Confrontos abertos

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A sociedade brasileira vem passando por transformações generalizadas, com impactos sobre todos os atores sociais, gerando calafrios crescentes, desequilíbrios estruturais, instabilidades variadas e preocupações gigantescas, com impactos sobre a democracia, elevando as incertezas e os confrontos internos, aumentando as movimentações externas e os receios de intervenções internacionais. Vivemos um momento de medos e desesperanças que podem levar a ascensão de grupos políticos que pregam rupturas democráticas e retrocessos sociais, impulsionando uma guerra de todos contra todos.

Recentemente, percebemos o aumento das inverdades e das chamadas fake news, na verdade, estas inverdades sempre existiram na sociedade e, neste ambiente de eleições generalizadas, as mentiras crescem aceleradamente, as chamadas narrativas crescem como forma de evitar uma reflexão mais consistente, criando interpretações equivocadas e, com isso, acabam gerando confrontos verbais, desrespeitos físicos, aumentando a violência, as agressões e os ressentimentos, deixando claro, que vivemos numa sociedade marcada por dificuldades de reflexão, ausência de planejamento, desconhecimento histórico e a incapacidade de estratégias de desenvolvimento.

Vivemos uma sociedade onde os confrontos crescem de forma acelerada, no trânsito reina a força do mais forte, os condutores estacionam seus veículos em locais impróprios, percebemos motoristas desrespeitando a sinalização, passando no sinal vermelho, ultrapassando em locais proibidos, transeuntes desrespeitando as regras de convivência cotidiana e as brigas, o incremento de confrontos físicos que podem culminar em mortes e agressões violentas, com isso, consolidamos uma sociedade violenta, longe do chamado homem cordial, destacado pelo ilustre sociólogo Sérgio Buarque de Holanda no aclamado Raízes do Brasil.

As escolas, que deveriam ser vistas como um espaço de cidadania, do respeito e da convivência pacífica se transformaram em locais de confrontos constantes, professores e funcionários estão sendo agredidos violentamente, gerando um caldo crescente de agressividade e desrespeito, com isso, consolidamos uma nação sem educação, sem horizontes e colhemos uma nação sem horizontes tangíveis. Os professores, anteriormente eram vistos como um grupo respeitado, perderam este status social, gerando jovens que fogem da docência, repudiam as escolas, abominam o ensino superior e sonham em ser empreendedores, vislumbrando carreira de produtor de conteúdo e de influencers.

Os confrontos crescem em todas as searas, os tribunais se tornaram espaço de xingamentos, grosserias e ofensas generalizadas, onde a corrupção, o compadrio e o corporativismo crescem e a defesa “invisível” e indiscriminada dos donos do poder se tornam cada vez mais evidentes, desnudando as relações entre o capital e a justiça e, contribuindo, para a perpetuação de uma estrutura social atrasada, violenta e corrupta.

Os confrontos contemporâneos mostram uma degradação da democracia representativa, os eleitos se utilizam do poder financeiro para garantir a preservação de suas benesses, ventilando mentiras e manipulações como instrumento de proteção e, com isso, garantem a sua perpetuação nas barbas do poder, se vendendo para os donos do dinheiro, embolsando migalhas materiais e se afastando dos interesses da população.

As ofensas e os confrontos abertos nas cortes superiores servem como uma cortina de fumaça para encobrirmos a inoperância de uma sociedade que perpetua a desigualdade, a exclusão e preserva o atraso institucional, somadas a degradação social e financeira dos profissionais da educação, o incremento do feminicídio e o crescimento da violência urbana, tudo isso nos mostra, claramente, que chegamos ao limite da degradação, o próximo passo é, com certeza, a verdadeira barbárie.

Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário

Ary Ramos
Ary Ramos
Doutor em Sociologia (Unesp)

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