopolítica e comercial, bem como o bloqueio ao acesso às vacinas foram promovidos pelos maiores quotistas do FMI: EUA e Europa. O norte global também teve protagonismo nas sanções comerciais e tecnológicas contra a China, o avanço da Otan nas vizinhanças da Rússia e as tensões no estreito de Taiwan. Segunda, como relembrou o nobelista Joseph Stiglitz, é conversa para boi dormir o compromisso do governo Biden com os valores da OMC (Organização Mundial do Comércio) a saber: concorrência justa, abertura, transparência e o estado de direito. Afinal, desde os distópicos anos de Trump, os EUA ainda não permitiram a nomeação de novos juízes para a câmara de arbitragem da OMC. Segundo reportagem da Reuters, o órgão não poderá tomar medidas contra violações das regras do comércio internacional antes do final de 2024.

O terceiro motivo é que a violação dos valores liberais está vindo exatamente dos EUA, o país que escreveu as regras do comércio internacional que delimitaram a ordem neoliberal por 40 anos.

Como salienta Stiglitz, ao adotar políticas industriais, os EUA e a Europa estão reconhecendo abertamente que estas regras envelheceram. Cui bono? Os países em desenvolvimento poderiam ter ignorado as regras de propriedade intelectual de maneira igualmente explícita, salvando dezenas de milhares de vidas durante a pandemia. Não o fizeram por que sabem como a banda toca no contexto internacional. Mas se você, leitora, não sabe, vou lhe dar uma ilustração.

O artigo de Douglas Irwin, também publicado pelo FMI, revela os “dois pesos, duas medidas” que marcam a dinâmica centro-periferia no capitalismo. Diz Irwin que o futuro da globalização está em jogo. Países ricos estão se voltando para dentro para proteger setores-chave com subsídios industriais, controles comerciais focados em punir rivais geopolíticos, em preocupações ambientais e em garantir o abastecimento doméstico e a segurança nacional.

Mas ao refletir sobre como os países emergentes podem se beneficiar desta mudança, Irwin é taxativo: “subsídios industriais em larga escala parecem ser um luxo ao qual os países ricos podem se dar. Só porque os EUA, a China e a UE podem pagar subsídios não significa que outros devam copiá-los”. Só o livre comércio pode salvá-los. Será?

Esta estratégia é antiga. Em meados do século 19, Friedrich List, economista alemão, revelou o “expediente muito comum e inteligente de quem chegou ao topo da magnitude chutar a escada pela qual subiu a fim de impedir os outros de fazerem o mesmo. Não é outro o segredo da doutrina cosmopolita de Adam Smith…”.

Neste processo de redefinição das regras do comércio global, é fundamental que os países da periferia tenham mais voz. É hora de o ocidente rico difundir ao plano internacional a democracia que defendem em seus países.

2013: levante de muitos ninguéns, por Pimenta & Flores.

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Por Alexandre Marinho Pimenta & Paulo Henrique Flores

A Terra é redonda, 08/06/2023

O legado e o significado principal de 2013 continuam em disputa.

No dia 20 de junho de 2013, logo após o anúncio de revogação do aumento da tarifa de transporte de São Paulo, pelos já então parceiros Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, uma charge de Angeli foi publicada no jornal Folha de S. Paulo. Da maneira que apenas a arte pode realizar, trata-se de uma síntese impressionante daquele momento. De um lado, três homens minúsculos, todos de terno, fazem uma pergunta: “afinal, quem vocês pensam que são?”. De outro, pessoas enormes, cujos sapatos surrados são do tamanho dos homens. Não há resposta. A grandeza diz por si só.

A charge não capta os rostos dos gigantes. Não são identificáveis. E, além de seus tamanhos desproporcionais, são muitos. Amotinados, formando uma turba. Se pudessem falar, como nos lembra Vladimir Safatle, responderiam como um manifestante a uma jornalista em 2013: “anota aí, eu sou ninguém!”.

Junho de 2013 completa dez anos. Como todo grande evento histórico, mesmo diante de inúmeros esforços de análise, Junho continua a ser, em vários aspectos, uma incógnita. Seus manifestantes, grandes esfinges. Diante das inúmeras e conflituosas interpretações que voltam a circular por conta do decênio, vê-se também que o legado e o significado principal de 2013 continuam em disputa.

A despeito de todas as minúcias históricas, não se pode negar que 2013 foi um levante popular. Uma onda de protestos surgida contra a carestia, depois em repúdio à violência policial, e alimentada pela insatisfação que se difundia junto à desaceleração econômica.

Enquanto levante popular, também não foi nenhuma jabuticaba brasileira: de certa forma, o 2013 brasileiro fecha um ciclo de lutas globais do início da década anterior. As massas em vários cantos do mundo já estavam reagindo contra os efeitos da crise de 2008 e a opressão governamental.

Esse levante de vários ninguéns, das classes dominadas em suas diversas gradações, não foi também um raio em céu azul por aqui. Em 2012 já se registrava um aumento no número de greves no país, desde as revoltas operárias nas construções de usinas hidrelétricas até a histórica greve da rede pública federal de ensino. Em 2013, as greves explodiram e, juntamente com os protestos de rua, continuaram nos anos seguintes em alto patamar.

No entanto, “Junho talvez seja a primeira grande revolta popular na história brasileira a ter sido demonizada pela esquerda —por parte dela, pelo menos” (Marcos Nobre, Folha de S. Paulo, 03.06.2023). Ora, o mais atingido com a revolta foi o governo central do país, à época do PT. E, como de 2013 para frente, o arranjo petista sofreu duros golpes e uma nova extrema-direita se apresentou no país, junto a uma profunda crise econômica e política, a defesa de 2013 enquanto um “ovo da serpente” se tornou comum nos meios desta esquerda.

Na realidade, tal tese diz mais desta dita esquerda do que de 2013. Ao acusarem a óbvia e esperada disputa e infiltração da direita ao longo do levante e seus desdobramentos, ou, ainda mais absurdo, traçarem uma linha reta entre junho de 2013 e a marcha fascista de 08 de janeiro, enquanto expressões da “anti-política”, só podem apontar, ao fim, para sua própria imagem refletida.

É, no mínimo, sintomática a acusação de que no então (e ainda) atual estado de coisas qualquer movimento anti-institucional fosse antidemocrático ou um embrião do autoritarismo. Fazer essa acusação é acusar, na verdade, sua própria posição nos acontecimentos, porque pressupõe que se afirme que o sistema institucional da República de 1988 é o de uma democracia a ser mantida e defendida.

Mas um dos problemas mais importantes que os eventos de junho de 2013 permitiu recolocar foi justamente este: a República de 1988 é uma forma política adequada para a expressão dos interesses e desejos das classes trabalhadoras ou uma República da Propriedade, antipopular e oligárquica? O fato de que a estrutura econômica capitalista neocolonial e o mesmo aparelho repressivo do Estado se mantêm desde a ditadura empresarial-militar de 1964 são índices suficientes para dar uma resposta concreta ao problema.

Acusar os eventos de 2013 de terem produzido a nova direita brasileira é, para bom entendedor, acusar o PT e seus satélites enquanto “partido da ordem”, a temer aqueles que, com sua insatisfação, naquele ciclo de lutas, não se enquadraram na teia da institucionalidade vigente.

É perfeitamente legítimo, então, entender que o verdadeiro nome desta esquerda é o de “esquerda da ordem”. Os acontecimentos demonstram que, ao se tornar “sistema”, gestor desse regime de exploração, esse campo político já não pode mais ser bandeira de nenhum levante dos ninguéns – e, como os conservadores de todos os tempos, oferecem apenas repressão e difamação em resposta.

Que se tire a prova real: afinal, onde estavam as forças da direita teológico-política nos dez anos de “calmaria” que precederam 2013? E o latifúndio? Quem afiançou as aventuras dos militares no Haiti, em que assumidamente começaram a programar sua volta à cena política? Questões incômodas, é certo, mas importantes para indicar qual foi a esquerda que de fato alimentou os embriões do fascismo.

2013 marcou, a seu modo, como não poderia deixar de ser, a longa história das rebeliões do país. Àqueles que se colocam do lado dos dominados, cabe, é claro, fazer suas críticas às organizações, forças e movimentos que atravessaram o levante, mas visando sempre o avanço daquela resistência e em nome do direito de viver dignamente para a imensa maioria.

2013 demonstrou que quando os sem nome e sem rosto se levantam, desorganizam o jogo dos homens de terno. Que eles não são tão intocáveis quanto parecem, atrás de seus caveirões e escudos da tropa de choque. Que, como diz Paulo Arantes, podemos revidar.

Porém, sem dúvida, o levante encontrou falhas e foi derrotado. Não porque se ousou lutar mesmo contra aqueles que dizem ser nossos representantes e se perturbou o frágil equilíbrio que permitia uma democracia racionada – sendo o reforço da direita uma espécie de castigo divino por tamanho pecado. Mas porque não se encontrou à época as formas de manter o levante de pé, resistindo aos ataques cada vez mais duros dos homens de terno. E, como consequência de tal fracasso, nossa vida piorou desde então, sem conseguirmos reagir à altura.

Fomos incapazes de gerar saldos políticos e organizativos daquele levante e é exatamente isso o que nos falta ainda hoje. Organização: é o que faz toda diferença em enfrentar altas e baixas, avanços e reveses comuns a toda luta. Nos faltou e ainda nos falta uma institucionalidade outra, sob outra diretriz política – que não esteja amarrada nas mil armadilhas dos aparelhos estatais e privados dos dominantes, nem na fluidez cada vez mais manipulável das redes. Eis uma questão que merece o melhor de nossos esforços teóricos e práticos. A destituição dos dominantes e a constituição autônoma do poder dos dominados impõe a resolução deste problema que 2013 abriu, mas que ainda não resolvemos.

Diferente daqueles que gostariam que 2013 nunca tivesse existido, é preciso dizer, por fim, que não há ilusão mais perigosa do que o desejo por um tempo histórico enquanto uma passagem indolor, gradativa. Esse sim é um ovo que gera muitos monstros. Os acontecimentos de 2013 traçaram, entre nós à esquerda, uma verdadeira linha de demarcação, que a ascensão do fascismo só tornou mais grave. Trabalhar na resolução dos problemas que temos, dos problemas que são nossos, tem como pressuposto analisar e entender essa demarcação. Essa é, talvez, a condição de encontrarmos o fio que nos leva para a saída do labirinto infernal em que estamos.

*Alexandre Marinho Pimenta é doutorando em educação na UnB.
*Paulo Henrique Flores é doutor em filosofia pela PUC-Rio.

Brics: Assim o Sul global desafia o Ocidente, por Pablo Bustinduy.

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Bloco aposta em aliança com o Sul e visa forjar um mundo de poderes regionais autônomos, sem a tirania do dólar, do FMI e do Pentágono. A ordem hegemônica de EUA e Europa está em xeque. Uma nova poderá ser forjada, sob outros valores?

Pablo Bustinduy, Deputado do partido Podemos por Madri, Espanha, foi porta-voz do Grupo Parlamentar Unidos Podemos na Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos Deputados.

Outras Palavras, 06/06/2023

Um sentimento de estranheza se espalha pela política euro-atlântica. Em um artigo publicado recentemente em El País, o historiador Luuk van Middelaar resumiu isso como um sinal dos tempos: a Europa e os Estados Unidos se sentem sozinhos em um mundo cada vez menos alinhado com seus interesses. É fato que vários parceiros estratégicos do bloco operam com crescente autonomia em relação às suas prioridades. Há meses esse sentimento se reflete no mapa das sanções contra a Rússia: os 45 países que as assinaram equivalem a 61% do PIB mundial, mas apenas 36% da população. A guerra na Ucrânia aprofundou ainda mais as fronteiras entre o Norte e o Sul globais. A recente viagem diplomática de Lula transformou esse distanciamento em uma ameaça potencial: uma vontade própria dos países do Sul, desvinculada de interesses atlânticos, como disposição para deslocar o eixo da resolução do conflito para fora do continente europeu.

No entanto, o que mais preocupava Van Middelaar (que não é um formador de opinião qualquer: Perry Anderson apresentou-o neste retrato ácido como um símbolo do poder político e intelectual de Bruxelas) não era essa proposta de mediação, mas um comentário informal no qual Lula se questionou por que “todos os países têm que fazer suas transações em dólares”. Ainda mais do que a ideia de uma solução para a guerra desalinhada com os tempos e a linguagem do eixo transatlântico, este questionamento do dólar como moeda global foi lido como um verdadeiro desafio. É o espírito que inspirou a construção dos BRICS – a ideia de um contrapoder ao domínio atlântico sobre a globalização, a ideia de um mundo em que os poderes regionais se organizam autonomamente – revivido no pior momento possível para esse domínio, já que se encontra sob pressão de várias frentes e carece de uma estratégia clara de médio prazo.

Em um artigo de grande lucidez, o jornalista Wolfgang Münchau explica em que consiste exatamente essa ameaça. Não é simplesmente uma questão de os países do Sul substituírem uma moeda operacional por outra; nem mesmo que avancem na construção de suas próprias instituições financeiras. Este é um processo muito mais longo e complexo que afeta as estruturas produtivas desses países, suas cadeias de valor e suprimentos e os fluxos comerciais entre eles, que devem ser reorganizados para orbitar em torno de um novo centro. E para isso, a primeira economia que deve ser profundamente transformada é a da China, que também deve desenvolver uma enorme capacidade de coordenação e gestão regional, tanto econômica quanto politicamente. Essa é a outra perspectiva dos debates sobre o reordenamento da globalização. É a visão do outro lado.

Estamos realmente caminhando para essa situação? Existem análises conflitantes sobre quais seriam as intenções da China a esse respeito. Por um lado, proliferam as tentativas de lançar uma sombra antagônica sobre a sua posição no conflito europeu: a China estaria pagando a sua aliança com a Rússia e a atitude cada vez mais agressiva dos seus parceiros, o que significa que cada aproximação a Pequim significa aumentar o risco de um confronto indireto com os Estados Unidos. Por sua vez, as ambições chinesas teriam desencadeado reações defensivas em toda a região do Pacífico, e o fortalecimento da aliança Quad (EUA, Índia, Japão, Austrália) como contrapeso regional a essas ambições. Os que apostam em Washington na estratégia aceleracionista se apoiam nesta leitura: o objetivo é deter a China antes que seja tarde demais.

Por outro lado, não há dúvida de que o salto diplomático de Xi Jinping acumulou importantes sucessos nos últimos meses. A influência da China como potência mediadora é crescente e já se estende ao Oriente Médio e à Europa, como atesta o histórico acordo entre o Irã e a Arábia Saudita e o lançamento de seu plano de paz para a Ucrânia, ignorado por Washington e pela União Europeia, mas não é assim para Zelensky. Nos últimos meses, até 19 novos países se inscreveram para ingressar no BRICS: uma lista que inclui Egito, Argélia ou Argentina, além dos governos de Riad e Teerã. Na confusão da globalização, à medida que a arquitetura de comércio e segurança que governava o mundo está enfraquecendo em vários aspectos, a perspectiva de uma aliança de potências regionais não alinhadas parece mais promissora do que o alinhamento com os mandatos do FMI e do Pentágono.

Qual é a posição da Europa em relação a esses processos? Nas últimas semanas, a política externa europeia deu origem a um verdadeiro caos. O presidente francês, Emmanuel Macron, deslocou-se a Pequim e saudou a iniciativa chinesa para a Ucrânia, numa viagem acompanhada por Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que manifestou uma posição muito diferente em nome das instituições europeias. A Alemanha, por sua vez, continua fazendo malabarismos para manter o mercado chinês aberto para suas exportações, enquanto tenta liderar o esforço de guerra europeu e a futura reconstrução da Ucrânia. Enquanto isso, a atlantista Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, ameaça tirar seu país da Rota da Seda e, ao mesmo tempo, se envolve em uma disputa diplomática com a França sobre as políticas de imigração de seu governo. O sociólogo Wolfgang Streeck leu nesta algaravia uma profunda divergência de interesses entre a França, inclinada a uma cessação das hostilidades que permita a reintegração da Rússia num espaço econômico e de segurança comum, e a posição alemã, ancorada num atlantismo que procura conter a ascensão política dos países do Leste, mas ao mesmo tempo temerosa de que Washington esteja preparando um salto para o Pacífico que acirraria ainda mais o conflito ucraniano e teria consequências gravíssimas para sua economia.

A essas diferenças internas somam-se as fissuras cada vez maiores na estratégia externa da coalizão transatlântica. A próxima cúpula do G7 nasce dividida, mais uma vez, por divergências sobre a estratégia a seguir com Moscou (desta vez é o Japão que se opõe a um bloqueio total das exportações para a Rússia). Mas também pela falta de solução para os conflitos regulatórios que o IRA trouxe: cada um se prepara por conta própria para uma grande reorganização tecnológica, industrial e comercial sem saber em que princípios assentam esses esforços nem para qual horizonte geral deveriam apontar. As gravíssimas emergências que hoje se acumulam não têm diagnóstico nem proposta conjunta de solução. A posição atlântica suspeita de um mundo dividido, cada vez mais distante de si e mais antagônico, mas sua principal fraqueza não vem de seus adversários, nem mesmo de sua falta de unidade interna: vem da ausência de uma visão geral do mundo por vir, e um projeto que ofereça segurança suficiente para poder ser compartilhado.