Financeirização, imediatismo e a lógica do lucro monetário

0

Vivemos em tempos muitos curiosos, são momentos de grandes transformações, de medos e desesperanças coletivas convivendo lado a lado com euforias e entusiasmos pouco vistos na história da sociedade, momentos de tecnologias comandando as decisões, influenciando sobre as escolhas, definindo comportamentos, criando hábitos e costumes novos e revolucionários, vivemos tempos estranhos, mas ao mesmo tempo, interessantíssimos, sua superação nos levará a uma nova sociedade.

Desde a consolidação do sistema capitalista global, o dinheiro passou a dominar as relações sociais, o poder do capital passou a definir as regras de convivência social, a selecionar amizades, definir o comportamento humano e influenciar a cultura das nações, disseminando algumas tradições e enterrando outras, usando como instrumento de mensuração os interesses monetários e financeiros, deixando de lado as tradições e os costumes dos povos, o dinheiro passou a ditar as regras em todas as regiões da sociedade global.

Podemos compreender a financeirização da sociedade, como um novo momento do sistema econômico capitalista, nesta nova organização da sociedade os valores financeiros passam a dominar todas as estruturas econômicas, produtivas, sociais e políticas, transformando tudo em mercadorias e comercializando-as em um mercado em rápida expansão e amplo desenvolvimento, com valores próprios e recursos abundantes, as relações sociais e políticas sucumbem aos valores do imediatismo do dinheiro e do lucro material, transformando todas as relações entre os indivíduos em uma relação comercial ou financeira.

O marketing como ferramenta de gestão passou a ser utilizado por todos na convivência social, os indivíduos se esmeram para se mostrar cada vez mais em evidência, para isso se utilizam das redes sociais publicando fotos e comentários variados, sempre buscando seu melhor perfil, sua melhor companhia e seu melhor sorriso, afinal nesta nova sociedade precisamos nos mostrar sempre bem-sucedidos, felizes, eficientes e produtivos, as redes sociais para isso nos prestam um serviço valoroso.

Nesta nova sociedade, as tecnologias nos mostram caminhos alternativos, antigos empregos e ocupações estão sendo substituídas por outras profissões, com isso os trabalhadores se mostram preocupados e descrentes de melhores colocações no mercado de trabalho, suas perspectivas econômicas futuras são menores e os medos aumentam de forma acelerada, gerando novos medos e preocupações sociais, patologias emocionais e desequilíbrios espirituais, aumentando as depressões, as ansiedades, os transtornos e, em muitos casos, culminando num aumento brutal do suicídio.

As relações entre os indivíduos passam por mudanças aceleradas, de um lado encontramos pessoas dispostas a novos relacionamentos, abertas a novas experiências afetivas e sentimentais, mas ao mesmo tempo, encontramos um crescimento acelerado nas fragilidades emocionais, nos medos e nas dificuldades de entregas sentimentais, com isso percebemos desequilíbrios sentimentais intensos, carências afetivas e imaturidades emocionais, gerando novas patologias que aumentam as procuras por consultórios psiquiátricos e consultas com terapeutas e profissionais da psicologia.

Algumas pessoas buscam relacionamentos para suprir suas carências afetivas e sua imaturidade emocional, querem alguém ao seu lado, se cadastram em sites de relacionamentos, frequentam ambientes aconchegantes e buscam novas experiências sentimentais e sexuais, acreditando encontrarem nestes relacionamentos a felicidade tão almejada, os prazeres sonhados e a satisfação desejada. Nesta busca constante por novos amores e prazeres, estes indivíduos acabam se degradando sentimentalmente, aumentando seus desajustes, suas frustrações e seus desequilíbrios numa busca externa marcada pela ausência de valores consistentes e sentimentos íntimos e pessoais, nesta viagem acumulam desequilíbrios e medos generalizados que acabam levando estas a se fechar evitando novas experiências, acreditando que todos os relacionamentos são iguais, que todas as pessoas são interesseiras e mesquinhas e que seu destino é permanecer sozinho, acusando Deus e seus representantes pela solidão em que vivem.

Nesta sociedade, o dinheiro ganhou relevância exagerada, seus valores centrados no imediatismo, na competição e no lucro passaram a dominar a mente e os corações das pessoas, das empresas e dos governos, tudo passa pelos valores monetários, pelos ganhos financeiros e pelos prazeres do imediatismo, com isso, perdemos os momentos de planejamento da vida, da vivência em família e dos sentimentos de construção social, aqueles mais permanentes e cotidianos. Estamos afogados em números, metas e performance, com isso, estamos nos tornando seres frios e calculistas, queremos sempre as satisfações para o agora, para o imediato e se não a alcançarmos vamos buscar em outros relacionamentos, em outros empregos, em drogas legais ou ilegais, ou seja, estamos sempre buscando outras experiências que nos deem prazeres constantes para que não tenhamos que lidar com as frustrações do cotidiano, como se as frustrações não servissem como um instrumento de maturidade e de crescimento social.

Neste cenário percebemos o surgimento de indivíduos imaturos e inseguros que querem os prazeres a todos os momentos, por isso vivem vários relacionamentos em busca de gozos e satisfações constantes, com isso percebemos indivíduos trocando de emprego todos os meses, estão descontentes e frustrados com questões que os incomodam e se esquecem que estas frustrações fazem parte da vida de todos os indivíduos e são elas que nos dão a resiliência para construirmos nossas experiências afetivas e profissionais do cotidiano. Encontramos pessoas alternando variados relacionamentos, buscando em várias pessoas os prazeres e o autoconhecimento que só pode ser encontrado quando nos deparamos como nossas características mais íntimas e pessoais.

Esta imaturidade dos indivíduos está permeando a sociedade em todas as áreas e setores, empresas geridas por gestores impulsivos e pouco capacitados que veem seus lucros crescerem no curto prazo e se utilizam de estratégias inconsistentes para o longo prazo, esquecendo de que as empresas devem ser vistas como um agente social que tem no lucro seu instrumento central, mas que não pode deixar de lado valores morais e éticos mais sólidos e consistentes para sua perpetuação no tempo e sua respeitabilidade no mercado. Nesta sociedade competitiva, os gestores estão numa busca frenética por ganhos financeiros que estão levando a uma forte degradação do meio ambiente, incrementando o ambiente com mais dióxido de carbono, poluindo os rios e os lagos e fragilizando as fontes de água potável, com isso, estamos hipotecando nosso futuro e comprometendo a vida e os sonhos de uma nova geração, precisamos nos conscientizar que somos todos responsáveis pela situação do planeta Terra.

As escolas tradicionais foram repassadas para grandes grupos financeiros, verdadeiros fundos de investimentos recheados com muitos recursos monetários, estes fundos passam a administrar estas instituições como se fossem bancos e conglomerados financeiros, deixando de lado valores educacionais tradicionais e trazendo para a gestão técnicas de redução de custos e contabilização financeira, degradando valores e enriquecendo seus acionistas e investidores, estes mesmos investimentos estão tomando conta das universidades e transformando a educação em um grande negócio econômico, com alta lucratividade e forte potencial de valorização. O grande problema destes investimentos é que a educação deve ser vista em uma sociedade não apenas como um instrumento financeiro e de mercado, algo para se conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho e ganhos profissionais, mas deve ser vista como um dos projetos mais importante dos seres humanos, esclarecedor de suas dúvidas e instrumento de conscientização de seu papel social, como agente cultural e como entidade econômica, ao restringir a educação apenas como instrumento de construção de consumidores, estamos perpetuando uma grande injustiça social, deixando de formar cidadãos conscientes e capacitados intelecto e moralmente.

A financeirização do mundo deve ser fortemente rechaçada pela sociedade contemporânea, pois seu crescimento torna os indivíduos meros autômatos integrados sem capacidade de reflexão, sem vontades e desejos próprios, sendo conduzidos como meros robôs, como máquinas dotadas de atuação técnica e sem capacidade de reflexão crítica, sem organização política, sem sentimentos altruístas e sem capacidade de construção de valores sociais de tolerância, respeito e solidariedade.

Nesta sociedade financeirizada, os agentes sociais estão se corrompendo em troca de benesses financeiras e monetárias, os intelectuais se vendem no mercado em troca de recursos para uma vivência tranquila, com isso emitem opiniões na grande mídia e legitimam seus empregadores, os homens públicos que se deixam degradar em prol de vantagens materiais, autoridades religiosas que se vendem em um mercado que, com recursos monetários, os indivíduos conseguem comprar um terreno no céu até um perdão para comportamentos agressivos e desregrados, nesta sociedade o dinheiro é o grande agente social, comprando desde intelectuais, políticos e representantes das religiões tradicionais, o mercado compra tudo e paga bem, neste mundo estamos todos a venda, quer pagar quanto?

Nas igrejas tradicionais, a entrada do dinheiro e dos valores financeiros na estrutura hierárquica acabou gerando graves desequilíbrios morais e éticos, afastando a instituição de seus valores mais tradicionais, baseados no amor, no respeito e na solidariedade. Os recursos financeiros são fundamentais para todos os agentes sociais e políticos, mas não podemos deixar de compreender que o capital deve ser sempre visto como um meio e não como um fim, todas as vezes que o enxergamos como um fim para a solução de todos os males sociais e os indivíduos se deixam levar por sua alta capacidade de sedução, os seres humanos acabam se degradando e se deixando levar pela ganância, pela ambição e pelo sectarismo.

O pragmatismo dos valores financeiros está gerando uma sociedade desprovida de solidez moral, as tradições estão sendo redesenhadas e os indivíduos estão perdendo os referenciais que os conduziam anteriormente. As famílias, as escolas e as religiões sucumbiram aos valores do imediatismo da contemporaneidade e estão sendo reconstruídas pelos valores monetários e financeiros, nesta nova sociedade o trabalho alucinante e a busca pela sobrevivência afastam ao indivíduos de suas casas e residências, deixando-os cada vez mais distante de seus familiares e de seus amores mais intensos, o mundo do trabalho ganha força e se transforma no agente central, o capital passa a comandar tudo e transformar os indivíduos em números, deixando de lado a sua individualidade.

Neste novo modelo de sociedade os indivíduos podem comprar os prazeres do sexo e, mesmo muitos não acreditando, podem comprar amor verdadeiro, muitos relacionamentos se transformam em sentimentos mais sólidos devido a uma convivência mais próxima que inicialmente foi possibilitada pela atração do dinheiro e dos bens materiais, sem eles muitos olhares e sentimentos não seriam estimulados nos chamados flertes do cotidiano, impedindo proximidades e namoros de sucesso, o dinheiro pode ser o grande diferencial no mundo do sexo e no mundo dos amores sentimentais.

Vivemos em um mundo em ampla transformação, todas estas mudanças devem ser compreendidas como o surgimento de uma nova sociedade, mais dinâmica, mais flexível, mais integrada e mais interdependente, nesta sociedade os valores morais mais sólidos e consistentes devem ser estimulados para que o poder dos recursos financeiros não passem a dominar as estruturas sociais, um mundo marcado pela tecnologia e pelos interesses do dinheiro podem levar a coletividade ao autoritarismo e a dominação das mentes e dos corações, impedindo os indivíduos de refletir e de transformar a sociedade e de construir um futuro mais solidário e consistente.

“Quando a economia é vista como ciência exata, saídas são restritas a dados numéricos”.

0

Esther Dweck não tem dúvidas: economia é ciência social aplicada. Para ela, pensar o contrário é restringir as possibilidades de análises e abrir espaços para lógicas financeiristas

Por estar alicerçada em dados matemáticos e indicadores numéricos, a economia que vivemos na atualidade parece elementarmente ser derivada das ditas ciências exatas. Por trás dessa lógica está a de que a saída é sempre pelos números, de que é sempre possível conceber uma equação que demonstre a solução para os problemas. Esta, para a professora

Esther Dweck, é uma visão estreita do campo e assumir isso é abrir espaço para um receituário neoliberal que busca curar as crises. “A economia é uma ciência social aplicada. Eu não tenho dúvidas quanto a isso”, dispara. “O objeto da teoria econômica é entender como a sociedade garante os meios materiais para sua sobrevivência e reprodução. Portanto, a economia aborda como as sociedades garantiram a produção e a distribuição desses meios materiais”, explica.

Entretanto, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, observa que desde o final do século XIX há essa tensão que puxa o campo da economia para as ciências exatas. “Naquela época, mudaram o nome da ciência de ‘Economia Política’, como era definida pelos economistas clássicos, para ‘Economics’ (em inglês) para tentar aproximar das ciências exatas. Uma das mudanças importantes desse período foi alterar a discussão de distribuição como um processo político, como visto por Smith, Ricardo e Marx, para um processo estritamente ‘econômico’”, detalha. E conclui: “a lógica passa a ser uma visão individualista, onde cada agente será remunerado de acordo com as suas capacidades”.

O que fica claro na abordagem de Dweck é que a assunção dessas perspectivas se torna terreno fértil para o emprego do que chama de “receituário neoliberal” que foi sendo imposto aos Estados. “Foram liberalização financeira, liberalização comercial, privatização, liberalização dos fluxos financeiros, desregulamentação dos mercados financeiros domésticos e uma mudança na lógica da política fiscal, que passou a ter como único objetivo, ou objetivo principal, a sustentabilidade da dívida pública”, destaca. E qual o objetivo? Para a professora, a meta é “garantir a estabilidade e o retorno esperado do capital, em consonância com abertura financeira”. Por isso, defende: “é preciso colocar no centro de um novo modelo de desenvolvimento a redução da desigualdade de renda e aumento do investimento social, ambos fundamentais para acelerar o crescimento econômico de forma mais inclusiva e ambientalmente sustentável”.

Esther Dweck é professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, possui doutorado em Economia pela UFRJ, com período-sanduíche no LEM da Scuola SantAnna, em Pisa, Itália. Entre 2011 e 2016, atuou no Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, no cargo de chefe da Assessoria Econômica e como secretária de Orçamento Federal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Até que ponto a Economia opera como ciência social aplicada, portanto voltada ao bem-estar coletivo, e a partir de que ponto ela se converte em um sistema tecnocrático de financeirização da vida?
Esther Dweck – A economia é uma ciência social aplicada. Eu não tenho dúvidas quanto a isso. O objeto da teoria econômica é entender como a sociedade garante os meios materiais para sua sobrevivência e reprodução. Portanto, a economia aborda como as sociedades garantiram a produção e a distribuição desses meios materiais.

No entanto, desde o final do século XIX, há uma tentativa de equiparar a economia às ciências exatas. Naquela época, mudaram o nome da ciência de “Economia Política”, como era definida pelos economistas clássicos, para “Economics” (em inglês) para tentar aproximar das ciências exatas. Uma das mudanças importantes desse período foi alterar a discussão de distribuição como um processo político, como visto por Smith, Ricardo e Marx , para um processo estritamente “econômico”. Nesse sentido, a lógica passa a ser uma visão individualista, onde cada agente será remunerado de acordo com as suas capacidades.

IHU On-Line – Quais foram os caminhos que levaram o debate econômico e, em certo sentido, a teoria econômica à perspectiva utilitarista como saída única?
Esther Dweck – Essa visão do final do século XIX culminou com a definição estrita da ciência econômica, por Lionel Robbins, em 1932, como: “a ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação existente entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos”. No entanto, essa visão foi questionada a partir dos acontecimentos das décadas de 1930, devido à grande depressão e com o desfecho político trágico que levou à II Guerra Mundial.

As visões alternativas sobre economia, que sempre caminharam em paralelo à teoria mais convencional, ainda que marginalizadas, ganharam espaço e contribuíram para uma mudança quanto à formulação do objeto da economia. O colapso social das décadas de 1930 e 1940 levou a um consenso dentro da economia de que o sistema capitalista não era capaz de garantir a distribuição equitativa da riqueza, nem mesmo garantir a produção de forma sustentada. Mesmo dentro de uma perspectiva mais convencional, os problemas apontados por Keynes ao final da Teoria Geral – incapacidade de garantir o pleno emprego e a tendência à concentração de renda – ganharam destaque nas proposições de política econômica depois da II Guerra Mundial.

A constituição de Estados de Bem-Estar Social e outras políticas ativas de redução das flutuações econômicas passaram a fazer parte das recomendações de muitos economistas como forma de enfrentar esses problemas. Sabemos que, enquanto essas políticas foram adotadas, o mundo passou pela chamada “Era de Ouro do Capitalismo”, com crescimento econômico e redução das desigualdades.

Rompimento

No entanto, esse consenso teórico e político foi rompido a partir da década de 1970. Como ressaltam Dardot e Laval , a partir dos governos conservadores de Reagan e Thatcher houve um questionamento sobre a regulação keynesiana macroeconômica, a propriedade pública das empresas, o sistema fiscal progressivo, a proteção social, o enquadramento do setor privado por regulamentações estritas, especialmente em matéria de direito trabalhista e representação dos assalariados – embora a primeira experiência mundial dessa nova visão tenha sido o Chile, no governo Pinochet , ainda no início dos anos 1970.

IHU On-Line – De que forma o neoliberalismo e a financeirização transformaram, ao mesmo tempo, a economia em uma ciência mais complexa – no sentido de que ninguém entende bem seus mecanismos de funcionamento – e a teoria econômica em uma ciência mais vulgar, pobre intelectualmente – no sentido de que há cada vez menos senso crítico?
Esther Dweck – As políticas que foram sendo impostas aos países a partir desse receituário neoliberal foram liberalização financeira, liberalização comercial, privatização, liberalização dos fluxos financeiros, desregulamentação dos mercados financeiros domésticos e uma mudança na lógica da política fiscal, que passou a ter como único objetivo, ou objetivo principal, a sustentabilidade da dívida pública, de forma a garantir a estabilidade e o retorno esperado do capital, em consonância com abertura financeira. Assim, a política fiscal deixa de ter como objetivo a estabilidade do crescimento e a distribuição da renda e passa a ser a fiadora do espaço de valorização do capital.

Nesse sentido, há uma mudança na correlação de forças internas a cada país, os Estados vão aos poucos perdendo a capacidade de coordenar os investimentos públicos e privados, perdem capacidade de fomentar o crescimento e a geração de emprego e há uma maior suscetibilidade das economias nacionais a crises internas e externas. A consequência, por um lado, é de uma perda de autonomia nas políticas econômicas, as economias nacionais ficam mais sujeitas às flutuações nos mercados internacionais e aumenta a complexidade na administração das economias nacionais, dos países emergentes.

Por outro lado, desde o governo Thatcher, procura-se passar a ideia de que não há alternativa econômica a essa visão, o que ficou conhecido como TINA (There is no alternative). No entanto, países como China, e mesmo outros asiáticos, demonstraram que esse caminho proposto nas décadas de 1980 e 1990 não era o único. Depois da crise asiática, em 1997, houve alguma reversão dos processos de abertura dos países asiáticos, que passaram a se proteger mais. Aqui no Brasil, a partir de 2003, aproveitamos o período de forte liquidez internacional para acumular reservas e paramos o caminho de maior abertura e integração aos países centrais. Adotamos uma estratégia mais centrada no mercado interno, por meio de políticas de redistribuição de renda, e demos um forte impulso aos investimentos públicos e à coordenação dos investimentos pelo Estado. Infelizmente, depois de 2016, mesmo com os resultados positivos dessa estratégia, voltamos a uma total submissão aos preceitos neoliberais.

IHU On-Line – De que forma a Emenda Constitucional 95, que restringe os recursos orçamentários, a reforma trabalhista e a proposta de reforma da Previdência impactam e geram restrições às políticas econômicas de Estado em diferentes níveis?
Esther Dweck – Essas três grandes reformas são um exemplo dessa nova submissão. Na realidade, são uma destruição do que ainda tínhamos de uma estrutura institucional que permitia pensar em um projeto mais inclusivo para o Brasil. Vejamos, como apresentamos no livro Economia para Poucos: Impactos Sociais da Austeridade e Alternativas para o Brasil, que organizei em conjunto com Pedro Rossi e Ana Luiza Matos de Oliveira , a EC 95/2016 é uma destruição da Constituição de 1988. A EC 95/2016 institui uma política de austeridade permanente. Ao impedir um crescimento real dos gastos primários (aqueles que incluem benefícios sociais, saúde, educação, justiça, cultura, segurança pública, entre outros), ela impõe um corte permanente em termos dos gastos por cidadão e como proporção do PIB. Além disso, é uma política recessiva, que acentua o quadro de estagnação econômica por que estamos passando.

A emenda retira o poder do congresso e da sociedade de moldar o tamanho do orçamento público e provoca um acirramento do conflito distributivo dentro do orçamento. Assim, impõe outro projeto de país, incompatível com aquele almejado pela Constituição de 1988. Da forma como está, será muito difícil cumprir o limite de gastos estipulado pela EC, mas vai permitir um projeto permanente de ajuste liberal, pois exige diversas outras reformas. Na própria emenda, já foram reduzidos os mínimos constitucionais de saúde e educação. Isso já está causando uma redução do financiamento da atenção básica, com consequências trágicas, como o aumento da mortalidade infantil e materna.

No livro, os diversos artigos apresentam os resultados desastrosos que já estão ocorrendo e os que ainda vão acontecer nas mais diversas áreas. Dentre as reformas impostas pela EC 95, a reforma da Previdência foi a que veio na sequência. A proposta de reforma apresentada pelo governo Bolsonaro, assim como a de Temer, com o discurso falacioso de corte dos privilégios, na verdade é um ataque ao regime solidário e de repartição atual brasileiro. O Regime de Previdência Social brasileiro é um dos importantes instrumentos de transferências sociais e quase 70% dos benefícios se concentram em um salário mínimo. Ao aumentar o tempo mínimo de contribuição, alterar as regras da aposentadoria rural e mudar o critério para o direito Benefício de Prestação Continuada – BPC, a proposta atinge os mais pobres e desmonta um importante colchão de prevenção de crise social no Brasil.

Finalmente, a reforma trabalhista procura retirar todo o poder de barganha dos trabalhadores, ao procurar igualar o mercado formal ao informal. Isso acaba desprotegendo os trabalhadores e beneficiando os patrões.

IHU On-Line – Quais são as consequências sociais do aprofundamento das políticas neoliberais? O que a experiência em outros países tem a nos ensinar?
Esther Dweck – O resultado é muito claro e já estamos vendo no Brasil. Assim como ocorreu em outras partes do mundo, principalmente após 2010, essas políticas levam à recessão econômica e ao caos social. Na Europa e nos Estados Unidos, depois do retorno às políticas de austeridade em 2010, diversos trabalhos têm apontado como isso gerou três resultados claros: 1) a recuperação mais lenta de uma crise econômica na história; 2) um forte aumento da desigualdade com piora de diversos indicadores sociais; 3) piora nos resultados fiscais, o que vem sendo chamado de ajuste fiscal autodestrutivo, ou seja, o ajuste fiscal acaba contribuindo para uma recuperação lenta ou para uma acentuação da crise e isso reduz ainda mais a arrecadação tributária. Como sabemos, esses resultados estão presentes no Brasil, portanto essas políticas trazem impactos negativos nas três esferas: econômica, social e fiscal.

IHU On-Line – Como superar a recessão econômica sem cair em um desenvolvimentismo, não raro assassino e ambientalmente devastador? Qual nossa perspectiva de futuro?
Esther Dweck – Na conclusão do livro que mencionei acima, apresentamos um esboço de um projeto social de desenvolvimento econômico sustentável. Em um livro lançado recentemente pela Cepal , Alternativas para o desenvolvimento brasileiro: Novos horizontes para a mudança estrutural com igualdade , há um conjunto de textos que apontam nessa direção. O meu texto com o Pedro Rossi nesse livro, “Políticas sociais, distribuição, crescimento e mudança estrutural”, avança na ideia que desenvolvemos antes. Nesse texto apontamos que é preciso colocar no centro de um novo modelo de desenvolvimento a redução da desigualdade de renda e aumento do investimento social, ambos fundamentais para acelerar o crescimento econômico de forma mais inclusiva e ambientalmente sustentável.

A lógica que queremos demonstrar é que esse é um projeto que não apenas garante maior justiça social e reparação histórica à enorme desigualdade brasileira, como também tem enorme potencial de dinamizar a economia dada a enorme concentração de renda e a carência de infraestrutura social. Nesse sentido, há um potencial de décadas de investimentos sociais a serem executados para que possamos atingir níveis adequados, e há um longo caminho redistributivo para que os níveis de desigualdade sejam aceitáveis.

Enfim, é cada vez mais importante repensar o modelo de desenvolvimento e deixar de lado a falsa dicotomia entre a questão social e ambiental e a questão econômica se quisermos garantir de fato uma mudança estrutural com igualdade. Nesse livro também tem um texto da Camila Gramkow muito interessante sobre a questão ambiental: “De obstáculo a motor do desenvolvimento econômico: o papel da agenda climática no desenvolvimento”, que eu acho que vale a pena como forma de repensar o papel da agenda ambiental no Brasil.

IHU On-Line – O papa Francisco vem defendendo a constituição de uma nova lógica econômica, concebendo uma “economia que não mata”. Como a senhora apreende essas críticas de Bergoglio ao atual sistema econômico? E qual a viabilidade, do ponto de vista do campo econômico, da implementação de uma economia eticamente responsável, como proposto por ele nos debates que devem ocorrer em Assis no ano que vem? 
Esther Dweck – Acho que há diversos economistas dispostos a se engajar nessa agenda de “estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda”. Infelizmente, não é por onde têm caminhado as políticas econômicas adotadas pelos dirigentes das principais economias mundiais, mas há sim diversos economistas dispostos a repensar a economia. Acho que a iniciativa do Institute for New Economic Thinking – INET é uma dessas aberturas para tentarmos repensar a forma de ensinar e praticar economia.

Caso contrário, continuaremos nessa trajetória de um mundo cada vez mais polarizado, com as desigualdades crescentes e incapaz de garantir o mínimo para sobrevivência para grande parte da população. A consequência desse descaso por parte das autoridades, como podemos ver no Brasil, é um aumento da violência e o fim de qualquer empatia entre as pessoas. O fato de que muitos acham normal o Estado estar autorizado a fazer uma verdadeira guerra aos jovens negros e pobres brasileiros é um sintoma de que a nossa sociedade está doente.

IHU On-Line – Quais são os desafios para construir uma economia eticamente responsável, capaz de defender de forma irrestrita as vidas humana, animal e do meio ambiente?
Esther Dweck – Existem muitos grupos interessados no avanço do projeto neoliberal Brasil, um projeto que acaba com os mecanismos de proteção social e de redistribuição de renda. Não é à toa que as elites brasileiras se uniram em torno de um projeto de destruição do tecido social, de venda dos ativos nacionais, perda de soberania e ambientalmente irresponsável. Infelizmente, ainda não há uma consciência por grande parte da população dos efeitos dessa política sobre a vida da grande maioria da população e esses grupos estão conseguindo garantir o seu projeto de uma economia para poucos, para muito poucos.

 

 

“Bolsonarismo é uma ideologia de classe média americanizada, ressentida”

0

Historiadora Armelle Enders comenta os ataques de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes à primeira-dama francesa e descontrói FHC

A historiadora francesa Armelle Enders é apaixonada pelo Brasil, país que visita e estuda há mais de 30 anos. Nesta entrevista a Carta Capital, ela comenta o episódio dos ataques grosseiros desferidos por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes à primeira-dama francesa, Brigitte Macron. rvmarta olny fans “O bolsonarismo é uma ideologia de classe média americanizada, ressentida. E tem também a personalidade do Macron, um homem culto, o que para o bolsonarismo é uma coisa que instiga a homofobia deles. Cultura é vista como uma coisa feminina, desprezível, de homossexual”. A historiadora desconstrói ainda a personagem de Fernando Henrique Cardoso, “que goza de uma reputação de esquerda esclarecida entre franceses de sua geração, mas é, na realidade, um coronel da política brasileira que faz em Paris análises totalmente equivocadas sobre a realidade do País”. Professora titular de História Contemporânea na Universidade Paris 8 e pesquisadora do Institut d’Histoire du Temps Présent, Armelle Enders publicou, entre outros livros, A História do Rio de Janeiro (Editora Gryphus) e Histoire du Brésil (Chandeigne), que acaba de ganhar a terceira edição, atualizada com a eleição de Bolsonaro.Carta Capital: Em janeiro deste ano, em Paris, FHC disse que não houve golpe de Estado, as instituições no Brasil funcionavam normalmente e a eleição de Bolsonaro foi a expressão da rejeição da corrupção e da violência.

Armelle Enders: Acho que há um divórcio entre a imagem que o FHC tem na França, por causa das relações que ele tem de amizade com uma certa inteligência francesa da geração dele, e a realidade. Ele tem uma imagem de esquerda esclarecida, esquerda moderna, e na realidade é um coronel da política brasileira. Como historiadora, vejo como uma coisa típica que havia na Primeira República: políticos que tinham posições públicas progressistas e, na verdade, no reduto eleitoral de poder deles, eram muito atrasados, oligarcas tradicionais. A análise dele é equivocada. É a versão do PSDB, surgida antes da campanha de 2014, de que o “lulopetismo era um sistema para se perpetuar no poder”. A propaganda foi massiva e espalhou-se. Pode-se contestar o PT, num contexto democrático isso faz parte da luta política. Mas, com o golpe, a situação política no País virou uma construção diabólica, de destruição do Estado.

CC: Uma construção diabólica?

AE: O PT foi acusado de se corromper para manter um projeto autoritário de poder. Foi isso o que os brasileiros teriam rejeitado. A afirmação de FHC é a consagração dessa lógica, que se desenvolveu num contexto de eleições, mas virou verdade para muita gente. Acabou por abalar as consciências. Outro argumento foi usado no pleito de 2018: o PT e Bolsonaro são dois extremos. Então, ambos devem ser rejeitados. Esses dois temas são desdobramento do contexto eleitoral, mas totalmente equivocados.

CC: O escritor chileno Ariel Dorfman afirmou recentemente: “O Brasil continua de costas para seu passado. A impunidade das Forças Armadas brasileiras abriu o caminho para Bolsonaro ser presidente e dizer as barbaridades que pronuncia diariamente”. Concorda?

AE: Na verdade, esse conflito nasce da correlação de forças no final da ditadura. A extrema-direita militar e civil negociou uma transição pretensamente democrática feita por cima, um acordão. O poder estava do lado dos militares, o que estava em jogo era a anistia. Foi preciso escolher: ou a ditadura persiste ou se processa os militares. O preço foi uma anistia negociada, sem punição. O problema sempre surge em função dos militares.

CC: Por que não se revogou a Lei da Anistia, como Néstor Kirchner fez na Argentina?

AE: Essa correlação de poder se manteve. A Comissão Nacional da Verdade desfez o pacto da Anistia, mas sem julgar os torturadores e responsáveis por crimes contra a humanidade.

CC: E essa série de incidentes degradantes e ridículos protagonizada por Bolsonaro, Guedes e outros em relação à França? Houve ofensas à mulher do presidente Macron que envergonham qualquer brasileiro decente.

AE: Analiso em dois níveis. Primeiro, o nível político, da relação do Brasil de Bolsonaro com o governo americano e Trump. Houve atritos entre Trump e o presidente Macron. Logo em seguida, começaram os atritos do Bolsonaro com Macron, o alinhamento era evidente. Foi também uma maneira de Bolsonaro agitar a bandeira da soberania diante das velhas potências europeias. Há ainda um componente cultural. A representação da Europa, e particularmente da França, é o contrário da ideologia dos bolsonaristas. A França é representada pela cultura, sofisticação de uma certa elite brasileira tradicional. O bolsonarismo é uma ideologia de classe média americanizada, ressentida. E tem também a personalidade do Macron, um homem culto, o que para o bolsonarismo é algo que instiga a homofobia. Cultura é vista como uma coisa feminina, desprezível, de homossexual. Macron valoriza a cultura, não é o estilo varonil do russo Vladimir Putin. O casal que ele forma com Brigitte, uma mulher culta e mais velha, representa tudo o que eles odeiam.

CC: Bolsonaro não esconde o interesse de se apropriar das terras indígenas para favorecer o agronegócio e explorar as riquezas do subsolo. Como a comunidade internacional pode ajudar a proteger a biodiversidade da Amazônia, mas também a proteger essas populações?

AE: Políticos populistas, como Trump, Netanyahu ou Putin, desrespeitam totalmente as instituições internacionais. Imagino que Bolsonaro fará a mesma coisa. As ONGs sofrem perseguição do governo brasileiro, e há ainda os consumidores do mundo. O que pode alterar a situação do Brasil da era Bolsonaro são os interesses econômicos. Mas não é fácil, porque muitas empresas multinacionais lucram com o bolsonarismo.

CC: Em artigo publicado no Le Monde, o filósofo Alain Badiou sustentou que o capitalismo é o responsável pela destruição do planeta. E propôs: “Que não exista propriedade privada do que deve ser comum, a saber a produção de tudo o que é necessário à vida”.

AE: Na verdade, a única alternativa que tivemos ao capitalismo foi a União Soviética, que em relação ao meio ambiente também não foi exemplar. É uma crise não só do capitalismo, mas da civilização, do que era a social-democracia. Não acredito também na economia administrada ou num Estado todo-poderoso, que pode acabar sendo predador.

CC: Qual seria a solução?

AE: É uma questão de consentimento das populações. Uma grande parcela apoia a predação. É difícil resolver.

CC: Será resolvido somente quando todos perceberem que estamos à beira do precipício?

AE: Já estamos. Aparentemente, há uma consciência mais nítida do que muitos anos atrás. O Brasil tem uma coisa mais forte, uma tradição escravocrata, que vem da época colonial. E o Bolsonaro refere-se a isso no imaginário da conquista do Oeste. Existe a ideia de que o território do Brasil é infinito. Pode-se explorar as terras à vontade, com permissividade absoluta.

 

Literatura Espírita e as memórias dos mundos espirituais

0

Uma das obras mais interessantes da Doutrina dos Espíritos, escrita pela médium carioca Yvonne do Amaral Pereira Memórias de um suicida, nos traz inúmeros elementos para reflexão e compreensão da alma humana, um livro magistral que acredito deva estar em um lugar de destaque na literatura espírita, uma obra memorável, sem dúvida um dos dez melhores livros desta corrente que une filosofia, religião e ciência.

O livro nos mostra como os seres humanos que tiraram suas vidas passam por dificuldades das mais severas possíveis quando chegam ao mundo dos espíritos, mostra-nos em detalhes o sofrimento humano, as dores e os medos que acompanham estes irmãos desencarnados, suas trajetórias e comportamentos, suas dúvidas e remorsos, seus questionamentos e o reconhecimento de quanto se esquivaram dos conhecimentos íntimos e pessoais, embora a obra retrate a experiência de um grupo de cinco pessoas que fizeram da adversidade um elemento de união e de aproximação, unindo tramas e enxugando, uns dos outros, as lágrimas que teimavam em inundar suas faces assustadas e conscientes dos erros cometidos.

Na obra percebemos que nos unimos de acordo com nossos sentimentos e energias, quando pensamos, quando vibramos e quando falamos, atraímos as energias que dialogam com nossos pensamentos e vibrações, estas energias nos acompanham enquanto nossos pensamentos estiverem vinculados mais intimamente. Os personagens do livro se encontraram em momentos de adversidades e medos, todos assustados e buscando respostas para tudo que sentiam, as dores eram imensas, o cheiro era tenebroso e as vibrações eram agressivas e violentas, o ambiente era de grande apreensão, mas só poderiam sair deste local se conseguissem vencer seus medos e orassem, deixassem de lado o orgulho e a arrogância, pedindo auxílio e proteção, ao fazê-los seriam atendidos por grupos socorristas do mundo espiritual que atuavam nestas imediações.

A obra nos leva a conhecer o Instituto Maria de Nazaré, instituição criada e mantida pela mãe de Jesus Cristo, esta casa poderia ser descrita como um espaço de recolhimento e auxílio para todos os indivíduos que tivessem atentado contra suas próprias vidas, espíritos desesperados e pobres de sentimentos edificantes, espíritos doentes e necessitados de um intenso apoio e compreensão. A administração da casa era altamente capacitada tanto intelectualmente quanto moralmente, com espíritos dotados de grande sensibilidade e carisma, cujos conhecimentos eram de grande valia para os atendimentos a irmãos em situação degradante e vexatória.

O Memórias de um suicida nos mostra como somos observados pelos irmãos de planos superiores, num determinado momento do relato, um dos personagens da obra pergunta aos gestores do Instituto, por que deles terem ficado tanto tempo nos pântanos do mundo espiritual?  Na resposta o amigo espiritual destaca que estes irmãos sempre estiveram sendo observados pelos trabalhadores do Instituto, estes apenas não receberam permissão para socorrê-los já que para isso estes irmãos em desespero precisariam vencer suas vaidades pessoais e buscar o auxílio de Deus e dos amigos espirituais.

Um dos maiores dramas que acometem estes irmãos suicidas é o remorso, a atitude insana destes indivíduos causou graves constrangimentos para seus familiares e amigos mais próximos, todos são afetados por este gesto agressivo e violento cometido num instante de irracionalidade que vai impactar em suas trajetórias durante muitos anos, séculos ou milênios. As lembranças dos familiares, suas dificuldades materiais e seus desequilíbrios emocionais e espirituais causam graves dores aos irmãos suicidas, que constantemente se veem chorando com lembranças amargas e desagradáveis, o remorso os corrói intimamente, uma dor insana que aumenta o arrependimento e os vincula cada vez mais aos rumos daqueles que permaneceram encarnados no mundo material.

Na obra percebemos o quanto a junção do conhecimento com os valores morais e religiosos transformam os seres humanos, nas reflexões todos os internados percebem quanto perderam tempo com mediocridades e coisas secundárias, deixando de lado valores mais sólidos e consistentes. Os personagens do livro são todos descritos como homens inteligentes e dotados de amplos conhecimentos científicos, todos viveram em condições de grandes prazeres materiais, acumularam recursos financeiros e se deixaram levar pelo personalismo, pela vaidade e pelo orgulho, energias e sentimentos que nos acompanham e nos trazem constrangimentos dos mais severos e imediatos.

Embora inteligentes e conhecedores das mais variadas ciências do mundo, cada um retornou ao mundo espiritual vitimado por suas fraquezas mais intensas, um escritor reconhecido mundialmente sucumbiu à cegueira, um professor respeitado se suicidou em decorrência de uma moléstia física, um comerciante tirou sua vida depois de se ver na miséria e na falência material, outro personagem se deixou levar pelo ciúmes da esposa, matando-a e depois se suicidando, cada um vitimado por dores intensas que acometiam suas almas, orgulhos generalizados e uma ausência dos valores espirituais mais verdadeiros.

O livro nos mostra que todos os personagens tomaram a triste decisão de suicídio porque acreditavam que conseguiriam, com este ato, fugir de seus dramas pessoais, o medo e o orgulho superaram todos as outras dificuldades e os levaram a acreditar que a morte era o verdadeiro fim. Quando acordaram em regiões tenebrosas (umbral) e perceberam que a morte não existe e os dramas que viviam eram verdadeiros e intensos, se desesperaram e viram seus desequilíbrios e suas dificuldades aumentarem de forma exponencial.

Os seres humanos muitas vezes se entregam aos conhecimentos, estudam e aprendem sobre várias ciências, absorvem conhecimentos científicos e tecnológicos de suma importância e passam a acreditar que, com estes conhecimentos, estão em condições melhores e superiores aos outros indivíduos, constroem intimamente ideias e teorias de que estes conhecimentos os tornam melhores e mais importantes, são irmãos doentes que se esquecem que os conhecimentos sem os valores morais os indivíduos regridem e perdem oportunidades sublimes para seu crescimento e desenvolvimento espiritual.

Os personagens retratados na obra são indivíduos inteligentes e dotados de grandes conhecimentos científicos, são intelectuais que não deixaram o conhecimento os transformarem enquanto seres humanos, se deixaram levar pela arrogância e pelo orgulho e se esqueceram dos verdadeiros valores que nos foram trazidos pelo mestre de Nazaré. Camilo Cândido Botelho e Belarmino de Queiroz eram os mais capacitados intelectualmente, o primeiro um dos mais importantes escritores lusitanos de todos os tempos enquanto o outro era um renomado professor de Ética, de Dialética e de Matemática, ambos geniais nos conhecimentos materiais, mas verdadeiros leigos e ignorantes quando o assunto era o espírito, a imortalidade da alma e a inexistência da morte.

Nos momentos que passaram no Instituto Maria de Nazaré, assistiram palestras, fizeram visitas a enfermos, participaram de missões e tiveram a oportunidade de aprender lições das mais valiosas, conseguindo visualizar seus equívocos, conheceram os conhecimentos da terceira revelação, assistiram suas vidas anteriores e seus mais severos desatinos e puderam escolher os momentos para seus retornos ao mundo material, tendo a consciência de que seus gestos tresloucados os fariam passar por privações física ou emocional que contribuiriam para seus resgates e crescimento moral. Em todos estes momentos de lembranças, as emoções os dominavam de forma acelerada, as imagens pregressas eram agressivas, os medos vinham à tona e geravam grandes desatinos, todos passaram a conhecer suas desditas e percebiam, com isso, que a única forma de se libertar dos desajustes cometidos em vidas anteriores eram o retorno ao mundo material, a reencarnação era o remédio indicado para todos os irmãos, mas a forma como reencarnariam assustava a todos indistintamente.

A literatura espírita nos mostra que a vida verdadeira se dá no mundo espiritual, quando a ele retornamos somos energeticamente atraídos pelas energias que mais se sintonizam com nossos valores, comportamentos e sentimentos, se nos utilizamos mal dos recursos que nos foram dados pela espiritualidade maior somos atraídos a locais semelhantes e permaneceremos ali o tempo necessário para que consigamos vencer nossas dificuldades e limitações, agora se nos comportamos melhor e acordarmos em locais de assistência e tratamento espirituais, devemos nos recuperar e iniciar tratativas para novos trabalhos, estudos e reflexões, conversas edificantes com mentores espirituais, aprendizados com experiências pregressas de outros irmãos espirituais, sempre buscando a evolução, sempre aprendendo, sempre nos aperfeiçoando e estudando as leis que regem a sociedade e a vida, tudo isto contribui para nosso progresso espiritual.

Muitos irmãos acreditam que quando morrerem vão poder descansar ou que ao morrer passam desta para uma melhor, afirmam isto com uma naturalidade e muitas vezes não refletem para perceber o significado de suas palavras e expressões. A vida no mundo espiritual pulsa com grande impulso, somos trabalhadores e devemos trabalhar intensamente enquanto Deus nos conceder a oportunidade do labor, este sim nos auxilia e nos leva a auxiliar todos os indivíduos que sofrem e mourejam em lágrimas de tristezas e dores alucinantes, são irmãos que necessitam deste abraço amigo, do consolo desinteressado e de valores morais sólidos e estruturados, o trabalho é fonte de progresso e de maturidade espiritual.

O Instituto Maria de Nazaré nos mostra como a organização é fundamental, como o respeito e o trabalho digno nos sinaliza os passos do progresso, encontramos neste instituto trabalhadores devotados nas mais variadas áreas e setores, desde os responsáveis pela vigilância, os lanceiros, os enfermeiros, os médicos, os assistentes, os diretores, dentre outros, todos seguindo as regras e os ensinamentos da grande educadora Maria de Nazaré. Da leitura de Memórias de um suicida, percebemos o quanto a ciência terrena ainda se encontra distante da ciência do mundo espiritual, carros velozes e máquinas sofisticadas são apresentadas e nos mostram o poder do conhecimento sendo utilizado para o bem comum e para o progresso de todos, desde os mais sábios até os mais ignorantes.

A obra quando de seu lançamento foi considerada muito agressiva pelos leitores, assim como o livro Nosso Lar, de Francisco Cândido Xavier, ditado pelo espírito de André Luiz, ambos abordavam o mundo espiritual e analisavam de forma direta ou indireta os sofrimentos e as dores de cada um dos irmãos que se deixaram levar pelo suicídio, direto ou indireto, um gesto tresloucado e agressivo que o indivíduo comete contra as Leis de Deus, estas são obras essenciais e de grande relevância que nos auxiliam na compreensão das dores que acometem os seres humanos.

A literatura espírita é muito rica em obras que analisam o mundo espiritual, a imortalidade da alma, a reencarnação, as dores e os sentimentos, as energias e as vibrações, a leitura destas obras nos auxilia e nos prepara para a compreensão das Leis de Deus, estes livros são estudados tanto no mundo material quanto no espiritual, são conhecimentos que nos aproximam dos valores universais mais edificantes, num momento de grandes inquietações, transformações radicais e medos generalizados nada melhor que nos prepararmos para o um futuro mais promissor e verdadeiro, seguindo a máxima estude Kardec para entender Jesus.

‘É mentira que o Brasil vai quebrar se não fizer as reformas”, afirma Pedro Rossi

0

Em entrevista ao Brasil de Fato, economista disse que o país precisa é de reformas na institucionalidade macroeconômica

“Nenhum economista deveria falar algo tão absurdo, porque o Brasil é um país soberano, emite a sua própria moeda, ele tem dívidas na sua própria moeda, e o país não vai quebrar. O Estado administra os recursos da sociedade e pode organizar esses recursos da maneira que ele quer, assim como o Estado pode se endividar muito mais que uma família”. Esse foi o eixo central da fala do economista e professor da

Unicamp Pedro Rossi no Seminário As reformas DESestruturantes do Estado de Bem-Estar Social, realizado pelo Instituto Justiça Fiscal (IJF), com apoio da Anfip e Fenafisco, dias 15 e 16 de agosto, em Porto Alegre.

Nesta entrevista exclusiva para o Brasil de Fato, Pedro Rossi fala sobre o seu estudo que aponta que o diagnóstico sobre a crise brasileira está errado e o remédio inadequado. Ele defende que o desequilíbrio fiscal não é culpa do gasto público, e sim do tripé macroeconômico dos últimos 20 anos que fracassou. “O que o Brasil precisa é de reformas na institucionalidade macroeconômica.”

Pedro Rossi é professor do Instituto de Economia da Unicamp, trabalha com os aspectos macroeconômicos do desenvolvimento brasileiro, com os impactos sociais da política fiscal e com o tema da taxa de câmbio e da política cambial. Formado em economia na UFRJ, com mestrado e doutorado na Unicamp, é pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON) da Unicamp e coordenador do conselho editorial do Brasil Debate. É autor do livro “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil” e co-organizador do livro “Economia para poucos: impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil”.

Brasil de Fato RS – Em palestra recente em Porto Alegre falastes que o problema do Estado e da crise fiscal não seria o gasto público, mas que vem de uma política macroeconômica, como tu explica isso?

Pedro Rossi – Justamente, o problema fiscal brasileiro não vem do gasto público, não vem da previdência social, ele vem de outros determinantes. Isso é importante por quê? Porque essas reformas propostas usam como base um diagnóstico de que o problema brasileiro fiscal vem do gasto público, vem da previdência social que tem um espaço grande dentro do gasto público. Eu estou querendo mostrar com esse trabalho que há outros determinantes para evolução da dívida pública que não o gasto público, em particular o arranjo macroeconômico, ou seja, o chamado tripé macroeconômico.

BdFRS: O que é o tripé macroeconômico?

Pedro – O tripé macroeconômico está completando 20 anos. Ele foi instituído em 1999, depois da primeira fase do Plano Real que instituiu um regime de câmbio rígido no Brasil. O Plano Real controlou a inflação, teve esse êxito, esse mérito. Em 1999 tivemos uma crise cambial e a gente migrou para um regime macroeconômico que tem três partes, chamado de tripé: que é um regime de metas de inflação, um regime fiscal de metas de superávit primário, que recentemente foi agregada a meta do teto de gastos, e o regime de câmbio flutuante. Esses três regimes são geralmente muito comemorados no sentido de que eles dão estabilidade para o Brasil, mas eles não dão estabilidade ao Brasil.

E se a gente olhar para o resto do mundo, ou seja, fazer uma análise internacional, a gente vai ver que no Brasil nesses últimos 20 anos nós estamos na liderança de taxas de juros reais. Nós temos um patamar de inflação que não explica a nossa taxa de juros alta perto de outros países. Então nós fizemos um estudo e pegamos mais de 80 países, comparamos nos últimos 20 anos para verificar que o Brasil é fora da curva, a taxa de juros brasileira é fora da curva e não é a dívida pública que explica a taxa de juros. Se a gente pegar o serviço da dívida sobre e comparar com países que tem dívida pública mais ou menos igual a nossa, vemos que esses países pagam um serviço muito menor que o nosso. Ou seja, tem alguma coisa errada com o regime macroeconômico. Um patamar com a taxa de juros e também com a taxa de câmbio brasileira que é muito volátil, o real está sempre flutuando muito em relação ao dólar, muito mais que outras moedas. Nós também fizemos combinações internacionais e verificamos que sim, o real é campeão de volatilidade, isso dá problema, isso rebate no problema fiscal. Uma taxa de juros alta faz o Estado pagar muito pela sua dívida – problema fiscal, uma taxa de câmbio muito volátil faz o Estado usar a sua política cambial para tentar atenuar essa volatilidade, reservas cambiais que refletem com o pagamento de juros, que por sua vez são altos no Brasil.

Ou seja, as outras pernas do tripé contaminam o equilíbrio fiscal, e aí faz com que não conseguimos estabilizar a dívida pública. E por fim, nós fizemos um estudo e mostramos que os condicionantes da evolução da dívida pública no Brasil não são aqueles que geralmente são apontados, não é o gasto público. O que determina a evolução da dívida pública? É o crescimento econômico, se o crescimento for baixo a dívida tende a subir porque a relação dívida/PIB que é o determinante nesse indicador, e a taxa de juros, que geralmente puxa a dívida pública para cima.

O que aconteceu no Brasil recentemente? A gente vem pagando, principalmente em 2015/2016 um serviço da dívida maior e o crescimento tem contribuído muito menos para redução da dívida pública.

A dívida pública cresceu no Brasil recentemente não foi por causa do excesso de gastos sociais ou aposentadorias, foi principalmente por causa da queda do crescimento econômico e por causa de altos pagamentos de juros, em particular nos anos 2015/2016. Essa história que a culpa de tudo é do excesso de gastos é uma história falsa, para vender uma solução, que é uma solução que interessa a poucos. A história que o Brasil quebrou, que o Brasil vai quebrar, é mentira. Nenhum economista deveria falar algo tão absurdo, porque o Brasil é um país soberano, emite a sua própria moeda, ele tem dívidas na sua própria moeda, e o país não vai quebrar. O Estado administra os recursos da sociedade e pode organizar esses recursos da maneira que ele quer, assim como o Estado pode se endividar muito mais que uma família.

O Brasil quebrou na década de 1980 porque a gente devia em uma moeda estrangeira, a gente não emite dólar, o Estado brasileiro não organiza os recursos em dólar porque a sociedade brasileira trabalha com recursos na sua própria moeda. Então na década de 1980 nós quebramos porque a gente devida em moeda estrangeira. Fomos até o Fundo Monetário Internacional (FMI), pedimos dinheiro emprestado, o FMI veio, emprestou o dinheiro, isso no final da ditadura militar, fizemos uma moratória, nós atendemos as condicionalidades do FMI, fizemos o que eles queriam, preparamos nossa economia para conseguir dólar para poder pagar a dívida.

Cadê o FMI nesse momento? Não tem, porque a gente não precisa de empréstimos do FMI. Somos credores em dólar, nossa dívida não é em dólar, portanto nós não vamos quebrar, nossa dívida é em moeda nacional. Então é mentira a afirmação que diz que acabou o dinheiro, ou que o país vai quebrar. O governo tem dinheiro, ele organiza os recursos da sociedade, e o governo pode muito bem sim, fazer valer as aposentadorias, fazer valer o gasto social, o gasto com as universidades e organizando os recursos da sociedade. Taxando os mais ricos, eventualmente emitindo mais títulos nos momentos difíceis de crise. Ao recuperar o crescimento econômico ele pode estabilizar a sua dívida.

Então, essa retórica de que a culpa de tudo é do gasto público é uma retórica falsa. No fundo o Brasil tem problemas estruturais que estão por trás do sistema, que esses sim, são os verdadeiros problemas, por exemplo, uma taxa de juros estruturalmente alta, uma taxa de câmbio muito volátil, toda articulação que está por trás do tripé macroeconômico. Nós precisamos resolver esses problemas, são reformas realmente necessárias, porque o tamanho do Estado é a sociedade que define de acordo com os serviços que ela quer, e com os serviços que ela quer financiar coletivamente. Então é uma decisão da sociedade se organizar coletivamente e dizer: eu quero financiar saúde para todos, quero financiar educação para todos, eventualmente tem mais coisas, eu quero cultura, eu quero passe livre, e a sociedade discute democraticamente. Agora, dizer que o Estado não tem dinheiro é negar o processo democrático, porque o Estado tem dinheiro, o Estado organiza o dinheiro da sociedade.

A culpa não é do gasto público, ele está sendo demonizado para servir a interesses, se servir de diagnóstico para essas reformas que estão sendo implementadas, que cortam os gastos sociais e que cortam as aposentadorias.

BdFRS: E a que interesses servem essas versões mentirosas?

Pedro – Toda política fiscal influencia no processo distributivo e nas classes sociai. A política fiscal é de quem eu vou taxar, para quem eu vou gastar. Então se o Estado faz um gasto social ele está atendendo a demanda de uma parte da sociedade não de outra. Quando eu gasto com saúde no SUS eu estou atendendo a milhões de brasileiros de uma classe mais baixa; quando eu gasto com educação superior, são outros brasileiros que estão sendo atendidos. Assim que como eu tributo, estou tributando de um mais do que de outro. Então há interesses na sociedade brasileira que querem reduzir o papel do Estado no sentido do gasto público e no sentido, também, da sua tributação, no seu financiamento. São interesses que eu diria mesquinhos, de pessoas que não querem financiar o bem estar do outro, mesmo que esse outro seja um pobre, mesmo que esse outro seja um miserável, mesmo que esse outro não tenha acesso aos serviços básicos, e interesses maiores de setores econômicos que querem ocupar espaços que hoje o Estado ocupa. Hoje o Estado tem um papel fundamental no ensino superior, mas existem empresas privadas do ensino superior que querem ocupar esse espaço. A mesma coisa no sistema de saúde, existem planos de saúde que querem ocupar esse espaço, mesma coisa no sistema de educação básica, e por aí vai.

De certa maneira os serviços públicos concorrem com os serviços privados. Então esses serviços públicos estão interferindo em esferas de lucratividade do setor privado. Então há sim interesses maiores no sentido da redução do tamanho do Estado, da privatização dos seus serviços, que são interesses empresariais de grandes grupos econômicos.

BdFRS – E quais seriam, na tua opinião, as reformas estruturantes para garantir um Estado de bem-estar social? 

Pedro – Na minha opinião, primeiro, a gente precisa de planos emergências de emprego e renda para recuperar o emprego no Brasil e recuperar renda, e isso implica em gastos públicos, isso implica em acabar com o teto de gastos (a Emenda Constitucional 95 que congela o gasto público por 20 anos). Então a gente precisa reformar o regime fiscal para retomar a liberdade do Estado em influenciar no ciclo econômico, precisamos mexer nisso.

E a gente precisa regulamentar o setor financeiro, reduzir a volatilidade cambial, isso vai exigir menos da política monetária no sentido de juros altos, porque hoje, se o Banco Central baixa muito os juros, o capital estrangeiro vai para fora, a taxa de câmbio se desvaloriza e isso gera inflação, o que é ruim para todo mundo, inclusive para o próprio governo.

Agora, a gente precisa regulamentar o sistema para ter menos especulação no país. O Brasil virou um lugar onde os rentistas e os especuladores têm grandes ganhos. E um mundo onde as taxas de juros estão rastejando próximas de zero. O Brasil é um país extremamente aberto ao rentismo internacional e à especulação. Então nós precisamos reformar sim a conta financeira, aplicar controles de capital, regulamentar o mercado derivativo, que é um locus dessa especulação, e precisamos de um Banco Central que não atue somente na relação com os bancos, mas que melhore a qualidade da dívida pública brasileira, a qualidade da dívida pública é muito ruim. Além dos juros ser altos, o Banco Central oferece títulos com alta liquidez e pós-fixado, ou seja, são títulos sem riscos de preço. Isso é uma característica específica do Brasil, a maioria dos países tem um percentual muito menor dos chamados títulos pós-fixados. No Brasil não, uma grande parte da dívida pública é pós-fixado, ou seja, é imune aos riscos de flutuação de preços.

As reformas que a gente precisa é para evitar que a economia brasileira sofra choques cambiais para desmobilizar aquilo que vai gerando inflação no Brasil, por exemplo, a indexação da economia, os contratos de aluguéis, outros contratos que pegam a inflação passada, jogam para o futuro. Aí sim a gente vai conseguir jogar nossas taxas de juros mais para baixo. Isso abre espaço fiscal e também uma discussão que precisávamos ter, e que o Instituto Justiça Fiscal faz muito bem, é pensar o que nós queremos financiar para o nosso estado de bem-estar social e de que maneira vamos financiar, com uma carga tributária, solidária, mais justa, porque o país hoje não tem justiça fiscal.

BdFRS – Esse é outro mito, que se paga muito imposto no Brasil. Quem paga muito imposto no Brasil?

Pedro – Tem um dado que mostra que os 10% mais pobres pagam em torno de metade de sua renda de imposto, os 10% mais ricos pagam em torno de 26%. Por que isso? Porque boa parte da carga tributária está sobre bens e serviços. Então as pessoas mais pobres pagam sobre esses bens o mesmo preço que uma pessoa mais rica, e proporcionalmente a sua renda é muito mais. O imposto de renda e de propriedade e o imposto sobre a riqueza é muito baixo no Brasil, e sobre a distribuição dos lucros do capital, dos lucros do dividendo, ou seja, a rentabilidade do capital é pouco taxada. O Brasil aproveita pouco o mecanismo distributivo que a carga tributária oferece, diferente de outros países. Então o Brasil é um país que distribui com gasto público, gasto social, principalmente, que está sendo atacado nesse momento, e concentra com uma carga tributária. E o que está sendo discutido hoje não vai no sentido de melhorar essa distribuição, pelo contrário, com a mão que o Estado dá, eu vou diminuir o gasto social, e a mão que o Estado tira vai se manter a mesma, ou com uma reforma tributária como a que está sendo apontada, que não mexe na tributação de renda e patrimônio no Brasil.

BdFRS – Como fazer esse debate sobre a reforma tributária com a população que não entende o economês? 

Pedro – Eu acho que tem uma discussão que é relativamente simples. O que é justiça fiscal? A justiça fiscal ou a justiça tributária, por exemplo, a justiça tributária é, você tem que pagar proporcional ao quanto você ganha. Então se você ganha muito você tem que pagar muito, se você ganha pouco, você tem que pagar pouco. Isso é justo na nossa concepção. As pessoas com um mínimo de senso de solidariedade concordam com isso. Se eu ganho pouco eu tenho que pagar pouco, um cara que ganha muito tem que ganhar muito, e o que acontece no país não é isso, as pessoas que ganham muito, que estão lá no topo da distribuição de renda, pagam muito pouco.

A nossa carga tributária é injusta, ou seja, quem está financiando os gastos com saúde, educação, etc., não são os mais ricos, eles não estão financiando. Isso é um problema em termos de justiça fiscal e algo a ser corrigido. Então as pessoas têm que apontar o dedo e falar que está errado porque essas pessoas não estão pagando uma parte da conta. Porque a política fiscal é isso, nós temos educação e saúde básica é um acordo coletivo, que nós juntos, enquanto sociedade decidimos vamos todos nós financiar a educação da população brasileira, das crianças brasileiras, que esse é um princípio universal, que todos têm direito ao acesso à saúde e à educação.

Agora como a gente financia isso? Tem gente que não quer financiar, os mais ricos estão dizendo isso: eu não quero financiar. Aí se misturam todos os argumentos (que o Estado é corrupto, então o dinheiro vai para corrupção, os serviços públicos não funcionam…) para justificar uma redução do gasto social que no fundo prejudica os mais pobres. Quem é prejudicado com a redução do SUS? Quem é prejudicado com os cortes de recursos para educação? Mesmo no ensino superior que já se democratizou muito. Quem é prejudicado com a redução da assistência social, previdência? São os mais pobres, são os negros, são as mulheres. Então, nesse sentido é muito cruel essa face da política econômica que no fundo quer ajustar o Estado e promete crescer e gerar emprego, mas no fundo está reformando o Estado para atender a determinados interesses.

Edição: Marcelo Ferreira

*Publicado originalmente no Brasil de Fato

 

Joseph Stiglitz: ”Fechar as fronteiras não fará as indústrias realocadas voltarem” 

0

O Nobel em economia acredita que hoje só a política fiscal pode apoiar o crescimento na área do euro

Por Marie Charrel – 27/09/2019 14:59

Longe de proteger melhor os perdedores da globalização, a política econômica de Donald Trump agravará as desigualdades. Em seu novo livro a ser publicado em 26 de setembro, People, Power & Profits (Ed. The Free Links, 24 euros), Joseph Stiglitz, professor de economia da Universidade de Columbia (New York), é muito crítico em relação ao Presidente dos Estados Unidos. Se julga que os riscos de uma nova grande

crise financeira são limitados no curto prazo, o Prêmio Nobel de Economia de 2001 prega por uma reforma do capitalismo, favorecendo a regulação e o papel do Estado.

Guerra comercial, tensões de mercado, Brexit … Devemos temer uma nova recessão ou mesmo uma crise financeira?

As incertezas são numerosas e as intervenções do Federal Reserve dos EUA (Fed, banco central), que injetou precipitadamente nos últimos dias bilhões de dólares em liquidez nos mercados, deixaram muitas pessoas nervosas. A probabilidade de que tenhamos em breve uma crise financeira da mesma magnitude que a de 2008 permanece baixa. Por outro lado, é certo que nossas economias registrarão uma desaceleração acentuada.

Na Europa, as novas medidas de acomodação adotadas em setembro pelo Banco Central Europeu (BCE) serão suficientes para combater essa desaceleração?

A ação do BCE retirou a zona do euro da crise da dívida soberana de 2012, mas falhará em restaurar um crescimento dinâmico. A redução das taxas novamente tem agora um efeito desprezível ou mesmo negativo em atividades como a oferta de crédito. Hoje, a único instrumento que pode efetivamente apoiar o crescimento é a política fiscal – especialmente em estados com espaço de manobra nessa área, como a Alemanha.

Os outros países membros, como a França, estão limitados pelas regras do pacto de estabilidade. O ideal seria flexibilizá-las e que a área do euro adotasse também um real instrumento orçamentário comum. Mas isso requer reformas complexas e demora para implementar.

No fundo, Donald Trump não está certo em escolher a China como alvo, que nem sempre respeita as regras do comércio mundial?

Quando tributam as importações de alumínio e aço em nome da chamada “segurança nacional”, os Estados Unidos não respeitam as regras do jogo, definidas na Organização Mundial do Comércio (OMC)! Pior ainda, ao bloquear a nomeação de novos juízes para o órgão de resolução de disputas dessa instituição, eles estão questionando o multilateralismo sobre o qual foi construída a prosperidade do pós-guerra.

Isso ilustra como Donald Trump atropela o conjunto de regras e os equilíbrios que baseiam nossas sociedades democráticas. É importante que as discussões com a China continuem no quadro da OMC, mesmo que esta [instituição] possa ser melhorada.

O protecionismo preconizado pelo presidente americano pode ser uma solução para a desindustrialização observada nos países desenvolvidos?

Não, porque não podemos voltar ao passado: a suposta era de ouro da década de 1950, quando os Estados Unidos dominavam a economia e a indústria mundiais, enquanto muitos países emergentes ainda eram colônias, se foi.

A partir de agora, nossa economia é dominada por serviços, e o fechamento das fronteiras não fará retornar aos Estados Unidos as indústrias realocadas na China. Em vez disso, elas irão para outros países de baixo custo, como o Vietnã.

Mesmo que voltassem, os carros100% fabricados nos Estados Unidos seriam mecanicamente mais caros do que os produzidos na Ásia ou na Europa, por exemplo, cujas fábricas estão parcialmente localizadas na Europa Oriental. Finalmente, dificilmente beneficiariam o emprego nos EUA, porque os veículos certamente seriam montados por robôs.

Até o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire, ou o “Financial Times” pedem a reforma do capitalismo. Por onde começar?

Estamos vivendo um momento interessante: finalmente há consenso sobre os males do capitalismo! Como opera hoje, não distribui equitativamente os frutos do crescimento, capturados por uma minoria. Além disso, acelera a destruição do meio ambiente e é contestado por uma parte crescente da população, que sofre com as desigualdades.

Mas é possível avançar em direção a “um capitalismo progressista”, com tributação mais justa, maiores investimentos públicos em educação e infraestrutura. Isso requer o fortalecimento do papel do Estado, tanto na direção do estado de bem-estar como nas regulações permitindo enquadrar melhor as finanças e os mercados.

A melhor ilustração é o sistema de saúde americano, amplamente privatizado. É mais caro do que na Europa – mais de 17% do produto interno bruto (PIB), segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, em comparação com 11% na França ou na Suécia – onde é público. E isso, para resultados piores: a expectativa de vida está diminuindo nos Estados Unidos, onde muitas pessoas são incapazes de pagar as contas do hospital.

Esse “capitalismo progressista” pode ser compatível com a transição ecológica?

Será se conseguirmos o equilíbrio justo entre as instituições. Quer dizer, entre os mercados, susceptíveis de resolver os problemas quando bem regulados, o Estado e a sociedade civil. Nessas circunstâncias, acredito que seja possível um crescimento que respeite as restrições ambientais e a justiça social.

O modelo que você defende está próximo do estado de bem-estar dos países escandinavos. Mas estes também falharam, em menor grau, em conter o aumento da desigualdade …

Apesar disso, as desigualdades permanecem muito mais baixas na Suécia do que nos Estados Unidos. Mas é verdade que os países nórdicos cometeram um erro: pensar que o forte consenso social em que se baseia seu modelo igualitário estava conquistado.

Ora, este se deteriora, desde que aplicam certas receitas de inspirações neoliberais. Ao permitir o desenvolvimento de muitas escolas particulares, por exemplo, a Suécia corre o risco de ver as desigualdades aumentarem drasticamente no futuro. É uma tendência perigosa.

Como estabelecer um imposto mais justo quando multinacionais, como as GAFA, livram-se facilmente dos impostos?

O assunto é particularmente importante na União Europeia (UE), onde apenas a introdução de um imposto corporativo mínimo comum limitaria a concorrência para baixo [nos custos] entre Estados-Membros.

Mas há progresso: na última cúpula do G7 [de 24 a 26 de agosto, em Biarritz], os principais países concordaram com a necessidade de criar um imposto mínimo. Ao introduzir seu próprio imposto sobre os GAFA [Google, Apple, Facebook e Amazon], Paris também mostrou que, contrariamente aos receios, era possível agir em nível nacional: a Amazon não vai interromper suas operações na França porque o grupo terá que pagar impostos.

No entanto, a Amazon ameaça repassar o custo desse imposto para as PME (pequenas e médias empresas) francesas usando sua plataforma de vendas …

Por que, então, não se desenvolve uma plataforma de vendas alternativa? Pública ou mesmo privada, com empresas locais inovadoras, apoiadas por fundos públicos. Esse seria um eixo promissor de política industrial na Europa. Já percebemos: o monopólio das multinacionais americanas não é mais um problema apenas nos Estados Unidos, tornou-se um problema mundial.

Como o país do liberalismo permitiu se criarem tais monopólios?

Há quarenta anos, as leis anticoncorrenciais e antitruste foram sendo progressivamente descosturadas nos Estados Unidos. Quando se tornaram suficientemente grandes, as empresas em posição dominante no mercado norte-americano usaram seu poder econômico – e, portanto, político – para influenciar a legislação a seu favor.

Neste domínio, a política anticoncorrencial tem sido mais eficaz na UE. Ao impedir a criação de monopólios, permitiu, por exemplo, uma redução significativa no custo dos serviços de telecomunicações, agora muito mais baratos que nos Estados Unidos.

*Publicado originalmente no Le Monde – | Tradução de Aluisio Schumacher

 

Desemprego, Tecnologia, Inovação e o Futuro do Trabalho

0

O desemprego na sociedade contemporânea está sendo visto como um dos maiores males da sociedade, um enorme contingente de pessoas está desempregadas, subempregadas e desalentadas, num mundo que exibe um avanço tecnológico crescente, cujas máquinas, robôs e inteligência artificial fascina a coletividade, ao mesmo tempo gera grande apreensão, medos e desesperanças, estamos num mundo assustador, desafiador e ao mesmo tempo impressionante e surpreendente, onde o progresso científico e tecnológico caminha lado a lado com os desequilíbrios emocionais, afetivos e espirituais.

Vivemos em uma sociedade que passa por transformações em todas as áreas e setores, com impactos sobre o emprego e sobre a empregabilidade, exigindo esforços dos mais intensos para um posicionamento profissional, investindo na carreira, buscando cursos e novas qualificações e capacitações, sem estas atualizações os trabalhadores tendem a perder espaço no mercado de trabalho para outros trabalhadores e para as novas tecnologias, inclusive para robôs e a inteligência artificial que crescem e ganham novos espaços na sociedade.

O mundo do trabalho se transforma com rapidez, as novas técnicas de gestão aumentam a produtividade e reduzem os custos produtivos, as tecnologias alteram processos e economizam mão de obra, os benefícios sociais inseridos nos contratos de trabalho estão sendo reduzidos pelos governos, com a previsão de que neste mundo contemporâneo o trabalhador deve escolher entre ter benefícios trabalhistas e não ter emprego ou conseguir uma colocação no mercado de trabalho com poucos benefícios trabalhistas, uma verdadeira revolução no mundo do trabalho está em curso na sociedade.

Os modelos tradicionais de trabalhos estão sendo alterados, novos contratos estão surgindo, nestas mudanças surgem modalidades específicas de trabalhadores que trabalham em casa, junto aos seus familiares, fazendo seus próprios horários e seguindo as metas estabelecidas pela empresa. Outros empregos estão sendo destruídos em setores onde as atividades são bastante repetitivas, marcadas por rotinas estressantes e cansativas, estes trabalhadores devem se recapacitar para conseguir uma nova oportunidade nos mercados, testando a resiliência, a paciência e a perseverança.

Muitos indivíduos questionam quais os setores que absorverão esta massa de trabalhadores desempregados nos próximos anos ou nas próximas décadas, responder esta questão é algo bastante difícil, novos negócios tendem a se estabelecer e negócios antigos tendem a ser desfeitos, previsões variadas são colocadas no mercado todos os dias, os mais entusiasmados estão sempre acreditando que o mercado vai criar novos empregos e construir novas oportunidades para os desempregados. Os mais pessimistas acreditam que as dificuldades futuras tendem a aumentar e o mundo do emprego reduzirá exponencialmente as vagas, deixando uma grande quantidade de desempregados ou subempregados.

Se observarmos as revoluções anteriores, como argumentam os mais otimistas, muitos empregos e setores foram dizimados pelas tecnologias, mas outros setores surgiram, ganharam relevância e passaram a ofertar novos empregos, foram construídas instituições para capacitar e qualificar a força de trabalho, reduzindo o número de desempregados e criando uma classe de trabalhadores forte e consistente, que posteriormente se organizou em sindicatos e conseguiu angariar benefícios e melhorias profissionais. Com este argumento, defendem a tese de que, grande parte dos empregos que absorverão os trabalhadores no final da próxima década ainda não foram criados, com isso, estamos num momento de transição, neste momento a instabilidade e as incertezas são maiores e, muito brevemente, vamos conseguir enxergar melhor o novo modelo econômico que ora domina a sociedade.

Outros teóricos menos otimistas observam a situação sob uma outra lógica, segundo estes, as transformações atuais são bastante diferentes das anteriores, as tecnologias contemporâneas estão afetando fortemente as chamadas classes médias, ao contrário das anteriores que afetavam diretamente os trabalhadores braçais, estas novas tecnologias, como inteligência artificial, internet da coisas, robótica, impressão 3D, dentre outras, estão afetando os trabalhadores com maior qualificação, exigindo destes uma reinvenção, uma flexibilidade e uma agilidade desconhecida até então. Como esta classe média sempre foi descrita como um referencial na coletividade, marcada por trabalhadores mais qualificados, profissionais liberais e técnicos qualificados, estes grupos utilizam seu desespero para reverberar suas críticas e desesperanças numa sociedade que os desemprega, reduz seus direitos e os coloca na informalidade.

As novas tecnologias empregadas no processo produtivo estão deixando os trabalhadores mais livres das amarras da gestão tradicional, mas por outro lado estão criando profissionais mais inseguros e frágeis do ponto de vista emocional, financeiro e físico. Como nos mostra o professor Jeffrey Pfeffer, autor da obra Morrendo por um salário, da Universidade de Stanford, “No Vale do Silício é possível ver engenheiros de 30 anos de idade com corpos de 50 anos”. Neste novo modelo de trabalho, os profissionais estão esgotados, depressivos e ansiosos em excesso, acumulando doenças laborais e transtornos emocionais e espirituais intensos, transformando o trabalho e a vida profissional uma grande fonte de preocupação.

O medo de perder o emprego, os contratos temporários, a falta de seguro saúde e a instabilidade financeira estão elevando o estresse e nos conduzindo para um cenário profissional ainda mais precário no futuro. Os profissionais das grandes empresas são vistos como estáveis e altamente capacitados, ledo engano, muitos deles nem sabem quais serão seus horários na próxima semana, impedindo que os funcionários façam seus próprios planejamentos, tudo isto gera grandes inquietações, medos e ansiedades, repercutindo na vida familiar, nos relacionamentos, nos ambientes corporativos e nas questões financeiras e emocionais, levando muitos trabalhadores a desequilíbrios variados, tais como a depressão, que vitima mais de quatrocentos milhões de pessoas no mundo e as mortes por suicídio, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada quarenta segundos uma pessoa comete a atrocidade de tirar sua própria vida, os suicídios se tornaram um problema de saúde pública, engajando escolas, faculdades, empresas, governos e inúmeras outras instituições para esclarecer a população e evitar estes transtornos que crescem de forma acelerada.

Nesta sociedade dominada pelo capital financeiro, os donos do poder definem as regras da sociedade e os fazem de acordo com seus interesses, a lógica financista esta sendo difundida para todos os agentes sociais e políticos, as empresas impõem a estes trabalhadores os modelos que dominam as instituições financeiras, caracterizadas pelo imediatismo, pelas metas agressivas, pela redução constante nos custos e  por uma automatização que reduz fortemente a demanda por novos profissionais, condenando os indivíduos a uma incerteza crescente e uma busca insana por novos cursos e capacitações.

Como nos destaca Jeffrey Pfeffer, um dos locais mais cobiçados para se trabalhar na sociedade contemporânea, o Vale do Silício, é descrito como um dos locais mais tóxicos, onde muitos dos profissionais usam substâncias legais e ilegais, como esteroides e cocaína para cumprir com suas metas insanas, gerando os mais terríveis problemas de saúde que serão sentidos no médio e no longo prazos, degradando a saúde dos trabalhadores e incrementando os custos da saúde e os dispêndios dos Estados Nacionais.

Estas transformações estão em todas as regiões, anteriormente os filhos tinham grandes chances de construir uma vida mais bem-sucedida do que seus pais, na sociedade contemporânea as chances são cada vez mais reduzidas, gerando grandes instabilidades e desequilíbrios emocionais. No mundo corporativo encontramos zumbis sobrevivendo a base de calmantes e outras drogas, um ambiente altamente competitivo onde os profissionais concorrem uns com os outros, destruindo os laços sociais e a solidariedade humana, neste ambiente o sucesso de um indivíduo deve ser visto como o fracasso de seu competidor.

Neste ambiente altamente tóxico e competitivo, encontramos empresas buscando todos os métodos para estimular a criatividade de seus profissionais, palestras motivacionais e remunerações flexíveis, todos estes instrumentos criam mais desequilíbrios dentro das corporações e servem apenas para estimular uma maior concorrência entre os profissionais e enriquecer consultores que vivem vendendo ilusões pseudocientíficas baseadas em uma meritocracia distante da maioria dos trabalhadores contemporâneas.

Um discurso recorrente que volta com força na sociedade contemporânea é o de empreendedorismo, onde se busca construir novos cenários, neste discurso cada indivíduo é o grande responsável por seu sucesso ou por seu fracasso, segundo o que definimos como meritocracia, outro termo bastante em voga na sociedade. Estes discursos são charmosos e empolgam muito os incautos, mas transfere aos indivíduos seu sucesso ou seu fracasso, como se todos os indivíduos bem-sucedidos tivessem sido eles próprios os grandes responsáveis por seu êxito profissional, deixando de lado as heranças monetárias e os investimentos feitos nestes por famílias estruturadas e conscientes da importância da educação no desenvolvimento social e profissional.

O sociólogo Ricardo Antunes, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), analisa a questão da seguinte forma: “O empreendedorismo é uma forma mistificadora que imagina poder eliminar o desemprego, em uma sociedade que é incapaz de preservar trabalho digno com direitos. E, como estas novas modalidades de trabalho são deprimentes, a mistificação torna-se o remédio que só fará alimentar a doença”.

Neste ambiente de degradação do mundo do trabalho, de crescimento da informalidade, das crises seguidas dos trabalhadores e do enfraquecimento dos sindicatos e do poder da classe trabalhadora, a ideia de empreendedorismo é uma das poucas alternativas que o mundo do trabalho oferece frente à corrosão dos direitos e garantias sociais. É isso ou o trabalhador deverá se contentar com o desemprego completo.

Percebemos nestas transformações uma busca constante por profissionais da área de tecnologia, computação, matemática e biologia em detrimento de profissionais das ciências humanas, principalmente aqueles oriundos da Filosofia, da Pedagogia e da Sociologia, vistas como áreas de pouco relevância para o mundo dos negócios e formada por pessoas teóricas demais, um equívoco para uma sociedade prática e centrada na tecnologia. Esta visão equivocada acaba gerando um excesso de profissionais nas áreas e setores mais demandados pelo mercado, atraindo os melhores quadros, mesmo muitos deles não se identificando com as áreas de tecnologia, estes profissionais acabam buscando estas áreas apenas pela melhor remuneração ou pelo status social que estes profissionais gozam na sociedade do conhecimento.

Outro efeito imediato desta realidade social, é que muitos estudantes bem formados e altamente qualificados estão optando por cursos que os coloquem em melhores condições no mercado de trabalho, deixando de lado suas aptidões e vontades pessoais, com isso, se tornam profissionais desmotivados, descontentes, agressivos e altamente tóxicos nas organizações. Se estes profissionais investissem em suas áreas de interesse seriam muito mais relevantes para a sociedade e trariam contribuições mais consistentes, mas como são atraídos pelos atrativos financeiros do mercado, acabam se transformando em profissionais medíocres, desanimados e descontentes em suas áreas de atuação.

Neste cenário percebemos o crescimento dos cursos ligados a tecnologia, aos jogos e aos conhecimentos práticos e uma baixa demanda por profissionais mais teóricos e reflexivos, o resultado imediato destas escolhas não demorarão a chegar nesta sociedade, muitos profissionais nos setores de tecnologia estão buscando seus aplicativos revolucionários e vêem seus salários se reduzindo rapidamente devido ao excesso de profissionais disponíveis. De outro lado os profissionais de áreas preteridas pelo mercado, tentam se “modernizar” e se “adaptar” as transformações comandadas pelo deus mercado, com isso estão levando suas áreas a perderem sua maior essência, a de levarem seus alunos a refletirem sobre suas realidades e compreenderem para onde estamos levando a sociedade global num mundo dominado pela tecnologia, pelo imediatismo e pelos rigores do chamado Mercado.

Percebemos este movimento a nível global, em todas as regiões as humanidades estão perdendo espaço para as áreas de tecnologia, este movimento comandado pelos mercados globais tem uma profunda irracionalidade, embora muitos dos teóricos da economia acreditem que os mercados sejam entes extremamente racionais, o excesso de um dos lados sempre leva a sociedade a grandes constrangimentos, a tecnologia é importante e tem um papel social de grande relevância, mas a tecnologia deve abrir espaço para um futuro mais acessível a todos os seres humanos, contribuir para o crescimento e para o desenvolvimento econômico, reduzir as desigualdades e enfrentar a exclusão social, que não deve ser aceita e muito menos permitida por uma sociedade que cria riquezas de forma exponencial como a sociedade contemporânea.

 

Nogueira Batista expõe os vira-latas brasileiros

0

Economista explica como autoridades norte-americanas encontram na elite brasileira um aliado para desestabilizar autonomia do país. Como a nação regrediu: de protagonista dos “emergentes” à submissão – e quais os riscos à nossa soberania

Paulo Nogueira Batista, entrevistado por Antonio Biondi e Napoleão de Almeida, no Brasil de Fato.

“O Brasil, quando se assume como o grande país que é, não cabe no quintal de ninguém. É importante que o brasileiro saiba disso”, afirma o economista Paulo Batista Nogueira Júnior, em referência ao título do livro que ele lança nesta quarta-feira (25) em São Paulo, intitulado O Brasil não cabe no quintal de ninguém (Editora Leya, 448 páginas).

Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Nogueira Batista cita o ex-chanceler Celso Amorim ao afirmar que o país precisa se livrar de vez da “nanomania” (mania de ser pequeno), que voltou a se acentuar com a chegada de Jair Bolsonaro (PSL) e seu grupo ao poder.

“O Brasil é um dos cinco países que fazem parte das listas dos dez maiores territórios, das dez maiores populações e das dez maiores economias. Só caberia no quintal de alguém se fosse quebrada a unidade nacional”, lembra ele, citando as outras quatro nações – EUA, Rússia, Índia e China – e dando a deixa para falar do assunto principal do livro, que é a análise da disputa geopolítica em torno desses países, a partir da visão de quem esteve no centro dela por 10 anos.

Entre 2007 e 2017, Nogueira Batista trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington (EUA), e foi vice-presidente do Banco do Brics, que ele ajudou a criar, em Xangai (China). O Brics é a instituição que reúne quatro daqueles maiores países citados por ele – Brasil, Rússia, China, Índia –, mais a África do Sul, e que nas últimas décadas vem tentando fazer frente à hegemonia dos EUA nas relações internacionais.

Ao narrar sua experiência, o economista, de 64 anos, fala da liderança do Brasil nesse processo em torno de uma nova agenda mundial, durante os governos do PT, e de como isso se perdeu a partir do golpe de 2016, que depôs a presidenta Dilma Rousseff e voltou a colocar o Brasil na condição anterior de subserviência aos interesses estadunidenses.

Nogueira Batista ressalta que, ao contrário do que ocorre com outros países, no Brasil os EUA não precisaram “dar a cara a tapa” para retomar o controle sobre nossa economia e nosso processo político.

“Eles encontram na elite brasileira um monte de sujeitos disponíveis pra fazer o trabalho deles. Porque esses vira-latas nacionais, desculpem-me a ênfase, se orgulham de receber mensagens do império”, diz o economista, lembrando algumas passagens de sabujismo explícito que vivenciou quando trabalhava no FMI.

Na entrevista, ele faz um balanço dos avanços econômicos e dos erros cometidos pelos governos brasileiros nas últimas décadas (FHC, Lula e Dilma), e do “desastre” que tem sido a gestão Bolsonaro. “Esse pessoal que está aí hoje não tem projeto algum. Tem uma agenda confusa, liberal, misturada com um projeto regressivo. Com esse discurso costurado, não vai recuperar a confiança. Esse governo não tem projeto. Só tem projeto de destruição”.

Nogueira Batista conclui com uma mensagem de esperança e um alerta: “Estamos pagando um preço altíssimo por ter levado essa figura à presidência da República. Nós vamos resistir a isso tudo. Mas é preciso muito cuidado, porque já vimos países destroçados pela combinação entre crise interna e pressão externa. Síria, Iraque, Líbia… Não pense o brasileiro que aqui não acontece. Podem acontecer coisas muito piores se a gente não se der conta”.

Brasil de Fato: Professor, vamos começar falando sobre o livro.

Paulo Nogueira Batista Júnior: O livro é essencialmente um relato da minha experiência de mais de 10 anos no exterior, em Washington (EUA), primeiro, no FMI, depois em Xangai (China), no Banco dos Brics. O grosso do livro trata dessa temática. Na realidade, é uma recapitulação de uma fase da história brasileira, em que o Brasil teve um papel de protagonista no mundo, em geral, e particularmente no Fundo Monetário e nos Brics. Eu busco misturar análise econômica com o relato de bastidores das negociações em que estive envolvido. Os embates, as dificuldades que existem para o Brasil, um país emergente, em ocupar um espaço no mundo. As resistências a isso, por parte das potências tradicionais, e como isso se traduz nos embates das pessoas dentro das instituições.

O Brasil, quando se assume como o grande país que é, não cabe no quintal de ninguém. É importante que o brasileiro saiba disso. Não é teórico: o Brasil fez esse papel e pode voltar a fazer, se superar essas dificuldades em que se encontra hoje.

É um relato com olho no futuro: não se pode perder de vista que o Brasil é um dos cinco países que fazem parte das listas dos dez maiores territórios, das dez maiores populações e das dez maiores economias. Quais são: EUA e os quatro Brics originais – Brasil, Rússia, Índia e China. Só esses cinco no mundo integram a lista dos dez maiores em economia, demografia e território. Daí aquilo que o Celso Amorim diz que o brasileiro tem: “nanomania”. Mania de ser pequeno. O Brasil não permite, o Brasil é naturalmente grande, e só caberia no quintal de alguém se fosse quebrada a unidade nacional.

Fale um pouco da importância que as instituições financeiras ligadas aos Brics já desenvolvem e que podem desenvolver.

Os Brics atuaram conjuntamente a partir de 2008, por iniciativa da Rússia, que procurou os demais e propôs um mecanismo de coordenação. Nesses mais de 10 anos, os Brics, num primeiro momento, atuavam para tentar reformar as instituições existentes. E nós tivemos algum sucesso no FMI, graças à atuação conjunta destes países e mais a África do Sul, que se juntou ao grupo depois, em 2011. Em determinado momento, os Brics perceberam que a resistência à mudança em Washington era muito grande, maior do que pudéssemos supor. Não fizemos nenhum escândalo, nenhum tumulto: continuamos em Washington, trabalhando no Banco Mundial e no Fundo Monetário, mas resolvemos seguir nosso próprio caminho. Isso culminou na cúpula de Fortaleza, presidida pela [presidenta] Dilma Rousseff, onde se assinaram os tratados constitutivos dos dois mecanismos financeiros criados pelos Brics: o novo banco do desenvolvimento, que é onde eu acabaria trabalhando, e o Fundo Monetário dos Brics. Essas duas instituições estão em processo de construção. É um processo difícil, lento, que encontra muitos percalços. Entre tantos, eu destacaria um: é que o Brasil foi um dos – se não o principal – motor dos Brics num período que foi de 2008 até 2014, mais ou menos. (…) E a partir do momento em que o Brasil entra em ebulição política, em 2015, esse motor desaparece, ou se enfraquece muito.

Esse peso se deslocou para a China, que vai crescendo, ganhando experiência. Não é a mesma coisa, porque a China tem uma agenda mais estreita, não é tão abrangente como a que o Brasil tinha. Então essas instituições que nós ajudamos a criar estão prejudicadas pelo fato de um dos motores estar avariado pelas suas dificuldades internas.

O senhor diria que isso influenciou derrubada da presidenta Dilma? O Brasil incomodava sendo um dos motores dos Brics nesse período?

A Dilma teve um papel fundamental nesse processo. Eu posso contar por que eu vi. Ela tinha até mais interesse que o Lula nessa questão. É difícil responder [à pergunta], em parte, porque essas coisas não acontecem à luz do dia. Mas uma conjectura muito plausível é que isso possa ter pesado. Não digo que tanto quanto o Pré-Sal, o Petróleo, a Petrobras. Mas pesa, pois, o que são os Brics, senão um mecanismo de cooperação que envolve o Brasil, o maior país da América Latina, em aliança com dois adversários dos Estados Unidos – a Rússia e a China? Veja que eu estou falando de adversários dos Estados Unidos e não especificamente de adversários do [presidente Donald] Trump. (…) É legítimo conjecturar que os americanos tenham encarado com intranquilidade essa cooperação do Brasil com dois adversários históricos deles, ainda que a China não seja um adversário histórico, mas sim uma ameaça recente.

O que dificulta avaliar isso é que os americanos têm a vantagem de operar pelos seus prepostos locais. Então eles encontram na elite brasileira um monte de sujeitos disponíveis pra fazer o trabalho deles. Eles não precisam atuar diretamente, se identificar como agentes, mas a influência externa provavelmente existe. Como dizia Barbosa Lima Sobrinho: há dois partidos no Brasil, o partido de Tiradentes e o partido de Joaquim Silvério dos Reis. O do Joaquim Silvério está muito bem representado, permanentemente, na elite brasileira. Então, quando você tenta marcar uma posição diferente internacional, você encontra essas resistências. E às vezes esses prepostos dos interesses internos são relativamente francos e dizem, “olha, o Tesouro Americano está reclamando de você”, [risos], “o Tesouro Americano quer isso, quer aquilo”. Porque esses vira-latas nacionais, desculpem-me a ênfase, se orgulham de receber mensagens do império. Nem escondem que agem como prepostos.

Quem são esses prepostos?

No caso da minha vivência, e que eu relato no livro, são autoridades. Por exemplo, o ministro [da Fazenda] Joaquim Levy, nomeado pela Dilma na fase final. Outro exemplo são funcionários do governo brasileiro, indicados pelo [Henrique] Meirelles, que atuaram para me desestabilizar em Xangai [Meirelles presidiu o Banco Central do Brasil nos oito anos do governo Lula]. O presidente do Banco Central no governo Temer, Ilam Goldfajn, muito ligado aos EUA, também.

Se você vai ver quem são as firmas que investigam para desestabilizar os brasileiros que atuam de maneira mais independente, são certas firmas de advocacia americanas contratadas para criar problemas, entende? Baker & McKenzie, por exemplo, a mesma que atuou na questão da Petrobras.

Eu não tenho evidência de que existe uma articulação liderada pelo governo americano, mas a presença de prepostos do governo americano nos embates que eu presenciei é notória. São sempre esses prepostos, brasileiros com ligações fortes com os EUA. Com pretensões de longo prazo, de carreira e de vida. E esse é o perfil que permite que os americanos possam operar sem dar a cara a tapa, vamos dizer assim.

Houve uma época em que seguir diretrizes do FMI era como fazer um “acordo com o Diabo”. Como é essa relação hoje?

Essa questão do FMI, desde os anos 1980, eu trato no livro, porque tive uma experiência com o FMI e credores externos já nos anos 80. Em 2007, voltei ao Fundo em outra condição, trabalhando pelo Brasil. O que digo, primeiramente, é que havia diferenças, mas havia também continuidade. Tentamos mudar o FMI, conseguimos alguma coisa, principalmente no tempo do Dominique Strauss-Kahn. A crise de 2008 abriu um terreno, porque ela deixou vulnerável o status quo. E nesse ambiente conseguimos mudanças significativas. Só que, quando a crise amainou nos EUA e derrubaram o Strauss-Kahn, houve um retrocesso. Conseguimos avançar até certo ponto, mas, conforme conto no capítulo do livro “O Império Contra-Ataca”, se reestabelecem práticas anteriores. É nesse momento em que os Brics decidem que, “tudo bem, então vamos fazer o nosso fundo monetário”. E é onde eu digo: faz falta o Brasil nesse processo, que funcionava como líder dos países emergentes e dos próprios Brics. E o Brasil do Lula afirmou-se como um Brasil diferente, com uma projeção que nenhum dos outros Brics tinha ou tem. A Rússia não tem porque é atritada com metade do mundo. A Índia não tem, a China não tem, apesar de tudo. Então eu tenho certeza que os Brics sentem falta de um Brasil ativo e autônomo.

Queria uma avaliação sobre a atual economia brasileira, nossas fragilidades e potências.

A economia brasileira sofreu uma recessão profunda em 2015 e 2016. Tivemos uma queda de PIB per capita da ordem de 8%, e estacionou nesse nível deprimido, não houve recuperação em 2017, 18 e 19. O PIB per capita está estagnado praticamente. A expectativa era de que o novo governo, com o capital político das urnas, conseguisse movimentar a economia. E isso não está acontecendo, porque o governo Bolsonaro não tem um projeto de crescimento, não tem um projeto econômico claro.

Estão tentando aplicar no Brasil de 2019 ideias que já fracassaram: que o importante é fazer reformas estruturais, como a Previdência, para gerar confiança e que os empresários possam ter confiança para gastar. Não quero dizer que confiança não é importante, pois é; não quero dizer que não precise de reformas estruturais, pois precisa, talvez não essas aí; mas o que eu quero dizer é que confiança não é suficiente para recuperar um país combalido. Você tem que ter uma política econômica que crie estímulo, e isso não vem acontecendo.

Houve uma pequena redução na taxa básica de juros pelo Banco Central, mas ainda há espaço que precisa ser utilizado. A política fiscal do governo é contracionista, por conta do teto de gastos, uma política criada no Governo Temer que eu chamaria de “idiota”, com o perdão da palavra, porque é de um simplismo… de uma estupidez… Você tem uma regra fiscal tosca e você tem que substituir essa regra por uma mais inteligente. E o governo teme mexer na regra e perder credibilidade, mas está verificando que a regra não vai funcionar. Se você não mexer na regra, vai ter uma combinação de economia combalida, desemprego e política fiscal recessiva.

O FMI fez um relatório sobre a economia brasileira dizendo que o Brasil talvez possa crescer algo como 2% ou 1,5% anualmente, com otimismo, nos próximos anos. Com esse tipo de crescimento, a taxa de desemprego que hoje é 12 milhões, cairia para 10 milhões, mas continuaria extremamente alta até 2022. O panorama não é favorável.

O governo não tem um projeto convincente, fica esperando não sei o quê. Veja pela retórica do governo Bolsonaro: “vou zerar o déficit no primeiro ano”. Aí… “não é bem assim” e vai continuar por vários anos. “É preciso a reforma da Previdência, porque aí sim deslancha”, e faz. Mas aí, “não é só isso, tem mais isso”. Não é um discurso convincente. Com esse discurso costurado, não vai recuperar a confiança.

Mas por que a economia então não afunda? Porque o Brasil tem trunfos econômicos importantes. É uma pena que a gente tenha um governo tão precário como esse. Se fosse minimamente organizado… Que trunfos são esses? Uma posição do setor externo muito forte, reservas internacionais muito elevadas, o que nos diferencia da Argentina ou da Turquia. Um regime cambial adequado, flutuante, flexível e sem regras. A inflação está sob controle. É verdade que por conta da recessão, mas está baixa. E o setor externo está equilibrado.

Para mim, é um espanto ouvir o ministro da Economia dizer que o setor público brasileiro está em colapso. Como o ministro pode ser tão irresponsável para minar o setor que ele está supostamente governando? Isso não existe em lugar nenhum. O setor público tem dificuldades, Estados e municípios, muitos deles, mas não está quebrado. (…) Essa história de que o dinheiro acabou é um simplismo, especialmente para os que não entendem. Mas não é um colapso. É claro que, se continuar com esse governo, batendo cabeça e desorganizado, acaba atingindo a economia.

O senhor vê o Brasil avançando pouco a pouco ou estamos regredindo?

Desde a década de 1980, o Brasil não tem conseguido crescer de forma sustentada por períodos longos. Houve alguns períodos curtos, por exemplo no governo Lula. Mas foi uma exceção. No geral, temos apresentado um crescimento baixo, e com o Brasil perdendo expressão em relação a outros países, como a China e outras nações da Ásia. No meu modo de ver, o que explica isso é sobretudo a captura das alavancas decisórias do Estado brasileiro por interesses financeiros de curto prazo, e seus representantes. Me refiro ao ministério da Fazenda, ao Banco Central… Um processo que tem longa história, que marca o governo FHC, marca o início do governo Lula, que não conseguiu de imediato se livrar disso. Quando ele se livra disso, a partir de 2005, ele quebra uma maldição, que é a do segundo mandato ser pior que o primeiro. E aí o Brasil experimenta uma fase áurea. Mas, mesmo nessa fase áurea, o que preocupou? A tendência de o Brasil deixar a estrutura industrial brasileira regredir. Períodos prolongados de valorização cambial, juros muito altos durante muito tempo. Essa combinação foi muito negativa para muitos setores.

O sistema tributário é inadequado, a infraestrutura inadequada, o uso de crédito é inadequado. No governo Lula, houve uma tentativa [de melhorar essa estrutura], mas incompleta. No governo Dilma também. E, como esse projeto Lula-Dilma naufragou na crise 2015, nós agora estamos de volta ao modelo anterior, financista, de curto prazo. Não é um modelo de desenvolvimento. Nós temos que ter um modelo de desenvolvimento nacional.

Esse caminho regressivo do governo Bolsonaro, do governo Temer, é um caminho destrutivo, não é uma construção. É diferente do que vivemos nos anos 1960, depois do golpe militar, por exemplo. Porque naquele momento havia um projeto. Você pode não gostar daquele projeto, mas existia, formulado por pessoas como Roberto Campos, Delfim Netto. Esse pessoal que está aí hoje não tem projeto algum. Tem uma agenda confusa, liberal, misturada com um projeto regressivo do presidente Bolsonaro, que está batendo cabeça para tudo quanto é lado. Acho muito difícil que esse projeto, do jeito que está estruturado, leve a algum resultado positivo pro País.

Sobre o Plano Real, que completou 25 anos em julho, o que o senhor destacaria?

As opiniões sobre o Plano Real são mais uma manifestação do complexo de vira-lata do brasileiro. Mesmo os adversários precisam reconhecer que ali foi feita uma coisa importante pela equipe do [presidente] Fernando Henrique. Eu destacaria a URV (Unidade Real de Valor), um mecanismo inteligente de desindexação, usado de maneira positiva na época. Vinte e cindo anos depois, o Brasil tem uma moeda nacional. Estávamos ali com hiperinflação, altíssima, uma desordem monetária. Faltava uma moeda nacional razoavelmente estável. Mesmo aos trancos e barrancos, isso veio. O maior erro, por outro lado, foi a indexação cambial, que avalio que não era necessária. Embora tenha conversado com Pedro Malan (ministro da Fazenda de FHC) recentemente e ele insiste que era necessária. Mas o fato é que tivemos uma grande valorização cambial, que gerou problemas gravíssimos, como a crise de 1998 e 99, que quase acabou com o Real.

E quanto aos governos do PT, o que houve de avanços e erros?

É difícil uma generalização. Temos várias fases da política econômica nos governos Lula e Dilma. O início é marcado por uma fase ortodoxa, basicamente a continuação do que o Pedro Malan vinha fazendo. Depois houve uma mudança de rumos com a entrada do Mantega (Fazenda) e da Dilma na Casa Civil, com uma mudança do Lula na direção do desenvolvimentismo, que foi bem-sucedida.

Quando o Lula transfere o poder para a Dilma, e isso é algo que todo mundo esquece, a Dilma entra e faz um choque ortodoxo: com ajustes fiscais importantes, elevação das taxas de juros, contenção do crédito, porque ela tinha a avaliação, correta, de que a economia brasileira estava superaquecida. Só que talvez o governo brasileiro tenha pesado demais a mão naquele momento, e as tentativas de reaquecimento da economia não foram bem-sucedidas. Houve várias tentativas entre 2011 e 14, e a economia não voltou a ter aquele ritmo. E aí vem toda a crítica à matriz econômica, que é uma crítica ideológica. Assim como existe a fantasia da “ideologia de gênero”, há a fantasia da “nova matriz econômica”. O que houve ali foi uma tentativa malsucedida de reativar a economia. Talvez os melhores métodos não tenham sido utilizados. Mas o fato é que a crise de 2015, 2016, não pode ser atribuída, senão em menor proporção, aos erros de política econômica do governo Dilma. Houve erros? Houve. Importantes? Sim. Mas nada que justifique uma recessão daquele tamanho.

A recessão foi fruto de choques externos, perda em termos de troca, importante em 2015, mas sobretudo de fatores internos. Além disso, temos a Lava Jato e seus efeitos desestruturantes em várias cadeias produtivas. E a tentativa de dar um golpe na presidente recém-reeleita. Que funciona assim: é difícil, mas vamos fazer uma sabotagem nesse governo, mesmo que tenha custos para a economia. Foi isso que foi feito. Pautas-bomba, cerceamento do governo e a contribuição da própria presidente, que nomeia como ministro da Fazenda o Joaquim Levy, que tenta aplicar um choque ortodoxo na economia combalida. É feito em seguida um ajuste de preços públicos de uma só vez, erradamente, o que força o Banco Central a agir com taxa de juros. Aplica-se uma política fiscal equivocada, que nada tinha com o programa dela. Tudo isso junto derrubou a economia brasileira de um jeito que nunca tínhamos visto. Uma enorme irresponsabilidade daqueles que arquitetaram o golpe. E a economia brasileira ainda não se desfez do trauma dessa irresponsabilidade, com erros da Dilma, do Levy, erros da Lava Jato e o golpe parlamentar. Quem olhar para trás num registro histórico, de uma maneira isenta, não vai deixar de observar isso.

O que poderia contribuir para uma melhoria da economia brasileira?

Não acredito que o atual governo consiga colocar o Brasil em um rumo positivo. Porque esse governo não tem projeto. Só tem projeto de destruição, em várias áreas. O que está acontecendo são medidas de desarticulação dos mecanismos existentes, sem que o governo saiba o que vai colocar no lugar.

Os mecanismos existentes têm defeitos? Têm. É preciso corrigi-los? Sim. Mas não é assim que se faz. Na área da Cultura, da Educação, do Meio Ambiente, da máquina pública… É um processo de destruição declarado, admitido como tal. Dito isso pelo Bolsonaro: “eu vim pra destruir”. Agora pergunta para essa equipe se eles sabem o que vão colocar no lugar? Provavelmente eles não sabem. Então é desastroso.

O Brasil está correndo um grande risco. Nunca houve um governo tão subordinado ao governo americano, que chega a declarar que está apaixonado pelo presidente dos EUA, não tem o mínimo de decoro, faz concessões unilaterais na esperança de ter algo, o que é um absurdo, não é assim que funcionam as coisas. Além disso, o atual governo provoca desnecessariamente toda a ira da comunidade internacional na questão da Amazônia, colocando o Brasil numa condição de pária, que nós nunca tivemos. É erro atrás de erro atrás de erro. Estamos pagando um preço altíssimo por ter levado essa figura à presidência da República. Nós vamos resistir a isso tudo. Mas é preciso muito cuidado, porque já vimos países destroçados pela combinação entre crise interna e pressão externa. Síria, Iraque, Líbia… Não pense o brasileiro que aqui não acontece. Podem acontecer coisas muito piores se a gente não se der conta. É fundamental que o brasileiro saia do seu comodismo e veja o que aconteceu com países que perderam sua soberania.

 

 

A imposição da nossa Vantagem é a razão do nosso atraso, por Albertino Ribeiro

0

O Brasil, cuja revolução industrial aconteceu com cem anos de atraso, também teve seu conflito indústria/agricultura desde a monarquia.

Albertino Ribeiro – GGN – 25/09/2019

A indústria deveria ser o nosso norte, direcionando o desenvolvimento econômico brasileiro, porém abdicou de sua liderança para o setor agropecuário. Infelizmente, os industriais brasileiros não tiveram a mesma sorte que seus pares americanos do século XIX. Naquela época, a indústria americana, concentrada no norte do país, venceu a guerra pela hegemonia econômica.

Se não fosse o esforço empreendedor daqueles industriais, os Estados Unidos da América seriam hoje o que o Brasil, infelizmente, sonha em se tornar um dia: a fazenda do mundo! Não seria isso um pesadelo?

Caro leitor, não sou um inimigo do agronegócio! Afinal de contas, o mundo precisa de alimentos e matérias-primas, inclusive, existem países que possuem riquezas naturais. Podemos citar alguns como Noruega, Canadá e Austrália. Esses países, mesmo tendo vantagens comparativas na agricultura e no extrativismo em geral, não negligenciaram à atividade industrial.

A indústria americana vivia em conflito com os ruralistas do sul do país. Os produtores de algodão, valendo-se das vantagens comparativas sobre os demais países, eram favoráveis ao livre comércio e tinham como principal porto dos seus produtos a Inglaterra, país que possuía grandes tecelagens. Ademais, o livre comércio também era interessante para os produtores do sul, porque permitia-lhes a obtenção de manufaturas mais baratas vindas do exterior.

Os empresários, juntamente com lideranças do Estado americano, sabiam que a continuação dessa política levaria o país a ser uma grande nação agrícola ou a fazenda do mundo. Contudo, para evitar o futuro “agrodistópico”, o governo americano resolveu adotar políticas protecionistas em relação às manufaturas estrangeiras. Isso mesmo! Foi a política protecionista do estado americano que promoveu o desenvolvimento da indústria. O tal do “liberou geral” só veio depois do fortalecimento do setor.

Uma curiosidade da época foi o desencorajamento da leitura dos livros de Adam Smith e David Ricardo pelo governo, uma estratégia para instilar no empresariado o desejo de ir contra a teoria das vantagens comparativas que, naquele momento, era o grande inimigo teórico da industrialização americana. Verdade, amigo do instituto Milenium!

Ser a fazenda do mundo não era o sonho americano, mas um pesadelo contra o qual o setor privado e o governo lutaram para que não se materializasse.

O Brasil, cuja revolução industrial aconteceu com cem anos de atraso, também teve seu conflito indústria/agricultura desde a monarquia. Contudo, os produtores rurais levaram a melhor – pobre Barão de Mauá e seus pares – graças a influência que sempre tiveram junto ao estado Brasileiro.

Recentemente comemoramos o acordo MercoSul e União Europeia. Mais uma vez o agronegócio levará vantagem e a indústria ficará vulnerável à concorrência. Como se não bastasse o atual abandono da indústria nacional, o governo Bolsonaro quer iniciar um novo ciclo extrativista avançando sobre a Amazônia. Tal política tende a tirar, o foco do investimento industrial, uma verdadeira “maldição dos recursos naturais”, segundo alguns economistas supersticiosos.

A indústria brasileira possui, apenas, 11,3% de participação no PIB (dados de 2018), retrocedemos ha mais de 60 anos. Para termos uma ideia, Em 1956, quando Juscelino Kubitschek tornou-se presidente, a participação da indústria no PIB era de 24,1%, e o Brasil, naquela época, era considerado um país ainda agrário.

Infelizmente, a frase do economista Pedro Malan, ministro da Fazendo do governo FHC, “a melhor política industrial é não ter política industrial”, tornou-se o nosso modus operandis. Assim sendo, continuaremos a colher os frutos do atraso.

Albertino Ribeiro é Tecnologista de Informações Geográficas e Estatísticas

 

Cheiro de mudança no ar, por Paulo Kliass

0

Uma das muitas maneiras para explicar as mudanças reside na identificação das consequências provocadas pela crise financeira internacional

A cada novo dia que passa, a cada nova semana que avança, percebe-se que algumas das bases de sustentação do modelo em que se apoia o atual sistema do capitalismo global começam a apresentar suas fissuras. Apesar de não oferecer nenhuma novidade para os que sempre denunciamos esse regime injusto e excludente em escala mundial, é importante sim reconhecermos a gravidade da crítica que vem sendo lançada mais recentemente por gente de distintos perfis.

Uma das muitas maneiras para explicar as mudanças reside na identificação das consequências provocadas pela crise financeira internacional, que teve seu início no ambiente econômico os Estados Unidos em 2008. A eclosão descontrolada de alguns dos principais símbolos da chamada “economia de mercado” teve um efeito tão ou mais devastador, inclusive do ponto de vista icônico, do que o bombardeio das torres do World Trade Center no coração de Manhattan em 2001.

Afinal, o que se viu a partir da quebra em cadeia das principais instituições financeiras que operavam no mercado estadunidense foi a colocação em xeque da própria estrutura de funcionamento da ordem liberal capitalista. Em 15 de setembro de 2008, a falência do banco Lehman Brothers oferece o primeiro susto, logo depois da estatização preventiva de alguns dos gigantes do mercado imobiliário de hipotecas, como Fanni Mae e Freddy Mac. Em seguida, o Tesouro daquele país injeta um volume considerável de recursos públicos para salvar o Bank of America e o Citibank de quebrarem. O argumento para justificar a medida, que se apresentava inclusive na contramão dos dogmas do livremercadismo, era o famoso “too big to fail”. Ou seja, de acordo com o contorcionismo retórico de nova ordem, elas seriam instituições tão grandes que sua falência deveria ser evitada a todo custo.

Crise de 2008/9: início das mudanças

Ainda na sequência, em 2009, o governo norte-americano injeta bilhões de dólares nas simbólicas corporações gigantes do mercado automobilístico. A estratégia era também salvar da falência empresas do porte de General Motors e Chrysler. É verdade que a narrativa do liberalismo, sempre tão propagada pelo mundo afora pelo establishment ianque, na verdade nunca foi aplicada com todo o rigor no seu próprio território. Para tanto, basta considerarmos as políticas de subsídios aplicados em setores politicamente sensíveis (como agricultura e energia), as políticas especiais oferecidas ao complexo bélico militar ou a proeminência de oligopólios em inúmeros setores da economia norte-americana. Receita de liberalismo é bom para se aplicar na grama do vizinho.

Porém os efeitos da crise operaram como um questionamento profundo de alguns dos dogmas basilares do modelo que vinha funcionando desde o início dos anos 1980. O Estado foi obrigado a intervir no jogo econômico de forma explícita e ultra evidente. A política de austeridade ortodoxa teve de ser revista em uma jogada de “pragmatismo realista”, de forma a que as políticas monetária e fiscal foram subvertidas em relação a tudo aquilo que as instituições difusoras do neoliberalismo sempre haviam apregoado nos Estados Unidos e pelo mundo afora. Uma das razões mais importantes para a crise no âmbito financeiro foi identificada como sendo a ausência de regulação das instituições e das operações de risco elevado. Tanto que uma das primeiras medidas consideradas como “saneadora” foi a Lei Dodd Frank, que pode ser considerada a primeira grande regulação do mercado financeiro norte-americano desde a década de 1930.

Essa contradição entre o discurso liberal e a prática de governos e instituições revelou-se insustentável. Estados Unidos, União Europeia, Japão, Canadá e outros países são afetados por essa necessidade de adaptação. Abre-se, assim, uma brecha para o surgimento de visões e propostas alternativas, ainda mesmo no campo do conservadorismo. A hegemonia demolidora exercida pelos dogmas do neoliberalismo começa a perder o vigor que sempre havia caracterizado esse período. Questões como distribuição de renda, desigualdade social e econômica, regulamentação e regulação das atividades na economia, política fiscal contracíclica e outros temas “heréticos” passam a fazer parte do cardápio dos próprios economistas que defendiam o modelo da ortodoxia até poucos meses antes.

Piketty e Lara Rezende – críticas ao modelo

Um dos formuladores que ganhou mais notoriedade ao longo dos últimos anos foi o francês Thomas Piketty e seu livro “O capital no século XXI”, lançado em 2013. Oriundo de uma escola conservadora no ambiente universitário francês, ele foi um dos criadores e dirigentes da polêmica “Paris School of Economics” (PSE), iniciativa claramente inspirada no modelo da coirmã britânica, “London School of Economics” (LSE). Mas o fato é que a emergência da crise e a investigação de assuntos como concentração de renda e patrimônio levaram o economista a apontar o dedo para a necessidade de mudanças profundas na questão da tributação e da regulação da economia, entre outros aspetos.

Por outro lado, a brecha aberta no debate pós crise 2008 permitiu também a recuperação de debates do campo da macroeconomia. Voltaram à baila questões que haviam ficado no esquecimento, em razão do esmagamento ideológico promovido pelo establishment neoclássico há décadas. Essa foi a oportunidade para o ressurgimento de vários pesquisadores agrupados em torno daquilo que passou a ser chamado de “Teoria Monetária Moderna” (MMT, da sigla em inglês). De acordo com tal interpretação do fenômeno econômico, faz-se necessário um repensar a respeito de dogmas como déficit público, função da moeda e capacidade de endividamento do Estado.

Apesar da relevância do tema, as elites do financismo tupiniquim não parecem nada entusiasmadas em oferecer espaço para esse tipo de autocrítica. Um dos poucos pensadores e operadores da economia que ousaram furar a bolha e trazer luz a esse importante debate tem sido André Lara Rezende. Apesar de toda a sua formação no campo do conservadorismo, bem como sua atuação no mercado financeiro e sua participação como formulador de política econômica nos governos de FHC, ele teve a coragem política e intelectual de reconhecer os equívocos. Em seus artigos mais recentes, o economista carioca traz informações sobre o andamento do debate da MMT nos fóruns internacionais e aponta os enganos da continuidade da opção pela austeridade em nossas terras. Essa nova abordagem proposta por um importante formador de opinião postula uma forte crítica à política monetária de juros altos praticada há duas décadas e também a essa verdadeira obsessão do financismo com o corte generalizado de despesas como sendo a única saída para a crise fiscal.

Draghi , Martin Wolf e o Reino da Dinamarca

No espaço europeu a polêmica também avança, uma vez que a política de austeridade levada a cabo pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Comissão Europeia (CE) não produziu os efeitos desejados pela maioria da população da maior parte dos países da região. A sequência interminável de planos de ajuste recessivos e destruidores (como ocorreu com Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal no passado recente) parece que agora cede espaço para uma reflexão de matriz diferente. O próprio presidente do BCE, o economista Mário Draghi reconheceu há poucos dias a necessidade de abrir um diálogo para examinar as propostas da MMT como alternativas para o aperfeiçoamento dos mecanismos de política monetária no espaço europeu. Vindo de quem vem e do cargo que ocupa, esse gesto não é nada desprezível.

Outra iniciativa relevante foi um artigo de autoria de Martin Wolf importante jornalista e economista conservador, que é conhecido por suas atividades como editor do jornal “Financial Times” (FT). Ali também se identifica um desconforto do autor com os rumos da própria economia capitalista nos tempos atuais. Nesse caso mais recente, o autor chega ao ponto de identificar na natureza rentista do capitalismo contemporâneo uma ameaça para a sobrevivência da democracia liberal. Ora, chegamos a uma situação em que um dos maiores baluartes de defesa da ordem capitalista como FT se vê obrigado a reconhecer a necessidade de mudanças de rota. Talvez seja mesmo o caso de recordarmos o que escreveu há mais de 4 séculos atrás outro inglês, William Shakespeare, em sua peça “Hamlet”: há algo de podre no Reino da Dinamarca.

É bem possível que estejamos mesmo vivendo um momento de mudança de paradigma. Esses períodos de transição podem oferecer espaços para o novo ainda em gestação. Às forças progressistas cabema intervenção nesse processo de disputa de ideias. Com isso, assegurar que o novo caminho seja na direção de um mundo mais justo, menos desigual e que esteja assentado na sustentabilidade.

* Doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.