Vivemos momentos de grandes transformações na sociedade contemporânea, com novas oportunidades, novos desafios, novos modelos de negócios, novas tecnologias, novos consumidores, novos modelos de família e, o crescimento de grandes ilusões que dominam a comunidade e os seres humanos, levando os indivíduos a confundirem ideais momentâneos, prazeres imediatos e enriquecimento instantâneo como objetivos de vida e de sobrevivência e, com isso, acabam gerando frustrações, constrangimentos e desilusões quando estes objetivos não se efetivam, aumentando os desequilíbrios afetivos e emocionais.
Vivemos numa sociedade baseada no consumo sistemático, exagerado e imediato de mercadorias, bens e serviços, estamos transformando este consumo em um ideal de felicidade, de prosperidade e de realização. No século XVII, o grande pensador francês René Descartes destacou, em frase clássica: “Penso, logo existo”. Na sociedade contemporânea, percebemos, uma alteração, nada sutil, da máxima do pensador francês: “Consumo, logo existo”.
Nesta sociedade baseada na aparência e na acumulação financeira, percebemos o aumento substancial de pessoas que frequentam os templos religiosos, nas mais variadas religiões e filosofias existenciais e, ao mesmo tempo, percebemos que, muitos destes contingentes de pessoas participam desta religião como uma verdadeira convenção social, muitos saem de suas casas para fazer negócios e angariar novos contatos profissionais, falam da caridade material e, ao mesmo tempo, em cargos de chefia, exploram seus subordinados, pagam salários indignos e, deixam de lado, os verdadeiros objetivos da religião que, sempre foi vista como o espaço de solidariedade, empatia e integração entre o material e o imaterial.
Vivemos numa sociedade que estimula o empreendedorismo e a inovação, vistos como a chave para o desenvolvimento econômico e para a melhora das condições de vida da população e, ao mesmo tempo, destroem o ensino, degrada a carreira docente, restringe os recursos públicos para setores estratégicos, como educação e saúde, privatizam as riquezas naturais, limitando as oportunidades dos seus cidadãos e continua, abertamente, irrigando os bolsos dos ricos e dos poderosos com subsídios gigantescos, isenções fiscais e tributárias e penduricalhos variados para garantir uma classe de maganos e privilegiados.
Vivemos numa sociedade que entrega abertamente as nossas riquezas naturais e metais estratégicos para grupos estrangeiros, abraçamos cotidianamente as bandeiras dos forasteiros, desfilamos em avenidas lotadas para adorar as cores dos nossos feitores, falamos de liberdade e fugimos dos bancos escolares, não sabemos nossa trajetória e nossos valores e, desta forma, assumimos claramente a nossa subalternidade e a incapacidade de pensarmos como nação soberana.
Vivemos uma sociedade que estimula a compra e os prazeres materiais e, se esquecem, diariamente, que perpetuamos taxas de juros estratosféricos, que aumentam o endividamento das famílias, reduzem os investimentos produtivos e condena uma parte substancial da população a salários reduzidos, cargas de trabalho escorchante e tributos exagerados, além de metas impossíveis de serem cumpridas e, neste ambiente, repercutem a necessidade da construção de uma família equilibrada e estruturada, sonho distante da maior parte da população.
Nesta sociedade, marcada pela ilusão crescente, percebemos o aumento assustador de pessoas em situação de rua, os desequilíbrios emocionais, os suicídios silenciosos, a corrupção crescente, uma justiça ineficiente e dispendiosa, educação pública degradada, trabalhadores próximos da insolvência e uma suposta elite incapaz de compreender os desafios sociais e, interessada, apenas, em garantir seus benefícios financeiros e continuar recebendo proventos vinculados aos juros elevados.
Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

