Os paraísos fiscais são buracos negros de concentração de riqueza, por Carol Proner.

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Advogada e doutora em direito internacional, Carol Proner fala sobre o escândalo Pandora Papers

iG Último Segundo – 06/10/2021

Sobre paraísos fiscais e o escandaloso caso dos Pandora Papers, antes de mais nada é preciso destacar a relação direta entre pobreza extrema e evasão fiscal, problema debatido por pensadores do alteromundismo desde o final dos anos 90 e mesmo antes, desde que vai se tornando explícito o funcionamento do capitalismo de acumulação extrema e sem concessões à democracia.

Os paraísos fiscais são buracos negros do capitalismo que se retroalimentam e garantem a hiperconcentração da riqueza em mãos privadas, livres do controle do Estado e de suas instituições. Se o capitalismo financeiro funciona como um cassino, os paraísos fiscais são os cofres do cassino, guardados pelo segredo que é, em si, a alma do negócio.

Há, portanto, algo axiomático, inegavelmente amoral, quando analisamos a existência desses lugares paradisíacos do mundo financeiro, diretamente proporcionais à produção da miséria em escala planetária.

E para além da amoralidade, há a propensão para a criminalidade. Ao contrário do que defendem os dealers do mercado, destacando o papel das offshores como importantes incentivos para a atração de capital, os bancos em zonas livres de regulação criam muros instransponíveis que propiciam, além da acumulação de divisas, condições ideais para o cometimento de toda a sorte de crimes transnacionais que se beneficiam do “secreto”.

A evasão fiscal é um deles, mas a rede fantasma permite o cometimento de crimes mais perversos, como o narcotráfico, o tráfico de mulheres e crianças, de órgãos e tudo o que a mente humana for capaz de fabricar como forma de gerar lucros sob o véu da invisibilidade e do anonimato.

Os paraísos fiscais se caracterizam por ao menos três ocultações: a falta de transparência, de comunicação e de fiscalização. Como consequência do acobertamento de ativos, toda uma economia paralela é construída e representa, segundo dados da OCDE-ONU, 40% dos investimentos que circulam no mundo atualmente.

Naturalmente, a preservação do sigilo dos correntistas é condição de preservação do modelo. Eis a importância do trabalho de jornalistas que, ao revelarem escândalos como o do Panamá Papers e agora do Pandora Papers, permitem à cidadania conhecer como funcionam esses superesquemas de injustiça econômica e social e quem é beneficiado.

As revelações do escândalo no Brasil trazem um elemento criminoso adicional. Não apenas indivíduos do setor privado aparecem como usuários das contas fantasma, mas também o ministro da economia e o presidente do Banco Central.

Ambos possivelmente cometeram crimes associados ao evidente conflito de interesse a partir da produção de benefícios gerados por informações privilegiadas produzidas por eles próprios.

No caso de Paulo Guedes, sabe-se que, de quando foi criada a conta em 2014 até o presente, o seu patrimônio passou de 8 milhões para 51 milhões de reais ao câmbio de hoje.

O esquema revela um grau de cinismo tão extremo quanto o é o acúmulo de riqueza pessoal em detrimento do interesse público. Trata-se do cinismo do riso triunfal que parte da certeza da impunidade e é compreensível que Paulo Guedes se sinta assim. Em um governo com instituições colapsadas e com a mídia corporativa atuando como fiadora do esquema de máxima acumulação, não apenas o Ministro estará a salvo como poderá ser condecorado pela artimanha de sentar na cadeira de operador dos próprios interesses.

O descaramento de Paulo Guedes faz lembrar outro personagem nefasto de nossa história recente, um ex-juiz, atual advogado, que em proveito próprio sentou na cadeira de Ministro da Justiça para melhorar a relação de colaboração privilegiada com seus futuros empregadores nos Estados Unidos. Aliás, poderíamos estender e recordar o papel de cada um dos ministros do governo de Jair Bolsonaro e do favorecimento de esquemas privados na saúde, no meio ambiente, no turismo, nas relações internacionais e por aí vai.

Por enquanto, diante da inação dos órgãos de controle, nos cabe – como o fez parte da imprensa e setores institucionais comprometidos como a Federação Nacional do Fisco, reunindo 32 sindicatos e 37 mil servidores públicos fiscais filiados – denunciar e reagir contra a atuação de funcionários do governo que traem os interesses do povo brasileiro.

E quando o Brasil voltar a ser um país consequente com seus próprios interesses, poderemos discutir, como fazem a França, a Alemanha, a Espanha, bem como a ONU e o Banco Mundial, os efeitos danosos da falta de fiscalização tributária causados pela evasão de divisas. E a importância de instituir impostos sobre grandes fortunas e tributação sobre dividendos como forma de fortalecer o Estado social e democrático de direito.

Carol Proner é Advogada, Doutora em Direito Internacional, Professora da UFRJ, integrante da ABJD e do Grupo Prerrogativas

É totalmente insensato dizer que falta dinheiro para dar aos pobres, diz Ricardo Paes de Barros

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Economista afirma que prioridade do Bolsa Família deveria ser dar mais para quem mais precisa, e não ampliar beneficiários

FERNANDO CANZIAN – FOLHA DE SÃO PAULO, 06/10/2021

SÃO PAULO

O Brasil gasta 25% do PIB em políticas e programas na área social, como em saúde, educação e Previdência.
Mas o principal programa de transferência de renda aos mais pobres, o Bolsa Família, custa só 0,5% do PIB —e o governo aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras para financiar sua ampliação em novembro, quando deve ser rebatizado como Auxílio Brasil.

“É totalmente insensato dizer que não existe dinheiro para transferir aos mais pobres”, afirma o especialista em programas contra pobreza e desigualdade Ricardo Paes de Barros.
“Se melhorarmos a focalização do gasto público, vai transbordar recursos para os pobres.”

Barros argumenta que neste momento talvez nem faça sentido ampliar o número de beneficiários no Bolsa Família. A
prioridade deveria ser dar mais para quem mais precisa.

O economista defende uma espécie de revolução na identificação e no acompanhamento dos mais pobres, com a utilização de uma ampla estrutura que já existe, como os dados do Cadastro Único e os centros de assistência social espalhados em praticamente todos os municípios do país.

O aumento da educação e da produtividade são considerados chave para reduzir a pobreza. Mas o histórico recente parece mostrar que mais ênfase deveria ser dada aos fundamentos macroeconômicos, sobretudo a sustentabilidade fiscal, não? Isso não ficou claro na discussão sobre como obter recursos para ampliar e reajustar o Bolsa Família?

Se for boa, o que a política social faz, a partir da otimização dos recursos disponíveis, é que os mais pobres se encaixem na economia. É como se a política social fosse um vagão que se conecta a um trem. Mas, se o trem não anda, o vagão também não.

Sem estabilidade, crescimento econômico e produtividade, não existe política social que possa fazer com que a remuneração dos trabalhadores aumente sistematicamente.

Sobre o Bolsa Família, nem acho uma boa ideia aumentar o número de beneficiários agora. O melhor seria elevar o benefício para quem mais precisa e melhorar a sua focalização.

O Brasil coleta um volume gigantesco de impostos [com carga tributária equivalente a cerca de 33% do PIB]. É totalmente insensato dizer que não existe dinheiro para transferir aos mais pobres, que recebem menos de 1% do PIB em benefícios, enquanto o gasto social total alcança 25% do PIB.

Não precisamos criar novos impostos para aumentar o Bolsa Família, mas remanejar os recursos que já temos. Se melhorarmos a focalização do gasto público, vão transbordar recursos para os pobres.

Dados da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, da ONU] mostram que o gasto público per capita entre idosos é seis vezes o correspondente ao entre crianças e adolescentes. Como você diz, há dinheiro. Mas a mais recente tentativa de fazer algum remanejamento, usando recursos do abono salarial, foi atacada pelo presidente Jair Bolsonaro ao dizer que não tiraria dinheiro “dos pobres para dar aos paupérrimos”. Pois é. Isso é como se a gente tivesse um programa de vacinação maluco, em que jovens fossem imunizados antes dos idosos. Claro que iria faltar vacina. É preciso organizar a fila. Se não quisermos fazer isso, a política social sempre vai acabar fora do controle orçamentário.

Não tirar do pobre para dar ao paupérrimo é o mesmo que dizer que não vamos adiar a vacina de quem tem 50 anos para dar a quem tem 80. Na vacinação, não foi isso o que fizemos.

Temos dinheiro para dar para os pobres? Legal. Mas primeiro precisamos dar aos paupérrimos. É um princípio básico de organização do gasto público.

Mas reduzir o número de beneficiários do Bolsa Família e aumentar o benefício para os mais pobres talvez não seja a coisa que, politicamente, dê mais votos. Pois vamos reduzir o total de beneficiários. Então é mais “legal” aumentar o número de beneficiários, mesmo que a gente acabe dando muito pouco para quem realmente precisa.

Se pegarmos apenas 1% do PIB e dermos para os 15% mais pobres do Brasil, vamos dobrar a renda deles. Eu não preciso dos 25% [total do gasto social]. Eu preciso de 1%. Se aumentarmos o Bolsa Família em R$ 10 bilhões ou R$ 15 bilhões por ano, de uma maneira organizada e evoluindo, poderíamos fazer isso.

Também acredito que o Bolsa Família precisa estar vivo. Todo programa precisa que seu desenho seja revisto e aprimorado continuamente. Senão, depois vamos ficar reclamando que o Bolsa Família está mal desenhado.

Quais mudanças seriam necessárias? Há duas pontas do Bolsa Família que precisam ser melhoradas. Uma é a focalização. É preciso levar em conta que a pobreza é muito menor hoje do que quando o programa começou [a taxa caiu de 28% da população, em 2003, para 13% neste ano, segundo a FGV Social, considerando renda domiciliar per capita mensal abaixo de R$ 261].

Se usarmos de uma maneira mais sábia os recursos que já temos, dá para ter um impacto gigante na pobreza. Mas é preciso melhorar a focalização.

Avançamos muito com o Cadastro Único [sistema nacional de informações para fins de inclusão em programas sociais] e com o Sistema Único da Assistência Social. E temos atualmente Cras [Centros de Referência de Assistência Social] em todos os lugares do Brasil. Temos 250 mil agentes sociais no território [onde estão os pobres].

Portanto, temos melhores condições de identificar essas pessoas do que tínhamos há 20 anos. Muitas vezes, a inserção de uma família é resolvida com acesso a uma creche, ou com um óculos. Precisamos identificar essas coisas.

Precisamos aproveitar essa estrutura e, na questão dos recursos, organizar a fila, dando mais dinheiro para um número menor de pessoas. É preciso dar mais para quem mais precisa. A ideia é essa mesmo: tirar do pobre para dar ao paupérrimo.

Temos condições muito melhores hoje de identificar os pobres. Ao contrário do que o governo muitas vezes diz, o pobre não tem nada de invisível. É só ir a qualquer comunidade que eles estão todos lá, e temos como identificá-los.

Dado que o Sistema Único da Assistência Social chega hoje a todas as comunidades pobres do Brasil, e que a sociedade civil quer colaborar para identificar quem são os mais pobres, temos a capilaridade e todos os controles, com conselhos de assistência social, proteção dos direitos das crianças, dos idosos.

Temos uma quantidade muito grande de conselhos em nível local. Temos que nos basear em visitas domiciliares, usar plenamente o Cadastro Único, a comunidade para validar a lista do Cras, os arquivos nacionais administrativos para validar essa escolha e os dados do IBGE para dizer quantos pobres existem naquele lugar.

Precisamos usar todo o poder do Cadastro Único em vez de fazer essa coisa ridícula que fazemos até hoje, de basear o Bolsa Família puramente na renda declarada da família.

É preciso avançar muito na melhoria da focalização. Como a gente fez com a vacina. Tínhamos pouca vacina? Começamos por quem mais precisa. É o básico.

E a outra ponta? É a saída do programa. Precisamos torná-la amigável. O cara que consegue um emprego formal, ele pode sair do Bolsa Família, mas teria de ter um retorno garantido no caso de perder esse emprego.

Isso tem de ser verdade, e a população tem de acreditar nisso, para que ela possa aceitar o emprego formal e perder o Bolsa Família. É possível ter vários mecanismos para fazer essa transição de forma mais suave.

Ele pode perder um décimo do benefício a cada mês, por exemplo. Se nesse período perder o emprego, volta para o programa normal.

Outro problema é que o benefício para a superação da pobreza é um imposto de 100%. Ou seja, para cada real que uma família consegue receber trabalhando [e estando no programa], é descontado R$ 1 [do Bolsa Família]. Se você ganhar R$ 10 a mais e declarar para o Bolsa Família, o programa vai reduzir seu benefício em R$ 10. Isso é imposto de 100%. Não é muito compatível para estimular alguém a ter uma renda maior se ele sabe que 100% do que ele receber será imediatamente taxado.

Tem maneiras clássicas de se fazer isso, como no Imposto de Renda, que tem uma “rampa”, que vai mudando de inclinação. Para quem é muito pobre, se ganhar R$ 10 a mais, podemos deixar a pessoa com R$ 8 e tirar R$ 2 do Bolsa Família. Tem que ser algo suave.

Embora haja muitos recursos, mesmo que mal aplicados, o Brasil está em meio a uma crise fiscal aguda. Alguns especialistas defendem a diminuição de benefícios tributários a empresas e setores, hoje em mais de R$ 300 bilhões ao ano, para reforço de políticas sociais. Como vê a questão fiscal e essa alternativa? O Brasil entrou numa rota meio doida em que paramos de pensar em projetos. Ficamos discutindo receita e gasto, sem olhar para o projeto em si. Cada gasto do governo brasileiro deveria ser precedido de um projeto. Na hora em que temos uma crise fiscal, em vez de sair cortando, era preciso estudar quais os projetos. De novo, é uma questão de focalização.

É preciso ver quais os projetos que têm melhor custo-benefício e manter. Acho muito difícil, mas vai que alguns desses projetos com benefícios tributários são bons.

O Brasil precisa colocar projetos na frente dos gastos. O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), por exemplo, que era uma coisa boa no passado, se tornou algo cego. Pois hoje discutimos dinheiro para a educação sem olhar para o tipo de projeto que temos para a área.

Empresas pegam dinheiro emprestado não para gastar, mas porque elas têm um projeto. O Brasil também pode pegar emprestado com as gerações futuras [por meio do endividamento público], mas desde que tenha um projeto. Agora, pegar dinheiro das gerações futuras para gastar com um auxilio emergencial que não sabemos nem direito para quem foi, não faz o menor sentido.

Não deveríamos aumentar o gasto com o Bolsa Família antes de ter um projeto. Qual é o projeto, de A a Z, do Bolsa Família?

Nosso ajuste fiscal é o de sempre botar rédea curta exatamente porque ninguém tem projeto. Quando se percebe que tem muita gente gastando dinheiro, sem saber exatamente por quê, começam a cortar as asinhas de todo mundo.

A partir do segundo governo Lula [2007-2010], houve grande aumento da oferta de vagas no ensino federal. Há hoje mais servidores ativos em universidades e institutos técnicos federais [269,7 mil] do que na máquina pública federal tradicional [208 mil]. O PT também criou o Pronatec, mas os resultados dessas iniciativas são muito controversos, não? De novo: quem vai ser contra o Brasil investir em conhecimento e educação? Certamente ninguém.

Mas não adianta dar o dinheiro e gastar de qualquer jeito.
Mesmo que se tenha uma ideia e não se faça um planejamento adequado sobre bases empíricas, é preciso ter uma estrutura de avaliação e monitoramento para ver o que dá certo. E para interromper no caso de não estar dando certo.

O ex-presidente Lula criou várias universidades federais e se orgulhava disso. Mas não estavam nada claros os motivos de isso ser uma boa ideia. Embora Lula tenha feito muitas coisas legais, não sei se essa foi uma boa ideia.

O Fies [Fundo de Financiamento Estudantil, do Ministério da Educação] foi uma boa ideia, mas não como foi feito. Todo país do mundo tem um sistema de financiamento à educação superior, mas isso tem de ser muito bem desenhado para não dar em besteira. Não adianta só dizer que vai gastar com a educação, tem de gastar bem.

No Pronatec, em vez de darmos dinheiro para quem não está ocupado fazer um curso, seria melhor dar dinheiro para quem está trabalhando. É meio absurdo que o Brasil acredite que os trabalhadores vão sobreviver no século 21 sem algum tipo de formação continuada a cada ano.

O que proponho é dar para cada trabalhador 60 ou 80 horas por ano, via um cupom, que pode ser usado desde que ele tenha um emprego.

O trabalhador combina com o empregador de usar o cupom para desenvolver a competência dele, em algo que o empregador precise e que o trabalhador tenha interesse. Não vai ser aleatório para, depois, ver qual o posto de trabalho o empregado vai encontrar.

É muito mais uma formação continuada em serviço do que uma formação inicial para o sujeito que não tem um empregador. Ele pode fazer o curso num momento de baixa na produção da empresa onde trabalha; e não na hora que o Pronatec decidir. Mesmo porque muita gente saía do Pronatec quando conseguia um emprego.

A pobreza e a desigualdade aumentaram com a pandemia e o crescimento está em xeque em 2022. Além de medidas emergenciais, o que pode ser feito? O PIB do Brasil não caiu tanto assim e nossa capacidade de arrecadação [de impostos] não é pequena. Arrecadamos uma enormidade.

Nosso problema é como descongelar os recursos. Se pudermos desindexar os gastos e passar a alocá-los de acordo com projetos claramente bem argumentados e reconhecidos como adequados, e avaliar depois esses projetos para modificá-los quando for preciso, as coisas podem andar.

Somos um país até relativamente rico e com um Estado grande. Temos todas as condições de dar jeito no que tiver pela frente. É só ver nosso programa de vacinas, que começou muito mal e agora é um dos melhores do mundo. Temos essa capacidade.

Nossa crise não é de recursos, é de má alocação. De incapacidade de remanejar recursos. De um país que já gasta 25% do PIB no social e tem de aumentar imposto para elevar o valor do Bolsa Família.

Mas sou otimista em relação ao Brasil, porque tem todo o potencial. A questão é se nossa liderança vai levar o Brasil a ser um país racional. E não irracional, quando dedicamos os melhores cérebros para tirar uma casquinha do Orçamento aqui e outra ali.

Em vez de nos concentrarmos em aumentar o PIB, fica todo mundo querendo pegar um pedaço do PIB. Esse é o desafio. Um desafio de liderança, de gerenciar de maneira racional esse país.

RAIO-X
Ricardo Paes de Barros, 66
Graduado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica, com mestrado pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada e doutorado em Economia pela Universidade de Chicago. Fez pós-doutorado na Universidade de Chicago e em Yale. Integrou o Ipea por mais de 30 anos e foi subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Negociação e soberania

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Vivemos um momento de apreensão crescente, neste instante, percebemos novas oportunidades, novas prioridades e novos desafios que podem mudar os rumos nacionais e internacionais. Neste ambiente, precisamos de sobriedade, visão estratégica e grande ousadia, sob pena de continuar e perpetuar nossas deficiências e se nos acomodarmos com a mediocridade que permeia a sociedade, naturalizando com o crescimento da fome, da exclusão social e da degradação dos indicadores negativos que crescem cotidianamente.

Na sociedade global, percebemos os confrontos entre os dois grandes atores da economia internacional, EUA X China, onde alguns analistas acreditam que rumamos para uma nova guerra fria, criando constrangimentos, preocupações e alinhamentos imediatos. Neste cenário, precisamos definir os rumos que, como país soberano e independente, devemos trilhar neste conflito que está se aproximando nos próximos anos, alterando comportamentos, adotando providências urgentes, atuação geopolítica e conscientização de todos os atores internos, sob pena de perdermos espaços no novo cenário global, marcados pela concorrência entre todos os atores nacionais e internacionais.

O mundo pós pandemia aprofundará a concorrência entre os atores econômicos, buscando solidificar suas estruturas produtivas, garantindo a capacidade de novas tecnologias e fortalecendo seus setores internos, criando espaços de desenvolvimento de tecnologias e criando instrumentos para reduzir a dependência de outras nações. A pandemia nos trouxe inúmeros legados, onde destacamos a busca crescente de autonomia tecnológica, todos os países que abriram mão de sua estrutura produtiva e de seu fortalecimento industrial tiveram fortes dificuldades para adquirir tecnologias para suprir as necessidades de suas populações. O Brasil é um exemplo claro, anteriormente éramos pioneiros em alguns desenvolvimentos científico e tecnológico, participávamos em consórcios internacionais e, atualmente, perdemos a relevância no mercado internacional, perdermos a relevância no cenário internacional e mostramos mais dependentes, mais fragilizados e mais subalternos dos interesses dos grandes atores externos.

Neste ambiente de ampla competição, os gestores públicos devem construir instrumentos para melhorar seus indicadores científicos e tecnológicos, fortalecendo as parcerias com os maiores atores internacionais e utilizando sua capacidade de negociação, buscando transferências tecnológicas e estimulando a construção de setores intensivos nacionais, valorizando os produtos nacionais e reconstruindo as indústrias nacionais. Neste ambiente, devemos negociar novos espaços internos de desenvolvimento, exigindo dos países desenvolvidos que se interessarem pelo mercado brasileiro, fortalecendo as negociações com os grandes conglomerados externos e uma forte contrapartida de tecnologias que contribuíssem para o incremento da ciência nacional, garantindo novos espaços no comércio internacional e diminuindo a dependência dos setores agroexportadores de baixo valor agregado. Os países que conseguiram alçar novos espaços de desenvolvimento econômico, anteriormente adotaram fortes investimentos na educação, na formação de capital humano e em grandes dispêndios em ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, construíram instrumentos de planejamento do Estado, garantindo proteção, compras internas, aumento da produtividade e o ganho de mercados externos, aumentando sua participação no comércio internacional e no incremento da complexidade econômica, deixando a dependência de produtos primários de baixo valor agregado e a construção de setores intensivos em tecnologia e em conhecimento.

Os embates entre as maiores economias crescem, exigindo uma diplomacia profissional, defendendo os interesses nacionais e utilizando os interesses e os desejos do mercado nacional como instrumento de construção de contrapartidas. O ambiente internacional está alterando rapidamente, desde a crise de 2008, da ascensão chinesa e da pandemia, a atuação do Estado cresce de forma acelerada. Neste ambiente, a Europa, os Estados Unidos e os países asiáticos perceberam a importância do Estado para reconstruir suas sociedades, infelizmente no Brasil insistimos em discussões ultrapassadas, desnecessárias e equivocadas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia,06/10/2021.

‘Os países crescem com instituições inclusivas’, diz Pastore

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Em livro que será lançado nesta semana, economista analisa políticas do passado e aponta o que mudar

Entrevista com Affonso Celso Pastore

Adriana Fernandes, O Estado de São Paulo – 03/10/2021

Quando completou 80 anos, Affonso Celso Pastore teve o impulso de escrever um livro para reunir as notas acumuladas ao longo de mais de 50 anos como professor, integrante de governo, consultor e analista da cena política e econômica do País. Dois anos depois, o ex-presidente do Banco Central lança nesta semana o livro Erros do passado, soluções para o futuro: a herança das políticas econômicas do século XX. Publicado pela Portfolio-Penguin, da Editora Schwarcz, com prefácio do economista Marcos Lisboa, faz uma incursão pela história para saber o que levou o Brasil a entrar numa fase de estagnação a partir dos anos 80.

Desde o final da segunda guerra até os anos 80, o Brasil teve taxas de crescimento muito fortes, 7,5% ao ano, talvez, em média. Foram 30 anos de crescimento forte. Um período de grande transformação estrutural da economia, com aumento da industrialização. O Brasil deixou de ser um País eminentemente agrícola, se urbanizou. Tinha uma renda per capita superior a da China, da Coréia, e vinha se aproximando da dos Estados Unidos. A partir dos anos 80, reduzimos enormemente o crescimento. Nos afastamos da renda per capita dos EUA e fomos superados por vários outros países. Entramos numa fase de estagnação. A motivação é simples: saber o que fizemos de errado nesse período que levou a isso. Essa é a temática e os capítulos que analisam cada um dos principais episódios com a incursão que eu fiz na história para saber onde nós erramos e o que deveríamos corrigir daqui para frente.

Por que o Brasil foi pego nessa armadilha do lento crescimento e perdeu esse dinamismo e continua errando? A raiz do problema é política?
Não tem uma causa única. É evidente que existe uma questão que é a das instituições. A teoria do desenvolvimento econômico vem evoluindo ao longo do tempo e, nos anos recentes, alguns economistas brilhantes, como Daron Acemoğlu que está no MIT, começaram a olhar as razões pelas quais há países que crescem e os que não crescem. Ele diz o seguinte: crescem os países cujas instituições econômicas e políticas permitem o crescimento. Quando são inclusivas e não são instituições extrativistas, os países crescem. Caso contrário, se perdem. É evidente que para entender que instituições falharam é necessário fazer uma análise mais profunda. Parte das instituições são as estacas do processo democrático, como é o Judiciário, o Executivo e o Legislativo, que tem checks and Balances (pesos e contrapesos), e são independentes entre si. E parte das instituições são as leis, as regras do jogo.

Como elas influenciam?
Há países que conseguem montar essas regras de tal forma a canalizar o esforço da sociedade para o crescimento. E há países que se perdem no meio do caminho e acabam gerando políticas econômicas que respondem a interesses de grupos, interesses privados, que no fundo auxiliam quem se beneficia daquele tipo de instituição. Mas não produzem o crescimento do País. Há uma interação entre os problemas econômicos e políticos. Não há dúvida nenhuma que uma boa parte da deterioração das nossas instituições foi de caráter político. Hoje, temos vários desenhos no sistema político, talvez maiores do que existiam no passado, que em grande parte são responsáveis pela incapacidade que temos de crescer.

O livro começa logo com um capítulo sobre a agricultura e o desenvolvimento econômico. Por que a agricultura brasileira é uma das mais produtivas no mundo e a nossa indústria não é?
Quando eu comecei a minha vida profissional, as pessoas achavam que a agricultura não tinha função no processo de crescimento. De fato, ao longo do processo de crescimento, a contribuição dela no PIB tende a cair. Não porque ela perde eficiência, mas porque outros setores crescem muito mais depressa. A nossa agricultura, não obstante a isso, se manteve extraordinariamente eficiente. É um setor sempre exposto à competição internacional. O que fez a grande diferença é que tivemos inovações tecnológicas e uma tradição de fazer pesquisas. Existe um papel importante da inovação tecnológica. Caso contrário, trava o crescimento. Conseguimos fazer isso na agricultura e nunca perdemos.

O segredo foi o capital humano que nas universidades e na Embrapa produziram todas as inovações.
Apesar de ser bem-sucedida, a agricultura tem sofrido atualmente muitas críticas pelo fato de o Brasil ser um dos maiores exportadores de alimentos, mas não resolveu o problema da fome que aumentou na pandemia. O que deu errado?

O Brasil não resolveu o problema da fome porque não resolvemos o problema da distribuição de renda. É claro que tivemos certas tentativas de favorecer os excluídos. O Bolsa Família foi isso, porém, existe uma população que está num nível de pobreza absoluta que não está tendo oportunidade de crescer e melhorar a sua perspectiva.

Desenvolvimento econômico não pode ser olhado no agregado, no crescimento do PIB. Tem que olhar taxas de crescimento que permitam que se vá reduzindo o grau de desigualdade. Quando a sociedade não consegue resolver o problema, num dos extremos, que é o da pobreza absoluta, aparece a fome. Mas isso não é culpa da agricultura. É culpa das políticas públicas que não conseguiram gerar incentivos eficientes para dar capacidade da renda dos mais pobres crescer mais depressa.

O livro tem um capítulo sobre a crise de petróleo da década de 10. Hoje, o mundo corre o risco de uma crise mundial de energia depois da pandemia da covid-19. É possível fazer correlações desses dois momentos históricos?
Lá atrás, estávamos saindo do regime de Bretton Woods, que era de câmbio fixo. A crise do petróleo aconteceu em 1973, quando terminou a guerra do Vietnã. Como todas as guerras, foi financiada pelos Estados Unidos com a emissão de moeda, gerando lá uma inflação que virou uma inflação mundial. Essa inflação levou a taxas de juros baixas no mundo, que gerou oportunidade do Geisel endividar o Brasil. O que levou à crise da dívida externa. Hoje, temos uma crise energética no mundo diferente daquela. Não é mais a Opep que está fazendo a crise. Na Europa, tem a Rússia, fornecedor de gás, que resolveu subir o preço e criou uma crise energética na Europa. Está tendo falta de gasolina no Reino Unido. Tem uma subida de preço de petróleo provocada em parte por problemas geopolíticos como esses. Não é mais o EUA gerando um aumento na oferta mundial, o que induziu a OPEP a subir o preço e gerar a crise do petróleo. São outros problemas, mas o efeito é de subida de preço. O mundo aprendeu a se financiar melhor e não vai ter uma crise como aquela. Mas a economia mundial tende a se desacelerar com esse efeito que estamos vendo no mercado de energia hoje. Desacelera a Europa, os Estados Unidos, a China e desacelera o Brasil.

Em um dos mais importantes capítulos, o sr. analisa o episódio da crise da dívida externa, momento histórico no qual participou. O livro traz uma revisão desse período?
Quando estava na presidência do Banco Central, eu fazia parte do governo do Figueiredo (79 a 85), o último governo do ciclo militar do Brasil. Evidentemente, tudo que esse governo fizesse era criticado. Isso é natural. Eu tenho muitos amigos hoje e eram amigos antes que foram extremamente críticos com relação à forma como conduzimos a negociação da dívida naquele período. Existe uma frase do George Orwell que diz que a história é sempre contada pelos vencedores. Felizmente os vencedores daquele período foram os caras que estavam a favor das eleições livres.

Aí, eu aplaudo. Mas eles contaram a história sobre a crise da dívida que era politicamente interessante naquele momento . O que eu mostro é que não havia fórmula de fazer a negociação a não ser como ela foi feita. Em 1980, a dívida externa em dólares estava em 60% do PIB. Quando eu entrei no BC, em 1983, o nível de reserva de caixa do Brasil estava em menos de US$ 2 bilhões. Não tinha reservas. O Brasil teve que parar de pagar a dívida. Teve que ser publicada uma resolução no BC que centralizava o câmbio.

Essa parada brusca produziu uma recessão profunda?
Eu sou presidente do comitê de datação de ciclos econômicos da FGV. Datamos o início daquele ciclo no começo dessa crise da dívida. Foi a maior queda da renda per capita que aconteceu, uma redução de 12%. Uma recessão extremamente longa. Tudo parou. Se tem um sujeito que parou de respirar, você vai fazer respiração artificial, massagem cardíaca, vai botar oxigênio. Não adianta dar remédio para dor de cabeça. A prioridade era renegociar e obter dinheiro novo para ter recursos para fazer a economia voltar a funcionar. Naquele período não tinha mercado de títulos, bonds, os empréstimos estavam todos na carteira dos países. Foi uma crise que atingiu os países, mas foi uma crise bancária sistêmica em nível internacional. Tinha que navegar nesse ambiente hostil com extrema cautela.

Uma das condições era produzir receitas de divisas, tinha que produzir uma forte depreciação do câmbio real. Só a economia estava indexada e não tinha âncora porque o BC não tinha capacidade de operar a taxa de juros. Quem operava isso era o Conselho Monetário. Eu mostro que isso gerava uma inflação totalmente descontrolada que só foi dominado muito lá na frente com o Plano Real. Num dos capítulos, eu discuto primeiro o erro do Geisel de tentar uma reedição do processo de substituição de importação com dívida externa. E como isso levou à crise da dívida e como essa crise, somada a toda fragilidade institucional que tínhamos no campo monetário, levaram à hiperinflação dos anos 80.

O livro fala do eterno problema fiscal brasileiro que ainda não está resolvido.
O Brasil tem um problema que vem desde a Constituição de 1988, que criou uma série de direitos com despesas públicas, que até termos o teto de gasto, cresciam a 6% em termos reais ao ano. Acontece que não tem crescimento de PIB de 6% no Brasil. O nosso crescimento potencial é 2%, 2% e pouco. Se a despesa cresce a 6% e a receita a 2%, a dívida pública não vai parar de crescer e fica insustentável. Tem que fazer uma reforma fiscal que permitisse resolver. Tentou aqui e de lá. Esse problema foi jogado para frente durante o governo Fernando Henrique porque ele gerou um aumento de imposto contínuo que fez com que a receita crescesse junto com o aumento da despesa. Era o período do tripé, quando havia um aumento de carga tributária que gerava superávit primário grande para evitar o crescimento da dívida. Só que aumento de carga tem custo econômico, retarda o crescimento e gera um custo de bem-estar para a população.

Em 2016, o governo criou o teto de gastos. Mudou algo nesse cenário?
Em todos os processos de controle de gastos, o custo de recessão e queda do PIB é muito menor do que via aumento do imposto. Todos os experimentos que fizeram austeridade por controle de gastos terminaram com uma relação dívida PIB menor. Em princípio, foi a opção correta, não necessariamente o teto, o controle de gastos. O Brasil tem que controlar gastos e nós tivemos algum sucesso na reforma da Previdência. Não posso dizer que ficamos parados, mas não conseguimos ir adiante nisso. Nunca conseguimos fazer uma reforma administrativa.

No final do capítulo, o sr. analisa o impacto político sobre as contas públicas. Como é isso?
Com o fracionamento partidário que o Brasil teve nos últimos anos é praticamente impossível ter um presidencialismo de coalizão que permite no fundo atacar os problemas fundamentais do Brasil, Fica preso a uma luta de partidos, que são muito heterogêneos, e linhas diferentes em cada partido que pioram extraordinariamente a qualidade da política econômica. Para atender os objetivos dos partidos, não têm capacidade de atender o objetivo da sociedade como um todo.

O impasse que o País vive para abrir espaço no Orçamento para um programa social mais robusto é decorrente desse problema político?
Essa é uma das dimensões do problema que estou falando. Em primeiro lugar, temos um governo muito fraco. Ele não tem um programa consistente e é fraco no apoio político. E temos um Congresso que depende do Centrão, que não é um grande partido de centro, mas um grande conglomerado de partidos fisiológicos que no fundo estão olhando uma forma de minimizar danos aos seus grupos eleitorais. Essa combinação é extremamente negativa do ponto de vista da eficácia da política econômica.

Em mais de 50 anos como economista, o sr. viveu boa parte da história política recente. qual o maior erro?
Não pode dizer um erro. Foram muitos erros. Fica mais fácil listar os acertos. O primeiro ano do governo Fernando Henrique conseguiu reformas importantes e corrigiu o erro da fragilidade institucional brasileira, do BC, do domínio da inflação. Isso tudo foi corrigido no primeiro ano. Isso e mais as privatizações foram uma marca profunda. Mudou o curso do Brasil. Mas ele cometeu dois erros muito ruins. Ele criou o financiamento empresarial de campanha e a reeleição. Não resistiu ao sucesso do primeiro mandato e foi para a reeleição e ali começou o presidencialismo de coalizão a entrar em colapso.

Qual o maior erro que o sr. vê agora?
O Brasil está em frangalhos porque o Bolsonaro está em campanha eleitoral 100% do tempo. Esse governo deveria começar a governar, o que acho que não começou até agora. Está em campanha.

Olhando os erros do passado, dá para consertar o futuro, como agora depois da pandemia da covid-19? Dá para fazer mudanças com o olho no retrovisor?
Não estou dizendo que as soluções que resolveram o passado são as que resolvem agora. Não se pode pegar diagnósticos de lá (do passado) e aplicar aqui. É preciso deixar claro que a teoria econômica não é a física. Ela não tem uma resposta imutável para qualquer tipo de problema. Depende do contexto histórico no qual se está. Tanto que eu digo no livro que não se pode nunca parar de estudar economia porque ela é uma ciência em contínua evolução.

Os economistas hoje em dia dão um peso muito grande aos modelos matemáticos. Só que eles esquecem a história.

Esse é o caminho do novo livro?
Eu sou um sujeito mais velho e quando abrir o livro vai ver que as lições da história são muito importantes.

Aprende-se como as pessoas interagem, os grupos de pressão e o governo, e que tipo de solução foi encontrada. A história é um receptáculo de experiência, algumas válidas positivamente e outras negativamente, mas todas muito válidas que ajudam a fazer escolhas no presente. Revisitar o passado nos faz conhecer porque se fez a bobagem que levou ao problema. Reconhecer onde está o problema é o primeiro passo para tentar resolvê-lo. É um tipo de exercício que caiu em desuso. As pessoas hoje olham menos para isso tudo. Mas é preciso ter um pouco de humildade para tentar ir buscar na história um pouco mais de informação para como resolver os problemas. Eu me propus a fazer um exercício como esse.

Qual foi o gatilho para começar a escrever o livro? A situação atual do País

O gatilho foi o seguinte. Fiz 80 anos e os meus amigos resolveram me homenagear daqui e dali e eu falei que ainda estou ativo. Tenho uma história vivida, tanto na academia, na pesquisa, como dentro do governo, e ao longo do tempo fui acumulando muitas notas em cima de tudo isso. Num fim de ano, eu estava na casa da minha enteada em Bolonha, na Itália, e comecei a juntar isso e disse ‘eu tenho a impressão que tenho um livro’. Em dois anos, ele acabou saindo.
São reflexões. Tem muita experiência e análise e que, no fundo estão escondidas em notas que valia a pena trazer a público para discussão

Robótica na reorganização da desigualdade global, por Márcio Pochmann.

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Márcio Pochmann – Carta Maior, 29/09/2021

As consequências da pandemia da Covid-19 para a economia global seguem ainda sem ser plenamente conhecidas, especialmente em relação à considerável inflexão transcorrida no curso das cadeias globais de valor impulsionado por grandes corporações transnacionais. Pela recente recuperação do nível de atividade econômica, percebe-se a persistência do projeto de automação e demanda crescente no uso de robôs estimulada através da reestruturação produtiva desde o final do século passado.

Somente no ano de 2020, por exemplo, mais de 12 milhões de unidades robóticas estavam em operação em todo o mundo. Nos mais diversos setores de atividade econômica, a automação e a robótica avançam (automóveis autônomos, auto-cozimento, manutenção domiciliar, segurança e robôs de vigilância etc).

Nesse sentido, o salto das inovações tecnológicas que se explicita pelo processo de automação conectado com a robótica colaborativa, a inteligência artificial, a impressão em 3 D, a internet das coisas, da big data e outros. Através da automação, os usuários dispõe de processos robóticos que podem operar ininterruptamente, mais rápido, confiável e de precisão.

Denominada por manufatura avançada (indústria 4.0), a reorganização global da produção ganhou força associada à definição de fábricas inteligentes, com máquinas cada vez mais integradas por circuitos e sensores que avançam na autonomização, com a aprendizagem, armazenamento e descentralização da gestão. De acordo com os dados da Federação Internacional de Robótica, o estoque de robôs operando atualmente na produção industrial se situa no patamar mais alto da história.

Ainda que em 2020 houvesse a desaceleração para 12% de expansão nas vendas de robôs, especialmente motivada pelas indústrias automotiva e eletroeletrônica, o acumulado na segunda metade da década passada foi de quase 85% no mundo. Pelo surto da pandemia da coronavírus, muitos hospitais passaram a implantar robôs para melhor ajudar no enfrentamento da COVID-19.

Além de países como Itália, Índia, Tunísia, Estados Unidos, a China se destacou pela adoção da robótica na saúde. Também em outros segmentos do terciário, como serviços de limpeza, entregas variadas, educação, entretenimentos, armazenamento e distribuição, entre outras, avançaram na utilização de várias tecnologias assentadas na robotização.

Em função da expansão da demanda mundial, os investimentos no domínio da robótica se diversificam, embora cada vez mais concentrados em poucos países. No ano passado, por exemplo, o mercado global de robótica atingiu o valor de R$ 76,6 bilhões, sendo projetado o crescimento médio anual ao redor de 18%, podendo alcançar a quantia de R$ 177 bilhões até 2025.

Apesar disso, o Brasil tem conseguido avançar muito pouco em relação à automação e robótica, sobretudo na produção industrial. No ano de 2019, por exemplo, o país detinha 15,3 mil robôs industriais em operação, o que equivaleu a 0,6% do total de robôs industriais do mundo, enquanto em 2003 eram 2,1 mil robôs na produção manufatureira, representando apenas 0,3% do total de robôs no mundo.

Para o mesmo período de tempo, a China passou de 3,6 mil robôs industriais em operação no ano de 2003 (0,4% do total do mundo) para 783 mil robôs em 2019 (29% dos robôs do mundo). Enquanto a Cingapura possuía 918 robôs por 10 mil ocupados na produção industrial no ano de 2019, o Brasil registrou apenas possui 20,1 robôs por 10 mil ocupados na produção manufatureira.

Dentro dessa perspectiva, constata-se o quanto o avanço nos processos de automação e robótica termina por confirmar e reproduzir um conjunto de elementos já conhecidos pela denominação do desenvolvimento desigual e combinado. A desigualdade que se fundamenta no distanciamento tecnológico aprofunda a dependência a reforçar o próprio subdesenvolvimento.

Isso porque atualmente somente cinco países (Alemanha, China, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul) concentram cerca 87% dos mais de 2,7 milhões de robôs em operação na produção industrial do mundo, enquanto em 2008, por exemplo, os mesmos países respondiam por menos de 73% do total de 1 milhão de robôs em funcionamento. A persistência da agenda neoliberal não altera o curso da desigualdade, muito menos a dependência e o subdesenvolvimento, reafirmado pela autonomização dos mercados.

Marcio Pochmann é professor e pesquisador do Cesit/Unicamp e da Ufabc

Qual indústria vai sobreviver no Brasil? por Mendonça de Barros e Gomes de Oliveira.

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O centro de uma nova fase na indústria deve ser focado na inovação, no desenvolvimento tecnológico, na produtividade e na internacionalização

José Roberto Mendonça de Barros e João Fernando Gomes de Oliveira*

O Estado de S. Paulo – 02/10/2021

É fartamente conhecido que a proteção excessiva não conseguiu construir uma indústria competitiva no Brasil. Pelo contrário, fomos ficando isolados do mundo, obrigados a usar bens de produção ultrapassados e matérias-primas caras ou de difícil acesso, enquanto a manufatura global seguiu avançando em alta velocidade. A agenda de proteção não só isolou os “protegidos”, mas também atrapalhou aqueles que dependiam de mais internacionalização.

Mas há uma outra resposta para o desafio de se desenvolver a indústria no Brasil. Ela envolve elementos de competitividade que sejam capazes de suplantar as dificuldades do ambiente de negócios. Temos estudado esse universo, avaliando casos de indústrias de sucesso no Brasil. Trata-se de um caminho inverso ao clássico. Em vez de apenas analisar profundamente os problemas do ambiente de negócio, podemos estudar quais elementos do sucesso industrial permitem ganhos de competitividade que nos posicionem no patamar internacional.

Esse exercício tem sido realizado em reuniões e discussões com especialistas e executivos dessas empresas bem-sucedidas, que não são poucas. Observamos três pilares comuns em praticamente todos os casos de sucesso: 1) Intensa agenda de desenvolvimento tecnológico e produtividade; 2) Forte inserção internacional e 3) Sólida estrutura de capital. Tem sido interessante observar que os casos estudados justificam seu sucesso por esses três aspectos e não por qualquer tipo de proteção que lhes tenham beneficiado.

Vamos então entender melhor cada um deles: a agenda de desenvolvimento tecnológico e o conceito de produtividade são prioritários e bastante amplos nas indústrias bem-sucedidas no Brasil. Produtividade deve ser um conceito entendido de maneira estendida, pois seus resultados são influenciados a partir da conceituação do produto industrial, tanto pela sua capacidade de criar valor no mercado, quanto pela eficiência de sua rota de produção, de seus processos industriais, da logística, de sua facilidade de manutenção e de sua sustentabilidade ou aspectos do fim de vida, como a remanufatura, reúso ou reciclagem. Para se obter essa produtividade ampla, as indústrias bem sucedidas priorizam esforços consistentes e persistentes no desenvolvimento tecnológico em todos os aspectos listados, levando a ganhos contínuos e sólidos de produtividade.

Observa-se também que o sucesso inclui o aproveitamento de vantagens comparativas brasileiras, combinadas com avanço downstream nas cadeias de valor. São exemplos os recentes desenvolvimentos do uso de Nióbio em baterias automotivas pela CBMM, dos novos materiais no setor de árvores plantadas (IBA), os movimentos downstream industrial do agro (como a Companhia Lilla) e outros inúmeros exemplos onde o Brasil oferece diferencial competitivo construído (como a Aeris). As indústrias brasileiras de sucesso, sem exceção, desenvolvem visão de longo prazo, portfólios de produtos, road mapping tecnológico, ou seja, dedicam-se a um caminho contínuo e obsessivo para encontrar saídas inovadoras, frente aos nossos desafios e oportunidades.

Parece óbvio que só é possível desenvolver essa produtividade lato sensu com uma agenda de desenvolvimento de padrão mundial. Nesse ponto, observamos que a conexão com as melhores práticas do mundo, ou a internacionalização do negócio, é elemento essencial e presente em praticamente todas as empresas bem-sucedidas. Aqui, internacionalizar não significa apenas exportar, mas explorar as melhores oportunidades que o mundo globalizado pode oferecer em benefício da nossa indústria e pode incluir: investimentos diretos no exterior, ganhos com novos mercados, colaboração com os melhores parceiros para projetos de desenvolvimento industrial ou de P&D e ainda a ligação com as cadeias internacionais de suprimentos, via contratos de tecnologia ou investimentos no exterior, criando-se a capacidade de utilizar os melhores insumos e sistemas de produção.

Dessa forma, as agendas de produtividade e internacionalização claramente não combinam com a pauta protecionista ou o isolamento de nossa indústria. Hoje, temos muitos exemplos de que o protecionismo gerou produtos industriais ultrapassados, caros e de baixa qualidade. Isso é mais grave ainda quando a pauta protecionista atinge os materiais básicos, como o aço, por exemplo. O Brasil manteve um sistema de proteção da indústria siderúrgica nacional, cujo resultado foi a manutenção de preços internos acima do mercado internacional em cerca de 20%. Para indústria de manufatura metalomecânica isso tem sido fatal, uma vez que nesse universo industrial o valor da matéria-prima chega a contar cerca de 50% do preço do produto acabado. Hoje, podemos afirmar que proteção do aço foi um dos componentes mais importantes para o desmantelamento do setor de manufatura metalomecânica no Brasil.

É importante destacar que setores beneficiados por uma pauta de internacionalização não são apenas os que têm potencial de exportar. Há de se considerar os setores industriais que dão suporte à crescente produção de commodities que fortalecem a pauta de exportação do Brasil. Por exemplo, o crescente sucesso do agronegócio brasileiro depende de insumos industriais para o plantio, colheita e processamento/transporte das safras. Em trabalho que um dos autores realizou para o IEDI, em 2018, mostrou-se que 30% dos produtos considerados na pesquisa industrial do IBGE têm relação direta com o setor. E isso não considera o uso pela agropecuária de produtos para construção civil, caminhões, reboques e carrocerias e equipamentos de informática e produtos eletrônicos. A competição nesse setor é global e intensiva de tecnologia e, portanto, uma empresa brasileira só deverá ter sucesso com os melhores padrões de produtividade e qualidade, mesmo que venda prioritariamente no mercado interno.

Por fim, uma boa estrutura de capital, facilitada nos últimos anos pelo desenvolvimento dos mercados de capitais, sem detrimento das fontes tradicionais, tem sido um aspecto relevante nos negócios industriais bem-sucedidos. O mercado de capitais vai continuar ampliando sua importância no financiamento das empresas, via aberturas e aumentos de capital e a colocação de instrumentos de crédito junto ao mercado, como debêntures e outros certificados.

Poderemos ter, pela primeira vez, crédito relativamente barato para todos e não apenas para os amigos do rei.

Esse fenômeno vai exigir um importante ajuste na estrutura de capital das empresas e na sua governança. Quem avançar nestas áreas obterá posição competitiva, como já estamos vendo durante a pandemia. O real deixa de ser uma moeda atraente para arbitragem (“carry”), resultando num menor fluxo de dinheiro quente. Deverá se manter mais desvalorizado, também pela crise fiscal e outras incertezas, como vem ocorrendo.

A união de todos esses elementos em mercados onde temos vantagens comparativas tem gerado ganhos capazes de se sobrepor aos riscos inerentes ao nosso ambiente de negócios. É isso que temos observado nos inúmeros casos que estudamos. Parece-nos que o “custo Brasil” vai demorar para ser resolvido e mesmo que seja mais rapidamente, não se exclui essa pauta de busca por uma competitividade global.

O centro de uma nova fase na indústria deve ser focado na inovação, no desenvolvimento tecnológico, na produtividade e na internacionalização. Tudo com base em uma sólida estrutura de capital. Além disso há de se explorar mais a criação de valor a partir dos recursos naturais, onde temos óbvias vantagens. Temos inúmeros nichos valiosos que contemplam simultaneamente nossas vantagens comparativas com a sustentabilidade lato sensu, o que pode ser uma marca forte para uma indústria de sucesso no Brasil. O caminho é desafiador, mas possível.

*MENDONÇA DE BARROS É ECONOMISTA É SÓCIO DA MB ASSOCIADOS; GOMES DE OLIVEIRA É PROFESSOR DE MANUFATURA DA ESCOLA DE ENGENHARIA DA USP DE SÃO CARLOS

Tempestade de terra em Franca me fez ter vergonha de ser do interior paulista, por Reinaldo J. Lopes.

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Só uma degradação ambiental indescritível seria capaz de produzir um haboob nesta terra antes verdejante e aprazível

Reinaldo José Lopes Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”.
Folha de São Paulo, 02/10/2021

Eu realmente gostaria de evitar que esta coluna se transformasse num espaço monotemático de autoflagelação, choro e ranger de dentes, mas o mundo real não deixa.

As imagens aterradoras (e bota “terra” nisso; me desculpem pelo trocadilho infame e amargo) da tempestade de poeira engolindo Franca (SP) na semana passada me fizeram ter vergonha de ter nascido e crescido no interior paulista.

Trata-se de uma emoção inaudita, ao menos no meu caso. Passei uma década e meia na capital, mas fiz questão de voltar para cá assim que pude. Quis criar meus filhos em solo caipira. E sempre estufei o peito, cheio de orgulho, ao dizer que era do interior de São Paulo.

É da natureza humana amar o que os poetastros chamavam de “torrão materno”, mas eu costumava achar que meu amor por este chão era bastante justificável.

Eu amava o fato de termos construído uma semelhança de sociedade do conhecimento nesta terra roxa, com algumas das maiores universidades do Brasil e da América Latina plantadas aqui (e duas delas só na minha cidade natal!): UFSCar, USP, Unicamp, Unesp.

Amava a capacidade de transformar esse conhecimento em crescimento econômico: a força das indústrias, nosso papel na criação de combustíveis renováveis made in Brazil, os avanços agropecuários trazidos pela Embrapa.

Ainda amo o R retroflexo que a gente emite entre vogais e consoantes, o fato de que cidades com 200 mil ou 300 mil habitantes ainda têm a cordialidade e o calor humano de comunidades muito menores.

Mas o vento que despejou em cima de Franca o que restava do solo fértil dos arredores mostrou, sem disfarces, o que eu já andava intuindo há algum tempo. Nós, caipiras, gastamos o nosso cheque especial ecossistêmico como se não houvesse amanhã –e está chegando a hora de pagar os juros. Spoiler: se não criarmos vergonha na cara, e rápido, vamos ter de penhorar até as calças.

Quando os ventos arrancaram as escamas dos nossos olhos, algumas coisas ficaram claras.

Ficou patente que a pujança do nosso agronegócio não passa de ganância e insensatez; que a água farta que rega nossos jardins e enche nossas piscinas é pura esbanjamento. A imprevidência com que tratamos as bases mesmas daquilo que nos garante o que beber e o que comer deveria ser capaz de fazer corar até uma nação de selvagens, mas isso nem nos passa pela cabeça.

“Crianças, vocês vivem em um deserto. Vou lhes contar como foram deserdadas”, diz a voz profética do historiador Warren Dean (1932-1994) em seu clássico “A Ferro e Fogo”, em que documenta a saga da destruição da mata atlântica.

O interior de São Paulo teve e continua tentando um papel inglório nesse processo, e essa frase, como propõe Dean, deveria ser a primeira a sair da boca dos professores na primeira aula de história das escolas deste estado.

“Deserto”, aliás, é tecnicamente o termo exato. Na precisa reportagem do colega Phillippe Watanabe sobre a nuvem, descobridor que se trata de um haboob (em árabe, algo como “rajada”). É algo comum… no Saara e no Sudão. Ou seja, só uma degradação ambiental indescritível seria capaz de produzir isso nesta terra antes verdejante e aprazível.

Seria engraçado, se não fosse enfurecedor, ler algumas justificativas para esse absurdo. Um representante dos produtores de cana disse à BBC Brasil que “o setor tem os melhores especialistas, os melhores consultores em solo” e que “foi uma coisa acima do normal”.

Outro spoiler: os anos “acima do normal” estão se tornando a regra. Chama-se crise do clima. Precisamos das florestas de volta.

Rumores externos

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A sociedade internacional vem passando por grandes transformações e incertezas em todas as cadeias produtivas, com impactos nos preços e pressões inflacionárias, impactando sobre o consumo, sobre os investimentos, sobre os empregos e as perspectivas de recuperação econômica, aumentando as instabilidades e as preocupações, gerando problemas sociais, quebras econômicas e degradação política.

Para piorar este cenário, a economia internacional acordou sobre as perspectivas da falência de um dos grandes conglomerados imobiliários da China, Evergrande, cujo potencial pode ser gigantesco, com impactos sobre a economia, a demanda global de produtos importados e desestruturação do sistema financeiro, com desemprego, queda na renda e a dificuldade de recuperar os indicadores econômicos, tão degradados em momentos de pandemia.

O mercado imobiliário na China é gigantesco, nos últimos dez anos mais de 130 milhões de pessoas saíram do campo para viver nas cidades, sendo construídos mais de 70 milhões de apartamentos, apenas para absorver esta demanda de uma economia que cresce de forma acelerada. Com este crescimento, o setor se alavancou rapidamente, gerando bolhas de créditos que levaram o governo a costurar novas regulações e impactaram sobre as compras, diminuíram o crescimento econômico, reduzindo lucros e estimularam as dificuldades atuais.

Os dados sobre a empresa chinesa são assustadores, emprega mais de 200 mil funcionários, o endividamento da empresa chegou a mais de US$ 300 bilhões, sendo que mais de 100 bancos emprestaram a empresa e correm o risco de prejuízos altíssimos, gerando preocupações e descontentamentos. Apesar destes dados, não devemos esperar uma crise financeira como a do mercado imobiliário norte-americano em 2008. Desde o começo do ano as ações da Evergrande caíram mais de 80% e a empresa está tentando queimar estoques para pagar juros dos títulos que estão vencendo.

Embora alguns analistas acreditem que a crise da empresa chinesa pode impactar sobre o sistema internacional, é importante destacar que o sistema financeiro chinês não é integrado ao resto do mundo e as autoridades possuem instrumentos para garantir a liquidez do sistema, não importando o tamanho do buraco. Devemos destacar ainda, que mais de 80% do endividamento da empresa é em moeda local e os grandes credores são bancos públicos.

Países como o Brasil podem sentir a crise na queda das exportações para o mercado chinês, cuja demanda por commodities podem reduzir e impactar sobre o setor produtivo, principalmente pelos setores ligados ao minério de ferro e, em menor escala sobre os produtos do agronegócio, mas os riscos não devem ser descartados e nem desprezados.

Alguns analistas acreditam que a China caminha para a fragilização do modelo implementado no começo dos anos 80, outros teóricos acreditam que a crise do mercado imobiliário era esperada e deve reestruturar alguns modelos de negócios e o combate dos monopólios devem ser aperfeiçoado, pois a concentração de poder impacta negativamente para a coletividade, nesta visão, a crise da Evergrande deve ser vista como uma forma de repensar a atuação do Estado, como estamos vendo em países desenvolvidos, com maior intervencionismo governamental e maior regulação.

Neste ambiente de crises crescentes que caracterizam o mundo, marcados pelas incertezas e instabilidades geradas pela pandemia, as dificuldades das cadeias produtivas com aumento nos custos e do incremento da concorrência em escala global, faz-se necessário, construir espaços de atuação conjunta com todos os atores do desenvolvimento econômico. Deixando de lado os crescentes conflitos e confrontos desnecessários que limitam a confiança, a melhora do ambiente dos investimentos, a geração de emprego e a melhoria do bem-estar da sociedade.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 29/09/2021.

Crise na China evidencia risco de manter “crescimento fictício”

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Por Marcelo Ninio – 25/09/2021

Para levar adiante seu plano de frear a oferta de crédito fácil, é preciso aceitar uma queda significativa nos números do PIB, abrindo mão do “crescimento fictício”. Mas essa é uma ação que esbarra em grande resistência política, afirma Pettis, que há anos alerta para os riscos do excesso de endividamento para a economia chinesa.

Como a situação chegou a esse ponto?
Por muito tempo as incorporadoras cresceram rápido demais. Seu sucesso era puxado por três fatores: alto endividamento, muita liquidez e grandes lucros brutos. O problema é que nos últimos anos a liquidez desacelerou, chegando a ser negativa em agosto. O governo passou a ficar tão preocupado com o volume de endividamento no setor imobiliário que começou a impor limites. Não é a primeira vez que isso acontece. Há anos o governo fala em tomar medidas. Mas toda vez que tentava frear o crescimento das incorporadoras havia recuos, porque isso afeta a economia, reduz o preço dos imóveis e desacelera o setor imobiliário, que tem enorme importância na economia chinesa. Eles representam 25% do PIB e empregam milhões de pessoas, direta e indiretamente. Só a Evergrande tem 200 mil funcionários. Por isso é muito difícil exercer controle. Não há uma saída fácil. A Evergrande significa um grande dilema para os reguladores. Se querem eliminar a cultura da dívida é melhor não intervir. Mas sem uma intervenção há o risco de os problemas se alastrarem rapidamente e afetarem a população. Quanto maior a intervenção mais difícil será solucionar o problema. Acho que os reguladores se surpreenderam com a rapidez com que a economia ficou sob risco e estão ansiosos para aplicar uma solução que ponha um fim nisso.

Se uma intervenção parece inevitável, porque o governo ainda não se pronunciou?
É muito complicado. Se o governo faz um anúncio é para cessar o pânico. Isso significa que é preciso pensar em todos os componentes. O que fazer com as pessoas que investiram em ativos da Evergrande? O que fazer com os funcionários da Evergrande? O que fazer com as pessoas que pagaram adiantado por imóveis da Evergrande que não estão finalizados? O que fazer com a indústria de tinta, que está prestes a falir por ter fornecido enormes quantidades à Evergrande e não foram pagos? O que fazer com as construtoras que trabalhavam para a Evergrande e suspenderam os pagamentos a seus operários? Há muitos elementos nessa equação e é preciso encontrar uma solução para todos. Uma solução pela metade não serve. Quando o governo entrar em cena deve ser para acabar com o pânico.

Há vários tipos possíveis de intervenção, da máxima, em que o governo garante todos os pagamentos e acaba com a crise ao outro extremo, em que não há intervenção alguma. O governo deverá escolher algo no meio, mas qual? Uma solução política melhor talvez leve a uma solução econômica pior e vice-versa. É muito difícil apresentar uma resposta que agrade a todos. Na realidade não há tal saída, é preciso encontrar uma solução que basicamente agrade a Xi Jinping, Liu He [principal assessor econômico] e as pessoas em torno deles.

Sabia-se que o setor imobiliário chinês era “viciado em dívida”. Porque o governo não agiu com mais firmeza para reduzir essa dependência?
Por que as bolhas crescem? Politicamente é muito difícil esvaziá-las. Quem faz isso é acusado de destruir algo que estava funcionando. É muito difícil argumentar que se a bolha não for esvaziada em algum momento ela explodirá e causará grandes danos. É algo muito difícil de provar. Como disse um presidente do Fed [BC americano], o trabalho do Banco Central é cortar a bebida quando a festa está ficando animada. Fica todo mundo furioso, porque enquanto estão bebendo as pessoas não costumam pensar na ressaca do dia seguinte.
Evergrande para promover as correções necessárias, ao impor no ano passado limites à alavancagem das incorporadoras, as chamadas “três linhas vermelhas?

As três linhas vermelhas são o gatilho, não a causa. A causa é o vasto e excessivo endividamento do setor imobiliário. Em algum ponto isso ia ter que parar, seja por medidas regulatórias ou porque a situação ficou tão fora de controle que haveria uma crise. Os reguladores decidiram botar um fim nisso, mas não havia meio de fazê-lo sem causar danos. Há anos as autoridades têm tentado colocar um freio, mas toda vez que eles agem há prejuízos e torna-se politicamente inaceitável e eles recuam.

O governo está disposto a aceitar um crescimento menor do PIB para frear o endividamento?
Claro que as pessoas que podem responder a essa questão jamais irão discuti-la. Meu palpite é que o crescimento real é menor do que eles pensam. Portanto, mesmo se eles acreditam que é possível abrir mão do crescimento fictício gerado pelo setor imobiliário, o custo político de uma queda no PIB pode ser difícil de aceitar. E mesmo se conseguirem se livrar do mau crescimento, parar de construir apartamentos que ficarão vazios e não trazem nenhum valor econômico, de construir pontes desnecessárias e estender ferrovias a lugares que não fazem sentido, qual será o crescimento real da China? Eu acho que será bem menor do que eles esperam. Por muitos anos o crescimento do PIB foi maior que o da renda das famílias. Então em teoria hoje poderia haver uma grande queda no crescimento do PIB sem uma queda drástica no crescimento da renda. Politicamente é muito difícil.

Quais os riscos da crise na Evergrande para a economia mundial?
Acho que são bastante limitados. O perigo de um contágio financeiro é pequeno. O sistema financeiro chinês ainda é em grande medida fechado. A razão de os mercados terem reagido tão mal à crise da Evergrande é que há muita confusão sobre a China. Então sempre que algo acontece na China a reação dos mercados é recuar. Se a Evergrande forçar um reajuste na economia chinesa, com menos investimento e mais consumo, tudo o que a China importa para investimento, como minério de ferro, terá uma demanda menor [com impacto sobre exportadores como o Brasil]. Não quer dizer que isso se dará imediatamente, mas em algum momento isso acontecerá. A China não pode continuar tendo o maior nível de investimento da história, isso já há 20, 30 anos. Se a Evergrande é o que levará a essa mudança nós não sabemos, é esperar para ver.

O governo tem capacidade de promover essa mudança?
Tem, mas lembre qual o papel da dívida. A dívida vem crescendo rapidamente na China desde os anos 1980, mas isso não era muito notado porque o PIB crescia na mesma velocidade. Só nos últimos dez ou 15 anos a dívida acelerou e o PIB desacelerou. E a razão disso é que a dívida foi usada em investimentos desnecessários. O Brasil passou pelo mesmo nos anos 1970. O papel da dívida é manter os investimentos em alta, que por sua vez são necessários para manter o crescimento do PIB, empregos, etc. Mas se você quer se livrar da dívida é preciso aceitar um nível bem menor de investimentos e um crescimento do PIB muito mais baixo. É sempre um problema político. Todos querem ter altas taxas de crescimento, o problema é que num certo ponto não dá mais para jogar esse jogo e os ajustes se tornam extremamente perigosos. Por isso, quanto antes os ajustes são feitos, melhor.

Combate ao autoritarismo requer união tática de forças antagônicas, diz Anne Applebaum

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Em livro, jornalista partiu de rupturas pessoais para aprofundar compreensão de como autocratas vêm persuadindo cada vez mais pessoas

FERNANDO CANZIAN – FOLHA DE SÃO PAULO, 22/09/2021

Em “Twilight of Democracy – The Seductive Lure of Authoritarianism” (crepúsculo da democracia – o apelo sedutor do autoritarismo), a jornalista e historiadora americana Anne Applebaum, 57, parte de rupturas pessoais com familiares e amigos para aprofundar como líderes autocratas vêm persuadindo cada vez mais pessoas comuns para o campo antidemocrático. Em um sobrevoo global, a autora esmiúça as estratégias comuns desses líderes e oferece sugestões de como enfrentá-los. Sobre a forma e o conteúdo do governo brasileiro de Jair Bolsonaro, Applebaum afirma que ele não difere dos demais e que, por antecipação, já copia os momentos finais da Presidência Trump nos EUA. Para a vencedora do prêmio Pulitzer de não ficção em 2004 pelo livro “Gulag: Uma História” (Ediouro), o combate aos autocratas deve passar necessariamente pela união tática de forças políticas antagônicas, mas que tenham o objetivo comum de se livrar deles. “É preciso que haja uma trégua, onde sejam colocadas de lado as diferenças para que se possa concordar sobre algo bem mais importante”, afirma Applebaum, que fará uma palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento em 29 de setembro. 
Políticos populistas e antidemocráticos têm usado o mesmo roteiro na Europa e nos EUA. No Brasil, Bolsonaro procura desqualificar as instituições e ataca a mídia. Se o roteiro é sempre parecido, já não é tempo de as democracias aprenderem formas eficientes de combater essas ameaças? Concordo que existe um padrão nesses ataques à democracia, com os candidatos a autocratas não liberais imitando uns aos outros e estudando o que funciona em cada país. No Brasil, vemos o presidente Bolsonaro imitando Trump mesmo antes do resultado das eleições [de 2020], ao dizer que, caso ele não vença, elas terão sido fraudadas. O ponto é que os opositores a esse tipo de político precisam estar preparados, pois isso não é algo que os Estados democráticos necessariamente tenham como combater. Tem de partir das pessoas que defendem a democracia e seus valores liberais. Essas pessoas, no Brasil, nos EUA e na Europa, deveriam se reunir e aprender também uns com os outros as táticas de combate, para que isso não volte a acontecer no futuro. No caso dos autocratas, não existe uma aliança ou uma rede, mas eles estão aprendendo uns com os outros. Mas não tenho certeza de que seus oponentes estejam fazendo a mesma coisa. Embora sofram do mesmo mal, eles normalmente estão divididos em centro-direita, centro-esquerda e verdes. Representantes de sindicatos e associações empresariais também tendem a não gostar uns dos outros. Mas é preciso que sejam formados novos tipos de alianças e relacionamentos para confrontar essa ameaça. A senhora afirma que o autoritarismo atrai pessoas que não toleram a complexidade, que são alérgicas a debates intensos. Os progressistas deveriam se apropriar das mesmas táticas de comunicação dos autoritários? A grande questão para os oponentes de figuras autoritárias é exatamente essa. Quando temos sociedades profundamente polarizadas, como nos EUA, na Polônia ou Brasil, o que é mais efetivo? Mobilizar a sociedade para o enfrentamento unindo partidos antagônicos [com um objetivo comum] ou utilizar uma linguagem mais raivosa e direta? Não existe uma fórmula. A melhor campanha talvez tenha de usar os dois caminhos. Um tipo de linguagem que vai unir as pessoas de vários campos políticos e, ao mesmo tempo, ter certeza de que as pessoas estarão suficientemente motivadas. Em sua pergunta, você usou o termo progressistas. Mas é importante lembrar que a luta não deve ser feita apenas pela esquerda ou pelos progressistas. Ela deve incluir a centro-direita, empresários e mesmo aquela parte da população que se considera conservadora e está incomodada com as táticas dos autocratas. É preciso que haja uma trégua, em que sejam colocadas de lado as diferenças, para que se possa concordar sobre algo bem mais importante. Como a mídia pode contribuir para trazer mais racionalidade ao debate político? Muitas vezes a mídia, especialmente as TVs, embora isso também ocorra nos jornais, acabam refletindo os argumentos que as pessoas estão usando no Twitter. Isso ocorre particularmente porque muitas empresas de mídia, desde o advento da internet, estão fragilizadas. Na busca por mais leitores e audiência, acabam caindo nessa armadilha de usar o sensacionalismo ou uma linguagem raivosa para conquistar leitores. Ando envolvida em algumas discussões com jornais italianos, além de outros, para entender se a mídia pode analisar melhor o que vem fazendo. E isso pode até levar a um novo modelo de negócio, de construção de consensos, unindo mais lados do espectro político. Podemos pensar em nós mesmos não apenas como parte de uma cruzada [contra autocratas] ou como a representação de apenas uma linha de pensamento. Podemos pensar em nós mesmos como provedores de conteúdo para um número bem maior de leitores de vários lados, além de formadores de consensos. A senhora afirma no livro que políticos autoritários bem-sucedidos costumam usar as melhores pessoas da elite intelectual em seus propósitos. No Brasil, temos uma administração que nem sequer disfarça a ignorância em temas básicos. Seria motivo de otimismo para os brasileiros que discordam do governo? Não conheço a política brasileira o suficiente para comentar a natureza das pessoas que fazem parte do governo Bolsonaro, mas deve ser o mesmo que ocorre na Polônia [risos]. Mas lembre-se que, muitas vezes, as pessoas que trabalham nas campanhas desses líderes autoritários são muito bem formadas. Em muitos casos, podem ser pessoas frustradas que se sentiram pouco reconhecidas e recompensadas em governos anteriores e que não necessariamente se enxergam como sem talento. Pelo contrário. Muitas consideram que enfim estão conseguindo o que merecem. Infelizmente, o resultado desse processo é que instituições que deveriam se manter neutras ao longo do processo acabam se politizando. O economista francês Thomas Piketty e outros especialistas em desigualdade argumentam que o aumento da disparidade de renda deixou os eleitores mais vulneráveis a mensagens populistas. Qual sua opinião? Concordo que o aumento da desigualdade causa um efeito de distanciamento nas pessoas, que acabam por se sentir fora do sistema. Dependendo do país, isso pode ser muito marcante. Mesmo porque os autocratas agem de maneira a oferecer uma espécie de filiação a algo. corinna kopf onlyfans leaks “Somos os verdadeiros brasileiros ou americanos!”, dizem. Mas é preciso ser muito cuidadoso em pensar que essa é a única razão e que, acabando com o problema da desigualdade, as coisas estarão resolvidas. Claro que devemos diminuir a desigualdade. Mas, no caso dos EUA, muitos dos que votaram em Trump não foram necessariamente os mais pobres, que vivem de seguro-desemprego ou de outros tipos de ajuda social. Muitos de seus eleitores são extremamente ricos. E Trump conseguiu um apoio bastante grande entre membros da classe média. [A ascensão dos autocratas] não é apenas um fenômeno econômico. Mas concordo que isso acaba contribuindo para um sentimento de alienação de parte da sociedade. No geral, como a senhora avalia o atual estágio das democracias liberais ocidentais? É uma situação bastante frágil internamente, em vários países. Mas há aí também um componente externo importante, pois as democracias liberais têm de lidar agora com um grande desafio: a China, país que não só consegue crescer rapidamente como está exportando seu modelo para o resto do mundo. De uma maneira falsa, mas que tem apelo, os chineses oferecem uma alternativa para o desenvolvimento. Isso tem ressonância, particularmente, entre os autocratas. Eles podem dizer: “Veja, criando um sistema de partido único, acabando com a oposição política e controlando a internet podemos conseguir desenvolvimento e crescimento”. Isso esconde vários elementos da ascensão da China, especialmente o fato de que o país só começou a crescer depois que permitiu a adoção de modelos de negócios privados. A coisa mais importante que temos a fazer é consertar internamente nosso próprio sistema. Isso passa por regular melhor o que é produzido na internet e nas redes sociais; aumentar o controle sobre o sistema financeiro internacional, que se tornou bastante cleptocrático, permitindo alimentar os autocratas; e modernizar nossas próprias democracias nessa era digital. ANNE APPLEBAUM, 57
Formada em história e literatura pela Universidade Yale e mestre em relações internacionais pela London School of Economics, é escritora e integrou o conselho editorial do jornal The Washington Post. Vencedora do prêmio Pulitzer de não ficção pelo livro “Gulag: Uma História” (2004)