Vivemos numa sociedade esquisita, preconceituosa e marcada por crescentes e intermináveis desigualdades sociais. Onde os valores estão sempre centrados na acumulação material e nos prazeres imediatos, tudo isso se transformou abertamente na tônica central dos indivíduos e da comunidade. Uma sociedade que premia o rentismo e o financismo, defende a meritocracia e a ascensão social, mas ao mesmo tempo, destrói a educação pública e humilha os professores, condenando seus filhos mais humildes a humilhações constantes, aumentando a desesperança, o medo e, ao mesmo tempo, observa atônita o crescimento acelerado da violência.
Uma sociedade que premia valores e comportamentos transitórios e imediatistas que colhe afastamento social, onde os relacionamentos passam por um cálculo econômico e financeiro, levando os indivíduos a se afastarem dos compromissos mais sólidos e consistentes como forma de evitar constrangimentos futuros e frustrações emocionais. Uma sociedade que defende, abertamente, a racionalidade e prega a eficiência produtiva e, ao mesmo tempo, degrada o meio ambiente, devastando as florestas, explorando de forma indiscriminada os rios, os mares e os oceanos, gerando graves constrangimentos nas águas, matando espécies e gerando um verdadeiro caos na natureza. Mesmo assim, acreditam, cegamente, que são racionais e agem abertamente em prol do desenvolvimento econômico.
Vivemos numa sociedade que premia a especulação financeira e se compraz na criação de fórmulas sofisticadas, defendendo a eficiência produtiva e os ganhos imediatos e, ao mesmo tempo, pouco contribui para o desenvolvimento econômico e produtivo e para a redução da desigualdade social. Cria cálculos matemáticos modernos, desenvolve fórmulas pouco compreensivas e acredita serem racionais e dotados de grande capacidade intelectual e, ao mesmo tempo, prega a racionalidade produtivo, trocando seres humanos por máquinas, ignorando sonhos e esperanças de seus concidadãos, espalhando pobreza e indignidade material, acreditando piamente que aqueles que não conseguirem se adaptar aos novos tempos são ineficientes e ultrapassados.
Vivemos numa sociedade marcada pela falsa eficiência material, que prega os valores da família e da religião, propagandeando a ascensão social via trabalho e dedicação na vida profissional e exige horas e mais horas de trabalho e de subserviência total, impondo metas impossíveis de serem cumpridas, cobranças exageradas e indevidas, salários arrochados e desvalorizados, além de atuar diretamente na redução dos benefícios dos trabalhadores, usando seu poder de convencimento material para defender menos direitos trabalhistas, espalhando que menos benefícios trarão mais empregos e melhorias crescentes para a toda comunidade, desta forma, cria uma classe de trabalhadores despreparados, subservientes e sem benefícios sociais e, mesmo assim, defende abertamente os interesses materiais de seus empregadores.
Vivemos numa sociedade marcada pelo crescimento da tecnologia, onde os valores estão em constante movimento, onde as tecnologias estão entrando em todas as casas, alterando comportamentos e tradições consolidadas, santificando a beleza física, os ganhos materiais e os corpos sarados, como forma de sucesso, estimulando a exposição exagerada, acabando com a privacidade e escondendo as frustrações emocionais e os vazios existenciais, gerando, desta forma, um exército de indivíduos frustrados, incultos e cultuadores de sua própria ignorância intelectual e sua pobreza moral.
Vivemos num mundo estranho, falamos constantemente na meritocracia e no empreendedorismo e nos esquecemos, cotidianamente, de darmos maiores oportunidades para nossos concidadãos, afinal, vivemos num mundo onde tantos talentos extraordinários morrem esquecidos, sem oportunidades e sem esperanças. Precisamos repensar a nossa sociedade, afinal o tempo urge.
Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciência Econômica e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

