Desafios da Reindustrialização

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Nestes últimos anos, percebemos grandes transformações nas estruturas produtivas internacionais, novos modelos de negócios, novas exigências para os trabalhadores, novos desafios para as empresas, novas formas de organizações social e política, que exigem, na sociedade contemporânea, novos instrumentos de acumulação que tendem a levar as nações a buscarem uma reestruturação produtiva e industrial ou aquilo que os economistas chamam de reindustrialização para diminuir as dependências externas e aumentarem a soberania nacional.

Desde o começo do século XXI a sociedade global foi assolada por grandes crises econômicas e financeiras, como o grande crash do mercado imobiliário nos Estados Unidos, com repercussões violentas sobre a economia internacional, gerando quebradeiras, falências de bancos e empresas, aumento no desemprego e da degradação das condições de vida de milhares de trabalhadores nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos, cuja recuperação demandou forte intervencionismo estatal, estatização de empresas e recursos bilionários para evitar que a bancarrota não fosse maior.

Recentemente, a sociedade internacional, sentiu na pele a pandemia da covid-19, que ceifou mais de 7 milhões de pessoas no mundo todo, gerando degradações crescentes, instabilidades econômicas, quebras produtivas e incrementos nos preços. Neste cenário, muitas nações desenvolvidas perceberam crescimento da dependência industrial dos países asiáticos, notadamente crescimento da dependência das estruturas produtivas chinesas, responsáveis por grande parte da produção de insumos industriais, transformando nações ocidentais em sociedades dependentes do gigante asiático.

A pandemia desnudou a dependência das nações ocidentais da indústria asiática, fortalecendo a China, Coréia do Sul e Taiwan, gerando insatisfações internas nas economias europeias e estadunidense, aumentando as pressões dos setores produtivos para aumentarem as políticas protecionistas de seus respectivos governos, como forma de preservar a estrutura produtiva e sua autonomia industrial. Diante disso, os governos ocidentais passaram a implementar novas políticas protecionistas para garantirem mercados internos para suas indústrias, recuperar empregos perdidos anteriormente e aumentaram, sensivelmente, os subsídios para atrair novas indústrias, garantindo um estímulo para a reindustrialização e reduzir a dependência da indústria asiática.

Estamos vivendo um momento de forte intervencionismo estatal por parte das nações desenvolvidas, notadamente europeus e norte-americanos, que anteriormente, se caracterizavam com um discurso liberal agressivo, defensor dos mercados livres e forte estímulo da concorrência e da competição como o grande agente gerador de desenvolvimento das nações, uma verdadeira falácia que a contemporaneidade está desmascarando.

Neste cenário, percebemos os governos desenvolvidos dispendendo trilhões de dólares para estimular a produção interna, impedindo empresas norte-americanas de comprarem produtos de fornecedores chineses, como está acontecendo com a Dell Computadores que foi proibida de importar chips fabricados pelo gigante asiático, destacamos ainda, o governo Biden aportando mais de US$ 52 bilhões para que a TSMC e a Samsung instalem fábricas de semicondutores em solo estadunidense, fortalecendo a produção interna, aumentando a produtividade das empresas nacionais e reduzindo a dependência externa da estrutura produtiva norte-americana. Todas estas medidas fazem parte de um grande pacote de 280 bilhões de dólares dos Estados Unidos para estimular a reindustrialização de sua economia, além de mais de US$ 550 bilhões de um programa de investimento em infraestrutura e geração de empregos, capacitando sua economia para uma forte competição com as economias asiáticas e, principalmente, a China.

A reindustrialização das economias desenvolvidas voltou a agenda internacional, depois de fortes crises econômicas e da pandemia, que geraram grandes destruições produtivas, as nações perceberam a importância do setor industrial, infelizmente, internamente, a indústria brasileira foi dizimada nas últimas décadas, estimulando o rentismo, degradando o emprego e matando o mercado interno, com isso, nos afastamos fortemente do desenvolvimento.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Brasileira Contemporânea, Mestre, Doutor e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 11/01/2023.

Os inimigos da democracia, por Oscar Vilhena Vieira

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Houve falha de setores, e apurar responsabilidades deve ser primeira tarefa

Oscar Vilhena Vieira, Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP.

Folha de São Paulo, 09/01/2023

A ação violenta dos manifestantes bolsonaristas contra os Poderes constitucionais, com a conivência dos setores de segurança do Distrito Federal, configura crime de tentativa “abolição do Estado democrático de Direito”, conforme disposto pelo artigo 359-L do Código Penal.

As autoridades constituídas não mais podem transigir com inimigos da democracia. Sem uma ação contundente que apure a responsabilidade, não apenas dos vândalos que invadiram e depredaram a sede dos Poderes da República, mas também aqueles que vêm vandalizando as nossas instituições democráticas nos últimos anos, a democracia perecerá.

De imediato, o presidente decretou intervenção federal, conforme disposto no artigo 39, III, da Constituição Federal, que deverá ser apreciada imediatamente pelo Congresso Nacional. O decreto lido pelo presidente da República restringe a intervenção à esfera de segurança pública.

Caso tivesse optado pela decretação do Estado de Defesa, poderia haver restrição aos direitos de “reunião”, assim como quebrado o sigilo de “correspondência” e “comunicação telegráfica e telefônica”.

Restabelecida a ordem, a primeira tarefa será apurar responsabilidades. Os que invadiram e depredaram prédios devem ser presos em flagrante imediatamente. Aqueles que financiaram e organizaram essas caravanas golpistas também devem ser presos temporariamente, para que não persistam esses atos contrários ao regime democrático e para que as provas possam ser coletadas.

As responsabilidades do governador do Distrito Federal, do seu secretário da Segurança e de outras autoridades também devem ser imediatamente apuradas. O afastamento dessas autoridades, por prática de crime de responsabilidade, é um imperativo para que a ordem pública, não apenas seja restaurada, mas para que possa ser mantida no futuro imediato. Não se deve negligenciar ainda, a apuração daqueles que têm incitado animosidade das Forças Armadas contra os Poderes constitucionais, conforme disposto no artigo 286, parágrafo único do Código Penal.

O novo governo, por fim, deverá tomar medidas urgentes para reorganizar os setores de inteligência e de segurança do Estado brasileiro. Essa insurgência estava prevista. Vinha sendo anunciada há vários dias. Houve falha desses setores, ao não prevenirem esses ataques à democracia. Se não se colocar em marcha uma profunda reforma desses setores, assim como uma revisão da legislação e dos mecanismos institucionais de defesa do Estado democrático de Direito, nosso regime constitucional continuará sob a grave ameaça dos inimigos de nossa democracia.

A rebeldia de direita e o homem comum, por Camila Rocha.

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Slogan da esquerda de 1968 tornou-se central para as direitas contemporâneas

Camila Rocha, Doutora em ciência política pela USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Folha de São Paulo, 09/01/2023

Por que e em que momento a ideia da rebeldia foi apropriada pela direita? Foi com essa pergunta que o presidente chileno Gabriel Boric iniciou uma entrevista concedida à jornalista Mônica Bergamo. De fato, ao longo das últimas duas décadas, o “politicamente incorreto” ganhou ares de rebeldia. Hoje, o conhecido slogan da esquerda de 1968, “é proibido proibir”, tornou-se central para as direitas contemporâneas.

As origens do fenômeno coincidem com a popularização da internet entre pessoas de classe média e alta. No início dos anos 2000, redes sociais como MySpace e Orkut, e fóruns como Reddit, 4chan e Vale Tudo, do brasileiro UOL Jogos, permitiram a circulação de ideias inusitadas, absurdas ou mesmo odiosas e violentas.

O propósito de direitistas que frequentavam tais espaços era demolir as estruturas ideológicas do establishment a partir da periferia da esfera pública. A esquerda era vista como hipócrita, corrompida e vendida à sociedade de consumo, e a direita tradicional tida como abobalhada, tediosa e incapaz de fazer frente aos avanços da esquerda no campo cultural.

Com o tempo, a partir da circulação crescente de memes, discursos que antes ficavam restritos a livros e fanzines obscuros começaram a atingir cada vez mais pessoas. Mas foi apenas quando a internet se massificou, e privilégios históricos começaram a ser questionados na esfera pública tradicional, amplificando o alcance do chamado “politicamente correto”, que parcelas mais amplas da sociedade passaram a fazer coro à rebeldia de direita.

Para um segmento expressivo de trabalhadores, os avanços progressistas incomodam em várias frentes. Em primeiro lugar, há o incômodo com a possibilidade de que outros setores oprimidos possam roubar seu lugar na fila do pão. Depois, a percepção de que a família e a religião, suas principais fontes de proteção e acolhimento frente à violência e insegurança cotidianas, teriam passado a ser vilipendiadas. Mas mais do que isso, seu próprio modo de ser e estar no mundo, e seu orgulho, estariam sendo atacados de forma insistente e pedante pelo “politicamente correto”.

O sentimento é de que qualquer deslize pode provocar brigas na família, com amigos e conhecidos, ou até mesmo a perda do trabalho. Daí a sensação constante de repressão e a catarse provocada por políticos e influenciadores que “mandam a real, sem papas na língua”, alardeando uma suposta liberdade absoluta contra uma “ditadura do politicamente correto capitaneada por esquerdistas”.

Porém, o que ocorre de fato é que o mesmo “ímpeto civilizatório” utilizado nas redes sociais para defender grupos que historicamente são alvo de discriminação e violência não costuma se estender à defesa de trabalhadores comuns. Sobretudo daqueles tidos como ignorantes e atrasados.

Além disso, a esquerda não consegue enfrentar a opressão econômica e as injustiças vivenciadas por largos setores da população, que incluem justamente as pessoas tachadas de ignorantes e atrasadas. Na prática, o que prevalece é o neoliberalismo progressista, que, na visão de vários trabalhadores, seria o mesmo que defender os interesses dos ricos e o “politicamente correto”. E assim o homem comum fica abandonado à própria sorte e aos rebeldes de direita, que apresentam ser mais “empáticos” com suas angústias.

No mote do governo Lula, falta ‘retirar o rico do Orçamento’, por Sérgio Firpo

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Políticas públicas, por mais bem intencionadas, podem ser ineficazes na redução de desigualdades

Sérgio Firpo, Professor de economia e coordenador do Centro de Ciência de Dados do Insper

Folha de São Paulo, 07/01/2023

Há diversos fatores estruturais para a manutenção da desigualdade de renda no Brasil em níveis extremamente elevados. São causas conhecidas e reconhecidas há tempos, como o acesso limitado à educação básica de qualidade; discriminação no mercado de trabalho por gênero, raça e idade; e acesso desigual a transferências governamentais implícitas ou explícitas.

Entre essas transferências destacam-se, entre outras aqui não listadas, os benefícios previdenciários para além das contribuições individuais; as isenções e desonerações tributárias como as do IR (Imposto de Renda) sobre gastos privados com saúde e educação, e as regionais ou setoriais, como nos regimes especiais de tributação; e os subsídios financiados pelo Tesouro (ainda que camuflados sob diversos disfarces) a empresas como nos empréstimos indexados pela antiga TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).

A desigualdade de renda se alimenta e se fortalece tanto da forma como o Estado brasileiro arrecada tributos, quanto da forma como gasta e investe. O Estado brasileiro, em vez de desfazer desigualdades de oportunidades, as cristaliza e as amplifica.

O mote do novo governo de “colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda” aponta na direta correção de rumos do papel do Estado brasileiro. Mas dificilmente o fará sem “retirar o rico do orçamento”. O papel amplificador da desigualdade de renda que o Estado brasileiro tem desempenhado não se alterará com uma transitória inclusão de grupos socialmente vulneráveis no orçamento.

A luta por fatias no orçamento tem tradicionalmente beneficiado grupos politicamente mais fortes, ainda que não necessariamente mais representativos do tecido social. O resultado tem sido a acomodação de demandas particulares, que até a criação do teto de gastos, fazia com que as despesas governamentais crescessem continuamente como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) nas últimas três décadas.

Crescem as despesas, mas a desigualdade não necessariamente cai junto. A queda da desigualdade de renda entre o fim dos anos 1990 e começo dos anos 2010 foi puxada pelas mudanças no mercado de trabalho. Pode-se argumentar que o principal mecanismo pelo qual o aumento do orçamento público afetou a queda na desigualdade nesse período tenha sido via aumento da cobertura educação básica.

A inclusão no sistema educacional de parte da população tradicionalmente excluída, que se refletiu no aumento do investimento em educação pública desde o fim dos anos 1980, colaborou com a redução nos prêmios educacionais e, portanto, com a queda da desigualdade da renda do trabalho.

Programas focalizados e bem desenhados de transferência de renda, como o Bolsa Família, são ótimos para redução da pobreza extrema, mas não têm capacidade de reduzir desigualdade de renda. Transferências diretas só afetam a desigualdade extraordinariamente, como foi o caso do ano 2020, num arcabouço de mercado de trabalho paralisado pela pandemia.

Há pouco espaço para aumento da carga tributária. Pode-se e deve-se “colocar o rico no imposto de renda”, sobretudo ao se extinguirem as diversas desonerações e isenções tributárias. Mas o Estado brasileiro deve ter permanentemente o foco de seus investimentos e gastos nos mais vulneráveis.

Não será com distribuição de subsídios nas taxas de juros para projetos economicamente inviáveis ou com falta de focalização nas despesas sociais, entre elas a previdenciária, que se conseguirá, finalmente e permanentemente, “colocar os pobres no orçamento”.

A escolha de políticas públicas precisa de orientação, não apenas política, mas técnica. A eficácia das políticas na redução da desigualdade pode ser mensurada com base nas experiências prévias e nas técnicas disponíveis para avaliação de impacto. Ao não fazermos escolhas e tentarmos incluir quem precisa sem excluir quem não precisa, apenas adiamos o enfrentamento sério de nossas iniquidades sociais.

O Brasil pode liderar a transição para uma bioeconomia circular, por Ayla S. da Silva

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Exploração racional da maior biodiversidade do mundo pode gerar desenvolvimento

Ayla Sant’Ana da Silva, é pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia e docente do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica da UFRJ.

Folha de São Paulo, 06/01/2023

O Brasil é a nação de maior biodiversidade do planeta, com 15% a 20% da quantidade de espécies estimadas. De acordo com dados do Governo Federal, há cerca de 116 mil espécies animais e 46 mil espécies vegetais catalogadas, dispersas pelos biomas terrestres e ecossistemas marinhos. Apesar de parecerem dados expressivos, calcula-se que esses números representem apenas um pequeno percentual da diversidade do país, já que a identidade de centenas de milhares de outros organismos permanece um mistério.

Grande parte dessa biodiversidade, no entanto, antes mesmo de ser conhecida está ameaçada por atividades humanas não sustentáveis. A devastação descontrolada da Amazônia, por exemplo, faz com que estejamos num momento em que a taxa de destruição é muito mais rápida que a velocidade de descoberta de novas espécies.

É um cenário de corrida contra o tempo, pois a cada vez que uma área é desmatada, destruímos parte da biodiversidade que nunca mais conheceremos — uma vez perdida, provavelmente o será para sempre. Isso porque muitas espécies são encontradas somente em determinada região do globo, e em mais nenhuma. São as espécies endêmicas, que requerem atenção quanto a sua preservação. No Brasil, há preocupação especial com a Mata Atlântica e o Cerrado, biomas classificados como hotspots de biodiversidade por serem regiões com níveis excepcionais de endemismo e graves percentuais de perda de habitat.

Para além do impacto ambiental, a perda de nossa biodiversidade e a ignorância a respeito dela precisam ser analisadas do ponto de vista dos possíveis impactos econômicos e das oportunidades de desenvolvimento desperdiçadas. Atividades essenciais para a economia brasileira, como a agropecuária e a produção de alimentos e bebidas, são altamente dependentes do equilíbrio da natureza. É um contrassenso expandir essas atividades sem considerar as consequências da perda de diversidade nesses sistemas produtivos no médio e longo prazo.

A biodiversidade também deve ser considerada um ativo para alavancar o desenvolvimento econômico e social no Brasil. Ao desconhecer seu potencial, deixamos de produzir novos bioprodutos, como medicamentos, suplementos alimentares, biocombustíveis e cosméticos, entre outros.

É nesse contexto que nas últimas décadas o mundo vem discutindo oportunidades para passar à era da bioeconomia. Antes de mais nada, é preciso ressaltar que o termo bioeconomia pode ter muitos significados, dependendo do interlocutor. Aquela que pode beneficiar o Brasil de forma significativa é a que faz uso de recursos naturais em conjunto com novas tecnologias para criar produtos e serviços mais sustentáveis, sem prejuízo da biodiversidade. No caso brasileiro, um país com atuação consolidada no agronegócio, também é interessante incorporar conceitos da economia circular à bioeconomia. O modelo de bioeconomia circular irá gerar cadeias produtivas com menos desperdício, por meio da implantação de sistemas econômicos de ciclos fechados que aproveitam matérias-primas de forma mais completa, pois os resíduos gerados em um processo passam a ser matéria-prima na produção de novos produtos, agregando valor à cadeia como um todo.

Contudo, hoje, mesmo levando em conta o que já se conhece, há pouquíssimos estudos aprofundados que nos permitem usufruir de todas as potencialidades de nossa biodiversidade. Por exemplo, se olharmos para cadeias produtivas de frutos nativos como açaí, macaúba, cambuci, uvaia, jabuticaba ou licuri, vamos identificar uma gama de resíduos com uma diversidade química ainda pouco explorada, que por sua vez poderia ser fonte para obtenção de novos bioprodutos e derivados sintéticos. Essas potencialidades, no entanto, só serão desvendadas com o estímulo à pesquisa e à experimentação científica.

Tais estudos fundamentais, que vão da classificação de novos microrganismos, animais e plantas a pesquisas direcionadas a aplicações industriais, podem constituir a base do desenvolvimento sustentável descentralizado e duradouro com potencial de impactar economias locais, já que a biodiversidade varia de um bioma para o outro. Por exemplo, a produção de insumos de alto valor agregado na Amazônia por meio de empreendimentos de base biotecnológica pode aumentar a geração de empregos e a demanda pela profissionalização da população local, minimizando efeitos migratórios para grandes centros.

A abundância de recursos naturais põe o país numa posição privilegiada para assumir um papel de liderança mundial na era da bioeconomia. Dificilmente, porém, novos medicamentos e inovações biotecnológicas surgirão enquanto a biodiversidade brasileira não for pesquisada e financiada de forma sistemática e contínua, com visão multidisciplinar e investimentos de longo prazo. Somente o fomento da pesquisa científica, além do investimento em infraestrutura e educação, darão ao país a oportunidade de se transformar num importante agente na produção de bioprodutos de alto valor agregado. Assim, a exploração racional de nossos recursos naturais pode se somar à nossa já consolidada produção de commodities, dando suporte ao desenvolvimento tecnológico.

Taxem os ricos! por André Roncaglia

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Tentativa de se impor um teto à riqueza ganhou força com a pandemia

André Roncaglia, Professor de economia da Unifesp e doutor em economia do desenvolvimento pela FEA-USP

Folha de São Paulo, 06/01/2023

Em seu discurso de posse no domingo (1º), o presidente Lula contrastou a fila do osso no açougue com a fila nas concessionárias de carros de luxo. Poucos dias antes, a Assembleia Legislativa de São Paulo decidiu reduzir de 4% para 1% o imposto sobre heranças no estado. Estes eventos reacenderam o debate sobre a injustiça social no país. Desde as infames Leis dos Pobres na Inglaterra do século 19, foi longo e tortuoso o caminho para se impor um piso à pobreza, por meio de programas de proteção social. ASIA NINA onfans A tentativa de se impor um teto para a riqueza ganhou força com a pandemia. O maior número de bilionários contrastou com as centenas de milhares de famílias vitimadas pelo vírus. Esse contexto reforçou o apelo social de impostos sobre patrimônio dos mais ricos, em particular o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF). Sistemas tributários com maior participação da arrecadação sobre patrimônio têm melhor desempenho econômico. Além disso, impostos sobre heranças e doações, sobre riqueza financeira e imobiliária elevam o grau de isonomia e a progressividade da tributação. Neste sentido, o IGF é um instrumento indispensável. O estado da arte sobre o tema é apresentado no livro Progressividade Tributária e Crescimento Econômico, organizado por Manoel Pires (IBRE-FGV e UnB). A experiência internacional mostra limitado potencial arrecadatório em termos do PIB. As razões estão na base de incidência sobre uma camada muito restrita no topo da distribuição, mas também no mau desenho do imposto e no pouco esforço de fiscalização. Em contexto de maior mobilidade de capitais e amplo acesso a paraísos fiscais, acredita-se que este imposto afugenta a riqueza. Estudos mostram efeitos heterogêneos entre países, bem como há evidências de que este risco de fuga seja superestimado (home bias). De qualquer forma, a focalização nos ricos requer uma alíquota moderada para evitar distorções potenciais de alocação de recursos e comportamentos evasivos. Além da capacidade de evasão, os grupos abastados têm grande influência sobre a opinião pública. A pressão política pode restringir a base de tributação (excluindo-se ativos e elevando o limite de isenção), reduzir a alíquota e a duração do tributo (taxar uma única vez ou em contextos de calamidade). Mesmo assim, vale a pena enfrentar o desafio. Por ser um tributo sobre riqueza líquida (ativos menos dívidas), pode-se elevar a progressividade no topo da distribuição. Em sua ausência, famílias com patrimônio elevado, mas renda baixa, podem ficar sub-tributadas em termos relativos. A digitalização é importante aliada na redução do custo administrativo em monitorar e fiscalizar a riqueza no topo. O caso brasileiro exubera injustiça tributária e, por isso, oferece boas condições à aplicação do IGF. Os superricos pagam 5% de alíquota efetiva de IR sobre sua renda e têm quase R$ 7 em cada R$ 10 da sua renda anual isenta de impostos. A imagem piora ao subir a pirâmide. O 0,01% mais rico da população detém cerca de 20% da renda total do grupo. Neste grupo a isenção pode atingir 90% da renda pessoal. A Constituição prevê a instituição do IGF no inciso VII do artigo 153. Desde 1989, mais de 40 projetos de lei foram apresentados ao Congresso Nacional para regulamentar o imposto. As propostas mais recentes propõem taxar fortunas acima de R$ 20 milhões, com alíquotas que vão de 0,5% a 1%. As 220 mil pessoas afetadas pelo imposto representam 30% da riqueza declarada no IRPF. Modulações de limites de isenção e de alíquota afetam o potencial de arrecadação. Uma proposta prevê isenção a patrimônios menores que R$ 5 milhões e estima R$ 40 bilhões (0,4% do PIB) em recolhimentos. Por não ser uma bala de prata, o IGF deve integrar um arranjo mais amplo de tributação sobre patrimônio. Ao produzir maior progressividade, ele pode reduzir a injustiça tributária no Brasil. E isso já é um bom começo.

Depressão geopolítica, por Nouriel Roubini

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A Terra é Redonda – 04/01/2023

As economias avançadas e os mercados emergentes estão cada vez mais envolvidos em “guerras” inevitáveis. Por isso, o futuro será estagflacionário. E a única questão é saber quão ruim ele será

A inflação aumentou acentuadamente ao longo de 2022 nas economias avançadas e nos mercados
emergentes. As tendências estruturais sugerem que o problema será secular – e não transitório. Especificamente, muitos países estão agora envolvidos em várias “guerras” – algumas reais, outras metafóricas – que levarão a déficits fiscais ainda maiores, mais monetização da dívida e inflação mais alta no futuro.

O mundo está passando por uma forma de “depressão geopolítica” coroada por uma crescente rivalidade entre o Ocidente e potências revisionistas alinhadas entre si (se não aliadas), como China, Rússia, Irã, Coréia do Norte e Paquistão. As guerras frias e quentes estão em ascensão. A brutal invasão da Ucrânia pela Rússia ainda pode se expandir e envolver a OTAN. Israel – e, portanto, os Estados Unidos – está em rota de colisão com o Irã, que está prestes a se tornar um Estado com armas nucleares. O Oriente Médio, de modo amplo, é um barril de pólvora. E os EUA e a China estão se enfrentando sobre quem dominará a Ásia e se Taiwan será reunificada à força ou não com a China continental.

Consequentemente, os EUA, a Europa e a OTAN estão se rearmando, assim como praticamente todos os países no Oriente Médio e na Ásia, incluindo o Japão, que embarcou agora num reforço militar, o maior em muitas décadas. Assim, níveis mais altos de gastos com armas convencionais e não convencionais (incluindo as dos tipos nuclear, cibernética, biológica e química) estão praticamente garantidos e esses gastos pesarão nas contas públicas.

A guerra global contra a mudança climática também custará caro – tanto para o setor público quanto para o privado. A mitigação e a adaptação às mudanças climáticas podem custar trilhões de dólares por ano nas próximas décadas; é tolice pensar que todos esses investimentos impulsionarão o crescimento. Depois de uma guerra real que destrói grande parte do capital físico de um país, uma onda de investimento pode, é claro, produzir uma expansão econômica; no entanto, o país vai estar mais pobre por ter perdido grande parte de sua infraestrutura. O mesmo se aplica aos investimentos climáticos. Uma parte significativa do capital social existente terá de ser substituída, seja porque se tornou obsoleta seja porque foi destruída por eventos climáticos.

Agora também estamos travando uma guerra cara contra as futuras pandemias. Por diversas razões – algumas delas relacionadas às mudanças climáticas – os surtos de doenças com potencial para se tornarem pandemias se tornarão mais frequentes. Mesmo se os países investirem em prevenção para lidar com futuras crises de saúde, após o evento acontecer, eles incorrerão em custos mais altos de forma permanente. Ora, isso aumentará o fardo crescente associado ao envelhecimento da sociedade o que onerará os sistemas de saúde privados e os planos de pensão. Já se estima que essa carga implícita de dívida não financiada esteja próxima do nível da dívida pública explícita para a maioria das economias avançadas.

Além disso, será necessário travar cada vez mais guerras contra os efeitos disruptivos da “globótica”, ou seja, a combinação de globalização e automação (incluindo inteligência artificial e robótica), pois essa tecnologia está ameaçando um número crescente de ocupações manuais ou intelectuais. Os governos estarão sob pressão para ajudar os que ficaram para trás, seja por meio de esquemas de renda básica, transferências fiscais maciças ou expansão dos serviços públicos.

Esses custos permanecerão altos mesmo que a automação leve a um aumento no crescimento econômico. Por exemplo, sustentar uma escassa renda básica universal de US$ 1.000 por mês custaria aos EUA cerca de 20% de seu PIB.

Finalmente, também será preciso travar uma guerra urgente contra o aumento da desigualdade de renda e de riqueza. Em caso contrário, o mal-estar que aflige os jovens e muitas famílias da classe média e mesmo da classe operária continuará a gerar reações contra a democracia liberal e o capitalismo de livre mercado. Para evitar que regimes populistas cheguem ao poder e sigam políticas econômicas imprudentes e insustentáveis, as democracias liberais precisarão gastar uma fortuna para reforçar suas redes de segurança social – como muitas já estão fazendo.
Lutar contra essas cinco “guerras” será caro; fatores econômicos e políticos limitarão a capacidade dos governos de financiá-las com impostos mais altos. As taxas de impostos em relação ao PIB já são altas na maioria das economias avançadas – especialmente na Europa – e a evasão, a elisão e a arbitragem fiscais complicarão ainda mais os esforços para aumentar os impostos sobre altas rendas e sobre os ganhos de capital (supondo que tais medidas possam vencer a reação dos lobistas e dos partidos de centro-direita).

Assim, essas guerras necessárias aumentarão os gastos e as transferências do governo como parcela do PIB – provavelmente sem um aumento proporcional nas receitas fiscais. Os déficits orçamentais estruturais irão crescer ainda mais do que agora, o que produzirá certamente dívida insustentáveis. Ora, isso aumentará os custos dos empréstimos, mas poderá culminar em crises de dívida, com óbvios efeitos adversos no crescimento econômico.

Para os países que tomam empréstimos em suas próprias moedas, a opção mais conveniente será permitir que uma inflação mais alta reduza o valor real da dívida nominal de longo prazo quando ela é remunerada com taxa de juros fixa. Essa abordagem funciona como uma taxação adicional contra os poupadores e os credores e em favor dos tomadores de empréstimos e devedores. Como o “imposto inflacionário” é uma forma sutil e sorrateira de tributação que não requer aprovação legislativa ou executiva, ele se afigura como um caminho padrão de menor resistência quando os déficits e as dívidas se tornam cada vez mais insustentáveis.

Essa opção pode ser combinada com medidas complementares e draconianas, tais como repressão financeira, impostos pesados sobre o capital e aceitação da inadimplência total em certos casos (por exemplo, para países que tomam empréstimos em moedas estrangeiras ou que mantêm uma grande dívida de curto prazo ou uma dívida total indexada à inflação).

Concentrei-me principalmente nos fatores do lado da demanda e estes levarão a maiores gastos, maiores déficits, mais monetização da dívida e mais inflação. Mas também haverá certamente muitos choques negativos de oferta agregada no médio prazo e eles poderão aumentar as pressões estagflacionárias, as quais já se fazem presentes atualmente, elevando assim o risco de recessões e de crises de dívida em cascata. A “grande moderação” está morta e enterrada; a “grande crise da dívida estagflacionária” está aí vivíssima e prosperando.

*Nouriel Roubini, professor de economia na Stern School of Business da Universidade de Nova York, é economista-chefe da Atlas Capital Team. Autor, entre outros livros, de MegaThreats: Ten Dangerous Trends That Imperil Our Future, and How to Survive Them (Little, Brown and Company).
Tradução: Eleutério F. S. Prado

A alienação do trabalho intelectual, por Bruno Machado

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Bruno Machado*

A Terra é Redonda – 05/01/2023

É de interesse da classe proprietária que a classe trabalhadora se enxergue como dividida entre trabalhadores físicos e intelectuais

É comum entre jovens de classe média, indo da classe média baixa à classe média alta, a entrada no mercado de trabalho diretamente em funções de trabalho intelectual, com pouca ou nenhuma presença de trabalho físico. A entrada na Universidade e o primeiro emprego após a graduação, ou mesmo a atuação profissional dentro de empresas familiares, faz com que boa parte dos jovens de classe média nunca tenham contato com qualquer tipo de trabalho que não seja intelectual como o trabalho físico, ainda que de leve intensidade.

Esse fenômeno favorece a divisão entre o trabalho físico e o trabalho intelectual na sociedade. O que faz com que esses jovens de classe média que entram no mercado diretamente em funções intelectuais se sintam melhores do que os jovens que atuam no mercado de trabalho em funções de menor posição hierárquica e em trabalhos não voltados a intelectualidade.

Essa enganosa sensação de superioridade, que muitas vezes sequer acompanha um salário mais alto, cria uma falsa divisão de classes no mercado de trabalho. Em vez de enxergar a divisão social entre trabalhador e proprietário, por ter mais contato com o “peão” do que com o “patrão” essa classe média se vê no topo de pirâmide social, acima dos trabalhadores braçais.

Isso ocorre tanto nas classes médias de visão de mundo liberal quanto nas de visão de mundo socialista. A classe média liberal enxerga a classe trabalhadora apenas como a parte que exerce o trabalho físico, se excluindo dessa classe social, apesar de pertencer a mesma. Dessa forma, veem as massas como gente a ser explorada, por crer que esses não têm condições de exercerem outro papel social.

Por outro lado, a classe média socialista, principalmente a que compõe uma esquerda universitária, vê as massas como gente a ser educada, esclarecida e ajudada, pois não vê nessa parcela da sociedade uma capacidade de autonomia política. Ambas as visões de mundo, fundadas no privilégio do trabalho intelectual, alienam essa classe média, que passa a se identificar como uma classe diferente das massas. Porém, do ponto de vista do sistema como um todo são massa junto com aqueles que eles veem como a massa.

Por isso, o trabalho físico, que é fundamental para o funcionamento da sociedade e necessita ser realizado, não precisa ser exclusivo de uma parcela da sociedade enquanto outra se vê distante dele. Da mesma maneira que o acesso a capacitação para o exercício do trabalho intelectual deve ser universal, deve haver uma equânime divisão social do trabalho físico na sociedade. Tal ideia sequer é nova, na União Soviética muitos estudantes universitários que tinham acesso gratuito a graduação também tinham que trabalhar em carga horária reduzida em fábricas ou plantações. Tal política tinha como objetivo valorizar o trabalho e demonstrar a igualdade da importância do trabalho físico com o intelectual.

Se a classe média que vive desde a entrada no mercado de trabalho o privilégio do trabalho intelectual tivesse contato com o trabalho físico, ainda que de forma reduzida, teria menos preconceito com os trabalhadores ditos “peões” e desenvolveriam maior consciência de classe, se identificando como classe trabalhadora. É de interesse da classe proprietária que a classe trabalhadora se enxergue como dividida entre trabalhadores físicos e intelectuais e não se
voltem contra a verdadeira classe dominante na sociedade capitalista.

É evidente que políticas públicas voltadas a inserção de jovens universitários no mercado de trabalho em trabalhos não intelectuais que levem a valorização do trabalho como um todo e, por consequência, também eleve a conscientização de classe desses jovens, seria duramente rejeitado pela classe média brasileira. Isso ocorreria pois o trabalho não intelectual, que inclui o trabalho meramente físico, é visto como castigo para essa parcela da sociedade privilegiada.

*Bruno Machado é engenheiro.

Desejos de ano novo

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Estamos iniciando mais um ano, um novo governo, com novas esperanças, novas expectativas, novos sonhos, vontades e desejos no coração. Depois de momentos de incertezas, instabilidades, conflitos políticos, polarizações ideológicas e fraco crescimento econômico. O ano nos traz grandes desafios e oportunidades, depois de uma pandemia global que dizimou quase 7 milhões de pessoas, sendo que no Brasil, os dados mostram mais de 700 mil pessoas mortas, um número assustador e nos coloca como um dos países que mais foram afetados pela pandemia.

Neste momento, fomos assolados por graves crises econômicos e sociais, com aumento da fome, incremento do desemprego, crescimento da violência urbana, degradação dos serviços públicos e aumento considerável da desesperança, os medos aumentaram, a convivência humana foi degradada, o ambiente corporativo fortemente competitivo e centrado no individualismo gerou mais fragilidades emocionais e desequilíbrios sentimentais, criando uma sociedade cada vez mais degradada, polarizada, individualista e imediatista, desta forma, infelizmente estamos caminhando rapidamente para um colapso social.

O próximo ano precisa reestruturar a sociedade, inserindo uma parcela substancial da comunidade no mercado de consumo, garantindo espaço de empregabilidades para todos os indivíduos, garantindo novas esperanças e perspectivas para todos os grupos sociais, fortalecendo os laços familiares e sociais na comunidade, construindo políticas públicas que insiram os jovens e os adolescentes nas escolas e faculdades, garantindo uma educação de qualidade.

A sociedade precisa compreender que a educação não é a bala de prata para a sociedade, a educação é imprescindível para o desenvolvimento de uma sociedade, mas desde que seja inserida num projeto maior de país, um projeto de nação, precisamos discutir qual tipo de educação queremos para as crianças, adolescentes e jovens, precisamos discutir todo ecossistema relacionado com a educação e com o sistema econômico e produtivo, cobrando qualidade nas instituições de ensino, investindo em melhorias substanciais e impedindo o funcionamento de instituições de ensino superior dotadas de grandes bilhões de recursos financeiros, caixas abarrotadas de cifrões e responsáveis pela formação de alunos de péssima qualidade que contribuem ativamente para os indicadores degradantes da educação brasileira.

O ano novo deve trazer de volta para a sociedade o planejamento econômico e políticas estratégicas para o futuro da nação, que adianta aumentar a arrecadação tributária numa estrutura de tributos altamente regressivo que degrada a classe média e os setores mais fragilizados em detrimento dos grandes milionários e bilionários que pouco contribuem e são os grandes ganhadores das isenções fiscais e das taxas extorsivas da economia, que destroem os empreendedores e aumentam os lucros dos financistas e dos prepostos do mercado financeiro.

O ano novo deve trazer de volta os sonhos dos criadores do sistema de saúde nacional, os precursores do Sistema Único de Saúde (SUS), que vislumbraram a saúde integral para cada cidadão nacional, garantindo-a como um direito do Estado Nacional, mas se não revermos as políticas em curso, estamos caminhando a passos largos para um processo, sem volta, de uma financeirização da saúde, como aconteceu no setor educacional e suas consequências se mostram cada vez mais degradantes, garantindo aos donos dos recursos atendimentos de saúde de qualidade, exames de grande complexidade e uma grande massa de degradados, exilados em condições de indignidade, de desesperança e de exclusão social.

O ano novo pode nos trazer novas perspectivas positivas para a sociedade, os desafios são imensuráveis, grande parte dos grupos sociais e econômicos não perceberam a urgência destes desafios, diante disso, é urgente reconstruirmos os laços sociais, fortalecer as instituições e consolidar a democracia.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Comportamental, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 04/01/2023.

Carta Mensal – Dezembro 2022

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O último mês do ano de 2022 foi marcado por grandes discussões referentes ao novo governo, a formação dos ministérios, as secretarias e as pessoas que participariam da nova gestão a partir de janeiro de 2023. Foi um momento de grandes conversas e discussões que visavam a construção de um governo de coalizão, com inúmeros partidos políticos, com variados grupos sociais, com agendas variadas, visando a chamada a governabilidade.

Neste momento, os olhos estavam voltados a definição da equipe econômica, as pessoas que seriam responsáveis pela condução da política econômica, onde os jornalistas destacavam como seria a nova âncora fiscal do novo governo, quais as medidas que seriam implementadas para reverter os indicadores econômicos herdados do governo Jair Bolsonaro. Depois de grandes conversações foram alçados ao posto maior da economia brasileira o professor Fernando Haddad, ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato à presidência da República de 2018. A escolha foi marcada por grandes críticas e aplausos da mídia corporativa, de um lado, ligados aos donos do capital, ressaltavam a pouca experiência no cargo e o fato de Haddad não ser visto como um economista original, sua formação contempla uma formação em Direito, Economia e Filosofia. De outros, mais progressistas, a escolha de Haddad foi positiva, com muitos elogios e visto como uma pessoa responsável fiscalmente, sensível socialmente e dotado de grande capacidade de conversação política.

Neste mês de dezembro foram escolhidos todos os 37 ministros, com nomes conhecidos, como Marina Silva (Meio Ambiente), Simone Tebet (Planejamento), Margareth Menezes (Cultura), Carlos Luppi (Previdência), Luiz Marinho (Trabalho), Wellington Dias (Desenvolvimento , Silvio Almeida (Direitos Humanos), Carlos Fávaro (Agricultura e Pecuária), Paulo Pimenta (Secretaria de Comunicação Social), Rui Costa (Casa Civil), Alexandre Padilha (Relações Institucionais), Flávio Dino (Justiça e Segurança Pública), Ana Moser (Esporte), Esther Dweck (Gestão), Nísia Trindade (Saúde), Camilo Santana (Educação), Márcio França (Portos e Aeroportos), Mauro Vieira (Relações Exteriores), José Múcio Monteiro (Defesa), dentre outros.

Destacamos um governo de coalizão com vários partidos políticos, setores do PSD foram contemplados, União Brasil, PSB, PT, PC do B, Rede Sustentabilidade, dentre outros. Neste momento, percebemos que vivemos de grandes desafios políticos, a democracia brasileira está sendo, novamente, testada, tudo como forma de construirmos uma governabilidade, que é fundamental para que o governo consiga impor uma agenda de grandes transformações para a sociedade brasileira, marcada por grandes destruições nas mais variadas áreas e setores, desde a educação, da saúde, das políticas públicas, da infraestrutura, da cultura, uma verdadeira destruição que precisa ser reconstruída urgentemente.

Destacamos ainda, as movimentações dos grupos bolsonaristas, que desde o final do segundo turno, se concentraram na frente dos quartéis como forma de pressionar as forças armadas a atuarem diretamente para reverter os resultados das urnas, um movimento antidemocrático, organizado e financiado por setores que ganharam grandes recursos no governo de Bolsonaro, visto como “patriotas” e defensores do “povo” brasileiro, uma grande falácia, centrada numa narrativa enviesada e pouco convincente. Neste período, percebemos que os setores das Forças Armadas atuaram, indiretamente, para impedir a remoção destes movimentos das portas dos quartéis, gerando fortes constrangimentos na sociedade e levando os setores militares perderam uma parte substancial da respeitabilidade na sociedade brasileira.

O mês de dezembro de 2022 não foi apenas marcado pela formação do novo governo brasileiro, destacamos alguns fenômenos que devemos comentar e deixar como um instrumento de registro na Carta Mensal/2022. Dentre elas, destacamos a Copa do Mundo do Catar, que muitos acreditavam na vitória da seleção de Tite, depois de alguns jogos pouco envolventes e vitórias fracas e descritas como magras, a seleção brasileira foi, novamente, desclassificada pela Croácia, dando adeus ao sonho de nos tornarmos a primeira nação a ser seis vezes campeã, amargando, ainda, o título de nossos irmãos argentinos, que se tornaram tricampeões depois de uma final eletrizante com os franceses. Parabéns aos Argentinos!!!

Dois outros fenômenos marcaram o mês de dezembro de 2022, ou melhor, duas mortes que entraram para história mundial, de um lado, os brasileiros e todos os fãs do futebol se despedem da Edson Nascimento, o Pelé, o maior jogador de todos os tempos. A história de Pelé é imprescindível para compreendermos o futebol brasileiro, o drible, os lances, os ritmos e a leveza. O mundo perde a morte do maior jogador de futebol de todos os tempos, único que parou uma guerra, responsável por transformar o Santos, um time do interior do estado de São Paulo, um dos times mais conhecidos de todos os tempos e tornar o Estádio de Vila Belmiro o templo do futebol mundial durante algumas décadas.

O ano terminou com o passamento do Papa emérito Bento XVI, depois de 95 anos e um legado que tende a gerar grandes reflexões sobre o futuro do Cristianismo, o primeiro papa na história do cristianismo a renunciar, diante disso, vivemos um momento de repensarmos as questões religiosas, momentos de valores novos, pensamentos novos, comportamentos novos, vivemos num momento de grandes incertezas e instabilidades, onde não sabemos para onde estamos indo…. infelizmente!

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Comportamental, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.