Privatizar a Sabesp? por Rodrigo Zeidan

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Os consumidores estarão mais bem servidos por uma empresa pública ou privada? Rodrigo Zeidan, Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ. Privatização é meio, não fim. No Brasil, a discussão sobre privatização é quase toda focada na “venda do patrimônio do Estado”. Ainda temos viúvas da Vale reclamando que vendemos a empresa por um valor muito baixo (mesmo que tenha sido um leilão aberto a qualquer grupo de investidores do mundo). Estado não tem como função ter patrimônio. A única coisa que deveria importar é: os consumidores estarão mais bem servidos por uma empresa pública ou privada? Nada mais. Serviços públicos como água e esgoto, luz e telefonia são normalmente monopólios naturais. Em tais mercados, o ideal para a sociedade é que a entrada de novas empresas seja limitada ou impedida. Por exemplo, não faz muito sentido que várias empresas possam oferecer redes de eletricidade em uma mesma área: teríamos sobreposição de redes de distribuição nas áreas mais ricas e falta de cabos nas regiões mais carentes. É por isso que tais serviços são regulados: o Estado leiloa o direito de explorar uma região com exclusividade desde que a empresa cumpra com algumas condições, como universalidade ou tetos de preços (ou metas de enterramento de fios). Nada exemplifica melhor isso que a discussão sobre a privatização da Sabesp. Parte da oposição é sobre se os serviços de saneamento básico devem ser prestados por empresa concessionária sob controle acionário do Estado ou de terceiros. Mas isso é irrelevante. O que importa mesmo são os desenhos dos contratos e as formas de fiscalização das contrapartidas das empresas concessionárias. Monopólios naturais são tão melhores para a sociedade quanto maior a qualidade da regulação. E esse foi nosso erro, como sociedade, nas últimas décadas. Criamos um arcabouço institucional decente com agências reguladores independentes, mas, ao longo do tempo, a qualidade destas foi caindo. Umas foram aparelhadas, outras capturadas pelas empresas reguladas, e só poucas continuam firme e forte trabalhando para que as empresas concessionárias cumpram seus deveres com a sociedade. É possível que uma empresa puramente estatal entregue serviços de qualidade com preços baixos? Sim. É também possível que o mesmo aconteça com empresas privadas, bem reguladas? Também. Mas, grosso modo, há também outras situações possíveis: empresas estatais ineficientes, que também investem menos que deveriam; e empresas privadas mal reguladas, resultando em serviços ineficientes, e, também, subinvestimento. No Brasil, muitas vezes escolhemos os dois piores modelos. Todavia, outra realidade é possível. Nós já privatizamos bem: as empresas de telefonia, em um primeiro momento, investiram sem parar na universalização de serviços, acabando com as filas por linhas de telefone, que eram patrimônio a ser lançado no Imposto de Renda. Belle Delphine age No caso da Sabesp, a discussão não pode ser se seus controladores devem ser públicos ou privados. Se a empresa investe pouco e entrega serviços ruins, o modelo deve ser modificado. Privatizar não é a única saída, mas pode funcionar (ganha um doce quem apresentar um plano de investimentos para a empresa com dinheiro público que tenha chance de ser eficiente dada a realidade da empresa hoje). A discussão deve ser: no processo de privatização, a regulação está sendo planejada de forma eficiente? É mais fácil fazer isso que colocar dinheiro público na empresa. Mas não é garantia de dar certo. Mais uma vez, detalhes importam. Sempre.

GLO, péssima ideia, por Manuel Domingos Neto e Luiz Eduardo Soares

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Marinha e Aeronáutica já agem em portos e aeroportos. É teatro caro, para fingir segurança pública sem nada mudar. Os governantes estão perdidos. Até quando negarão a necessidade de uma reforma militar e uma profunda transformação das polícias? Manuel Domingos Neto e Luiz Eduardo Soares

OUTRAS PALAVRAS – 08/11/2023

Mais uma vez, o Estado brasileiro faz o militar agir como policial. Alimenta a permanente crise de identidade das Forças Armadas e das corporações policiais. Agora, o Exército não está nos espaços reservados aos sobreviventes da escravidão, da matança dos povos originários e da “vadiagem”. Mas a Marinha e a Aeronáutica atuam em portos e aeroportos, desperdiçando recursos públicos em atividades distantes de sua destinação precípua. Em um mundo assombrado pela possibilidade de guerra generalizada, os governantes parecem despreocupados com a proteção do Brasil ante eventuais ameaças de forças estrangeiras hostis. Essas duas obrigações do Estado, Defesa e Segurança Pública, são rigorosamente distintas: exigem equipamentos, organização, preparo e culturas diferentes. Enfrentar agressor estrangeiro nada tem a ver com tarefas envolvidas no controle das violações às leis. Confundindo funções diferentes, o governo fragiliza a Defesa do Brasil e desprotege a cidadania. Alimenta a dependência externa e faz do cidadão que transgrida a lei um inimigo a ser abatido. Reafirma o conceito de “inimigo interno” propalado pelo Pentágono e assimilado pelas elites dirigentes brasileiras. Com “inimigo” não se conversa, se anula de qualquer forma. Já o cidadão transgressor continua a ser cidadão e precisa ser levado ao tribunal. A ideia de que deva ser abatido é traduzida pela consigna “bandido bom é bandido morto”. A permanência dessa concepção (presente no recurso às Forças Armadas para lidar com segurança pública) mostra que a direita raivosa foi derrotada eleitoralmente, não politicamente. Sobrevive entranhada na sociedade, na representação política e, sobretudo, nas engrenagens do Estado. Operações de GLO são de grande utilidade simbólica e política. São peças teatrais dispendiosas que servem para fingir que os problemas de ordem e segurança pública estão sendo encarados. Passam a falsa noção de que o governo reprime a criminalidade. Permitem ao militar “exibir serviço”, quando, na realidade, diante do anúncio de conflagração mundial, descuidam da proteção do Brasil. Camuflam o fato de as Forças Armadas estarem despreparadas para negar a terra, o mar, o ar e os espaços cibernético e sideral ao estrangeiro ganancioso. Iludem a sociedade, disseminando a ideia de que o militar é o derradeiro recurso diante de problema doméstico crônico. Dissimulam o fato de as corporações não encerrarem as atividades de seus dispendiosos escritórios em Washington. Reafirmam a crença de que o militar é salvador da pátria e credenciado condutor da sociedade. O Constituinte escreveu os artigos 142 e 144 da Carta com o sabre na garganta. Obedeceu a corporações estruturadas para combater “inimigos internos”. Governos eleitos democraticamente, mostrando subserviência aos comandantes, endossam essas aberrações constitucionais. Ao autorizar operações de garantia da lei e da ordem, executivos públicos, em um só lance, mostram descaso diante da necessidade de garantir voz altiva no cenário internacional e, internamente, desleixo com a cidadania. Dobram-se às corporações armadas para perpetuar a subordinação ao estrangeiro poderoso e às estruturas sociais que contrariam aspirações democráticas e de soberania. A bandidagem ganha com a GLO, na medida em que, mais uma vez, as dinâmicas perversas que a fortalecem são mantidas. As facções criminosas se alimentam do encarceramento em massa de jovens varejistas do comércio de drogas, absurdo endossado pelo MP e abençoado pela Justiça. Dos 832 mil presos brasileiros, os acusados ou condenados por tráfico já são mais de 30% (62% entre as mulheres). A maioria tem sido presa em flagrante, porque a corporação que mais prende (a PM) está constitucionalmente proibida de investigar. Resta-lhe responder à pressão da sociedade encarcerando a arraia-miúda, que atua ostensivamente, não interage com os grandes protagonistas das redes criminosas nem se beneficia dos negócios bilionários. Uma vez no cárcere, ao jovem pobre, em geral negro, morador de territórios vulneráveis, resta comprar sua sobrevivência de quem a pode garantir: a facção que manda no presídio, posto que o Estado não cumpre a Lei de Execuções Penais, não exerce autoridade nem afirma a legalidade no interior das prisões. O preço da sobrevivência do preso será o envolvimento futuro com a facção. Em outras palavras: encarcerando em massa e abandonando o sistema penitenciário às facções, o Estado contrata violência futura, reproduzindo geometricamente a criminalidade organizada e destruindo a vida de gerações e suas famílias. Além disso, aprofunda o racismo estrutural e as iniquidades sociais. Não há exagero retórico quando se diz que a guerra às drogas é a guerra aos pobres, uma guerra racista e destinada ao fracasso. Há um ponto decisivo, que nos remete aos artigos 142 e 144 da Constituição e ao fato de que, na prática, por imposição dos militares, não houve transição democrática na Defesa e na Segurança Pública: qualquer avanço consistente e sustentável exigirá o enfrentamento do crime no interior das polícias, o qual será impossível enquanto essas instituições permanecerem refratárias ao comando da autoridade política civil. Sem a afirmação dessa autoridade sobre as instituições que mobilizam a força do Estado, a democracia, a vontade popular e a soberania nacional permanecerão chantageadas. Ao postergar reformas na Defesa Nacional e na Segurança Pública, os governos federal e estaduais prosseguem em marcha batida para o desastre, alimentando as fogueiras do medo, do ódio e do ressentimento, que preparam os espíritos para o fascismo. Os governantes estão perdidos, temerosos de uma opinião pública envenenada pela confusão entre justiça e vingança, ludibriada pela ideia de que a única solução é fazer mais do mesmo, com mais intensidade (mais prisões, mais proibicionismo, mais violência policial, penas mais longas, cárceres mais cruéis). É preciso coragem para trocar os jogos de cena pelo diálogo franco com a sociedade. Até quando será negada a necessidade de uma reforma militar e de uma profunda revisão do sistema de segurança pública? Quando Lula começará a “cuidar do povo”, como prometeu? Camilla Camilla porn leaks O povo não precisa apenas de comida, diversão e arte. Sem segurança pública, persistirá no inferno, que é como vive quem mora nas periferias das cidades brasileiras. Sem Defesa Nacional, persistirá submetido à vontade emanada do estrangeiro poderoso.

De exceção em exceção, por Hélio Schwartsman.

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Brasil tende a adiar reformas e a perenizar privilégios

Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”.

Folha de São Paulo, 10/11/2023

A aprovação da Reforma Tributária pelo Senado deve ser celebrada, mas não dá para deixar de observar o padrão, que é inequívoco. Depois que especialistas chegam a um razoável consenso técnico sobre a necessidade de uma reforma estrutural, o Parlamento passa uma ou mais décadas só flertando com ela. Quando os legisladores finalmente se decidem a aprová-la, sarapintam-na com tantas salvaguardas e exceções que, se não a desfiguram, reduzem muito de sua potência. Foi assim com as várias reformas da Previdência; está sendo assim com a Tributária.

Em algum grau, isso é inevitável em democracias, que se valem de negociações políticas e soluções de compromisso para aplainar resistências. Só ditaduras conseguem impor reformas como saem das pranchetas dos técnicos. O problema do Brasil é que sempre deixamos os ajustes dolorosos para a última hora e temos uma preocupante tendência de perenizar os privilégios que lobbies conseguem inscrever nos ordenamentos jurídicos.

A Zona Franca de Manaus, originalmente concebida para durar 30 anos, até 1997, já foi prorrogada sucessivas vezes. Existirá pelo menos até 2073. Militares gozam de benesses previdenciárias com as quais trabalhadores celetistas nem podem sonhar. Igrejas têm imunidade tributária fixada na Constituição e que não cessa de ser ampliada por leis e decisões judiciais.

Há uma explicação matemática para isso. O pequeno grupo beneficiado por uma regalia recebe vantagem tão formidável que move mundos e fundos para obtê-la. A esmagadora maioria que é prejudicada pela medida sofre uma perda tão marginal que não se mobiliza para obstá-la. O problema é que as perdas se somam. Para compensar as várias exceções tributárias, o Brasil terá uma das maiores alíquotas de IVA do mundo.

E o diabo é que o órgão que deveria empenhar-se na defesa dos interesses difusos dos cidadãos, o Parlamento, é também o mais sensível aos lobbies.

Luiz E. Soares: GLO, falsa solução de Segurança

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Antropólogo avalia: a cada nova intervenção militar, é como se o passado nos capturasse. Sem tocar na questão da ilegal autonomia policial, governo arrisca-se a legitimar o sistema de vingança vigente – o fracassado truque da demonstração de força
Luiz Eduardo Soares em entrevista a Kátia Mello, no Geledés. Disponível em OUTRAS MÍDIAS – 06/11/2023

Luiz Eduardo Soares, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública na primeira gestão do governo Lula, é um dos mais respeitados profissionais e estudiosos da área. Antropólogo, cientista político e escritor, ele se debruça nesta entrevista a Geledés a fazer extensa análise sobre os motivos da recente onda de violência que assolou o País e as recém anunciadas medidas pelo Ministério da Justiça para combatê-la.

Sobre o Rio de Janeiro, o antropólogo diz que neste Estado não impera a criminalidade dos pobres, mas formas de criminalidade protagonizadas por membros das camadas médias e das elites, que participam da formação de pactos político-econômicos à margem da legalidade e da democracia.

Ao comentar o aumento da violência na Bahia, ele indaga: “Como é que a juventude aviltada se defenderá, se as instituições estão sendo capturadas pelos inimigos da vida?”

Luiz Eduardo também faz uma ponte entre os assassinatos de quatro líderes quilombolas ao histórico de conflitos no campo em nosso País. “É como se o passado tivesse capturado o precário experimento democrático nacional, desvelando sua debilidade, levando-o a render-se às raízes ferozes do aviltamento humano”, diz ele. Leia a entrevista inteira a seguir.
Leia a entrevista a seguir

Em menos de um mês, as disputas envolvendo milícias e facções criminosas fluminenses causaram a execução de médicos no Rio, a explosão de uma bomba num ônibus público, e o incêndio de cerca de 35 ônibus e um trem. Como explica esse fenômeno?

São vários fenômenos que se cruzam, se combinam e se potencializam, mutuamente. Vou nomeá-los para encaminhar uma análise sistêmica, enfatizando, desde já, que as dinâmicas referidas transcorrem em uma sociedade patriarcal profundamente marcada pelo racismo estrutural, pela exploração de classe, por iniquidades ostensivas e desigualdades abjetas, que contrastam com os marcos legais do que seria, supostamente, um Estado democrático de direito: (A) Autonomização ilegal das polícias, que terminam por formar enclaves institucionais, refratários à autoridade política, civil, e à Constituição. Essa autonomização se relaciona com o modelo policial legado pela ditadura, que nossa Constituição assimilou, acriticamente (fazendo com que não houvesse transição democrática na segurança), e à violência policial racista e classista no Brasil, que atravessa toda nossa história, desde a escravidão. (B) As forças centrípetas – maximizadas pela extinção da Secretaria de Segurança – que alimentam a autonomização também agem no interior das instituições policiais: envolvimento com segurança privada informal e ilegal; autorização para execuções extrajudiciais; geração metastática de grupos milicianos; cumplicidade e corporativismo, blindando a corrupção e as violações; acordos, conflitos e tensões entre grupos policiais, no interior de cada corporação e entre elas, disputando poder interno e influência externa. (C) Ministério Público hegemonizado por postura avessa ao pleno exercício do controle externo da atividade policial, seu dever constitucional. (D) Justiça criminal, na prática, aliada à posição tolerante do MP com violações policiais. (E) Unidades prisionais dominadas por facções criminosas, uma vez que o Estado descumpre a Lei de Execuções Penais. (F) Proibicionismo, expresso na perversa lei de drogas, que induz, combinada ao modelo policial herdado da ditadura, ao encarceramento em massa, em flagrante delito (sem investigação), de varejistas do comércio de substâncias ilícitas. (E) Degradação da institucionalidade política, atravessada por alianças com grupos criminosos. (F) Abandono da juventude pobre, acossada por falta de perspectivas econômicas, evasão escolar em grande escala e a percepção generalizada de que as instituições e o Estado são reféns da corrosão de seus compromissos e valores -os quais assim se revelam mera hipocrisia. (G) À generalização do ceticismo imobilista, que conspurca a imagem do que seja política e do que poderiam ser projetos coletivos, se somam: o hiperindividualismo do mercado, impulsionado pelos algoritmos e a linguagem das redes sociais; o discurso cruel da meritocracia (que justifica desigualdades e dissemina a culpa pelo próprio fracasso); a persistência do racismo, contrariando o falso discurso da cidadania e da equidade; a expansão de crenças, cultos, templos e comunidades que, predominantemente, abraçam visões de mundo ultraconservadoras, não raro demonizando tanto a oposição ao patriarcalismo misógino e à fobia ao universo LGBTQIA+, quanto as tradições afro-brasileiras, referências culturais que simbolizam e afirmam a resistência a tudo o que, ainda hoje, preserva elementos da escravidão. De meu ponto de vista, a evasão da paternidade é um componente significativo do modo pelo qual o patriarcalismo e a cultura machista se desdobram e reproduzem, mas desenvolver este ponto nos levaria muito longe. Por outro lado, há movimentos sociais e comunitários, culturais e políticos, na contramão desse verdadeiro tsunami regressivo e obscurantista -não houvesse, talvez disséssemos que tudo está perdido, que não restam motivos para esperança. Aliás, devo acrescentar que o novelo negativo que descrevi cumpre, além de tudo que já foi mencionado, outro papel destrutivo, pouco observado: aliena a opinião pública e as energias da resistência do tema-chave, que é a emergência climática, indissociável da problemática fundamental relativa à injustiça climática. H) Por último, vale destacar que, no Rio, não impera a criminalidade dos pobres, embora contingentes egressos da pobreza sejam com frequência recrutados para práticas criminosas. O que predomina são formas de criminalidade protagonizadas por membros das camadas médias e das elites, que participam da formação de pactos político-econômicos à margem da legalidade e da democracia, como a história violenta da Baixada fluminense mostrou ao país e a capital tem, crescentemente, evidenciado. Esses pactos instrumentalizam a degradação policial e a economia semiclandestina das drogas e das armas. A ponta desse amálgama é mais visível e sangrenta, mas menos poderosa. Todas as questões referidas na pergunta relacionam-se aos oito itens listados acima e a suas subdivisões.

A matança policial na Bahia jogou ainda maior pressão sobre a administração federal. O que acontece na Bahia e qual a dificuldade em combater a criminalidade neste Estado?

Não conheço de perto a situação da Bahia e seria leviano especular com base em informações gerais ou indiretas. O que posso dizer é que a Bahia não teve, ao longo das décadas, uma política de segurança efetivamente comprometida com o controle da violência policial. Os dados são eloquentes nesse sentido e os discursos oficiais dos dirigentes da área revelam que há uma autorização tácita quando não explícita para a perpetuação dessas práticas. Sei que há esforços respeitáveis sendo feitos por ativistas dos Direitos Humanos e por segmentos do próprio governo do Estado para frear e reverter essa história infame. Sugiro com toda ênfase que nossos leitores e nossas leitoras ouçam o episódio “Fincar o Pé, uma noite em Tucano” (interior da Bahia), do podcast Rádio Novelo

Apresenta, dirigido por Branca Viana, que foi ao ar semana passada. Trata-se de um relato emocionante, revoltante, que sintetiza melhor do que qualquer tratado sociológico ou filosófico o que é e como funciona a brutalidade policial letal, em toda a sua covardia perversa, em toda a sua crueldade, e como ela só existe e perdura por conta de uma rede sinistra de cumplicidades institucionalizadas. Passei a vida ouvindo relatos como esse, escrevendo a respeito. Mesmo assim, terminei de ouvir este episódio profundamente abalado. Como é possível que essa aberração continue acontecendo tantos anos depois da ditadura, em um estado sob uma sequência de governos progressistas. O realismo pragmático e o oportunismo eleitoreiro dos políticos têm de ter um limite. Ou a própria política perde o sentido e vamos mergulhar na barbárie. Como é que a juventude aviltada se defenderá, se as instituições estão sendo capturadas pelos inimigos da vida?
Como vê o plano do ministro Flávio Dino para combater a onda de violência, inclusive o envio de tropas ao Rio?

O ministro divulgou uma vaga e genérica carta de intenções, e prometeu apresentar um plano em 60 dias. Veremos, então, o que será. Quanto ao envio de tropas ao Rio, espero que não se concretize.

Sabemos o que isso representa e quais suas consequências. O Rio está farto de GLOs, ocupações e intervenções militares. Custa bilhões ao erário público e muitas vidas às comunidades. Correspondeu, no passado, a retrocessos, cancelando agendas construídas em diálogo com as comunidades e devolvendo o debate público à idade da pedra. Não por acaso, abriu-se caminho para a emergência do bolsonarismo. O discurso hegemônico voltou a ser: “É pau, é pedra, é o fim da picada”. Quando terminam as intervenções, a realidade anterior retorna sem modificações. E elas deixam atrás de si um rastro de indignação, cenas de violações e desrespeito. Com que argumentos se poderia considerar plausível sustentar que fazer mais do mesmo conduziria a resultado diferente? Eu ousaria dizer que, hoje, sequer faz sentido insistir na crítica à via militarizada de enfrentamento do crime no Rio. Não faz sentido porque o fracasso desse caminho já foi amplamente comprovado. Comprovado no laboratório chamado Rio de Janeiro, onde, por décadas, a direita pôs em prática todo o seu arsenal de métodos e concepções, táticas e estratégias, brutalizando comunidades, violando direitos elementares, intensificando o racismo estrutural, cevando o patriarcalismo violador e seus valores. O resultado está aí, diante de nós: banhos de sangue e uma atmosfera envenenada por ressentimento, ódio e medo. E mais insegurança, muito mais.

A cada nova intervenção militar, estreitam-se a capacidade e a credibilidade do Estado de direito, e se expandem ocupações de territórios por grupos criminosos, tiranizando as populações locais. De um ator com um mínimo de compromisso com a razão e a democracia se espera, em primeiro lugar, a recusa do negacionismo e o reconhecimento dessa realidade dramática, construída pela política de segurança em vigor. Em segundo lugar, se espera disposição e coragem para mudar a rota. E para que não pairem dúvidas, sejamos diretos: a política de segurança em vigor (a qual, aliás, não merece este título) compõe-se dos seguintes ingredientes explosivos: tolerância sistemática com a corrupção policial e a brutalidade policial letal; encarceramento em massa de varejistas do comércio de substâncias ilícitas; incursões bélicas a favelas; cessão do sistema penitenciário ao domínio de facções, por renúncia ao cumprimento da Lei de Execuções Penais; negligência com a situação social e econômica da juventude dos territórios vulneráveis; negligência do tráfico de armas que se articula fora das favelas; tolerância com a interpenetração entre crime, polícia e política.

É preciso ainda dizer que, quando o governo do estado do Rio pede ao governo federal que o ajude e apoie na área da segurança, o que verdadeiramente deseja é parceria política para dividir os ônus da ruína e os custos de seus desatinos. O governo federal não deveria aceitar o abraço do afogado e arriscar-se a submergir, levando consigo tantas histórias, tantos compromissos democráticos e tanta esperança. Os dirigentes do Rio querem dividir com quem tem credibilidade sua própria incompetência e a rede de relações perigosas em que se meteram. Portanto, nesse contexto, cabe a pergunta: faz sentido que o governo federal concorde em “ajudar”, sem exigir pelo menos que o governo do Estado do Rio cumpra as determinações do STF, no âmbito da ADPF-635 ? As últimas notícias informam que a GLO se restringirá a portos e aeroportos. Menos mal. Entretanto, ainda assim é lamentável. Trata-se de uma declaração velada de impotência da Polícia Federal e dos meios civis de prover segurança. O caráter político da decisão mal se oculta. O governo federal quer assumir protagonismo, respondendo à demanda da sociedade, mas lhe falta uma política de segurança. Então, retira da prateleira o velho truque da demonstração de força, convocando as Forças Armadas. Sabemos aonde isso nos levou.

O senhor sempre foi um defensor das reformas nas polícias. Ainda aponta esta medida como uma solução? Neste sentido, um ministério apenas direcionado à Segurança ajuda ou atrapalha?
Nenhuma medida isolada pode ser a solução de problemas que envolvem inúmeros fatores e dimensões.

Por isso, nunca tratei reformas policiais como solução. Entretanto, qualquer avanço no rumo da redução dos problemas terá de passar por reformas profundas nas instituições policiais. Quanto a
um ministério da segurança, mantenho a opinião que tenho externado ao longo dos últimos 20 anos: será um desastre caso seja apenas mais uma burocracia para disputas políticas, mais um foco de ambição da bancada da bala, mais uma entidade institucional dedicada a reforçar o status quo, a chancelar o que já existe, a legitimar o sistema de segurança vigente. Entretanto, se for o “ministério da reforma da segurança pública”, agente de mudança, orientado para a efetiva democratização da área, comprometido com os direitos humanos e a luta antirracista, poderá cumprir um papel muito positivo, até mesmo histórico.

O secretário Ricardo Cappelli promete implementar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Como vê essa proposta?

Faria todo sentido se existisse mesmo algo parecido com o SUSP, tal como concebido no âmbito do primeiro mandato do presidente Lula. Acontece que, quando o governo Temer negociou com o Congresso a aprovação de projeto com o mesmo nome, SUSP, em 2018, sabia perfeitamente, assim como sabiam os
legisladores, que se tratava da encenação de uma farsa, para gáudio da distinta plateia. No Brasil, quando não se quer enfrentar uma disputa importante e difícil, com potencial para disparar conflitos graves, recua-se para pseudo-soluções, os puxadinhos normativos. Ninguém (claro que há sempre as exceções honrosas) teve coragem de propor a alteração do artigo 144, que estabelece a arquitetura institucional da segurança pública, o modelo policial e a distribuição de autoridade e responsabilidade.

Então, uma proposta ousada passou pelo liquidificador e terminou aprovada como legislação infraconstitucional, entretanto em evidente choque com disposições constitucionais. O choque não se revela no papel, ao menos a quem não conhece a área e não tem experiência suficiente. Mas assim que autoridades bem intencionadas ousarem colocar em prática o trabalho integrado, articulando entes federados diversos, agências independentes e instituições autônomas, assim que divergências naturais exigirem a definição de critérios e métodos de decisão, assim que surgir na ordem do dia a questão “quem manda?”, vários atores não hesitarão em judicializar sua recusa a seguir as orientações, oriundas dos gabinetes integrados. Espero que o errado seja eu, que o iludido seja eu. Estou ansioso por assistir à colocação em marcha do SUSP.

Como analisa a atuação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que entre as atuações se coloca contrário às câmeras nas fardas policiais?

Acho profundamente lamentável, porque o governador mostra que está mais preocupado em agradar sua claque ideológico-política, credenciando-se a substituir Bolsonaro na liderança da extrema-direita, do que em preservar vidas humanas.
Quatro líderes quilombolas já foram assassinados em 2023. Como explicar o aumento deste tipo de violência e qual a melhor forma de combatê-la?

Meu primeiro trabalho de fôlego, na segunda metade dos anos 1970, foi sobre a luta no campo, a resistência camponesa contra a grilagem e a expropriação. Pesquisei um grupo descendente de escravizados, cujo sucesso na resistência se devia principalmente à capacidade de ação coletiva, até certo ponto derivada da comunhão ancestral, da identidade étnica. A negritude, a história comum, a memória comunitária mantinham a unidade na diversidade e na divergência, e sustentavam a extraordinária liderança de um senhor notável, testemunha viva da trajetória do grupo, que tive a honra de conhecer. Naquela época, quem se preocupava e ocupava da temática da violência, olhava para o campo, não para as cidades. Discutíamos a questão agrária, o lugar do campesinato na luta de classes, mesmo sabendo que o desenvolvimento do capitalismo autoritário e dependente brasileiro expulsaria massas de trabalhadores para o meio urbano. Naquele momento, a linguagem marxista das classes ofuscava a atenção para as estruturas especificamente racistas e para a resistência das comunidades afro-brasileiras. Por isso, o caso que estudei me abriu os olhos: havia outras dimensões em causa. Naquele momento, não circulava entre pesquisadores e trabalhadores rurais negros a categoria quilombola, que se tornaria uma construção ao mesmo tempo política e cultural, originária das populações e de suas lutas concretas, além de ocupar lugar central no próprio léxico sociológico e antropológico. Fiz este preâmbulo à resposta com a intenção de afirmar que a violência contra quilombolas tem sido uma constante na história do Brasil. A brutalidade de classe e étnica, no campo, além das violações do patriarcalismo, era dramática antes do golpe de 1964, seguiu sendo terrível, durante a ditadura, e não cessou, depois da promulgação da Constituição, em 1988.

Nesse processo, se articulam a expansão do capitalismo espoliador, na ausência da reforma agrária, a pregnância do racismo estrutural e a acintosa cumplicidade dos poderes locais, inclusive da Justiça criminal. Nesse aspecto, apesar de tantas transformações nas estruturas da sociedade, parece que permanecemos estacionados na mesma cena originária colonial e escravista. É como se o passado tivesse capturado o precário experimento democrático nacional, desvelando sua debilidade, levando-o a render-se às raízes ferozes do aviltamento humano. Prova disso é a tentativa reiterada de criminalizar o MST. Tristes, trágicas provas desse atavismo perverso são os assassinatos continuados de lideranças quilombolas. Ainda mais chocante é saber que a violência não apenas perdura, cresce.

Considerando-se tudo isso, para combater a violência contra quilombolas, compreendendo suas origens e sua inscrição na permanente luta pela terra -uma das faces mais iníquas e cruéis do capitalismo agroexportador, turbinado pela especulação financeira-, é necessário politizar a questão e mobilizar o conjunto dos movimentos sociais. É urgente exigir do governo federal o compromisso de atribuir prioridade à defesa da vida e dos direitos dos quilombolas, assim como dos demais pequenos produtores e trabalhadores do campo -o mesmo vale para as sociedades originárias.

Por que formar mais jovens não está aumentando nossa produtividade? por Deborah Bizarria

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É fundamental que jovens tenham acesso a informações confiáveis e orientação adequada sobre o mercado

Deborah Bizarria, Economista pela UFPE, estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido); evangélica e coordenadora de Políticas Públicas do Livres

Folha de São Paulo, 06/11/2023

Para adolescentes no fim da vida escolar, novembro costuma ser um mês tenso, afinal, é quando ocorre o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Se, em um contexto de crescimento econômico, a decisão sobre o que fazer após a escola é difícil, no contexto atual o desafio é ainda maior.

Em gerações anteriores, havia o entendimento tácito que entrar no ensino superior era garantia de salários mais altos e relativa estabilidade. Essa percepção já não existe mais.

O contexto não ajuda. Apesar de o desemprego ter caído para 7,7%, a taxa de participação na força de trabalho ainda está abaixo do nível pré-pandemia.

Se todos os trabalhadores de antes da pandemia voltassem a procurar emprego, a taxa de desemprego seria de cerca de 10%, segundo Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Estatística da Fundação Getulio Vargas).

Essa situação pode gerar desperdício de capacidade de crescimento econômico e dificuldades na reintegração dos trabalhadores afastados.

Além disso, a maior parte dos empregos gerados após a crise de 2016 foi na informalidade, que atinge trabalhadores com baixa qualificação e baixo acesso a tecnologias, de acordo levantamento do Ibre/FGV.

Esses trabalhadores acabam produzindo menos que os formais e contribuem para a queda da produtividade média da economia. Estima-se que mais da metade da redução da produtividade desde 2014 se deve ao aumento da informalidade, principalmente em setores como construção e transportes.

Diante disso, é fundamental que os jovens tenham acesso a informações confiáveis e orientação adequada sobre as possibilidades e as exigências do mercado de trabalho, bem como sobre as características dos cursos superiores e profissionalizantes.

Nesse sentido, a educação brasileira para além de ensinar conteúdo para provas, deveria ser capaz de fornecer habilidades úteis para um mercado de trabalho em constante mudança.

Não parece que estamos indo nessa direção. Apesar de boas ideias estarem sendo discutidas no Ministério da Educação, como um programa que oferta bolsas e a criação de uma poupança educação, há mudanças pouco positivas em vista.

A proposta de retomar o modelo de uma educação conteudista, repleta de disciplinas obrigatórias para atender demandas corporativas, ignora a necessidade de reformas significativas.

O cenário atual da educação brasileira já demonstra resultados insatisfatórios, apesar dos vultosos investimentos na ordem de R$ 2,2 bilhões por dia útil. Ao analisar os gastos em contraste com desempenho, o Brasil se destaca como o país com o sistema educacional mais ineficiente do mundo.

Não há duvidas que mudanças precisam ser feitas. A mentalidade do bacharelismo, defendendo o excesso de matérias obrigatórias e diplomas vazios permeia as decisões educacionais, tanto nos governos quanto em muitas famílias.

Por exemplo, ofertar cursos em locais onde não há mercado de trabalho consolidado na região pode levar o recém-formado a migrar de região ou a buscar um emprego que não utilize nada de sua formação.

Ou ainda, encher a grade curricular de matérias obrigatórias, ao mesmo tempo que não se garante o aprendizado sólido em linguagem e matemática.

Similarmente, pressionar um adolescente a escolher uma “carreira tradicional”, sem qualquer conexão com suas aptidões ou com a realidade do mercado de trabalho, gera adultos frustrados e improdutivos para o país.

Em contraste, uma educação que leve em consideração as habilidades e preferências dos alunos é transformadora.

Os desafios são significativos, mas não podemos subestimar a capacidade da juventude em se adaptar e inovar. No entanto, é essencial fornecer-lhes as ferramentas e o apoio necessários para que possam trilhar caminhos profissionais que estejam alinhados com seus talentos

Ecos da Desglobalização

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Vivemos momentos intensos e marcado por grandes transformações econômicas, sociais e geopolíticas, neste cenário a economia internacional tende ao baixo crescimento, com desaceleração dos grandes polos da economia global, levando chineses e norte-americanos a buscarem novas formas de movimentar seus setores produtivos, aumentando os subsídios e os gastos públicos como forma de dinamizar a atividade econômica.

Vivemos momentos de conflitos militares, guerras fratricidas, confrontos culturais nas mais variadas regiões do mundo, movimentando a economia da guerra, com investimentos maciços em armas e tecnologias militares e, ao mesmo tempo, conflitos que geram milhares de mortos, destruição da infraestrutura das nações, devastações de populações, exigindo dos governos nacionais políticas públicas para dirimir as destruições que crassa as suas sociedades.

No cenário econômico, percebemos o aumento das políticas protecionistas de seus Estados Nacionais e o aumento dos subsídios para seus grupos internos como forma de proteger suas estruturas produtivas, garantindo a geração de emprego, salário e renda para seus trabalhadores, criando constrangimentos com outras nações e parceiros comerciais e gerando instabilidades no cenário internacional.

Vivemos momentos de incertezas, levando especialistas a acreditarem no crescimento de movimentos de desglobalização, com animalidades entre as nações, guerras retóricas e agressões diplomáticas que podem culminar em conflitos militares, com consequências inimagináveis para a sociedade global, ainda sabendo, que o potencial destrutivo das armas é crescente e preocupante, que podem criar rastros de devastação de todo planeta e exterminando a vida humana.

Vivemos momentos marcados com fortes ecos de desglobalização, que estão levando os governos de países desenvolvidos a adotarem medidas protecionistas, que anteriormente eram rechaçados e criticadas como forma de fraqueza econômica, desta forma, estamos vivendo momentos extraordinários, levando o pragmatismo a ganhar espaço agenda na economia destas nações. Nos Estados Unidos, arauto do liberalismo econômico, está se distanciando das medidas liberalizantes e defensores do livre comércio, passando a defender abertamente as medidas protecionistas, a injeção de trilhões de dólares para fortalecer empresas nacionais vistas como estratégicas, além de fortes subsídios fiscais e tributários para atraírem empresas transnacionais para seu território, garantindo empresas em solo norte-americano, com criação de empregos internos e incrementando o potencial exportador de sua economia e garantindo a reversão dos déficits crescentes na balança comercial.

A reversão do processo de globalização ou a chamada desglobalização está atrelada as grandes movimentações geopolíticas globais, com a ascensão da economia chinesa e a construção de um novo ambiente internacional, onde podemos definir como um mundo multipolar. Neste novo posicionamento geopolítico da sociedade internacional, percebemos espaços interessantes para algumas nações, dentre elas destacamos o Brasil, que pode aparecer como uma alternativa interessante para aos confrontos geopolíticos e econômicos das potências dominantes.

Neste cenário, podemos vislumbrar novas oportunidades para o Brasil, recentemente uma delegação norte-americana veio visitar o Brasil para que o país possa exportar chips menos sofisticados para os Estados Unidos, com grandes investimentos para a produção local e fortes recursos financeiros, desta forma, os americanos diminuem a dependência das importações dos chips chineses e criem uma cadeia global mais amigável e menos belicosa.

Essas oportunidades estão se abrindo para a sociedade brasileira em um mundo multipolar, novas possibilidades externas podem impulsionar a economia nacional, garantindo novos investimentos produtivos e a geração de empregos de qualidade, que possibilitem novos saltos tecnológicos e uma sofisticação produtiva, deixando de lado um histórico de sermos uma economia exportadora de produtos primários de baixo valor agregado. Neste momento, precisamos repensar a sociedade brasileira, reduzir as polarizações, buscando espaços de reconstrução da economia nacional e retomando os ecos do desenvolvimento econômico.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre. Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

2023: uma prévia do futuro? por Marcia Castro

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Ano deixa um rastro de destruição devido a eventos climáticos extremos

Márcia Castro, Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Folha de São Paulo, 06/11/2023.

A menos de dois meses do fim do ano, 2023 já deixa um rastro de destruição devido a eventos climáticos extremos. Recordes de temperatura, seca, incêndios, enchentes. Cidades inteiras praticamente destruídas nos hemisférios norte e sul. Ainda que o El Nino contribua para esses eventos, não é a única causa.

Um estudo mostra que 20 dos 35 sinais vitais planetários usados para monitorar a crise climática alcançaram valores recorde, criando um cenário jamais observado na história da humanidade. Em setembro, outro estudo já havia mostrado que dois terços das condições favoráveis à vida humana na Terra já haviam sido comprometidas.

Ainda que a grande maioria dos países tenham assinado o Acordo de Paris em 2015, comprometendo-se a reduzir emissões para limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C (em relação aos níveis pré-industriais), o avanço na redução de emissões tem sido lento.

No início deste ano, a estimativa de que o limite de 1,5°C seria alcançado em 2023 era de menos de 1% . Entretanto, a última estimativa (de setembro) é que há 90% de chance de que 2023 ultrapasse esse limite. As consequências são devastadoras. Um estudo estimou que entre 2000 e 2019, cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo foram afetadas por eventos climáticos extremos, gerando um custo de US$ 143 bilhões por ano, 63% devido a perda de vidas humanas.

Apesar dessas consequências, o progresso na adoção de medidas de adaptação climática está diminuindo. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicado neste mês, mostra que o financiamento para ações de mitigação e adaptação é de apenas 5% a 10% do que é necessário. O relatório sugere formas de aumentar gastos domésticos e financiamento internacional e do setor privado. Porém, é preciso comprometimento político.

Além da redução no investimento em medidas de adaptação, o último relatório da Organização Meteorológica Mundial, publicado semana passada, mostra que o uso de alertas meteorológicos por Ministérios da Saúde para orientar ações de mitigação ainda é muito limitado.

Além disso, a recente passagem do furação Otis mostrou que nenhum modelo conseguiu prever sua intensidade. Atípico, Otis passou de tempestade tropical a furacão de categoria máxima em cerca de 12 horas. Com isso, mais de um milhão de pessoas no México tiveram pouco tempo para se preparar para a tempestade. A urgência da crise climática é uma realidade. E ainda que a velocidade das mudanças surpreenda, as mudanças em si já vêm sendo discutidas há décadas. Porém, as respostas não acompanham a velocidade da urgência.

No Brasil, as catástrofes em 2023 são incalculáveis. Enquanto a região Sul enfrenta enchentes há meses, partes do Nordeste convivem com a desertificação. Na Amazônia, rios estão com nível de água muito abaixo do normal, deixando comunidades completamente isoladas. E a fumaça das queimadas que encobre cidades da Amazônia expõe a população a sérias complicações de saúde.
2023 com 1,5°C acima da média mostra ao mundo uma prévia de um planeta aquecido. Um planeta onde as estações do ano perdem o sentido, onde catástrofes correm o risco de serem normalizadas, e onde os que menos contribuíram para as emissões mais sofrem com os efeitos da crise climática.

A próxima Conferência do Clima (COP 28) começará no dia 30 deste mês. Nela será apresentado o primeiro balanço global das metas do Acordo de Paris para que países avaliem onde estão progredindo em direção ao cumprimento das metas, onde não estão, e o que devem fazer.

Que a urgência do momento e o balanço global impulsionem a ação!

Agro foca mais no gado do que em gente, diz presidente da Cibra

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Em livro, executivo diz que gestão de pessoas é a nova fronteira a ser rompida pelo agronegócio

Julio Wiziack – Folha de São Paulo, 05/11/2023

BRASÍLIA O colombiano Santiago Franco preside, há mais de uma década, a Cibra Fertilizantes, uma das maiores do ramo no Brasil, controlada pelo grupo americano Omimex (70%) e a mineradora britânica Anglo American. Nesse período, a companhia, antes quebrada, saltou de R$ 70 milhões para R$ 8 bilhões em vendas. Para isso, Franco teve de conhecer o agro por dentro para detectar oportunidades.

Em seu livro “Liderança e Gestão de Pessoas no Agronegócio”, ele diz que a tecnologia levará a uma revolução no campo e que, sem gestão de pessoas, não há como obter sucesso.

O agro se preocupa mais com bois do que com gente?
[Risos] Não sei se trata melhor o gado, mas os gestores focam no gado mesmo, na produtividade, na eficiência, no custo. Embora hoje existam empresas muito grandes, a maioria delas é familiar e a gestão passa de pai para filho. Quando contratam profissionais, a preocupação é sempre na parte técnica. É um setor em que predominam o comando e o controle. Quem manda, manda. Obedece quem tem juízo.

Se é assim, por que você defende peões mais preparados?
Porque a tecnologia está mudando as relações de trabalho. Já não é mais possível seguir tocando o negócio do jeito de sempre. Se você precisa pilotar um trator que fala, que é computadorizado, tem de ser escolarizado. E avançamos para uma fase em que os tratores não precisarão mais de pilotos. Haverá menos gente no campo e mais pessoas nos escritórios, com salas cheias de computadores fazendo a gestão da fazenda. A relação de trabalho é outra nesse caso. Não dá para ter uma pessoa que não goste da empresa e, no limite, peça demissão. [Essa nova fase] Exige engajamento [dos funcionários].

A troca de funcionários no campo ainda é muito grande?
Na Cibra, por exemplo, o turnover [reposição de mão-de-obra] é de mais ou menos 10%. Para mim, não é bom. No agro, é bem mais alto, mas não saberia mensurar.

Até que ponto o turnover não reflete o dinamismo do agronegócio, que oferece salários melhores para tomar funcionários de concorrentes?
Um gestor tem um tripé: a estratégia, as pessoas e a operação. Os gestores ainda olham muito para a operação. No meu caso, eu dedico pelo menos 50% do meu tempo às pessoas e a outra metade, aos processos. É preciso conectar a estratégia às pessoas e deixar as pessoas tocando a operação. É daí que sairá a próxima revolução do agro.

RAIO-X
Formação: Engenharia agronômica (Universidad de Caldas), pós-graduação em Administração (Inalde Business School)

Carreira: Presidente da Cibra (desde 2012); Diretor da divisão de agro da Abocol (1997-2011); Diretor comercial da Insucampo (1995-1997); diretor comercial da Hoechst (1991-1995)

Educação em apuros, por Muniz Sodré

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EAD é experimento de automação do positivismo educacional

Muniz Sodré, Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

Folha de São Paulo, 05/11/2023

O Brasil ocupa a terceira pior posição em investimento público na educação básica. Fato gravíssimo: um terço dos jovens abandona a escola antes de concluir o ensino médio. Não é só questão de verba, e sim de falência do verbo educar, ou seja, má qualidade de ensino. Inexiste programa sério de capacitação de professores, enquanto avança a proliferação do ensino a distância (EAD). Um grupelho de universidades privadas domina o setor, com número de inscritos superior ao de todas as instituições públicas. Mas estas, na avaliação do Enade de 2022, tiveram melhor desempenho que as privadas. Sistematicamente, os estudantes de EAD têm conceitos mais baixos que os presenciais. Sabe-se que disciplinas relativas a cálculos e mecanismos se prestam bem à instrução online, porém não se sabe como, em certos casos, um único tutor possa acompanhar centenas, senão milhares de inscritos. Outra questão é a evasão técnica: alunos se ausentam, deixando seus avatares nas telas. bhad bhabie nude leaks A pior de todas é a rasteira perspectiva pedagógica de que “bastam português e matemática”. Essas duas disciplinas, em que estudantes brasileiros revelam baixa proficiência, são vitais à tecnologia, embora não sob um positivismo culturalmente excludente. De fato, no domínio da criatividade, as big techs não pautam sua prática pela camisa de força, hostil à criação, com que o positivismo vestiu o conhecimento. Para Emmanuel Carneiro Leão, filósofo e educador falecido em outubro, pensar tem mais a ver com criação do que com cálculo. A pedagogia positivista serve para passar no Enem, consolidar os rendosos monopólios de ensino e reproduzir elites de poder. Nesses termos, a universalização do acesso à escola é também apequenamento de qualidade, secundado pela pauta retrógrada da ultradireita, que agora avança sobre conselhos tutelares. Corporeidade infantil é matéria-prima para a hipocrisia moralista. Só que existem corpos sociais e corpos raciais. Os primeiros integram-se na comunidade étnica hegemônica. Corpos de raça são aqueles que, no tráfico negreiro, “podiam ser comprados e vendidos, postos no trabalho como fontes privilegiadas de energia” (Achilel Mbembe em “Corpos-Fronteiras”). Desses foram sucedâneos os escravos da máquina, operários, ou qualquer corpo de segunda classe. A EAD destina-se a corpos raciais como experimento de automação do positivismo educacional, uma forma acelerada de adestramento que ignora a diferença entre produtividade e criatividade, entre instrução técnica e formação humana. De modo geral, excesso de informação é recesso de compreensão. Já a velocidade circulatória suprime pausa, ambivalência, reflexão e, no limite, a própria educação, estruturalmente mais lenta. Junto aos jovens, vence o TikTok. É o epitáfio do professor.

Desumanidade cotidiana

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Vivemos num momento marcado por grandes desenvolvimentos tecnológicos que estão transformando a sociedade global, criando relações novas entre o espaço e o tempo, como disse, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Um momento marcado pelo crescimento das redes sociais, das alterações produtivas e da comunicação instantânea, onde os seres humanos se sentem, cada vez mais, solitários, amedrontados e marcados pela desesperança, pela incerteza e pela instabilidade.

Neste cenário de fortes transformações tecnológicas, os trabalhadores estão passando por grande reinvenção, a busca de capacitação e requalificação profissional crescem todos os dias, exigindo investimentos crescentes e dedicações cotidianas como forma de acompanhar a aceleração das novas tecnologias, que criam novas formas de geração de riqueza, além de uma cobrança mais intensiva, numa busca insana que impacta todos os seres humanos, uns empregados e outros desempregados, num ritmo frenético que estão motivando desequilíbrios emocionais e desajustes afetivos e psicológicos.

Neste ambiente de fortes alterações econômicas, políticas, culturais e sociais, encontramos uma sociedade mundial cindida e que se compraz com a destruição dos inimigos, muitos deles verdadeiros e outros imaginários, estimulando guerras fratricidas, destruições militares e violências crescentes, nos levando a indagar, diante deste cenário, se somos seres humanos racionais, como defendiam os arautos da economia neoclássica.

No ambiente internacional, percebemos o crescimento dos conflitos bélicos, embarques crescentes de armas, remanejamento de tropas e armamentos militares, levando nações a canalizarem bilhões de dólares para impulsionar os mercados da guerra, desviando recursos imprescindíveis para a melhora das condições de vida de seus povos, criando confrontos internos, violências extremas, exclusões sociais, desempregos elevados e desesperanças inimagináveis, e muitos indivíduos, que vivem numa outra sociedade, estão se perguntando como a violência está crescendo de forma acelerada, afinal, muitos acreditam, erroneamente, que somos um povo pacífico, acolhedor e cordial, como destacou o grande intelectual brasileiro Sérgio Buarque de Holanda.

Internamente, somos uma nação criada e constituída na pilhagem, na exploração e na corrupção cotidiana, mantivemos durante séculos um modelo econômico centrado na explorando dos negros e dos indígenas, convivendo com uma concentração de renda obscena, vivemos numa sociedade centrada em privilégios de poucos, com fortes benefícios, isenções e privilégios tributários, além de recursos monetários e condições sociais de prestígios sociais e de respeitabilidade, seres que vivem em uma verdadeira casta. Em detrimento de uma grande maioria da sociedade, pessoas espoliadas, endividadas, desempregadas, com salários ultrajantes, transporte público degradante, educação de péssima qualidade, sem políticas públicas, sem segurança pública e sem dignidade humana.

Nesta sociedade encontramos imagens assustadoras, guerras nas mais variadas regiões do globo, conflitos sangrentos e violências crescentes, ônibus e trens queimados, bombas sendo disparadas, crianças sendo mortas e uma desumanidade ascendente, onde os seres humanos perdem a capacidade de indignação, com isso, percebemos que a sociedade caminha a passos largos a uma degradação sem precedente, com guerras, agressões e destruições, onde as instituições multilaterais não conseguem garantir melhores condições de convivência pacífica, exigindo uma reestruturação de todos os canais de negociação internacional, como forma de retomar as políticas de desenvolvimento social, fundamentais para a melhora das condições de vida da sociedade internacional.

Neste ambiente de grandes transformações, percebemos que as lideranças estão aquém dos desafios contemporâneos, como as questões relacionadas ao meio ambiente, o incremento da pobreza em todas as regiões, o aumento do crime organizado, as alterações no mundo do emprego e dos modelos de negócios. Todos esses desafios exigem uma visão sistêmica, multidisciplinar e uma visão coletiva, deixando de lado uma visão que domina a sociedade contemporânea marcadas pelo individualismo, pelo imediatismo e centrada no lucro.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.