Apagão da mão de obra

1

Neste momento de pandemia, marcados por grandes instabilidades econômicas, crise sanitária e constantes desequilíbrios políticos, percebemos que a recuperação da economia, fundamental para o retorno do sistema produtivo, tende a prescindir de mão de obra capacitada para alavancar a economia e retomar os investimentos produtivos, sem capital humano especializado as dificuldades da retomada tendem a se limitar a poucos setores, gerando espaços de crescimento com pouco emprego, aprofundando as gigantescas desigualdades sociais.

A sociedade precisa criar instrumentos para estimular os setores educacionais para formar mão de obra capacitada, qualificando os trabalhadores e construindo ambientes de ensino e aprendizagem, num ambiente de constantes transformações, de forte concorrência, de informações crescentes, prescindindo de um sistema educacional consolidado, profissionais capacitados e empresas em condições de formar cidadãos críticos, metodologias modernas e fortemente competitivas.

A pandemia está acelerando os desafios para a sociedade, todos os setores estão sentindo os impactos deste fenômeno, exigindo atitudes organizadas e concatenadas, onde o planejamento e as estratégias são fundamentais, exigindo dos setores púbico e privado, instrumentos efetivos e imediatos para que o país consiga pensar os momentos pós-pandemia e adotar políticas planejadas. Dentre os setores mais estratégicos na economia contemporânea, não devemos relegar os setores educacionais, criando instrumentos de financiamentos, coordenação entre os setores e a construção de metodologias que motivem os estudantes e os profissionais, fomentando o dinamismo dos espíritos empreendedores, elementos centrais neste momento de incertezas e instabilidades generalizadas.

Os índices de desemprego são preocupantes, estamos falando em mais de 20 milhões de desempregados e desalentados, cujos impactos sociais e econômicos são elevados e degradantes, com estes números, percebemos que o potencial de geração de riqueza é elevado, mas subocupado, gerando desperdício elevado para a sociedade. Uma grande contradição brasileira, estamos vivendo desemprego e subempregado crescentes e, ao mesmo tempo, carência de mão de obra capacitada, profissionais qualificados para compreender os desafios do mundo contemporâneo.

O mundo do trabalho está passando por um período de reconfiguração, marcados pela automação, pela inteligência artificial e pela quarta revolução industrial. Estes trabalhadores estão em falta na sociedade brasileira, diante disso, os grupos econômicos e políticos precisam criar instrumentos de capacitação do capital humano, para isso, faz-se necessário a junção de todas as forças ativas da sociedade, unindo universidades públicas e privadas, centros de pesquisas, o sistema S (Senai, Senac, Sebrae, dentre outros), secretarias de educação, ministério da educação, dentre outros. O esforço deve ser costurado visando auxiliar na recuperação da economia, motivando a melhora do ambiente dos países desenvolvidos, estimulando investimentos, gerando empregos e dinamizando os setores produtivos.

Sem crescimento econômico, baixa confiança dos setores produtivos, percebemos a fuga de cérebro, profissionais altamente capacitados estão deixando o país em busca de oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional, desta forma, sem planejamento e organização dos setores educacionais, o país rifa o futuro e deixa de angariar novos espaços de crescimento econômico, deixando, mais uma vez, oportunidade de surfar neste ambiente externo favorável que se avizinha.

Vivemos um momento preocupante, anteriormente éramos vistos com um futuro respeitável e admirado pela comunidade internacional, atualmente estamos se degradando a olhos vistos, neste momento de degradação, muitos jovens e adolescentes estão buscando novas paradas, deixando famílias em busca de novos horizontes, de novas oportunidades profissionais, ascensão social e melhores condições de vida. Vivemos na era da informação e do conhecimento, neste momento o ativo mais importante da sociedade contemporânea é o capital humano, sem melhorarmos a formação dos cidadãos seremos relegados ao subdesenvolvimento e a dependência eterna.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia/Unesp e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 14/07/2021.

Economia global tem rachaduras após a covid-19

0

O crescimento está voltando rapidamente em todo o mundo após a pandemia, mas há problemas abaixo da superfície

The Economist, O Estado de S. Paulo – 11 de julho de 2021

A pandemia provocou uma terrível recessão econômica, mas, agora, um estranho e empolgante boom econômico ocorre a todo vapor. O preço do petróleo disparou e restaurantes e empresas de transporte estão tendo de lutar e agradar para recrutar funcionários. Enquanto empresas listadas sinalizam que os lucros atingirão recordes neste ano, os mercados de ações estão em alta. Um índice produzido pela JPMorgan Chase e IHS Markit sugere que o crescimento global está em seu ponto mais alto desde os grandiosos dias de 2006.

Qualquer saída da covid-19 é motivo de comemoração. Mas a economia em expansão de hoje também é uma fonte de ansiedade, porque três rachaduras estão abaixo da superfície. Juntas, elas determinarão quem prosperará e se a recuperação mais incomum de que se tem lembrança conseguirá ser mantida.

A primeira divide os vacinados dos não vacinados. Apenas aqueles países que estão recebendo vacinas em seus braços serão capazes de controlar a covid-19. Essa é a condição para que lojas, bares e escritórios reabram permanentemente, e os consumidores e trabalhadores tenham confiança para sair de casa. Mas apenas uma a cada quatro pessoas no mundo tomou a primeira dose de vacina e apenas uma a cada oito está completamente imunizada. Mesmo nos Estados Unidos alguns Estados com poucas pessoas são vulneráveis à infecciosa variante Delta do vírus.

A segunda está entre a oferta e a demanda. A escassez de microchips interrompeu a fabricação de eletrônicos e carros justamente quando os consumidores mais os queriam. O custo do envio de mercadorias da China para os portos da costa oeste dos EUA quadruplicou em relação ao seu nível antes da pandemia.

E mesmo à medida que esses gargalos são desbloqueados, as economias recém-abertas criarão novos desequilíbrios. Em alguns países, as pessoas parecem mais dispostas a sair para tomar algo do que para trabalhar atrás do balcão, causando uma escassez estrutural de mão de obra no setor de serviços. Os preços das casas dispararam, sugerindo que os aluguéis também começarão a subir em breve. Isso poderia sustentar a inflação e intensificar a sensação de que a habitação está cara demais.

A última rachadura é em relação à retirada de incentivos. Em algum momento, as intervenções estatais que começaram no ano passado devem ser revertidas. Os bancos centrais do mundo rico compraram ativos no valor de mais de US$ 10 trilhões desde o início da pandemia e estão nervosamente considerando como se libertar sem causar desespero nos mercados de capitais por um aperto rápido demais. A China, cuja economia não encolheu em 2020, dá um sinal do que está por vir: o país apertou a política de crédito neste ano, desacelerando seu crescimento.

Enquanto isso, os esquemas de ajuda emergencial do governo, como complementos de seguros-desemprego e moratórias de despejo estão começando a expirar. É improvável que as famílias recebam uma nova injeção de incentivos em 2022. Os déficits se contrairão em vez de expandir, puxando para baixo o crescimento. Até agora, as economias têm evitado em grande parte uma onda de falências, mas ninguém sabe quão bem as empresas vão lidar com isso quando os empréstimos
de emergência vencerem e os trabalhadores não forem mais capazes de ficar de licença às custas dos contribuintes.

Você talvez ache que um evento tão extremo como uma pandemia, combinado com a resposta sem precedentes do governo a ele, em algum momento, desencadearia uma reação econômica global igualmente extrema. Os pessimistas se preocupam com um retorno à inflação ao estilo dos anos 1970, ou um colapso financeiro, ou que a energia subjacente do capitalismo seja drenada por esmolas do Estado. Tais resultados apocalípticos são possíveis, mas não são prováveis.

Em vez disso, uma maneira melhor de pensar a respeito do prognóstico incomum é examinar como as três linhas interagem de modo diferente em diferentes economias.

Comece com os Estados Unidos. Com vacinas abundantes e enormes incentivos, o país corre o maior risco de superaquecimento. Nos últimos meses, a inflação alcançou níveis não vistos desde o início dos anos 1980. Seu mercado de trabalho está sob pressão à medida que a atividade econômica muda. Mesmo depois de um crescimento de 850 mil novas vagas de emprego em junho e levando em consideração as vagas em abundância, o número de pessoas trabalhando com lazer e hotelaria é 12% menor do que antes da pandemia. Os trabalhadores estão relutantes em retornar ao setor, o que fez com que os salários aumentassem.

O pagamento por hora está quase 8% maior do que em fevereiro de 2020. Talvez eles voltem quando os benefícios do seguro-desemprego de emergência expirarem em setembro. Mas os países sem tais esquemas de ajuda, como a Austrália, também estão vendo uma escassez de mão de obra. As atitudes em relação ao trabalho podem estar mudando na base do espectro de renda, entre garçons e faxineiros, não apenas entre os profissionais com grandes salários que sonham com iates e anos sabáticos.

Os países de renda baixa e média estão em uma situação difícil. Eles deveriam estar se beneficiando pelo aumento da demanda global por commodities e bens industriais, mas estão passando por dificuldades. A Indonésia, lutando contra outra onda de covid-19, está transferindo oxigênio da indústria para os hospitais. Em 2021, prevê-se que os países mais pobres, que estão desesperadamente com escassez de vacinas, crescerão mais lentamente que os países ricos, pela terceira vez apenas em 25 anos.

Mesmo com a covid-19 enfraquecendo suas recuperações, os mercados emergentes enfrentam a possibilidade de taxas de juros mais altas no Fed. Isso tende a pressionar para baixo suas moedas à medida que os investidores compram dólares, aumentando o risco de instabilidade financeira. Seus bancos centrais não podem se dar ao luxo de ignorar a inflação temporária ou importada. Brasil, México e Rússia aumentaram as taxas de juros recentemente, e mais lugares podem fazer o mesmo. A combinação de vacinação tarde demais e aperto cedo demais será dolorosa.

O ciclo econômico tem sido frenético, deixando a recessão para trás em apenas um ano. Talvez no verão do Hemisfério Norte de 2022 a maioria das pessoas esteja vacinada, os negócios tenham se adaptado aos novos padrões de demanda e os incentivos estejam sendo relaxados de maneira organizada. Nesse estranho boom, entretanto, cuidado com as rachaduras.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

A OCDE e os desafios da educação brasileira, por Claudia Costin

0

Relatório enfatiza as profundas desigualdades educacionais que vivemos

Claudia Costin Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Folha de São Paulo, 08/07/2021

Foi lançado, há poucos dias, um relatório da OCDE, em parceria com o Todos pela Educação e o Sonho Grande, sobre os desafios atuais da educação brasileira. Com o título “A Educação no Brasil, uma Perspectiva Internacional”, o texto analisa o contexto geral da educação brasileira no período imediatamente anterior à pandemia, os impactos do prolongado fechamento das escolas e a resposta educacional à Covid, finalizando com algumas recomendações para assegurar uma aprendizagem de qualidade para todos.

Ao apresentar as características da educação brasileira, o texto chama atenção para o incrível avanço no acesso à escola que o Brasil viveu desde a Constituição de 1988, o que permitiu ao país ampliar a escolaridade média de sua população e, portanto, melhorar a qualificação da sua força de trabalho, o que é vital para o momento que vive a economia mundial.

Para isso, melhorias no financiamento da educação foram essenciais e foi importante, mais recentemente, torná-lo permanente e mais redistributivo. Mas não é suficiente estar na escola e ali permanecer por mais anos. É fundamental garantir que crianças e jovens aprendam o que é relevante em cada etapa de escolaridade e desenvolvam competências não só para o trabalho, mas para a vida em sociedade. E aí o problema ganha uma dimensão muito maior.
Vivemos uma crise de aprendizagem, com a maioria dos alunos com grandes dificuldades para ler e interpretar textos um pouco mais sofisticados, o que demanda um repertório cultural mais amplo, raciocinar matematicamente ou pensar cientificamente.

O relatório enfatiza as profundas desigualdades educacionais que vivemos, expressas não só em exames internacionais, como o Pisa, como no próprio acesso a diferentes etapas de escolaridade e na permanência em instituições escolares. São os que mais precisam do efeito escola e os que têm menos apoio para assegurar a tão necessária aprendizagem que acabam abandonando os estudos.

Da mesma maneira, a pandemia e sua inadequada gestão afetaram mais a aprendizagem e a permanência justamente dos mais vulneráveis, que não contam com conectividade, equipamentos e presença de adultos para organizar o ambiente de estudo dos pequenos. Mesmo com todo empenho de professores para oferecer outros meios de aprendizagem, as perdas decorrentes do fechamento das escolas foram imensas.

As saídas? A OCDE aponta dez, e destaco aqui algumas: proteger os gastos em educação, apoiar os mais pobres desde cedo, oferecer reforço escolar sólido e tornar a carreira docente altamente qualificada e atrativa, melhorando as práticas de ensino.

Vergonha nacional

0

Estamos vivendo um momento de grandes instabilidades, além da crise sanitária e da crise econômica, o país está sentindo as bases de outra crise, a política. As revelações da CPI da Covid estão mostrando os equívocos da gestão do Executivo.

Neste ambiente, as taxas de câmbio começam a assombrar a sociedade e impactando sobre os indicadores econômicos, afastando a recuperação da economia em V, uma mentira difundida pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes.

Neste ambiente, os dados vergonhosos divulgados pela Receita Federal nos trazem novos elementos importantes para a discussão, onde vinte mil cidadãos que auferiram mais de R$ 230 bilhões de renda no ano passado deixaram de pagar tributos, ou seja, estes indivíduos não pagaram nada de imposto de renda.

Diante disso, percebemos muitos indivíduos equivocados defendem o “excesso” de pagamentos de tributos no país, na verdade esta narrativa é errada, quem realmente paga imposto no Brasil? Os dados são precisos e necessitamos incrementar as discussões de como financiar os gastos excessivos gerados pela pandemia.

Muitos empresários rechaçam os incrementos da tributação, defendendo que serão afetados pelo aumento dos tributos, um equívoco generalizado. Esses grupos que se acreditam ser classe alta, na verdade são verdadeiros indivíduos de classe média, defendem uma bandeira que não é sua, são verdadeiros iludidos e alienados, precisam estudar e refletir sobre as bases da desigualdade do país, que tem na questão tributária desigual, uma das causas da concentração de renda.

Os grandes donos do capital são aqueles que auferem bilhões e bilhões de reais, estes sim seriam os verdadeiros que deveriam ser tributados, como forma de justiça fiscal e instrumento de diminuir o fosso entre os grupos sociais, sem eles não seremos elevados a patamares mais altos de civilização… Reflitamos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

A grande mentira, por Antônio Prata.

0

Brooke Marks joseydaniels onlyfans leaked

O sistema imunológico da democracia foi minado por ela mesma

Antonio Prata Escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.

Folha de São Paulo, 03;07/2021

Na revista piauí de junho, Roberto Andrés discute o ousado pontapé inicial do governo Biden. O presidente americano irá injetar trilhões de dólares na economia, estendendo o cobertor do bem-estar social e investindo pesado para reduzir emissões de carbono. O cavalo de pau foi dado, entre outras razões, pela constatação de que o trumpismo e demais arroubos antidemocráticos mundo afora só foram possíveis pois o discurso das democracias liberais estava fazendo água havia tempo.

Como as pessoas podem acreditar que a terra é plana? Como podem acreditar que a vacina vai instalar um chip em seus corpos? Como puderam acreditar nas mentiras do Trump e seguem acreditando nas do Bolsonaro, do Qanon, do Olavo de Carvalho? Bem, tanto nos EUA quanto no Brasil essas pessoas passaram décadas crendo numa mentira não menos gigante: que as democracias liberais, este nosso mundo com eleições, Netflix, cartão de crédito, Peppa Pig, politicamente correto, cross-fit, Carteira de Trabalho, McFlurry, habeas corpus, Fuvest e afins iria melhorar suas vidas, garantir seus direitos básicos e introduzi-las numa sociedade justa, onde todos teriam as mesmas oportunidades. Balela.

No longevo reinado de quase meio seculo do neoliberalismo, enquanto o estado do bem-estar social ia sendo desmantelado mundo afora, a distância entre o 1% e os 99% crescia. As pessoas se sentiram enganadas –e foram. (Sobre este processo, vale ler “A consciência de um liberal”, do Paul Krugman, e os contos “O cobrador”, do Rubem Fonseca, e “O espremedor de culhões”, do Bukowski).

Não adianta virem os Stevens Pinkers da vida mostrar que o capitalismo melhorou as condições dos pobres nos últimos 250 anos. O motoboy que se arrisca todo dia sob sol e chuva pra levar refeições valendo metade do seu salário não quer saber dos últimos 250 anos, quer saber do mês seguinte. Quer ter um trabalho que curta e seja bem pago, quer ser olhado com desejo pela moça bonita do Shopping Higienópolis e não com desconfiança pelos frequentadores e seguranças. Quer ser admirado pelos filhos e comer sua picanha com cerveja no domingo.

As pessoas não são burras. O motoboy olha pela fresta da porta na casa chique e sabe que é o mais próximo que vai chegar daquela sala, embora o discurso reinante seja o de que se ele se esforçar bastante, prosperará. Se isso não é fake news, não sei o que é.

O bolsonarismo e o trumpismo são infecções oportunistas: alastraram-se porque o sistema imunológico da democracia foi minado por ela mesma. Essa picaretagem de prometer aos pobres propaganda de margarina e entregar gás lacrimogêneo aguenta só até certo ponto. Quando a mentira cai de madura, a dissonância cognitiva deixa na cabeça dos desiludidos um rombo pelo qual entra todo o tipo de terraplanismo.

Não vamos vencer o fascismo fazendo jogral com artistas no Facebook nem escrevendo colunas argumentando que a democracia é a melhor forma de governo –tenho lugar de fala, de jogral e de coluna neste assunto. A melhor saída, a única eficaz e justa, é construirmos uma democracia que seja radicalmente inclusiva. Do contrário, na hora de escolher entre ser engambelado pela conversa pra boi dormir ou se tornar gado no estouro da boiada, as pessoas seguirão optando pelo segundo. Ou o Brasil paga o que deve à maioria dos brasileiros ou em breve não serão de polegares e indicadores as armas apontadas pela turba enfurecida. Pensando melhor: já não são.

Tempestade perfeita

0

Numa sociedade marcada por tantas instabilidades, onde as tecnologias ganham espaços crescentes, onde a pandemia ainda gera grandes destruições, onde a concorrência cresce de forma acelerada, onde as transformações no mundo do trabalho crescem rapidamente, gerando desempregos e subempregos, neste mundo de tantas iniquidades, sentimos mais uma outra crise, vivemos num momento de novas instabilidades, novos conflitos políticos, percebemos, literalmente que estamos sem rumo, sem perspectivas e os presságios são ruins e preocupantes.

Neste ambiente, as previsões otimistas são limitadas e centradas nas crenças dos financistas, os bons números da Bolsa de Valores e do mercado financeiro contrastam com os quase 15 milhões de desempregados, onde a fome cresce de forma acelerada, investigações políticas, promessas de melhoras sem lastro e credibilidade. Estamos vivendo uma verdadeira tempestade perfeita, criamos fantasmas, inimigos imaginários, os confrontos se espalham pelas redes sociais e, neste ambiente, o mundo civilizado se recupera, suas economias mostram sinal de melhora e a população começa a enxergar novos movimentos de crescimento econômico. Neste ambiente, estamos aguardando horizontes positivos, mas ao mesmo tempo enxergamos apenas bizarrices, xingamentos, grosserias e contradições crescentes.

A pandemia está em curso, neste ambiente percebemos cenário de algum crescimento econômico, motivado pela economia global, alguns países estão se mostrando mais resilientes, motivados pelas intervenções econômicas agressivas, investimentos em infraestrutura e fortes recursos em ciência e tecnologia, impulsionando o consumo interno e impactando aos países em desenvolvimento. O Brasil está sentindo o estímulo adotado pelos países desenvolvidos, como exportadores de produtos primários, a economia senti as demandas externas, aumentando as vendas externas e melhorando as contas internas, atraindo moeda forte e valorizando a moeda nacional. Estes movimentos positivos devem ser vistos como um momento de adotar políticas efetivas para melhorar os indicadores econômicos e a adoção de políticas públicas para reduzir os desequilíbrios sociais, melhorando o ambiente interno e contribuindo para a construção de um cenário marcado por credibilidade e confiança, fundamentais para aumentar o investimento produtivo e estimular novos empreendimentos.

Os desafios da sociedade brasileira são imensos, estamos convivendo com crises conjuntas com impactos desastrosos para a sociedade, gerando mais desemprego e crescimento das falências e desestruturação dos setores econômicos e produtivos. Neste ambiente, percebemos a importância do direcionamento do Estado, como ator central nas políticas públicas, mas num ambiente de instabilidades crescentes, faz-se necessário a atuação conjunta com os mercados, construindo novos espaços de confiança mútua, sem credibilidade os agentes econômicos não investem no crescimento econômico de forma sólida, consistente e duradouro.

Neste ambiente, vivemos um momento de união de todos os atores sociais, as dificuldades crescem pelo ambiente de conflagração crescente que percebemos na sociedade nacional, mostrando que os agentes econômicos se voltam para seus interesses imediatos e particulares, sem pensar na coletividade e esquecendo do planejamento estratégico, instrumentos fundamentais para a construção de uma nação.

As dificuldades existentes na sociedade brasileira mostram as fragilidades da construção política, neste cenário os agentes políticos e econômicos precisam refletir sobre os resultados conseguidos, esta análise deve ser feita de forma racional e abrangente, percebendo os equívocos e reconstruindo espaços e caminhos mais consistentes.

Vivemos num ambiente de tempestade perfeita, muitos desafios estão acontecendo ao mesmo tempo, a pandemia matou mais de quinhentos mil brasileiros, a crise econômica está gerando desagregação de comunidades inteiras e as crises políticas podem levar o país ao caos generalizado, levando o país a um retrocesso enorme e exigindo das gerações futuras desafios sobre humanos, evitemos esta destruição, pois a história será implacável.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 07/07/2021.

‘20 mil recebem R$ 230 bi sem pagar Imposto de Renda’, diz secretário especial da Receita

0

José Tostes rebate as críticas ao projeto que estabelece a volta da taxação sobre dividendos de empresas

Entrevista com José Tostes, secretário especial da Receita Federal

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo – 03/07/2021

BRASÍLIA – Diante da acusação de empresários de que a reforma do Imposto de Renda apresentada pelo governo elevaria a carga tributária, o secretário especial da Receita Federal, José Tostes, afirma que não se pode misturar a tributação de empresas com a de pessoas físicas e cita uma distorção na isenção de lucros e dividendos.

“Temos aqui apenas 20.858 pessoas, numa população de 210 milhões, que receberam R$ 230 bilhões sem pagar imposto”, afirma. Essas pessoas pagaram só 1,8% de todo o rendimento que receberam, argumenta Tostes.

Confira os principais trechos da entrevista:

A carga tributária do Brasil está em torno de 31%. A maior crítica é de que a Receita colocou muita gordura na proposta para aumentar a arrecadação.

Não concordamos com essa avaliação. Fizemos uma proposta para ter equilíbrio entre medidas que aumentam e que reduzem a arrecadação. Esses argumentos de que haverá aumento, precisamos avaliar de que forma estão sendo calculados. O não aumento da carga tributária é um princípio que o ministro Paulo Guedes colocou no início do seu trabalho.

A carga não aumenta?
De fato, a carga tributária não aumentou. Se essas medidas agora possibilitarem algum aumento de carga, não será por conta delas em si, porque, como nós estamos vendo, está havendo um aumento de arrecadação este ano que poderá ser utilizado para reduzir incidências tributárias no próximo ano. Estamos com resultados bastante auspiciosos de arrecadação este ano, e que não têm nada a ver com o aumento de impostos, de alíquotas ou alterações nas regras tributárias.

O sr. falou que não tem como saber como está sendo feita a conta do aumento de carga. A Receita também divulgou apenas parcialmente os números. Eles serão detalhados?
Sim. Estamos preparando uma nota exaustivamente detalhada, inclusive quanto a parâmetros, quanto às variáveis, quanto à metodologia utilizada. Veja que, por exemplo, a alíquota da pessoa jurídica está sendo reduzida para 29%, e está sendo extinta a isenção do Imposto de Renda incidente sobre a distribuição dos dividendos, com uma alíquota de 20%. Muitos comentários que revelam a preocupação com o aumento de carga tributária somando as duas alíquotas.

Completamente errado esse cálculo. Não posso somar os 29% da pessoa jurídica com os 20% da distribuição dos dividendos. São tributos que incidem sobre contribuintes distintos, pessoa jurídica e pessoa física.

Mesmo assim, fica em 43%, o que os críticos acham alto.

Exatamente a mediana dos países da OCDE. É 43,75%. E aí você vai ver: os 29% que incidem sobre o lucro da pessoa jurídica estão um pouco acima da média da OCDE, e os 20% na distribuição de dividendos estão bem abaixo.

O sr. pode dizer onde está o caráter distributivo da proposta?
As empresas estão tendo uma redução de impostos, de 34% para 29%. Isso é uma brutal redução de alíquota que incide sobre o setor produtivo. O que está sendo criado, como nova incidência, é sobre uma renda de pessoa física, sócio de pessoa jurídica, que é isento até hoje e vai passar a ser tributado em 20%, o que absolutamente não é novidade na maioria dos países. O Brasil antes de 1995 tinha exatamente este modelo de tributar a pessoa jurídica e tributar também a distribuição na pessoa física. Em 1995, optou por tributar só na jurídica e isentar a pessoa física.

Agora, estamos avaliando voltar à situação anterior, usada hoje na maioria dos países.
Há uma confusão entre empresa e pessoa física?
Claro. Se a pessoa jurídica obtiver um lucro, vai pagar pela proposta 29%. Se reinvestir no próprio negócio os seus lucros, se capitalizar, se expandir em termos de investimentos com o seu próprio lucro, a tributação acabou aí. Só vai haver a incidência dos 20% se este lucro for distribuído como rendimento à pessoa física do sócio. Se ela reinvestir o lucro no próprio negócio, na expansão empresarial, na geração de empregos, não vai haver tributação dos 20%. Então, é uma medida que estimula o reinvestimento na própria empresa.

Quem hoje recebe na pessoa física esses lucros e dividendos e por que há essa grita diante da proposta de tributação?
Os que recebem acima de 320 salários mínimos (mais de R$ 352 mil por mês). São 20.858, que recebem de rendimentos isentos R$ 230,81 bilhões. Não preciso dizer muito mais para identificar quem vai deixar de ser isento e vai pagar imposto a partir de agora. E mais ainda: se você somar os rendimentos tributáveis dessas 20.858 pessoas, que são apenas R$ 18 milhões tributados como salário e como rendimentos de trabalho, e os R$ 230 bilhões como dividendos e rendimentos isentos, essas 20.858 pessoas terminam por ter uma alíquota média de imposto de 1,8%. Ou seja, considerando todos os rendimentos que receberam, o imposto que elas pagaram representa 1,8%. Vamos mostrar os números e ver de fato quem vai ser afetado com esta medida. Nós temos aqui apenas 20.858 pessoas, numa população de 210 milhões, que receberam R$ 230 bilhões sem pagar imposto. Isentos de acordo com a legislação atual, não tem nada de ilegal aqui.

E o caso de contribuintes que detêm ações de empresas, estão na faixa até R$ 20 mil por mês, mas não terão isenção porque o incentivo só valerá para micro e pequenas empresas?

Esse público existe, mas sem dúvida é muito reduzido em relação ao conjunto. É um tema que estamos discutindo, e podemos fazer ajustes para aperfeiçoar a proposta.

Não há a preocupação de o projeto ficar uma “emenda pior do que o soneto”, como aconteceu com a MP da Eletrobrás?
Estamos já em interação com o Congresso. É claro que isso ainda vai ter desdobramentos na votação a partir das emendas que forem apresentadas, existe naturalmente a possibilidade de o texto ser alterado. Mas estamos na expectativa de que os princípios gerais e as regras mais importantes do projeto possam ter a aprovação no Congresso.

‘Apagão de mão de obra pode se tornar uma deficiência crônica’, alerta economista Ricardo Henriques

0

Especialista foi um dos criadores do Bolsa Família diz que a sociedade tem que eleger a educação como prioridade absoluta, uma ‘escolha que nunca fez’

Cássia Almeida – O Globo, 04/07/2021

Se a sociedade brasileira não der prioridade absoluta à educação, o Brasil vai patinar por muito tempo como um país de renda média, com desemprego estrutural maior, mesmo se houver crescimento da economia, alerta o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, que foi um dos criadores do Bolsa Família.

Em entrevista ao GLOBO, ele alerta que ainda é possível recuperar o tempo perdido, mesmo com retrocesso que a pandemia provocou, deixando a educação “de joelhos”.

Aumentou a exigência de qualificação?
Reconfiguração do mundo do trabalho, automação, inteligência artificial e a quarta revolução industrial geram a necessidade de aumentar a qualidade da qualificação média da população no ensino básico e superior massivamente.

O risco é que o desemprego de longa duração se perpetue, e o apagão de mão de obra virar uma noite longa. Pode se tornar uma deficiência crônica de mão obra que esteja adaptada à sociedade contemporânea.

Como enfrentar esse apagão?
O ensino técnico precisa sair desse patamar de 2 milhões para 3, 4, 5 milhões, que é a meta do Plano Nacional de Educação para 2024. Não vamos conseguir cumprir essa meta. Podemos aproveitar a janela da reforma do ensino médio, de ter saído da armadilha gerada pelo conteudismo irrelevante que distanciou a formação daquilo que é necessário para sociedade contemporânea.

Por isso, jovens não viam sentido nesse ensino médio. O ensino técnico abre oportunidade real de dar conta das competências e habilidades necessárias ao mundo de hoje.

Quais habilidades?
O mundo está reduzindo demandas física e manual, indo cada vez mais para a cognitiva avançada, a tecnologia, a habilidade socioemocional. Caminhar para habilidades que não estão associadas a um campo específico, mas que são fundamentais: empatia, gestão de estresse, trabalho em grupo, criatividade, comunicação, negociação, que vão servir para qualquer configuração do mundo do trabalho.

E adquirir competência digital básica, tecnologia digital avançada, processamento de informações complexas, análise de dados, pesquisa cientifica, gestão de projetos.

Mas não avançamos na educação?
Os inegáveis avanços na educação nos últimos 30 anos não foram suficientes. Continuamos patinando como um país de renda média. E a pandemia deixou a educação de joelhos.

A sociedade precisa reconhecer esse desafio e dizer que a educação é prioridade absoluta. O Brasil nunca fez isso. Não será fácil e nem imediato. Esse novo mundo exige que a sociedade brasileira faça a escolha que nunca fez.

A educação de mais qualidade para poucos é suficiente para fazer o país crescer?
Até bem pouco tempo atrás, uma elite, um grupo pequeno com alta inserção no mundo tecnológico conseguia que o país se movesse como um todo.

Na atual situação, todos precisam ter altas expectativas de educação, a performance de alta qualidade precisa ser massificada. Para que o país se mova, integrada ao circuito contemporâneo, a grande maioria da população, principalmente os jovens, precisa ter qualificação de alta de qualidade.

Se não houver alta expectativa para todos desde a primeira infância, aumenta-se o potencial do ressentimento na sociedade. Altas expectativas inibem os espaços de ressentimento, aumentam a probabilidade de harmonia. É essa utopia que sociedade deveria perseguir.

Milton Santos, morto há 20 anos, nos convida a construir uma outra globalização, por Itamar Vieira Júnior.

0

Geógrafo apontou caminhos para um projeto humanitário que se contraponha ao poder totalitário do dinheiro

Itamar Vieira Júnior, geógrafo e escritor, autor de “Torto Arado”

Folha de São Paulo, 25/06/2021.

Há 20 anos, Milton Santos, um dos maiores pensadores brasileiros do século 20, nos deixava.
Nascido em 1926 no município de Brotas de Macaúbas, região da Chapada Diamantina, Santos migrou com a família para Salvador ainda na infância, onde concluiu o ensino fundamental e ingressou no curso de direito da Universidade Federal da Bahia.

Embora tenha se tornado bacharel, Santos se sentia vocacionado mesmo para a pesquisa e o ensino da geografia, sua grande paixão, o que fez com que se tornasse professor do colégio municipal de Ilhéus. Lá, passou a colaborar como correspondente do jornal A Tarde, de Salvador, atividade da qual nunca se afastou em definitivo, tendo inclusive escrito regularmente para esta Folha.

De volta à capital, tornou-se professor da Universidade Católica e, pouco tempo depois, seguiu para seu doutoramento em Estrasburgo, na França, sob a orientação do geógrafo Jean Tricart.

De volta ao Brasil, fundou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. Continuou atuando como professor, pesquisador e jornalista. Perseguido após o golpe de 1964, Santos foi preso por subversão e logo depois se exilou na França, tornando-se professor de algumas universidades do país —Toulouse, Bordeaux, Sorbonne—, além de outras nas Américas e na África, como MIT, Toronto, Columbia, Stanford e Dar es Salaam.

Em Dar es Salaam, pôde estabelecer um contraponto à sua formação predominantemente europeia, deixando-se influenciar por grandes pensadores do pós-colonialismo e incorporando ao seu pensamento marxista perspectivas do socialismo africano, alicerçado em valores caros ao continente, como o coletivismo, o humanismo e a sociabilidade.

Essa influência surgiu com força em seus escritos que interpretavam os desafios da descolonização e do neocolonialismo.

Milton Santos foi um dos grandes expoentes da renovação da geografia no final da década de 1970. Seu livro “Por uma Geografia Nova” contribuiu de forma definitiva para as bases da renovação crítica metodológica e epistemológica da disciplina.

A partir de então, aprofundou ainda mais seus estudos epistêmicos em livros como “O Espaço do Cidadão”, “A Natureza do Espaço”, “Espaço e Método”, “Metamorfose do Espaço Habitado”, na mesma medida em que avançava em sua análise para a compreensão do Brasil e do mundo em desenvolvimento ante os processos de globalização cada vez mais radicais e que têm ampliado, sobretudo, as desigualdades de forma jamais vista na história. Em 1994, foi agraciado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia.

A obra de Milton Santos é o reflexo de seu pensamento humanístico, crítico, político e solidário. Em “Por uma Outra Globalização”, publicado um ano antes de sua morte, Santos ilumina com suas reflexões os fenômenos sociais e econômicos de nosso tempo. Com sua análise acurada, ele anteviu a possibilidade de uma outra globalização, quiçá solidária, nascida das camadas mais desfavorecidas da sociedade.

Nesse livro, ele se antecipa no tempo ao descrever o poder totalitário do dinheiro, da monetização dos afetos e de um mundo cada vez mais subjugado pelo imperativo da informação. Mas, além de refletir sobre a “globalização perversa” ou “globalitarismo” que nos é imposto, Santos nos convida a construir uma outra globalização, como projeto humanitário a se contrapor às normas hegemônicas e predatórias das grandes corporações e dos Estados nacionais.

Assim como Milton Santos, estudei na Universidade Federal da Bahia, onde segui da graduação à pós-graduação. Logo após sua morte, Maria Auxiliadora da Silva, professora da universidade, e a viúva de Santos, Marie-Hélène, resgataram um antigo desejo dele: subsidiar a formação de alunos carentes.

Com recursos próprios, a família Santos tornou real esse propósito e, desde então, tem colaborado com a formação de estudantes de baixa renda através de bolsas de iniciação científica que levam o seu nome, projeto já institucionalizado pela universidade e que em 2022 completa 20 anos.

Foi assim que me tornei o primeiro “bolsista Milton Santos”, fato fundamental para que pudesse prosseguir com meus estudos universitários e que contribuiu, sem nenhuma dúvida, para minha formação superior. Hoje, já são dezenas de alunos egressos do mesmo programa, e nesse gesto altruísta podemos entrever a práxis de uma cidadania solidária.

Em um país de pouca memória, haveremos sempre de contar e recontar as histórias dos nossos, daqueles que não apenas sonharam com um lugar mais justo e humano, mas também se dedicaram a apontar os caminhos para alcançá-lo.

Nos EUA, nova maioria democrática precisa de uma nova economia, por Stepnhen Marglin

0

Mesmo retirando as verrugas do capitalismo, você ainda terá um sistema que não possui mecanismos para produzir os empregos necessários

Stephen Marglin, Professor de economia da cadeira Walter S Barker da Universidade Harvard, é autor de “Raising Keynes: A Twenty-First-Century General Theory” (Ressuscitando Keynes: Uma Teoria Geral do Século 21, sem tradução para o português)

Não adianta procurar uma filosofia que oriente a economia do Partido Republicano além de “quero meu pedaço”. Mas qual é exatamente a filosofia dos democratas? É fácil deixar de perceber a divisão profunda entre a velha economia que guiou o Partido Democrata por uma geração e uma nova economia emergente.

A velha economia se baseia na crença de que a intervenção do governo, como o aborto, deve ser segura, legal e —acima de tudo— rara. O governo é necessário para lidar com verrugas periódicas que aparecem no corpo do capitalismo, mas tudo o que os curativos de curto prazo do governo podem fazer é acelerar o poder natural de cura inerente a uma economia de mercado.

Melhor ainda, são as medidas para remover as verrugas de uma vez por todas, para transformar a economia à imagem do modelo clássico de competição perfeita. Essa filosofia atingiu seu apogeu sob Clinton, culminando no seu caso de amor com a desregulamentação, particularmente do setor financeiro.

Sabemos como isso terminou. Alan Greenspan —discípulo de uma versão extrema dessa filosofia consagrada na ficção para jovens adultos de Ayn Rand— presidiu o Fed de 1987 a 2006, saindo logo antes da merda no ventilador, diante da qual declarou-se “chocado! chocado! chocado!” ao descobrir que a autorregulação do sistema financeiro não era tão confiável.

A crise de 2008 e a recessão que se seguiu foram um sinal de alerta, e Greenspan não foi o único que acordou —pelo menos momentaneamente. Pareceu por um tempo que a economia ortodoxa poderia estar aberta a novas ideias.

Infelizmente, a profissão rapidamente cerrou fileiras e vozes dissidentes foram, mais uma vez, marginalizadas.

A visão de que o problema são as verrugas, e não o próprio capitalismo, continua a dominar na academia. Mas a heterodoxia começa a fazer ondas. Economistas heterodoxos oferecem entendimentos alternativos de mudança climática, criação de dinheiro, banco central, desigualdade de renda e macroeconomia.

Ironicamente, a macroeconomia surgiu do trabalho do proeminente economista do século 20 John Maynard Keynes. Com o tempo, o radical e heterodoxo Keynes de “A Teoria Geral do Emprego, Juros e Dinheiro” foi transformado pela velha ortodoxia em um teórico supersofisticado das verrugas, especificamente, um teórico de como o capitalismo pode travar se os salários forem insuficientemente flexíveis.

A teoria das verrugas permitiu que os economistas aceitassem alguns dos insights de política de Keynes, em particular as limitações da política monetária e a necessidade de uma política fiscal anticíclica “in extremis”, enquanto rejeitava a ideia de que há alguma falha mais séria que as próprias verrugas. E, extremamente importante, restringir o papel do governo ao alívio das verrugas como esforço estritamente de curto prazo e limitado.

Minha própria contribuição para um crescente corpo de trabalhos heterodoxos, “Raising Keynes”, mostra como e por que a leitura ortodoxa de Keynes está errada e apresenta uma teoria que fundamenta o insight do economista de que, mesmo retirando as verrugas do capitalismo, você ainda terá um sistema que não possui mecanismos confiáveis para produzir os empregos necessários para os que desejam trabalhar.

Você precisa do governo, não de forma ocasional e intermitente, nas emergências, mas o tempo todo, tanto a longo prazo como nas emergências.

A seção de relevância mais imediata para a batalha pela alma econômica do Partido Democrata é a estrutura que apresento para compreender os meandros dos déficits e dívidas. Não só a política fiscal anticíclica mas também os déficits no contexto de uma economia com alto índice de empregos, quando não há mais o almoço grátis possibilitado pela simples combinação de homens e mulheres ociosos às máquinas ociosas. Em que medida a dívida pública deve restringir nossas escolhas?

Está começando a ser entendido que, além das áreas tradicionais de gastos do governo, a economia do século 21 deve incluir a provisão do governo para creches, para idosos e, talvez o mais importante, para uma transição para energias renováveis. Quanto desses bens é suficiente, e quanto devemos nos preocupar com qualquer dívida adicional que um governo robusto possa acarretar?

O governo Biden e a ala Sandres /Warren/ Ocasio-Cortez do Partido Democrata substituíram a abordagem apologética dos anos Obama por um compromisso ousado de mobilizar o governo para fazer o que for preciso para fornecer um futuro sustentável e equitativo. Tal como acontece com as iniciativas políticas de Franklin Roosevelt, a ação não esperou a teoria.

Mas as teorias econômicas e a prática política sobem e descem juntas. Keynes e a coalizão do New Deal nos EUA e a social-democracia na Europa apoiaram-se mutuamente; Milton Friedman e outros teóricos de direita e a política antigovernamental Reagan-Thatcher também.

Chegou a hora de uma simbiose de uma nova economia, em que a bideneconomia realmente faça sentido, com a política de uma nova maioria democrata.

Tradução de Joaquim Andrade