Concentração de renda

0

A pandemia está desnudando inúmeras realidades em curso na sociedade brasileira. Com este momento de crise sanitária, somados as dificuldades econômicas e políticas, estamos percebendo algumas características que muitos indivíduos não querem acreditar. Precisamos refletir sobre nossas indignidades e nos prepararmos para os desafios contemporâneos, uma sociedade cada vez mais interconectada, marcada pelo crescimento da tecnologia e da automação, centrada na concorrência crescente, mais imediatista, mais caracterizada pelo pragmatismo e, na estrutura, uma sociedade mais desigual, centrada no racismo, nos preconceitos e na exclusão social.

Os dados recentes divulgados pelo Relatório de Riqueza Global do Banco Credit Suisse, mostram que 1% da população brasileira, algo em torno de 2 milhões de afortunados concentram mais de 49,6% da riqueza nacional. Estes números são vergonhosos e, mais ainda, quando analisamos os dados em retrospecto, percebemos que em 2010 os valores eram de 40,5%, quase dez pontos percentuais, um verdadeiro escândalo. Os dados apresentados pelo banco mostram que, na comparação entre dez países, apenas o topo da pirâmide da Rússia conseguiu concentrar mais riqueza do que a elite no Brasil.

Estas feridas foram desnudadas pela pandemia, deixando exposta a pobreza da sociedade brasileira, que sempre foi encoberta pelos grupos dominantes, que evitaram a construção de políticas efetivas para uma sociedade mais igualitária. Muitos grupos econômicos e políticos difundem conceitos de meritocracia e empreendedorismo como forma de acobertar as parcas possibilidades de ascensão social, criando expectativas positivas de melhorias de vida e progresso social e profissional.

Neste ambiente, percebemos que nos últimos quarenta anos a economia brasileira perdeu a capacidade de geração de riquezas para a grande parte da sociedade, perdemos dinamismo industrial e a capacidade produtiva inovadora e passamos a adorar os valores da especulação financeira, enriquecendo um pequeno grupo de sábios e financistas que vivem e, enriquecendo, gerindo fortunas em um ambiente marcados por taxas de juros escorchantes e taxas de câmbio valorizado, que garantem lucros extraordinários para um pequeno grupo sem preocupação com os rumos da sociedade brasileira. Vivemos numa sociedade marcada por tributação regressista, onde os que ganham mais pagam menos impostos, nossa estrutura tributária castiga o consumo e a produção e alivia a propriedade e isentam lucros e dividendos, um escárnio mundial, garantindo benefícios para os afortunados em detrimentos dos mais pobres e dos miseráveis, contribuindo para o quadro destacado pelo Banco Credit Suisse.

Neste momento, a FGV Social acaba de publicar o Atlas das Juventudes e de novos estudos, destacando a existência de 50 milhões de brasileiros entre 15 a 29 anos decepcionados, sem perspectivas de trabalho e insatisfeitos com a condução do país. Se pudessem, quase a metade (47%) dos jovens brasileiros deixariam o país. A pesquisa nos mostra, que se este quadro não for alterado, o cenário do mercado de trabalho para essa juventude configurará o desperdício do maior potencial histórico em termos de crescimento e produtividade brasileiros.

O mundo pós-pandemia vai exigir políticas mais efetivas dos Estados Nacionais, investimentos maciços em capital humano, em pesquisas científicas e mais consciência dos grupos dominantes e reflexões críticas pelas elites intelectuais. Estas medidas estão sendo construídas nos países desenvolvidos, vide o intervencionismo estatal no Plano Biden. Está na hora ou melhor, já passando da hora, de seguirmos os caminhos do desenvolvimento e do bem-estar da sociedade brasileira, abandonando os caminhos da insegurança jurídica, adotando políticas tributárias progressistas, melhorando as políticas públicas e ações que estimulem o desenvolvimento, deixando para trás os dados descritos pelo relatório do banco suíço.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 30/06/2021.

A desigualdade e o IR, por Folha de São Paulo.

0

Busca por carga total mais justa deveria balizar a reforma do Imposto de Renda

EDITORIAL: Texto não assinado que expressa a opinião da Folha

23/06/2021

Os últimos anos foram de más notícias para o enfrentamento da infame desigualdade social brasileira. Na década passada, caiu por terra a convicção de que a distância entre ricos e pobres estava em retração; agora, teme-se que ela cresça com os impactos da pandemia.

Dados que apontavam melhora a partir dos anos 2000, com base nos rendimentos do mercado de trabalho, foram posteriormente contestados por estudos mais amplos, amparados nas estatísticas do Imposto de Renda, que contemplavam também ganhos de capital como os oriundos de lucros, aluguéis e aplicações financeiras.

A Covid-19 agrava um quadro já dramático na América Latina, como aponta relatório recém-publicado pela ONU. Em particular, porque as medidas imperativas de restrição às atividades prejudicam mais os estudantes e trabalhadores dos estratos mais carentes.

Fenômeno complexo, a desigualdade se apresenta de múltiplas maneiras. Há discrepâncias salariais entre homens e mulheres; há discriminação de pessoas LGBT no mercado; negros têm muito menos acesso que os brancos às benesses do desenvolvimento, como mostra o índice de equilíbrio racial (Ifer) lançado por esta Folha.

Destaque no grupo de países mais desiguais do mundo, o Brasil tomou providências para lidar com essa chaga —a mais importante delas foi instituir um aparato de seguridade de dimensões raras no mundo emergente.

O vultoso gasto social tem sua eficácia comprometida, porém, quando o mesmo poder público falha em prover educação de qualidade e, mais ainda, insiste em conceder privilégios a setores influentes da burocracia e do empresariado.

O Estado brasileiro realimenta a desigualdade, ainda, ao tributar de modo iníquo, com muito mais ênfase na taxação do consumo, o que onera em excesso os mais pobres, que na da renda.

O tema volta à pauta com a proposta de reforma do IR mais uma vez ensaiada pelo governo Jair Bolsonaro —e mais uma vez motivo de resistências antecipadas e pressões de natureza política.

Há muito a fazer para tornar a carga de impostos mais progressiva, sem elevá-la além de seu patamar já exagerado. Rever subsídios, tributar dividendos (com ajuste no gravame dos lucros) e até majorar alíquotas sobre rendimentos altos se mostram caminhos viáveis.

Infelizmente, o debate corre o risco de ser contaminado pelo imediatismo eleitoral e pela promessa demagógica de Bolsonaro de ampliar a faixa de isenção. Mesmo forças à esquerda, aliás, relutam em abraçar propostas mais ambiciosas para o IR, dados os interesses dos sindicatos de categorias mais bem situadas na pirâmide social.

Recuperação econômica

0

A economia brasileira está passando por momentos de incertezas, marcados pelos impactos crescentes da pandemia, que diminuiu o crescimento econômico, aumentou as instabilidades e gerou quebras nas cadeias produtivas e, para piorar, estamos percebendo os ecos do incremento dos preços, a tão preocupante inflação, cujos constrangimentos perduraram até os anos 90.

O crescimento dos preços é patente para todos os grupos sociais, cujos impactos são maiores sobre os setores de baixa renda, cujos rendimentos crescem menos do que os preços e aprofundam os indicadores negativos, contribuindo para piorar as condições sociais, aumentando a pobreza, a fome e a exclusão social.

O aumento dos preços é um fenômeno global. A recuperação das economias desenvolvidas, motivadas pelos auxílios governamentais, monetários e fiscais de seus respectivos governos, além da aceleração da vacinação, levando estes países a normalidade econômica, incrementando as compras externas e impulsionando os sistemas econômicos e produtivos, com fortes pressões dos preços relativos. Neste ambiente de recuperação econômica, as compras crescem e, impactam diretamente sobre as commodities, beneficiando os exportadores de produtos agrícolas e de extração mineral.

No caso brasileiro, percebemos outros fenômenos que estimulam as pressões dos preços, onde destacamos o incremento das vendas externas motivadas pelo câmbio favorável. A desvalorização cambial aumenta os produtos exportados e pressiona os preços dos produtos importados, impactando sobre a inflação e a renda da população.

Para combater o aumento dos preços o governo utiliza a política monetária para diminuir a quantidade de moedas em circulação, aumenta as taxas de juros e reduz o crédito, levando a economia a reduzir a atividade econômica, piorando o cenário dos setores produtivos e melhora os indicadores financeiros dos rentistas, elevando os ganhos das aplicações financeiras e atraindo uma grande quantidade de moedas estrangeiras, recursos que buscam ganhos rápidos e imediatos, sem compromissos maiores para a estabilidade do país, visando apenas os ganhos financeiros e monetários. Neste momento, os rendimentos financeiros dos pequenos grupos afortunados crescem de forma acelerada em detrimento de grande parte da sociedade, gerando empregos precarizados, insuficiência de investimentos produtivos, degradação do ambiente de negócios e retardando a recuperação mais efetiva da economia.

Alguns analistas financeiros acreditam que a recuperação da economia está em curso, as vendas externas estão crescendo, a situação fiscal está melhorando e as perspectivas de crescimento estão se elevando, criando perspectivas positivas. Para muitos, estamos num momento de boom de commodities, cujos impactos para o agronegócio nacional serão positivos, garantindo recuperação da economia.

A recuperação econômica é incerta e prematura, de um lado percebemos as melhoras fiscais, mas ao mesmo tempo percebemos que a melhora está diretamente ligada ao crescimento da inflação, que turbina as receitas do Estado. De outro lado, percebemos que os indicadores sociais de emprego e renda são negativos e sem perspectivas de melhoras, o desemprego está em ascensão, rendas em queda, falência crescentes de micros e pequenas empresas, sem estas melhoras a recuperação, se vier, será passageira e limitada para poucos setores, com pouco potencial de geração de empregos.

A economia prescinde de credibilidade e de confiança. A recuperação econômica exige ambientes consistentes e investimentos produtivos, precisamos incrementar a vacinação, reduzir a transmissão do vírus, proteção financeira para os mais fragilizados e uma ampla discussão social para o período pós pandemia. Sem atuação do Estado Nacional, sem investimento público, sem planejamento econômico, sem investimento em capital humano, sem investimentos em pesquisa e sem reconstrução dos setores produtivos, estaremos condenados a sonhar que somos eternamente o país do futuro.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 23/06/2021.

Onde estão os negros?, por Ana Cristina Rosa

0

Como bem observou a escritora Chimamanda Ngozi, se há no país grupo de pessoas que não possui as mesmas oportunidades que outros, existe um problema

Ana Cristina Jornalista especializada em comunicação pública e coordenadora da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPÚBLICA) – Seção Distrito Federal. Folha de São Paulo, 21/06/2021

A recente entrevista da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie ao programa Roda Viva acabou se revelando uma breve, porém precisa, análise sobre os padrões das relações e interações sociais e culturais brasileiras sob o prisma do racismo institucionalizado no país. O papo fluía sobre família, luto, feminismo… camilla araujo até que a jornalista Adriana Silva rememorou o interesse confesso da entrevistada pelo Brasil. Quando esteve no país em 2008, Chimamanda se disse impressionada com a relutância que percebeu nas pessoas em reconhecer que existe racismo nestas terras. Na semana passada, ela foi indagada sobre o que motivou tal percepção. “Várias coisas. A primeira foi: onde estão os negros?”, perguntou a africana. “Estive num festival literário, foi ótimo, mas não havia negros. Em bons restaurantes, eu olhava ao redor e não havia nenhum negro”, observou. “Também percebi que perguntar sobre o assunto incomodava. As pessoas pareciam não querer reconhecer que havia um problema.”
Chimamanda gostaria de ver os negros do Brasil. “Quando vou a um país onde sei que há uma população negra, quero ver o que chamo de ‘minha gente’, pessoas que se parecem comigo.” Mas não viu. Não viu porque frequentou os lugares errados, ou melhor, esteve em espaços aos quais em geral pessoas negras não têm acesso, salvo na condição de serviçais. Não viu porque na nossa estratificação social, o conceito de minoria tem mais a ver com ausência de poder do que com quantitativo populacional. A intelectual também se disse surpresa e curiosa com a capacidade do brasileiro de afirmar com orgulho que, por aqui “somos todos misturados” e, ao mesmo tempo, valorizar padrões de beleza que nem de longe são africanos ou negros. Como bem observou Chimamanda, se há no país um grupo de pessoas que não possui as mesmas oportunidades que outros, existe um problema. E o resultado decorrente dessa desigualdade é de responsabilidade da sociedade que os excluiu.

O bicho-papão do comunismo, por Sérgio Fausto.

0

Hoje é a extrema direita paranoica e obscurantista que representa perigo real

Sérgio Fausto – Estado de São Paulo, 19/06/2021

Trinta anos atrás, em agosto de 1991, o comunismo recebeu seu atestado de óbito, com a dissolução da União Soviética. Morreu de morte morrida, provocada pela esclerose múltipla de um sistema político e econômico dirigido por uma burocracia hipertrofiada a serviço de si mesma. Quando a Cortina de Ferro começou a se entreabrir, o bloco soviético não resistiu à comparação com o nível de bem-estar alcançado pelos países da Europa Ocidental, onde havia mais liberdade e melhores condições materiais de vida. Gorbachev bem que tentou reformar o sistema para evitar a dissolução da União Soviética, mas já era tarde demais. Ela ruiu, assim como havia ruído o Muro de Berlim dois anos antes, marcando o fim do domínio soviético sobre o Leste Europeu. Mesmo antes de morrer, o comunismo já não representava ameaça ao Ocidente. Com a ascensão de Gorbachev à Secretaria-Geral do Partido Comunista da União Soviética, em 1985, as relações entre a pátria do socialismo e as potências capitalistas mudou definitivamente de natureza. “I like Mr. Gorbachev. We can do business together” (eu gosto do sr. Gorbachev. Nós podemos trabalhar juntos), disse ninguém menos que a conservadora primeira-ministra do Reino Unido Margareth Thatcher, depois de se encontrar em Londres com uma delegação de representantes soviéticos chefiada por Gorbachev, então estrela ascendente no Politburo. Era dezembro de 1984. Bom lembrar que a outra pátria do comunismo, a China, já havia normalizado desde a década anterior as suas relações com os Estados Unidos. Para quem conhece a História é espantoso que o comunismo tenha sido ressuscitado como arma política 30 anos após a sua morte. Como disse o velho Marx, em adendo a Hegel, a História acontece duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. A ameaça comunista hoje só existe no discurso farsesco de uma extrema direita que faz da fabricação do pânico um componente central da sua estratégia política. No passado, a ideia da ameaça comunista era plausível, embora inflada para justificar golpes de Estado e regimes autoritários, em especial na América Latina. Salvo no Chile, os partidos comunistas nunca alcançaram grande expressão político-eleitoral. Pequenos grupos mais radicais, que optaram pela via armada para combater ditaduras, foram logo massacrados. Cuba foi um caso singular. Quem representaria hoje o bicho-papão do comunismo? Faz quase 50 anos, a China deixou de exportar revolução para exportar produtos manufaturados, cada vez com maior conteúdo tecnológico. giannamariii413 sssniperwolf nude Gianna Mariii Mais confiante que nunca na sua capacidade de superar os Estados Unidos como potência econômica, busca também expandir seu poder e influência a outras partes do mundo. Sua estratégia, porém, não passa por mudar regimes políticos, muito menos por criar uma alternativa ao capitalismo, no qual aprendeu a nadar de braçada, com estilo próprio. Ela representa um desafio às democracias liberais, não uma ameaça ao capitalismo, como no passado representou a União Soviética. Teria a Rússia assumido esse papel? Nada disso. Ex-agente da KGB, Putin é hoje um autocrata que apela à tradição
cultural e religiosa da Rússia czarista e empresta apoio à ultradireita nacionalista europeia. Venezuela, um Estado falido, Cuba, que mal se aguenta nas próprias pernas? Ora, tenhamos senso do ridículo. Diante do evidente despautério, o bolsonarismo se apropriou da ideia de que o comunismo teria reencarnado sob novas vestes: o marxismo cultural. Essa categoria está para a compreensão do mundo como a hidroxicloroquina está para a cura da covid. Serve como droga política para arregimentar fanáticos e disseminar teorias conspiratórias. Faz crer que existe uma ideologia que articula e impulsiona toda e qualquer manifestação cultural e política de questionamento a visões ultraconservadoras sobre a religião, a pátria, o Estado e a família. Junta no mesmo saco de inimigos a combater o liberal que defende a liberdade de expressão e a laicidade do Estado, as feministas que lutam pelos direitos das mulheres, o ativista do movimento LGBT, o dirigente da ONG ambiental, o intelectual “progressista”, o artista “devasso”, o libertário “maconheiro”, o jornalista da “mídia lixo” e até mesmo militares ditos “bundas-moles”. O velho anticomunismo tinha um pé na realidade. É fato que o Komintern (a 3.ª Internacional) existiu de 1919 a 1945 e que o movimento comunista internacional continuou a ter vida nas décadas posteriores, com centro União Soviética e partidos comunistas em diversos países. É fato que Cuba treinou guerrilheiros e financiou a luta armada. Já o bicho-papão do marxismo cultural é pura fabricação mental. O que existe é uma extrema direita paranoica e obscurantista. Os sinais dela estão por toda parte: na negação da ciência, no uso da religião para fins políticos, na indiferença à morte, no desrespeito à liberdade de expressão do pensamento, do afeto e da sexualidade, no estímulo ao ódio, na linguagem chula. Ela representa o perigo real. O comunismo é um inimigo imaginário, a seu serviço. DIRETOR-GERAL DA FUNDAÇÃO FHC, É MEMBRO DO GACINT-USP

Guedes e o ódio aos pobres, por Cristina Serra.

0

As políticas excludentes e de base eugenista da dupla Bolsonaro-Guedes também compõem a causa mortis desses brasileiros

Cristina Serra – Folha de São Paulo, 18/06/2021

Paulo Guedes não falha. Sempre oferece variações sobre o mesmo tema, qual seja, sua aversão às pessoas pobres. Mas, agora, ele se superou. Disse que as sobras e os excessos dos almoços da classe média e dos restaurantes podem ser utilizados para alimentar mendigos e desamparados.

Ele enunciou tamanho absurdo sem corar, muito à vontade, sabendo que expressa ponto de vista de setor bastante representativo da sociedade brasileira, do qual é porta-voz. É a mesma visão de mundo por trás da famigerada “farinata”, ração feita com produtos próximos da data de vencimento e que o então prefeito João Doria tentou oferecer a famílias carentes.

É isso também que explica as pedras pontiagudas sob viadutos para afastar pessoas sem teto para bem longe da vista, medida revista pela prefeitura paulistana. O incômodo com o pagamento de direitos trabalhistas às empregadas domésticas, o desgosto de ver pobres viajando de avião, expresso em redes sociais, tudo isso é ódio de classe. E encontra sua síntese em Paulo Guedes.

Incapaz de formular uma política pública de combate à fome e à insegurança alimentar de milhões de brasileiros, limita-se a oferecer-lhes migalhas. Para o ministro, quem sobrevive nas bordas da sociedade tem é que comer o resto da mesa abastada. Viajar para o exterior? Sonhar com filho na universidade? Viver “100 anos”? Ora, onde já se viu.
Guedes achava que um auxílio de R$ 200,00 por mês seria suficiente para as famílias enfrentarem a pandemia e não podia ser por muito tempo, “aí, ninguém trabalha (…) e o isolamento [social] vai ser de oito anos porque a vida está boa”. A imunidade de rebanho que fizesse o resto. E fez. Neste fim de semana, chegamos aos 500 mil mortos.

Essa marca inimaginável não é obra exclusiva do vírus. As políticas excludentes e de base eugenista da dupla Bolsonaro-Guedes também compõem a causa mortis desses brasileiros. Presidente e ministro assinam os atestados de óbito.

Cristina Serra é paraense, jornalista e escritora. É autora dos livros “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado – uma história de conservação”.

Abandono escolar e motivação para aprender, por Claudia Costin

0

Precisamos evitar que os estudantes considerem a escola desconectada de seus sonhos de futuro e dela desistam

Cláudia Costin Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Folha de São Paulo, 18/06/2021.

Acompanhei, com grande preocupação, a pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Juventude em 2020, em meio à pandemia, que mostrava que 28% dos jovens pensavam em desistir de estudar. Pois bem, um ano depois, já são 43%.

As razões são as esperadas: a crise econômica que resultou do prolongamento da Covid e as dificuldades de acesso ao ensino remoto, que tanto prejudicaram a aprendizagem. O vínculo se rompeu e os jovens se desconectaram não só das aulas mas da própria escola.

Não que não houvesse abandono escolar antes da pandemia, mas o crescimento dos que afirmam não pretender voltar é assustador em tempos de automação acelerada e poucas chances de trabalho digno para quem não concluiu o ensino médio. Isso deveria ser visto como emergência que se soma à das aprendizagens perdidas pelos que prosseguirão seus estudos.

Vários estados começaram a fazer a busca ativa de alunos que não voltaram ou se desligaram do processo de aprendizagem remota. O Unicef tem desempenhado importante papel em incentivar e orientar tecnicamente este esforço.

Mas a intenção de abandonar os bancos escolares não está ligada só à necessidade de complementar o orçamento familiar em meio à crise, ou à falta de conectividade. Há, além disso, um problema de motivação para aprender.

Tanto tempo longe das escolas e a inadequação dos métodos assíncronos de ensino, representados por roteiros escritos a serem preenchidos e programas de rádio e televisão, certamente trouxeram um desengajamento dos jovens.

Daí o acerto do tema escolhido pelo Instituto Ayrton Senna para seu Seminário Internacional realizado nesta semana: motivação em educação.

Discutir com especialistas e gestores educacionais como se assegura motivação em crianças e jovens para uma boa gestão da aprendizagem e ouvir pessoas que se motivaram, ao longo de sua vida para realizar projetos transformadores, foi uma estratégia bem adequada ao momento em que vivemos. Tive, neste sentido, a incrível oportunidade de entrevistar, no seminário, a dra. Jane Goodall, primatóloga reconhecida mundialmente, a partir do seu trabalho pioneiro com chimpanzés na Tanzânia.

Desenvolver nos alunos habilidades de autorregulação e incentivá-los a se conhecer melhor e a pensar em seu projeto de vida, são estratégias associadas, de acordo com as pesquisas, a maior motivação, bem-estar e sucesso acadêmico.

Tenderão também, com certeza, a favorecer a permanência dos jovens na escola.

Mais do que buscar os adolescentes que abandonaram a escola, precisamos evitar que eles a considerem desconectada de seus sonhos de futuro e dela desistam!

Morte e vida da pequena empresa no pós-pandemia

0

Gigantes do varejo monopolizam como nunca as vendas e arruinam milhões de empreendedores. Mas cresce tendência oposta: o consumo consciente e local, oportunidade para recuperar economia, caso haja políticas públicas robustas…

Outras Palavras

Miriam Duailibi e Sérgio Miletto – 16/06/2021.

Não há mais dúvida que o mundo mudou radicalmente nos últimos dois anos.

A pandemia, o medo do contágio e a consequente necessidade de distanciamento social aceleraram dramaticamente os processos de automação que estavam em curso inicial ou em gestação.
Pequenas indústrias, empresas de serviço e comércio tiveram que rapidamente se adaptar para não fechar as portas.

A explosão dos Market Places

Grandes marcas do varejo como o Magazine Luiza e as Americanas além de investirem fortemente em plataformas de internet para escoar seus produtos, se transformaram, a exemplo da Amazon e Mercado Livre, em Market Places, ou seja, enormes mercados virtuais onde pequenos produtores, distribuidores e comerciantes expõe e vendem seus produtos.

Grupos de investidores criaram plataformas como a Enjoei.com onde os próprios consumidores criam suas vitrines de roupas de marcas caras e objetos preciosos seminovos que são oferecidos aos clientes de todo o país.

Muitas são as vantagens que este novo tipo de comércio pode oferecer aos pequenos e micros: a possibilidade de uso de plataformas já existentes, a garantia de recebimento do valor de venda, a divulgação de sua marca, o sistema de entrega rápida, entre outros.

No entanto, o custo para usufruir deste espaço e suas vantagens pode ser muito alto e até mesmo impeditivo. A comissão cobrada a cada venda, a necessidade de manter estoque, a obrigatoriedade da entrega no prazo, os preços que devem ser baixos para serem competitivos exigem altos investimentos e capital de giro, ativos que quase nunca a pequena e a microempresa possuem.

As vendas online

As redes de supermercados, farmácias, material de construção, até mesmo hortifrúti e panificadoras sofisticaram seus produtos, aceleraram suas vendas online, entrega rápida sem custo e ofertas imbatíveis.

Este novo jeito de comprar e vender fez do comércio local sua maior vítima. Com apenas um celular ligado à internet, consumidores dos mais longínquos cantos do Brasil podem comprar diretamente dos distantes Market Places e das grandes redes sem sair de sua casa.

Se antes a proximidade impelia a escolha, especialmente nos grandes centros urbanos onde a locomoção é demorada e cara, com a popularização da internet este fator não importa mais.

O pequeno produtor, a papelaria da esquina, o mercadinho, a confecção, a pequena quitanda, a lanchonete, o distribuidor de bebidas do bairro, o restaurante de comida caseira da quadra, nenhum deles consegue competir em preço, estética, prazo de entrega e divulgação com os grandes.

Às dificuldades financeiras se sobrepõe a falta de conhecimento tecnológico para lidar com este novo mundo que chegou tão rapidamente.

Sem contar com nenhuma reserva de mercado, como em outros países que delimitam áreas onde as grandes redes não podem entrar para preservar as micro e pequenas empresas; sem acesso ao crédito e ao financiamento; sem familiaridade com a automação, milhares de micro e pequenas empresas fecham as portas diariamente.

O papel do Estado

O papel do Estado no fortalecimento das micro e pequenas empresas como grande gerador de emprego e renda é de extrema importância. Entre as medidas mais efetivas estão as Compras Públicas. Embora exista legislação garantindo o acesso do setor aos editais públicos nem sempre isto se dá, seja por desconhecimento da Lei, por inoperância ou despreparo da área técnica e jurídica ou ainda por preconceito dos entes públicos.

Enquanto os governos e o parlamento se mantêm alheios ou pouco operantes quanto à questão, o desalento e até mesmo a fome atingem as famílias brasileiras.

Os números

Segundo o relatório da Global Entrepreneurship Monitor 2020 – pesquisa realizada no país pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ) – 10 milhões de empreendedores, em sua maioria mulheres, fecharam suas empresas durante a pandemia.

Apenas o chamado empreendedorismo por necessidade, como citamos em artigo anterior em Outras Palavras, continua crescendo alavancado pelo desemprego e pela precarização do trabalho.
Novas oportunidades

É preciso ressaltar que existe um rol de oportunidades para pequenos e micros na chamada economia circular, de baixo carbono, sustentável, comércio justo, que se apresentam como um novo paradigma global.

Trata-se da tendência mundial de reforçar os pequenos negócios que respeitam as relações justas de trabalho, utilizam matérias-primas de baixo impacto, reduzam o consumo de água, energia e materiais, minimizam a geração de resíduos e reciclam os que foram produzidos, que se associam em redes, consórcios, sociedades de propósito específico – SPE – para comprar, vender, divulgar.

Produzir e consumir localmente é um mote que deve se firmar também em nosso país devido à extrema necessidade de enfrentar a crise climática, o desemprego e a desigualdade social.

As micro e pequenas empresas sempre se destacaram como grandes geradoras de emprego, em tempos de automação este papel se torna ainda mais importante. Pelo seu porte são ágeis e capazes de efetuar as adequações necessárias em sua operação de forma rápida e segura.

Para que elas possam fazer parte e até protagonizar a nova economia, as diferentes esferas governamentais e as instituições de apoio ao setor precisam elaborar massivos programas de capacitação dos micros e pequenos empreendedores

Por outro lado, o setor necessita compreender a importância de se organizar, se associar, se mobilizar e ter representatividade forte para exigir políticas públicas de incentivo, capacitação, disponibilização de tecnologia e recursos para que possam sustentar suas famílias com dignidade, gerar trabalho qualificado e contribuir com o desenvolvimento sustentável, justo e equitativo do país.

Precarização do trabalho

0

Muitos teóricos da economia do século XIX acreditavam que o incremento da tecnologia na sociedade levaria os indivíduos a terem mais tempo para o lazer, para as atividades culturais e artísticas e para a ociosidade. Infelizmente as previsões não se efetivaram, vivemos marcados por tecnologias crescentes, máquinas e equipamentos variados, comemoramos alto crescimento da produtividade e as cargas de trabalhos crescem de forma acelerada, levando o mundo do trabalho a novas transformações que geram mais desemprego, subemprego, desalentos e, mesmo os trabalhadores empregados, percebemos que as patologias laborais crescem, gerando depressões, ansiedades e desesperanças generalizadas.

Neste ambiente percebemos que as mudanças no mundo do trabalho é um dos grandes desafios da sociedade contemporânea, de um lado, percebemos que a quantidade de riqueza cresce de forma acelerada e, ao mesmo tempo, percebemos que a pobreza cresce mais ainda, gerando conflitos, guerras, misérias e instabilidades crescentes.

A pandemia, que crassa a sociedade global, desnudou as desigualdades crescentes da sociedade mundial, levando as maiores personalidades do mundo dos negócios e dos setores financeiros, a destacarem a necessidade de estimular os governos e os gestores públicos e privados a adotarem políticas para reduzir esta mazela que desagrega as relações sociais e deixando marcas agressivas nos países e criando sequelas para todas as regiões.

A tecnologia está impactando sobre todo o processo produtivo, muitos teóricos enxergam o desenvolvimento tecnológico como instrumento de desestruturação do trabalho e outros acreditam que a solução é o investimento maciço na educação. Na verdade, precisamos requintar a discussão, estimulando o desenvolvimento das políticas públicas, fomentando os setores geradores de empregos dignos para toda a comunidade, investimento maciço na educação, em centros de pesquisas e fomento do conhecimento, ao mesmo tempo, construindo uma estratégia de consolidação de setores industriais fortes e pujantes. Sem setores produtivos fortes, consolidados, maduros e competitivos para a geração de empregos de qualidade, perceberemos profissionais qualificados sem emprego, sendo sujeitados a trabalhos precários e mal remunerados, algo que percebemos na sociedade brasileira.

A sociedade precisa combinar estratégias de consolidação educacional e fortalecimento industrial e dos setores produtivos, impulsionando empregos qualificados e novas oportunidades para aumentar a produtividade e enriquecimento da coletividade. Neste ambiente percebemos a importância do estímulo do empreendedorismo e da inovação, ao mesmo tempo, é fundamental a construção de novos ambientes mais afeito a desburocratização, reduzindo os excessivos subsídios de setores mais consolidados e investimentos em educação de qualidade, que forma m mão de obra para compreender os inúmeros desafios que crassa a sociedade brasileira.

Atualmente, estamos percebendo a saída de pessoas altamente qualificadas, profissionais com doutorado e pós-doutorado que estão optando por sair do país. Sem um projeto nacional consistente, com a demonização crescente das universidades públicas que são os grandes geradores de conhecimento científico nacional, além da degradação das agências de fomento e a redução de investimentos em ciência e tecnologia, muitos pesquisadores aceitam convites de centros de pesquisas e universidades estrangeiras, abandonando o sonho de construirmos uma sociedade desenvolvida.

Estamos num momento crucial para a construção de um rumo consistente para a sociedade brasileira, a pandemia está trazendo novos desafios para a população, os investimentos em educação são dispendiosos, imprescindíveis e seus retornos são inquestionáveis no longo prazo. Neste ambiente, sem investimento e com baixa confiança viveremos saudando um falso crescimento econômico com geração limitada de emprego precário, assistindo a saída de grandes conglomerados e uma verdadeira degradação do trabalho, num ambiente caracterizado por baixo salário, sem perspectivas de desenvolvimento econômico, sem dignidade e assolado por promessas nunca realizadas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 16/06/2021.

Inger Enkvist: “A nova pedagogia é um erro. Parece que não se vai à escola para estudar”

0

Pedagoga sueca, com mais de quatro décadas de experiência na educação, critica método que dá mais iniciativa aos alunos na sala de aula e defende um ensino mais tradicional

Cristina Galindo – El País, 25/07/2018.

O silêncio reina na rua de pedras onde mora Inger Enkvist, em Lund, uma das cidades mais antigas da Suécia, com uma das universidades mais importantes deste país nórdico. Ninguém diria que a poucos minutos a pé fica o centro urbano. Esta calma chega ao interior de seu apartamento, uma sobreloja com grandes janelas e um jardim traseiro comunitário. Seu escritório, luminoso e cheio de livros, é um reflexo de sua ideia de como é preciso se entregar a qualquer tarefa intelectual: com ordem, concentração, seguindo regras…, lendo.

Enquanto a maioria dos pedagogos questiona a utilidade de decorar informações na era do Google e prega o fim das carteiras enfileiradas e das disciplinas estanques, com mais liberdade para os alunos, Enkvist (Värmland, Suécia, 1947) defende a necessidade de voltar a uma escola mais tradicional, onde se destaquem a disciplina, o esforço e a autoridade do professor. Seu ponto de vista contraria os postulados dessa nova pedagogia, mas também se distancia daqueles que acreditam que a escola é uma fábrica de alunos em série e que deve centrar seus esforços em competir com outros colégios para subir nos rankings mundiais.

Começou sua carreira educativa como professora do ensino secundário, e agora é catedrática emérita de espanhol na Universidade de Lund. Centrou sua pesquisa na obra de Mario Vargas Llosa e Juan Goytisolo, e escreveu ensaios sobre José Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno e María Zambrano. Publicou vários livros sobre pedagogia – como Repensar a Educação (Bunker Editorial, 2006, digital) – e centenas de artigos, além de ter assessorado o Governo sueco no assunto. Sentada na sala de sua casa, Enkvist conversa em espanhol sobre como acredita que as escolas deveriam ser, enquanto bebe um suco de frutas vermelhas servido num jarrinho de barro comprado em Segóvia. Falando com ela, não é nada difícil imaginá-la no seu colégio, ainda menina, tirando ótimas notas.

Pergunta. Como recorda sua escola?

Resposta. Era pública e tradicional. Não tenho más recordações. Talvez houvesse algumas aulas chatas, mas às vezes a vida é assim. Os alunos chegavam na hora e não havia conflitos com os professores. A Suécia me deu uma educação gratuita e de qualidade.

P. Os tempos mudaram. Continua valendo a disciplina daquela época?
R. A relação entre pais e filhos se baseia mais do que nunca nas emoções. Temos uma vida mais fácil, e queremos que nossos filhos também a tenham. Mas a escola deve estar consciente de que sua tarefa principal continua sendo formar os jovens intelectualmente. A escola não pode ser uma creche, nem o professor um psicólogo ou um assistente social.

P. Qual deve ser a finalidade do ensino infantil?
R. Deve ser muitas coisas, mas sua tarefa principal é dar uma base intelectual. Dar conhecimentos aos jovens, prepará-los para o mercado de trabalho, transmitir-lhes uma cultura e proporcionar-lhes uma ideia da ordem social, porque a escola é a primeira instituição com a qual as crianças se deparam, e é importante que vejam que há algumas regras, que o professor é a autoridade e que é preciso respeitar tanto ele como os colegas.

P. Mas a tecnologia torna mais difícil controlar crianças hiperestimuladas.
R. Sempre houve dificuldades na aprendizagem. Há 50 anos, era o fato de precisar andar uma hora para chegar ao colégio, ou oferecer refeições nutritivas. Hoje se trata da enorme quantidade de estímulos. O novo desafio é controlar o acesso ao celular. e ao computador para que se concentrem. As escolas que proíbem o celular fazem bem.

Em casa, os pais devem vigiar o tempo de uso da tecnologia. Proibir é muito difícil, porque se criam conflitos, mas um pai moderno deve saber dizer “não”. Deve resistir.

P. Há pedagogos que afirmam que a escola tradicional é chata e educa crianças submissas, e que é preciso aprender a aprender.
R. A escola é um lugar para aprender a pensar sobre a base dos dados. Isso de insistir em aprender a aprender sem falar antes de aprendizagem é uma falsidade, porque não podemos pensar sem pensar em algo. Sem dados não há com o que começar a pensar.

P. A escola não deveria ser um lugar onde se divertir?
R. A satisfação na escola deve estar vinculada ao conteúdo: entrar numa aula e que lhe contem algo que você não sabia. Mas é preciso saber que, para entender algo novo, é necessário fazer um esforço. Além disso, é fundamental que o professor nos ensine a ler e também como nos comportar. É impossível aprender bem sem que haja ordem na sala de aula. Essa é a base principal: comportamento, leitura e avaliação pelo conhecimento.

P. O que opina da tendência de pôr almofadas na sala de aula para que os alunos se deitem?
R. Isso é enganar os jovens. Para aprender a escrever, uma criança precisa sentar-se bem, olhar para frente, ter lápis e papel, concentrar-se… Aprender pode ser um prazer, mas, insisto, exige um esforço e um trabalho. É preciso dizer isso às crianças. Se não, estamos enganando-as. Tocar violino, por exemplo, não é fácil. Exige muita prática.

Os estudos do psicólogo sueco Anders Ericsson mostraram que é necessário um esforço prolongado para melhorar em algo. Para ser bom em algo você tem que se dedicar 10.000 horas. E precisa fazê-lo de forma consciente e trabalhar com um professor. Sua pesquisa avaliza a ideia tradicional de uma escola baseada no esforço do aluno, sob a orientação de um professor.

P. Há quem diga que não é preciso decorar porque tudo está no Google.
R. Essa é outra falsidade. O Google é uma ferramenta genial. É de grande ajuda para os adultos, porque sabemos o que procuramos. Mas, para quem não sabe nada, o Google não serve de nada. Há intelectuais que andam por aí dizendo que estudar geografia não foi útil. Acredito que se esqueceram de como e quanto aprenderam na escola. Afirmar essas coisas é uma falta de honradez com os jovens. E menosprezar a importância em si da vida intelectual do aluno.

P. Em que consiste a nova pedagogia que você critica?
R. A nova pedagogia é um pensamento que se vê por toda parte no Ocidente. A Suécia a adotou nos anos sessenta. Consiste, por exemplo, na pouca gradação das notas, por isso muitos pensam que não há razão para estudar muito se isso não for se refletir no histórico escolar. Dá-se muita importância à iniciativa do aluno, trabalha-se em equipe e, ao mesmo tempo em que as provas desaparecem, aparecem os projetos e o uso das novas tecnologias. Em geral, parece que se vai à escola para fazer atividades, não para trabalhar e estudar. Dá-se mais ênfase ao social que ao intelectual. Acho que é um erro. Por um lado, os alunos com mais capacidade não desenvolvem todo o seu potencial e, por outro, os que têm uma menor curiosidade natural por aprender não avançam. Além disso, muitos gostos são adquiridos, como a história, a leitura e a música clássica. No começo podem parecer chatos, mas, se alguém insistir para que tenhamos um primeiro contato, é possível que acabemos gostando. Atualmente, muitos jovens escolhem sem terem conhecido e, claro, escolhem o fácil.

P. A Espanha é um dos países da OCDE que dedica mais horas à lição de casa. Isso tem alguma utilidade?
R. Quando a jornada é muito longa, como na Espanha, não faz sentido. Se um aluno está cansado, a lição de casa não melhora o seu rendimento. É preciso buscar um número ideal de aulas pela manhã, quando a criança está mais acordada, dar-lhe um tempo de descanso e, à tarde, talvez uma tarefa de revisão do que fez durante aquele dia. Um bom exemplo é a Finlândia, onde os alunos entram às oito da manhã e saem às duas da tarde, incluindo o almoço; exceto às quintas-feiras, quando saem às quatro da tarde.

P. Quando criança, você era um grande leitora. Como despertar esse prazer se uma criança não está interessada?
R. Era uma leitora compulsiva. Ninguém teve de insistir para que eu pegasse um livro. Mas há crianças que precisam disso. Talvez no começo seja necessário forçá-las um pouco, encorajá-las para que se tornem leitoras de lazer. Como se faz isso da escola? Comprar bons livros para a biblioteca e recomendar um a cada sexta-feira. Um aluno pode contar o que leu naquela semana. Fazer pequenas competições para ver quem leu mais. Medir como o seu vocabulário aumenta. E explicar que a leitura lhes permitirá, quando adultos, um melhor desenvolvimento. Se os alunos começam a ler, quase todos descobrirão que é um prazer. Mas eles precisam de horas. Calcula-se que na maioria dos países se dedicam 400 horas à aprendizagem da leitura na escola primária. Para ser um bom leitor, são necessárias 4.000 horas. É impossível ter tanto tempo na aula. Eles têm de fazer isso em casa. O que os pais podem e devem fazer é ler com os filhos: apoiar a leitura e servir de modelo.

P. Mas as humanidades estão perdendo peso.
R. Dizem que o amanhã será dominado pela tecnologia e pelas ciências naturais, e que o que é histórico não é importante. Além disso, as provas do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), um conjunto de exames organizados pela OCDE para avaliar as competências de alunos de 15 anos em ciências, matemática e leitura] não levam em conta as humanidades porque é difícil comparar esses conhecimentos entre países, então a vontade de competição os leva a dar mais ênfase às matérias que fazem parte do PISA e negligenciar as outras. Tanto a escola quanto a família devem dar mais ênfase às humanidades.

P. A visão do PISA é a de uma escola que deveria funcionar como uma empresa?
R. A OCDE é uma organização econômica e analisa a educação a partir dessa perspectiva. O que o PISA não revela é se existe uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são inculcados, se as ciências humanas, as ciências sociais, as matérias estéticas como arte e música, que são essenciais, são bem ensinadas. O PISA é uma prova muito específica que analisa algumas coisas. As escolas e os países deveriam defender que eles ofereçam muito mais do que isso.

P. Em seus livros, você aponta a Finlândia como um dos grandes modelos.
R. A educação na Finlândia foi tradicional, embora há dois anos o Governo tenha lançado um programa mais parecido com o da Suécia, porque meu país tem um desempenho escolar inferior, mas tem um comportamento econômico superior e criou empresas de tecnologia como Spotify e Skype. O Governo finlandês parece pensar que com um pouco de desordem suas escolas serão mais criativas. Não acredito nisso.

P. A Finlândia era tradicional? Não há exames no ensino obrigatório nem os havia antes dessa reforma que você menciona.
R. É preciso repensar a fobia aos exames. O exame ajuda a se concentrar em um objetivo. Que em tal dia você tem de saber esses conhecimentos. Um bom professor ensina coisas aos alunos, revisa com eles e faz algumas provas. E constroem outros ensinamentos sobre o que já foi aprendido, então esses conhecimentos voltam a aparecer mais tarde.

Não faz um exame sobre algo sem importância. Com a prova final acontece a mesma coisa. É um objetivo claro. Ajuda a ter uma visão global.

P. Na Finlândia não se compara tanto as escolas, o que é comum na Espanha. É assim?
R. Na Finlândia continuam com a tradição de confiar nos professores. Quando existe um controle estatal do desempenho e se fazem comparações entre as escolas, o ambiente se deteriora. Para os professores, gera estresse e rancor em relação a quem te controla.

P. Como deve ser um bom professor?
R. Responsável e bem formado. Deve acreditar no poder do conhecimento. Não se é bom professor apenas pelo que se sabe sobre a matéria, nem só porque sabe conquistar os alunos. É preciso combinar ambos os elementos: atrair os alunos para a matéria para ensiná-la adequadamente. É preciso recrutar professores excelentes em que alunos, pais e autoridades possam confiar. E a menos que haja uma situação grave, devemos deixá-los trabalhar.

P. Como foi sua experiência na sala de aula?
R. O aluno tem de respeitar as instruções do professor, fazer as lições de casa e, por exemplo, não mentir. Antes, mentir era muito grave. Agora parece que não acontece nada. Vi jovens que inventam motivos para justificar por que não fizeram um trabalho, que escrevem de forma pouco legível para gerar dúvidas ou discutem o tempo todo com os professores. Sei o quão desagradável é que um aluno tente mentir para você. Vi isso no ensino médio e na universidade. Quando um professor sente que não é respeitado, que tentam enganá-lo, todas as relações de ensino se rompem.

P. O que fazer com as crianças que incomodam e não deixam os outros trabalharem?
R. Isso é um tabu. É considerado pouco democrático. Diz-se que devemos dar uma oportunidade a todos. Mas o que acontece quando uma criança problemática não deixa os outros trabalharem, quando se fala com ela e com os pais, mas não se corrige? É preciso colocá-lo em um grupo separado para ver se percebe e muda.

P. E as crianças que se esforçam, mas não atingem o nível?
R. Elas podem ter aulas de reforço. E podemos oferecer itinerários diferentes, como no caso de Cingapura.

P. E repetir de ano?
R. Fazer repetir uma criança às vezes serve e às vezes não, porque cada um é diferente. Gosto do sistema de Cingapura, onde o lema é que cada criança pode atingir seu nível ótimo. Existem diferentes maneiras de conseguir isso: uma maneira, digamos, normal e outra, expressa. A segunda inclui mais conteúdos em menos tempo. Há quem diga que é menos democrático, mas creio que, pelo contrário, é mais democrático porque convém à criança, à família e ao Estado. E há menos evasão escolar, um problema muito mais grave.

P. Não está aprendendo também por imitação? Ou seja, os alunos adiantados podem puxar aqueles que ficam para trás?
R. Funciona quando o grupo tem um bom nível e um bom professor. E se aqueles que têm de se integrar são poucos e querem fazê-lo. Se não, o que geralmente acontece é que aqueles que não querem trabalhar arrastam os outros.

P. O bilinguismo que combina inglês e espanhol prolifera nas escolas espanholas. Você matricularia seus filhos em uma dessas escolas?
R. Primeiramente, eu analisaria outras opções. Aprender inglês é bom, mas é preciso perguntar o que deixamos de aprender de outras matérias. Tenho dúvidas. Acredito que se pode aprender bem inglês com algumas horas de aula sem sacrificar outros conhecimentos, como por exemplo, as ciências. Na Suécia, as aulas de inglês só começam aos 9 ou 10 anos.