Projeto Nacional

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A pandemia desnudou as desigualdades crescentes da sociedade global, mostrando que os seres humanos se comprazem com o imediatismo, buscam as riquezas degradando o meio ambiente e acreditam que a tecnologia é a solução dos mais variados problemas da coletividade, estimulando os investimentos em tecnologia sem humanismo, sem solidariedade e sem empatia, o mundo caminha a passos largos para a degradação, a incivilidade e a mediocridade.

Neste ambiente, percebemos que a sociedade brasileira passa por um momento de grandes desagregações, as taxas de miséria e de exclusão social crescem de forma acelerada, a inflação propaga para todos os grupos sociais e impacta fortemente para os setores mais fragilizados, os preços dos combustíveis aumentam sem dar trégua, fragilizando os setores que acreditaram que a solução do momento é a difusão dos aplicativos. Neste momento, os preços de todas as cadeias produtivas crescem de forma acelerada, com isso, os trabalhadores perdem renda e são levados a aceitarem cargas excessivas de trabalho, criando transtornos e dores crescentes, síndromes de burnout, depressão e problemas psiquiátricos.

O ambiente exige a reconstrução nacional, estamos nos aproximando de duzentos anos de independência e os resultados são preocupantes, necessitamos de liderança e precisamos, urgentemente, de um projeto nacional e construir um ambiente saudável para imaginar o futuro desta nação, deixando de lado os interesses mesquinhos e imediatos, buscando as bases do progresso material e emocional, se afastando do caos e da ingovernabilidade.

O século XX trouxe grande crescimento econômico para o Brasil, tivemos problemas e muitos equívocos como todas as nações. Erramos em alguns setores fundamentais e acertamos em outros, os resultados gerais foram positivos, saindo de uma situação intermediária no cenário internacional e nos tornamos uma das dez maiores economias do mundo. Naquele momento, o Brasil recebia delegações de vários países do mundo que queriam entender o rápido crescimento do país, éramos vistos como exemplo no mercado internacional, sociedade pujante e dotada de forte potencial de crescimento e de desenvolvimento econômico.

Infelizmente, atualmente perdemos este potencial de crescimento, desde os anos 80 entramos num ambiente de mediocridade, estabilizamos nossa moeda e controlamos a inflação, desenhamos políticas públicas exitosas e crescemos internamente e recebemos elogios internacionais. Desde 2015, perdemos o dinamismo na economia global, passamos a sermos vistos como uma preocupação e nossas perspectivas futuras são sombrias.

O momento pressupõe liderança, organização política e competência de todos os atores econômicos e políticos, construindo um espaço de conversação onde todos os grupos sociais devem participar, intensificando as discussões democráticas, construindo projetos nacionais, repensando o papel do Estado Nacional, estimulando a atuação dos setores privados como atores dos investimentos produtivos e da geração de emprego e de renda. Neste momento de grande instabilidade econômica, pandemia e polarização crescente, precisamos aprofundar a democracia, os valores republicanos e os sentidos da civilização.

Não criaremos um país sem reconstruirmos os laços de solidariedade, sem nos revoltarmos com as condições indignas de trabalho e de sobrevivência que é a realidade de uma parte crescente da sociedade nacional. Precisamos compreender que o século XXI prescinde de capital humano qualificado, escolas e universidades bem estruturados, salários dignos e condições de trabalho decentes, tudo isso, pressupõem recursos elevados que se reverterá em uma política fiscal centrada em tributos equilibrados, onde os grupos que auferem mais rendas devem pagar mais em detrimento dos mais pobres, uma estrutura tributária deve ser progressiva para toda a coletividade, sem vencermos estes entraves, a sociedade brasileira tende a repetir os dados preocupantes e perspectivas sombrias.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 22/09/2021.

Chinesa Evergrande não deve causar crise financeira global; entenda o porquê, por R. Zeidan

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Desde o início do ano, ações da empresa com mais de U$ 300 bilhões em dívidas caíram mais de 80%

Rodrigo Zeidan
Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Folha de São Paulo, 21/09/2021

Não é todo dia que uma incorporadora imobiliária causa risco no sistema financeiro de um país, mas esse é o caso da
Evergrande, empresa chinesa com mais de U$ 300 bilhões (R$ 1,6 trilhão) em dívidas. Desde o início do ano, suas ações caíram mais de 80%, e a empresa está tentando queimar estoques para pagar os juros dos títulos que estão vencendo.

O tamanho da sua dívida e o estrago que pode causar no balanço dos mais de 100 bancos que emprestaram dinheiro para a empresa preocupam, mas não devem causar uma crise financeira. São duas as razões para isso: o sistema financeiro chinês não é integrado ao resto do mundo e as autoridades chinesas têm bala na agulha para garantir a liquidez do sistema, não importa o tamanho do buraco.

Ainda assim, há riscos. Crises financeiras não acontecem pelo tamanho do endividamento, mas sim pela qualidade das dívidas, públicas e privadas, e alavancagem das instituições financeiras.

Um exemplo é a crise de 2008, causada em grande parte pelos bancos americanos que criaram produtos financeiros (como credit default swaps), no qual empacotaram dívidas imobiliárias boas com ruins, mas conseguindo que o conjunto fosse classificado como de baixíssimo risco.

Como há muita incerteza sobre a qualidade das dívidas das incorporadoras imobiliárias chinesas, isso poderia ser o estopim para uma crise financeira local. Em parte, o colapso da Evergrande é resultado das mudanças regulatórias na China e do agressivo modelo de negócio da empresa.

As novas regras, introduzidas há mais de um ano, incluem limites no endividamento e alavancagem de empresas imobiliárias. A empresa, como muitas do setor, usava seu tamanho para se endividar, comprar terrenos e continuar crescendo.

Hoje, a Evergrande é tão grande que sua falência poderia levar a um pânico generalizado, desde que o PBOC, banco central chinês, deixe isso acontecer, o que é pouco provável. As autoridades chinesas têm instrumentos para resgatar o sistema financeiro; afinal, é função dos bancos centrais serem emprestadores de última instância.

Contudo, há exemplos mundiais de má gestão de crises sistêmicas. O banco central japonês agiu a conta-gotas no início da década de 1990, e até hoje a economia japonesa paga por isso. No dia 15 de setembro de 2008, o Federal Reserve, banco central americano, anunciou que deixaria o Lehman Brothers ir à falência, erro monumental pelo qual pagamos até hoje.

Se uma crise na China acontecer, o que esperar no Brasil?

Crises financeiras se espalham por meio de sistemas financeiros e comércio exterior. A moeda chinesa, o yuan, não é conversível e há controle de capitais no país. Por mais que a Evergrande também tenha dívida em moeda estrangeira, a maior parte é em moeda local. Mais ainda, desde que o yuan sofreu um ataque especulativo por empresas estatais chinesas, em 2015 e 2016, o processo de integração financeira com o resto do mundo parou.

Uma crise financeira ficaria contida na China. Mas só do lado financeiro. Uma recessão lá levaria o mundo junto, pela queda na demanda mundial. O caso da Evergrande não deve causar uma crise financeira. Mas mesmo que o risco de uma recessão global seja baixo, convenhamos, o mundo não precisa de mais notícias ruins.

Paulo Freire é decente e democrático, nunca silenciaria quem dele discordasse, por Cortella.

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Há pessoas que, de propósito, distorcem o repertório freiriano com o objetivo de desqualificar sua relevância na educação contemporânea

Mario Sergio Cortella Filósofo, com doutorado em educação pela PUC-SP, sob a orientação de Paulo Freire, de quem foi chefe de Gabinete e a quem substituiu no cargo de secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992)

Folha de São Paulo, 19/09/2021

Paulo Freire é uma pessoa decente!

A prática vivencial e o patrimônio cultural que nos legou justifica o tempo verbal no presente, e assim precisa ser, pois não há como aquilatar o legado de uma pessoa como ele e supor que este fique somente na memória do pretérito, em vez de também impregnar, como de fato ocorre, a história do presente e os desdobramentos vindouros.

De novo: Paulo Freire é uma pessoa decente! E o é exatamente por não ter procurado edificar suas práticas e concepções a partir do logro da boa-fé de outras pessoas, ou acolhido o embuste no qual assumisse como da própria autoria o que estivesse na lavra de outrem, ou da intenção do ludibrio que conduzisse ao engodo gerador de vantagens exclusivistas, ou, ainda, da promoção do engano intencional que levasse alguém a compreender de modo equivocado o que deveria ser assimilável de forma transparente, para manter este alguém sob seu domínio.

Paulo Freire é um intelectual honesto! E, assim, se agora presencialmente conosco estivesse, não repudiaria —como jamais o fez— objeções e discordâncias ao seu trabalho, desde que fundamentadas em argumentações sinceras e contraposições idôneas, que expusessem com suportes e embasamentos verídicos os eventuais deslizes, desacertos e lapsos nos quais pudesse ter incorrido.

Um intelectual honesto de fato não entende como ofensa o que pode ser uma contribuição para refinamento e correção do que elabora, mas de maneira alguma se submete à dissolução do que propugna apenas por encontrar desaprovação, especialmente porque essa desaprovação pode ser oriunda justamente da correta compreensão e, daí, o repúdio.

Paulo Freire encontra mais denegação por parte de quem o entende muito bem, com as decorrências políticas que seu ideário implica, do que por parte de quem pouco o conhece e que em certos momentos é maldosamente induzido à burla.

Uma parte dos que dele discordam o faz virtuosamente, assumindo com sinceridade as divergências de caminhos e suas resultantes, em um jeito escrupuloso. Contudo, há outra parte que, de propósito, distorce o repertório freiriano, com o objetivo de desqualificar a relevância expressiva deste —mundo afora— na educação contemporânea, e, além disso, pretende ardilosamente imputar a ele a composição das mazelas e penúrias da educação nacional.

Este ponto, o da distorção, é tão relevante para demonstrar o papel da trapaça na intenção de desabilitar a proeminência de Paulo Freire, que vale trazer dois exemplos concretos.

Uma das contribuições mais eminentes que ele fez à filosofia da educação contemporânea é ter adensado a compreensão de que nenhuma pessoa é capaz de somente ensinar, assim como não há nenhuma que seja capaz de somente aprender; em outras palavras, todas e todos, de algum modo e em circunstâncias variadas, somos educadores e educandos uns dos outros, em meios às nossas vivências, convivências e relacionamentos, o que exclui a possibilidade de haver, de um lado, somente néscios discentes e, do outro, somente sábios docentes. Essa condição não suprime nem a tarefa e nem o lugar de quem tem responsabilidade de formar, mas requer que quem o faça leve em conta, inclusive como alavanca de aperfeiçoamento recíproco, que quem está em formação não chega sem algo saber, e quem exerce o ensino não sabe tudo.

Ora, um dos subtítulos internos de sua obra mais merecidamente afamada, “Pedagogia do Oprimido”, é: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Porém, se excluirmos (como na burla feita por minoria furiosa) o que vem após a sentença inicial, recortando do conjunto da ideia só o ponto de partida, ficaria “ninguém educa ninguém”, o que não somente distorce o sentido real (ninguém apenas educa, ninguém é apenas educado) como, além de tudo, sugere ter Paulo Freire depreciado o ato educativo e o ofício de quem o faz!

Outro exemplo, mais usual, é sobre a afirmação por ele feita, em muitas de suas obras, de a Educação ser um igualmente um ato político. Isto é, todo ato pedagógico —porque não é neutro e influencia, interfere, colabora ou prejudica uma comunidade — é similarmente um ato político. É claro que Paulo Freire está fazendo referência à política na acepção clássica grega, como sendo a maneira como coletivamente organizamos nossa vida comum, coabitada na pólis, na interrelação entre o privado e o público, assemelhado aos que os latinos chamaram de civitas, como cidade, chegando entre nós ao termo cidadania.

Em momento algum Paulo Freire indicou que o ato pedagógico, a educação, deva ser partidária, ou doutrinária, ou proselitista, ou catequética. Ao contrário! Se assim o fosse, e defendesse a manipulação, teria demolido o cerne da sua filosofia que é o ato pedagógico ser fomentador, para cada pessoa e para todas as pessoas, de uma consciência livre, com a educação como prática da liberdade e uma pedagogia da esperança e da autonomia.

Por isso, Paulo Freire é uma pessoa democrática! Nunca procuraria silenciar quem dele discordasse, calando a dissensão, impondo o pensamento único, excluindo a condição de fazer do diálogo a presença da mutualidade do proveito, no lugar de construir uma argumentação que pudesse ser suficiente para convencer (e não vencer!).

Como pessoa decente, intelectualmente honesta e democrática, ele permanece entusiasmando a lapidação do que chamou também de “inédito viável”, aquilo que ainda não é (por isso, inédito) mas pode ser (por isso, viável).

E qual é esse inédito viável entranhado no percurso de Paulo Freire? Vida boa, para todas e todos, em qualquer lugar e época, e, como, diria ele, cheia de boniteza!

Paulo Freire é um brasileiro que ainda tem muito a nos ensinar, por Silvio Almeida.

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Filósofo e educador, que completaria 100 anos nesta semana, ensinava que educação é a transformação do mundo

Silvio Almeida Professor da Fundação Getúlio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Folha de São Paulo, 19/09/2021

Costuma dizer o historiador Luiz Antonio Simas que o Brasil é um empreendimento de ódio, pois é um país que se funda em um projeto de Estado-nação excludente. As instituições políticas e jurídicas brasileiras, que em grande medida atuam contra o povo —especialmente negros e indígenas—, sempre viram a cultura e a sabedoria popular como formas de vulgaridade, primitivismo ou “coisas de vagabundo”.

Por isso, é comum na história do Brasil que tudo que coloque em questão o pacto antipovo que caracteriza o país seja tratado como ameaça; que tudo que se atreva a estimular a formação de uma consciência nacional-popular e crítica seja repelido.

Este ódio do Brasil contra a brasilidade que emerge da resistência do povo brasileiro talvez seja uma explicação para a intensa campanha difamatória promovida contra o filósofo e educador Paulo Freire, morto em 1997, e que complementaria 100 anos de idade no dia 19 de setembro deste ano.

Nos últimos anos, a obra de Paulo Freire —um dos maiores pensadores da educação de todos os tempos, reconhecido nacional e internacionalmente— tem sido apontada por reacionários como sendo o principal motivo da decadência da educação no Brasil.

Não é a desigualdade social, o baixo salário de professores, a falta de estrutura das escolas e nem a ausência de um projeto nacional o problema da educação. O problema, na misteriosa cabeça dessas pessoas, é Paulo Freire, que seria quase que um “educador do fim do mundo”.

Talvez, neste ponto —e só neste e pelos motivos errados— os detratores de Paulo Freire tenham alguma razão, pois sua lição mais poderosa é: podemos pôr fim a um mundo que já não nos serve e podemos projetar outro completamente novo, em que caibamos todos nós.

Freire não enxergava a educação como um ato de “transferir” conhecimento, depositar saberes no aluno como se este fosse uma caixa ou um cofre. Este tipo de educação alienante —que não à toa denominava de “bancária” — concorre para que a exploração e a opressão sejam apresentadas à consciência dos indivíduos como dados “naturais” e não como circunstâncias históricas.

A educação para Freire é um processo de transformação que vai além do indivíduo. Na mesma linha traçada por Jean-Paul Sartre, Freire entendia o indivíduo sempre em situação, ou seja, sempre envolto pela facticidade e pela presença de outros indivíduos. Dessa forma, a educação, ao moldar a subjetividade, inevitavelmente interfere nos sentidos que o indivíduo atribui ao mundo em está lançado e na relação com outros indivíduos.

Com efeito, a educação para Paulo Freire não é apenas a mudança da consciência, mas a transformação do mundo, sem o que o indivíduo não se transforma. Entre mundo e ser humano há uma inextrincável relação dialética que, se pudesse ser desfeita, o ser humano deixaria de ser humano e o mundo perderia o sentido.

Em outras palavras: para Paulo Freire o ser humano é ser humano “no mundo” e o mundo só existe porque o ser humano nele habita.

Com essa proposição, Paulo Freire desfaz algumas ilusões de que é possível mudar a realidade apenas construindo escolas ou alterando diretrizes curriculares.

Educar é desenvolver a autonomia de alunos e alunas para que possam reivindicar a própria humanidade, o que se traduz na criação de um mundo em que não mais haja oprimidos e opressores. Inspirado por Frantz Fanon e Amílcar Cabral, Freire considera a educação um processo inevitavelmente político e revolucionário.

Para os que querem tornar aceitável a miséria e a exploração, Paulo Freire é o educador do fim do mundo. Com toda a sua amorosidade e rigorosidade, o filósofo brasileiro nos leva a pensar que este mundo, tal como conhecemos, precisa de fato acabar para que outro, fundado em uma práxis de solidariedade e respeito, possa vicejar.

Grupos em permanente busca por direitos estão mais vulneráveis ao adoecimento mental, por Cida Bento.

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Autocuidado nos estimula a recuperar memórias sobre nossas potências coletivas

Cida Bento Conselheira do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP

Folha de São Paulo – 16/09/2021

Neste Setembro Amarelo, mês em que concentramos nossa atenção na prevenção ao suicídio — que atinge, no Brasil, 13 mil pessoas a cada ano—, mais do que nunca temos que atentar para as condições que tornam a vida de tantas pessoas insuportável de ser vivida.

De acordo com estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2021, o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. A campanha Setembro Amarelo envolve várias organizações, como a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e o CFM (Conselho Federal de Medicina). O CVV (Centro de Valorização da Vida) é um apoio permanente ao enfrentamento desse desafio no campo da saúde.
Muitos problemas no campo da saúde mental da população brasileira foram acirrados pela crise sanitária e econômica, que incide sobre o aumento dos índices de suicídio, como diversos estudos que ganharam manchete na grande mídia nos mostraram nestes tempos de pandemia.

No Brasil, milhões de pessoas se encontram desempregadas, e os problemas de segurança alimentar, de acesso à saúde, à moradia, ao trabalho digno geram sofrimento principalmente em períodos como o que estamos vivendo, em que o governo reduz orçamentos para políticas públicas.

Do lado oposto, o fortalecimento de políticas de proteção social funcionou como elemento de prevenção ao aumento de doenças mentais na Itália, no período de 2000 a 2010, segundo publicação do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz.

Nesse sentido, estabelecer diálogo social é imprescindível para encontrar saídas que envolvam governos, empregadores, trabalhadores e movimentos sociais, para enfrentar conjuntamente a crise.

Conflitos de classe, de raça, violência de gênero e outros estão relacionados com o sofrimento psíquico, individual e coletivo. Grupos que vivem uma permanente busca pelos seus direitos e para afirmação social da sua identidade estão mais vulneráveis ao adoecimento mental.

Na população indígena, o suicídio foi quase três vezes maior que a média nacional, segundo o Ministério da Saúde, em 2018. Acrescente-se a isso o fato de que 79% dos suicídios ocorrem em países de baixa e média renda, segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), em 2016.

Audre Lorde, mulher negra, apontou caminhos essenciais para acolher e enfrentar esse desafio de crise, cunhando o termo “autocuidado”, debatido em grupos feministas e antirracistas e conectado com o contexto político e coletivo.

Audre fala em transformação pessoal e política ao mesmo tempo. Trata autocuidado como a construção de nosso bem-estar, de nossa sobrevivência.

Em um coletivo acolhedor, o autocuidado permite reconhecer-se com medo, impotente, frágil e buscar a autopreservação diante de um ambiente ameaçador. Ou seja, um coletivo com uma escuta ativa para os sentimentos de dor, de perdas, de humilhação e sujeição.

Ao cuidar dos outros e se deixar cuidar, alimentam-se a reciprocidade, a cumplicidade e a solidariedade, resgatando e fortalecendo a autoconfiança e a fé no coletivo.

O autocuidado vem sendo exercitado por coletivos de mulheres negras, indígenas e quilombolas. São grupos que nos provocam a pensar em uma humanidade que preserva tanto a vida humana como a de outros seres vivos no planeta. Ou seja, do próprio planeta.

Nessa atividade política coletiva, criam-se redes de solidariedade para garantir alimentação e produtos de higiene para periferias urbanas desempregadas, reduzindo os danos da política genocida, pois o autocuidado está no território do bem viver, do afeto e da amorosidade.

Nos estimula a recuperar as memórias sobre nossas heranças, nossas riquezas esquecidas, nossas potências coletivas que permitem criar outras realidades políticas e sociais e reforçar o nosso compromisso e bem-estar com a vida.

Caos generalizado

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A economia brasileira está caminhando a passos largos a uma recessão com impactos generalizados para grande parte da sociedade, com incremento dos conflitos institucionais, diminuição da confiança e da credibilidade dos agentes econômicos, com queda dos investimentos e instabilidades que nada auxiliam na recuperação da economia, neste ambiente de incertezas o desemprego aumenta, a renda diminui e limitam as perspectivas de melhora econômica.

Vivemos um momento de desgoverno, descrédito e instabilidades crescentes, a inflação cresce de forma acelerada, o câmbio se desvaloriza e impacta sobre os preços internos. Os preços proibitivos dos combustíveis impactam diretamente sobre a estrutura produtiva, prejudicando a grande massa da população, inviabilizando os motoristas dos aplicativos que ganharam relevância neste período de pandemia. O aumento dos preços dos combustíveis garante os lucros de um pequeno grupo social em detrimento da população, contribuindo para a piora da concentração da renda, aumentando a inflação e reduzindo a renda da população, efeito imediato menos consumo e menor geração de emprego.

No país do agronegócio, conhecido como o celeiro do mundo, a fome e a exclusão crescem de forma acelerada e, em contrapartida, os ganhos dos grandes produtores agrícolas crescem, estimulando o consumo nos mercados de luxos, estimulando os investimentos em imóveis de alto padrão e aumentando a ostentação, contribuindo para incrementar as contradições que crescem na sociedade brasileira, perpetuando os privilégios de poucos grupos em detrimento de uma sociedade centrada na desigualdade, no racismo e na exploração.

Neste ambiente de incertezas e instabilidades os investimentos se concentram no curto prazo, o planejamento é deixado de lado e prescinde de profissionais altamente capacitados para entendermos o momento e construirmos os cenários futuros. Os investimentos que dominam a economia brasileira buscam rendimentos imediatos e deixam de lado os dispêndios de longo prazo, postergando os recursos para a infraestrutura, negligenciando os investimentos da educação, cujos retornos são mais distantes e demorados, a ciência e a tecnologia são negligenciadas e nos tornando mais dependentes do mercado internacional, acreditando que as tecnologias estarão disponíveis para a aquisição no mercado global. A pandemia nos mostra que, sem desenvolvimento próprio de tecnologias, de máquinas e de vacinas, somos cada vez mais dependentes dos humores dos agentes econômicos e políticos internacionais, países que optaram, anteriormente, na construção de sua autonomia científica e tecnológica.

Estas tecnologias podem estar disponíveis no mercado global, mas os valores serão, cada vez mais elevados e, num momento de crises mundiais, como numa pandemia, os desenvolvedores destas tecnologias priorizam seus mercados internos e seus interesses imediatos, deixando de lado seus “parceiros” comerciais. Neste ambiente de grandes desafios e concorrências crescentes, os investimentos em educação, pesquisa, ciência e tecnologia se mostram cada vez mais relevantes e, infelizmente, não estamos aprendendo as lições deste momento de pandemia e de crises crescentes, insistindo em conflitos políticos desnecessários, propondo pautas atrasadas e perpetuando o caos generalizado.

A pandemia desagregou as estruturas produtivas globais, gerou aumento dos custos produtivos, a falta de insumos está levando muitos conglomerados a rever políticas de investimentos, aumento da inflação e levando os bancos centrais a elevarem as taxas de juros, cujos impactos imediatos são visíveis na economia brasileira, menos investimentos, menos empregos, mais inflação e maior endividamento das famílias e dos setores produtivos.

Num ambiente de desconfianças e discursos de ódio e de ressentimento, precisamos de uma agenda para superarmos os atrasos que perpetuam nosso subdesenvolvimento, atacando os verdadeiros problemas da sociedade brasileira, a pobreza, a fome, a exclusão social e o desemprego que crescem de forma acelerada.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 15/09/2021.

A cultura, a economia criativa e a retomada pós-pandemia, por Eduardo Saron

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Construir ambientes trará impactos à educação e ao mundo do trabalho

Eduardo Saron Diretor do Itaú Cultural, presidente do Conselho de Cultura e Economia Criativa do governo de São Paulo e membro dos conselhos do Instituto CPFL e do Instituto Cultural Vale

Folha de São Paulo, 09/09/2021

No final de julho, os ministros da Cultura do G20, reunidos na Itália, deram um recado para o mundo: a cultura e a economia criativa terão papel determinante na retomada da pós-pandemia e devem estar no centro das políticas públicas para estimular o emprego, a renda, a educação, a diminuição das desigualdades, a criação de um ecossistema digital saudável e seguro, a saúde mental e a sustentabilidade do planeta.

A constatação não é mera retórica. No campo da economia, por exemplo, a importância desses segmentos é inquestionável. No caso do Brasil, em 2019, ano pré-pandemia, a economia criativa respondeu por 2,61% do PIB e movimentou R$ 171,5 bilhões no país, segundo Estudo da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). No mesmo período, o importante setor da construção civil contribuiu com 3,7% para o PIB nacional, de acordo com o Dieese.

No campo do emprego, o segmento também é uma máquina de geração de oportunidades. Segundo o Observatório do Itaú Cultural, no último trimestre de 2019 a economia criativa empregava nada menos que 5,2 milhões de trabalhadores.

Aqui também vale a pena a comparação com a construção civil, que, no mesmo período, registrava 6,8 milhões de empregos. Ou seja, o cotejo do PIB das duas indústrias mostra que a economia criativa empregava, proporcionalmente, mais que a construção civil no pré-pandemia.

Mas não é só no campo da economia que as bandeiras defendidas pelos ministros do G20 podem fazer a diferença. Em um momento em que iniciamos a volta dos alunos às escolas, a cultura e as atividades criativas podem contribuir para acolher e encantar as crianças e os jovens neste recomeço.

Exemplos de que a arte melhora o aprendizado, diminui a violência e reduz as desigualdades são abundantes. O Programa Guri da Grande São Paulo, por exemplo, demonstrou que os alunos atendidos em seus projetos de formação musical apresentaram melhora significativa das habilidades emocionais, comportamentais e vivenciaram estreitamento das relações familiares, entre outros indicadores positivos. Cada real investido nessa iniciativa gerou R$ 6,53 em benefícios sociais.

A cultura também é apontada por especialistas como estratégica para desenvolver a criatividade, o pensamento crítico e as relações colaborativas. Construir ambientes que estimulem essas competências terá impacto na educação e no mundo do trabalho, beneficiando os indivíduos e a competitividade do país.

Na Carta de Roma, como ficou conhecido o documento elaborado pelos ministros do G20, fica patente, ainda, a centralidade da cultura para enfrentarmos o desafio da saúde mental, que está afetando milhões de brasileiros nesta crise sanitária. Na Inglaterra, por exemplo, o programa Artlift, que adota atividades artísticas para melhorar a qualidade de vida de pacientes com depressão e ansiedade, reduziu em 37% as taxas de consulta e, em 27%, as de hospitalização dos atendidos, gerando economia de 216 libras por indivíduo ao NHS, o sistema de saúde pública do país.

Mesmo com todo esse potencial, não se viu e não se vê no horizonte uma estratégia do Estado e da sociedade brasileira para colocar a arte e as atividades criativas no centro das políticas públicas. O que se observa, na verdade, é um desmonte e um debate ineficiente e desfocado, que só amplifica o descaso com esses segmentos que tanto podem contribuir para a nossa recuperação.

A cultura e a economia criativa, com as suas múltiplas potencialidades transformadoras, podem ser decisivas para o Brasil conquistar desenvolvimento com equidade. O país precisa focar na retomada e abandonar as crises artificiais e deletérias que estão tragando toda a nossa energia.

Converter a Carta de Roma, que sobretudo fortalece os direitos humanos e a democracia em um guia central de políticas públicas, seria um bom começo. Precisamos agir.

Estado de Direito nos protege dos devaneios de capitães e tecnocratas, por Marcos Lisboa

A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder

Marcos Lisboa Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

Folha de São Paulo – 12/09/2021

Um paranoico comandante norte-americano, acreditando que os russos estariam envenenando a água nos EUA, decide despachar aviões com bombas nucleares para serem descarregadas na União Soviética.

“Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, é uma comédia sobre os apocalípticos anos 1960. Em tempos de Guerra Fria. não faltavam militares ensandecidos para provocar o temor.

Muitos temiam que o clima beligerante, agravado por comandantes desvairados, pudesse resultar em um conflito que saísse do controle. A documentação do período, incluindo gravações de conversas de presidentes dos EUA, mostra quanto se mentiu para a sociedade naqueles anos.

O confronto bateu na trave na crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Durante dias, autoridades americanas procuraram decifrar os movimentos do oponente, em meio a relatos de ataques inexistentes.

No auge do conflito, o líder soviético, Khruschov, enviou dois telegramas para o presidente dos EUA, Kennedy, com mensagens contraditórias. O governo americano jogou com a sorte para interpretá-las, decidiu na contramão da linha-dura e o descontrole foi evitado.

Em “Dr. Fantástico”, Kubrick nos alerta sobre os riscos do poder desmedido. No filme, o comandante ignora que os soviéticos haviam pouco antes concluído um dispositivo que responderia com armas nucleares contra os EUA se a União Soviética fosse atacada. Uma vez acionada, a reação não poderia ser interrompida.

O objetivo seria evitar a guerra nuclear uma vez que a existência do dispositivo fosse anunciada. Por que os americanos iniciariam um conflito se o resultado, independentemente da vontade de quem quer que fosse, seria a destruição de todos?

Não deu tempo. O comandante delirante iniciara o gatilho da guerra uma semana antes de os soviéticos anunciarem o dispositivo que dissuadiria os confrontos nucleares.

A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder na ausência dos contrapesos do Estado de Direito.

O presidente do Brasil insiste no confronto com os demais Poderes. O problema já foi o ex-presidente da Câmara, agora é o Supremo. Desde o começo, a imprensa é inimiga.

Há quem afirme estar decepcionado com o governo. Não deveriam. O chefe do Executivo sempre disse, com seu linguajar usual, a que vinha. Alguns acreditaram na promessa de terceirização da gestão da política econômica. A inconsistência das propostas não parecia incomodar empresários experientes. Pois bem, as consequências vêm depois.

Trata-se de um presidente que vocifera, desde que esteja no comando. Sua preocupação principal parece ser distribuir privilégios às corporações que o apoiam, como aumentar a remuneração dos militares, ou defender medidas pouco relevantes, como alterar a legislação sobre pontos na carteira de motorista.

Por vezes, defende propostas descabidas, revelando o despreparo do seu governo. No começo do seu mandato, por exemplo, disse que iria apresentar uma medida que supostamente geraria mais recursos do que a reforma da Previdência.

O país enfrenta crises anunciadas, como a inflação e o preço da energia, que o presidente trata como um torcedor de futebol. Aparentemente, ele ignora o papel do seu governo nos aspectos sutis da gestão pública, que requer governança organizada, avaliação de impacto e cuidado com a implementação das políticas.

Ser o chefe do Executivo não se resume a fazer bravatas no cercadinho. Construir uma agenda para o país não implica ser conivente com as emendas parlamentares.

O presidente ataca o Supremo Tribunal Federal que o teria impedido de agir durante a pandemia. Caso pudesse decidir, ele afirmou ao STF em petição conjunta com o então advogado-geral da União, André Mendonça, que sua opção seria por não adotar qualquer medida de distanciamento social.

Ficamos assim: o presidente nada pôde fazer porque o Supremo restringiu suas ações. Mas, se ele pudesse agir, sua decisão seria por nada fazer.

Durante a pandemia, o chefe do Executivo limitou-se a propor que fossem utilizados medicamentos sem eficácia comprovada, enquanto defendia que motociclistas não pagassem pedágio nas estradas e denunciava supostos culpados pelo alto preço dos combustíveis.

O presidente parece desconhecer a sua responsabilidade pela gestão da política econômica e pela crise institucional que resultaram no câmbio desvalorizado, contribuindo para o aumento da inflação e do custo do diesel.

A cada derrota, o presidente bradou sua vitimização, denunciou inimigos e convocou ao confronto. Houve quem se arvorasse o direito de ameaçar prédios públicos e de planejar golpes.

Felizmente, ele compensou o despautério com uma coragem de calças-curtas diante da reação em defesa da democracia. “Minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento”, escreveu o presidente da República em um dia em que caminhoneiros bloquearam estradas e ficaram a ver navios.

Kubrick conhecia a arte de fazer filmes. Peter Sellers surpreende nos três papéis que exerce em “Dr. Fantástico”, incluindo o de um cientista emigrado para os EUA que, por vezes, não consegue evitar que seu braço se erga em saudação nazista.

Capitães e tecnocratas prometem fantasias, mas revelam, descontroladamente, os seus instintos. O Estado de Direito nos protege dos seus devaneios.

Recuperação da Economia em K

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A recuperação brasileira é um dos maiores anseios da sociedade brasileira, sem recuperação das atividades econômicas os agentes econômicos não conseguem criar cenários consistentes, gerando novos investimentos produtivos, aumentando o emprego, melhorando os indicadores de renda e salário, dinamizando a produção e abrindo espaço para perspectivas mais positivas, numa sociedade que passa por grande desagregação na estrutura produtiva e indicadores sociais e políticos sofríveis.

Vivemos uma verdadeira tempestade perfeita, fomos vitimados por graves crises concomitantes, desde a degradação gerada pela pandemia, desestruturação das cadeias produtivas com impactos sobre o aumento do desemprego e redução da renda agregada, além de graves conflitos institucionais entre os poderes e fortes pressões inflacionárias, acrescentamos ainda os riscos de apagão energético, com aumento dos preços da energia, penalizando os setores produtivos e impactando fortemente sobre os grupos mais fragilizados.

O cenário que estamos presenciando nos gera preocupações crescentes, medos de conflitos institucionais, descontrole dos preços e limitações da recuperação econômica, postergando a melhora do ambiente econômico, retomando os investimentos produtivos e criando as perspectivas na melhoria dos indicadores sociais.

Neste ambiente percebemos muitos analistas destacando que a economia tende a se recuperar em V, ou seja, depois de forte retração econômica, a recuperação atual tende a ser rápida e consolidada, melhorando os indicadores macroeconômicos. Infelizmente estas análises estão se mostrando limitadas, a recuperação ocorre lentamente, os indicadores positivos são localizados e o cenário econômico é frágil, carecendo de investimentos públicos e a ausência de planejamento econômico. Percebemos que estamos vivendo uma recuperação em K, ou seja, uma recuperação limitada e desigual, onde os grupos de cima ganham mais em detrimento dos grupos mais fragilizados, uns poucos grupos ganham mais e outros perdem cada vez mais, contribuindo para o crescimento da desigualdade, gerando conflitos distributivos e instabilidades social e política.

Vivemos num momento de boom das commodities, ou seja, os preços dos produtos primários estão em alta no mercado internacional, elevando os ganhos para os setores ligados ao agronegócio, mesmo assim, este boom de compras externas não está estimulando a recuperação econômica, além de desvalorizar o câmbio, elevando os preços internos, com fortes impactos na inflação e redução da renda agregada.

No começo do século, o boom das commodities se caracterizou pelo crescimento da economia, gerando estabilidade e ganhos substanciais para os setores produtivos, melhorando os indicadores macroeconômicos, valorizando o câmbio, reduzindo a inflação, aumentando o emprego, a renda dos trabalhadores e dinamizando os setores produtivos.

Naquele momento, o boom de commodities foi associado a políticas públicas efetivas de inclusão social, aumento dos salários, incremento do crédito e elevação dos investimentos públicos em setores de infraestrutura, gerando aumento no emprego, melhora na renda e estímulo ao consumo e, em contrapartida, mais produção e melhora nos indicadores macroeconômicos. Atualmente, percebemos o incremento das commodities e, infelizmente, os resultados positivos não estão aparecendo, as vendas externas do agronegócio crescem, os lucros crescem rapidamente, garantindo melhorias na arrecadação pública e o enriquecimento de setores agroexportadores, mas a recuperação não acontece.

A recuperação econômica prescinde de instrumentos efetivos do Estado, estamos num momento de oportunidades crescentes geradas pelo boom das commodities, precisamos construir políticas públicas para aumentar a renda e os salários da população, concedendo crédito para a população e retomando os investimentos públicos, que atualmente são os menores em décadas. Sem estas políticas ativas e consistentes do Estado, a recuperação em K se efetivará, gerando ganhos crescentes para uma minoria e perdas crescentes para a maioria da população.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 01/09/2021.

‘A democracia fica em risco sempre que a disparidade cresce’, diz historiadora americana

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Mary Jo McConahay autora de ‘América Latina sob Fogo Cruzado’

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo – 29/08/2021

Mary Jo McConahay explica perigo que representa a ascensão de governos autoritários na América Latina
“A pandemia é como um estado de guerra. O tipo errado de político vai usar isso para seu próprio benefício e para aprovar programas autoritários que já existiam antes.” Com essa frase, Mary Jo McConahay, autora do livro América Latina sob Fogo Cruzado, explica o perigo da ascensão de governos autoritários na região e a necessidade de se olhar a história para não repetir os erros. Para a americana, o papel dos latinos durante a 2® guerra deveria servir de lição para as nações que hoje assistem ao crescimento da extrema direita e às ameaças à democracia.

A sra. imaginava o tamanho da participação de atores latino-americanos?
Muitas vezes temos uma lacuna no conhecimento sobre lugares próximos e a América Latina foi encoberta pelas notícias de outros lugares na 2.ª Guerra, mas a razão pela qual a guerra é chamada de mundial é justamente por ter afetado todos os lugares. Para Franklin Roosevelt, o presidente americano durante a guerra, o maior medo era do que estava acontecendo na América Latina, em razão da proximidade com os EUA. Ele tinha muita simpatia pelos países que tinham uma enorme quantidade de riquezas, o que é fundamental para qualquer guerra que se aproxima. E esses recursos tinham de estar sob o controle dos EUA, pensava Roosevelt. A América Latina foi extremamente importante durante a 2.ª Guerra.

Por que as perdas de recursos na região não são abordadas com frequência?
Claramente, as histórias que não possuem elementos de orgulho são escondidas de nós. Durante a 2.ª Guerra, o Brasil, como vários outros países, com exceção da Bolívia, por exemplo, em algum momento fechou a porta para os judeus que fugiam do Holocausto. O meu país, os EUA, também fechou as portas, enquanto alguns latino-americanos, como um cônsul do México, por exemplo, faziam vistos falsos para essas pessoas entrarem nos países. E digo isso porque atualmente fazemos (EUA) a mesma coisa, fechamos as portas para refugiados que chegam de países latino-americanos fugindo da violência.

Qual o papel do Brasil nisso?
O Brasil foi extremamente importante para a vitória dos Aliados por conta de seus recursos naturais. Alguns especialistas americanos dizem que a produção de borracha do Brasil pode ter sido decisiva para ganhar a guerra. Dezenas de produtos, incluindo 20 mil partes de navios de batalha, foram feitas de borracha. Se não fosse por essa produção em um ponto crucial da guerra, a história poderia ter sido diferente. Talvez os brasileiros não entendam o incrível sacrifício que o País passou durante a guerra. Acho que as pessoas não têm noção do que o Brasil forneceu durante o conflito.

Que lições podemos tirar da importância da América Latina na 2.ª Guerra?
Como o poeta John Donne disse: “Nenhum homem é uma ilha em si mesmo”. Eu digo que nenhum país pode ser uma ilha em si mesmo, especialmente hoje em dia. Tudo que acontece em qualquer lugar tem efeito em todas as partes do mundo. Temos de ter consciência do que ocorre na Palestina, no Oriente Médio, na África, não apenas porque isso vai afetar o preço dos nossos produtos, mas porque a humanidade está conectada e ignorar isso é nos eximir de responsabilidades.

A sra. fala que alguns pontos da 2.ª Guerra já nos mostravam o que enfrentaríamos na atualidade. Pode explicar?
Não se pode dizer que campos de concentração, tortura, Estados que falam apenas de segurança nacional surgiram apenas na 2.ª Guerra. No entanto, é possível dizer que algo aconteceu naquele período que nos tornou familiar com essas táticas. Temos a tendência de achar que esse tipo de prática, de autocracia, apareceu do nada, mas conhecendo a história podemos entender melhor nossa atualidade. Existe uma ponte entre o que ocorreu na 2.ª Guerra e o que ocorre hoje.

Qual é o perigo do uso político da pandemia?
A pandemia, de certa forma, é como um estado de guerra. O tipo errado de político vai usar isso para seu próprio benefício e para aprovar programas autoritários que já existiam antes. Falando dos EUA, a pandemia foi usada pela administração anterior (de Donald Trump) como ferramenta política para dividir. Por que? Porque a divisão favorecia quem estava no poder. A pandemia afeta brancos e negros, aqueles que recebem pouco, os mais pobres, da mesma forma que a guerra afeta. Esse é o motivo de termos a necessidade de olhar para o que acontece agora do ponto de vista humanitário, da mesma forma que foi feito na guerra. Claro que todos querem ser os primeiros na fila da vacina, mas é tempo de olhar para as histórias das crises e guerras e tirar lições disso para usar no presente.

A sra. acredita que a pandemia tornou mais evidente a fragilidade da democracia em alguns países?
Com certeza, inclusive aqui nos EUA, onde as populações mais vulneráveis, geralmente os mais pobres, negros e pardos, estão entre as que mais sofreram com a doença e mais morreram. Sempre que a disparidade cresce, como em uma crise sanitária, a democracia fica em perigo. A situação piora quando os líderes mentem ou tentam se aproveitar de algum tema que as pessoas sabem ser sério ou assustador.

Como a sra. vê o crescimento de governos autoritários na América Latina?
O crescimento do autoritarismo em qualquer lugar do mundo é preocupante. Na América Latina, onde tantos sofreram e morreram por justiça e democracia nos últimos anos, a volta das mentiras públicas e do autoritarismo é um desafio. As memórias são tão curtas? Tivemos uma ameaça assim nos EUA também, com o ataque à democracia de nosso ex-presidente e seus aliados, uma ameaça que continua circundando a vida política.